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Com a chancela de A Esfera dos Livros, veio a lume, no mês passado, Henrique, o Infante, de João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e director do Centro de História de Além-Mar.

O infante D. Henrique (1394-1460) é uma das personalidades mais conhecidas da História de Portugal e com fama além-fronteiras, sobretudo pela acção desenvolvida na fase inicial dos Descobrimentos.

Sobre a vida do Infante e o seu tempo, muito já se escreveu, nem sempre com o rigor histórico desejável e, tantas vezes, apenas em função da Expansão Portuguesa. Fazia, pois, falta uma biografia de D. Henrique, assente na documentação, principalmente a Monumenta Henricina, e delineada com a preocupação de conhecer e compreender «o homem que espoletou as Descobertas, mas cuja vida não se resumiu ao perscrutar do oceano.» (p. 34). Como sublinha ainda Oliveira e Costa, este é um livro «sobre a totalidade da sua personalidade», destinado ao grande público.

Pela sua natureza, a obra, em apreço, não privilegiou, logicamente, o debate sobre as diferentes teses historiográficas a respeito do Infante e da conjuntura quatrocentista. Contudo, as opiniões, que veicula, demonstram a preocupação do autor em apresentar linhas interpretativas, em sintonia com a investigação histórica mais recente, e em destituir lugares-comuns e mitos que envolvem o Infante, em particular, e o início dos Descobrimentos, em geral.

Com um plano meticulosamente traçado, esta biografia proporciona-nos a compreensão, à luz da época, da ascensão económica, social e política do quarto filho varão legítimo do rei D. João I, em especial, a vontade de engrandecimento e a firmeza em alcançar objectivos sonhados pela sua geração.

Para João Paulo Oliveira e Costa, o Infante ultrapassou a condição de nascimento, construiu fortuna e o seu próprio destino, alterou o rumo do País e, por conseguinte, tornou-se herói nacional e figura da História da Humanidade, e isto já no século XVI.

O infante D. Henrique foi duque de Viseu, Senhor da Covilhã, governador e administrador da Ordem de Cristo, Senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, Senhor de Lagos e de Alvor… Animou-o o espírito de cruzado. Combateu em Ceuta, Tânger e Alcácer-Ceguer. Interessou-se pelo mar desconhecido e desencadeou uma Revolução Geográfica. Por sua iniciativa, abriu-se a passagem do Bojador e, ainda em sua vida, as caravelas chegaram ao arquipélago de Cabo Verde e à Serra Leoa. Participou activamente da vida política portuguesa, assumindo, com frequência, papel conciliador, norteado pelos mais altos interesses do Reino.

A leitura de Henrique, o Infante constitui um prazer, não somente pela linguagem cuidada e o estilo elegante, mas também porque a história da personalidade e da sua época é-nos revelada com precisão e clareza, por vezes num tom coloquial, diria até com certa preocupação didáctica, a fim de o leitor reter os dados essenciais e, com naturalidade, comungar o entusiasmo do autor em desvendar e compreender a personalidade biografada, sem que a frieza da História contamine, por completo, o discurso.

Registe-se, a propósito, que Oliveira e Costa considera D. Henrique «uma personagem histórica fascinante», logo declarando que não tem por ele nem simpatia nem antipatia. Compreende-se tal preocupação, anunciada de início, no contexto da objectividade almejada pelo historiador. Todavia, o seu convívio intenso com o Infante durante a pesquisa e escrita do livro, bem como o facto de este corresponder a um «sonho da juventude», como confessa, adicionaram, por certo, a esse fascínio boa pitada de simpatia, sem que, na verdade, a obra disso se ressinta.

Biografia bem estruturada e solidamente construída, Henrique, o Infante é, sem dúvida, obra de referência na bibliografia da Expansão Portuguesa.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Novembro de 2009
Nas últimas eleições legislativas, a abstenção, no território nacional, atingiu 39,4%. Decidiram não participar, no acto eleitoral, 3 688 820 eleitores. Votaram menos cerca de 55 000 eleitores do que em 2005, ano em que a abstenção, para as mesmas eleições, se situou nos 34,98%. No entanto, em 2009 havia mais 561 553 eleitores inscritos do que em 2005.

A Madeira apresentou uma abstenção de 45,48%, enquanto em 2005 foi de 38,69. No concelho de Câmara de Lobos, cifrou-se nos 49,21%, sendo a mais elevada a nível regional nas eleições do passado dia 27 de Setembro.

Na nossa Região, não votaram 114 653 eleitores. Para se avaliar bem este número, convém referir que corresponde a 1,73 vezes o total de sufrágios obtidos pelo partido mais votado na Região (PPD/PSD = 66 194). A nível nacional, a abstenção equivale a 1,78 vezes os votos do partido vencedor (PS = 2 068 560) [1].

Este défice de participação num acto eleitoral que dita a formação de um novo governo, depois de uma campanha amplamente coberta pelos meios de comunicação social, deveria merecer análise cuidada por parte dos políticos. Não se pode, simplesmente, classificar os eleitores, que se abstiveram, como irresponsáveis, mal-agradecidos ou desinteressados no futuro do seu país. Há quem não exerça o direito de voto por comodismo, mas também outros há, e não serão assim tão poucos, que deixaram de acreditar na classe política, porque guardam, na memória, situações de inércia, incapacidade, falta de zelo, injustiça, satisfação de clientelas, corrupção, embuste, má-criação, arrogância ou intolerância. Tudo isto gera desconfiança e desmotivação no eleitorado.

A elevada abstenção não retira aos vencedores legitimidade democrática nem se resolve com a obrigatoriedade do voto. Mas constitui grave problema para a democracia.

Muitos políticos conhecem de cor, e alguns citam com frequência, aquela célebre frase de Júlio César: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Contudo, a aplicação do princípio, que esta máxima encerra, deixa muito a desejar no nosso país. Convém lembrar que César, apesar de publicamente ilibar a sua esposa de qualquer responsabilidade, divorciou-se de Pompeia Sulla, porque um homem entrou em sua casa disfarçado de mulher, durante a celebração de um ritual sagrado, exclusivamente para o sexo feminino. Isto é, por via das dúvidas ou eventuais rumores a respeito da principal matrona de Roma, César tomou a decisão de terminar o seu casamento.

Este princípio ético do ser e, simultaneamente, parecer anda mutilado desde longa data. Para muitos políticos, não interessa ser, mas somente parecer. Até há quem, em nome da presunção da inocência e de outros recursos jurídicos, mesmo depois de condenado, não deixe de disputar eleições. Daí o descrédito e a desilusão. Em meu entender, muitos eleitores optam pela abstenção, devido ao comportamento de alguns políticos e às numerosas querelas político-partidárias que desacreditam as instituições e alimentam até fartar os média.

No entanto, o défice de participação não se manifesta apenas nos actos eleitorais. Infelizmente, é problema com mais grave amplitude, que mina a sociedade actual. Há quem recuse participar numa discussão, nunca compareça a um evento fora da sua área profissional, se demita de ter opinião, jamais ouse reivindicar os seus direitos, num desinteresse anormal e incompatível com o moderno exercício da cidadania. Por outro lado, verifica-se também o fomento de um obscurantismo cultural que aliena os cidadãos e os desincentiva da participação democrática. Para não falar da tão propagandeada asfixia, que vai empestando as instituições. Mal que não se deverá explicar somente por eventuais atitudes persecutórias de alguns políticos, mas também pela actuação retrógrada de pessoas intolerantes que, no seio de pequenos grupos, destroem a coesão tradicional, manietam consciências, disseminam o medo, apregoam vinganças e tudo manobram numa lógica autocrática de poder.

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Outubro de 2009


[1] Elementos recolhidos a 2-10-2009 em http://www.eleicoes.mj.pt/. O cálculo da abstenção decorre da subtracção entre o número de inscritos e o de votantes, conforme os dados da fonte oficial consultada. Embora se reconheça a existência de eleitores-fantasmas (mortos, desaparecidos e emigrantes), o seu número não pode ser tomado em conta, pela impossíbilidade de contabilizá-lo com rigor. Os cadernos eleitorais, apesar dessa mácula, constituem uma referência objectiva. Em estudo recente, dois investigadores, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, estimam haver mais de 930 000 eleitores-fantasmas (Diário de Notícias, Lisboa, 27 de Setembro de 2009, consultado em http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1373568). Ver carta do leitor Francisco Leite Monteiro no Diário de Notícias, Funchal, 6 de Outubro de 2010 (
http://www.dnoticias.pt/Default.aspx?file_id=dn04010507061009&id_user=).

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Cristóvão Azevedo é a personagem principal do romance Porque me lembrei dos cisnes, de Irene Lucília Andrade, vindo a lume em 2000. Personagem revelada ao leitor com parcimónia, à medida que a narrativa se desenvolve, o professor Cristóvão conquista-nos, não, particularmente, pelo que, em termos profissionais, representa ou preconiza, mas pela força do seu carácter, pelos dilemas com que se confronta, pelo oculto «casulo de compromissos e ansiedades» (p. 13) que progressivamente se vai rompendo, enfim, pela sua densidade psicológica. 

Não sendo propriamente um alter ego da escritora, a personagem beneficia, porém, da experiência docente de quem a criou. Afigura-se-nos ainda que alguns desencantos, acerca do sistema de ensino e até do mundo, sejam partilhados por ambos [1].

A autora dedica este livro às espécies ameaçadas, incluindo aquela a que pertence. Das razões profundas desta dedicatória, saberá a escritora. Contudo, o leitor atento, por certo, concordará que, na mesma, também se inclui o protagonista.

Na verdade, Cristóvão Azevedo refugiou-se na ilha do Porto Santo para escrever um livro (poema longo, conto ou romance – não estava ainda seguro do resultado, p. 93), perante a ameaça de, profissionalmente, ser obrigado a uma actuação que a sua consciência repudiava, após trinta anos de serviço docente. Sucessivas reformas educativas perturbaram-no. O trabalho diário com os alunos já não o entusiasmava. O desinteresse e a indisciplina constituíam grave preocupação. A imagem e a autoridade do professor estavam altamente desvalorizadas.

«As mudanças aconteciam a um ritmo que se sobrepunha às capacidades estruturais da escola e a falibilidade dos processos experimentados era rapidamente comprovada, os manuais apinhados de propostas controversas, onde surgiam completamente baralhados por critérios desconexos, conteúdos interdisciplinares, tudo de tal modo denso, tão saturado, tão inconvincente que ele não sentia prazer em seleccionar objectivos, por já não acreditar neles. Desejava veementemente deixar o seu ofício de uma vida inteira.» (p. 140)

Não só com a sua profissão se sentia desiludido. Logo, numa primeira carta, confessou à mulher que, irreversivelmente, se aborreceu com «boa parte do mundo», invocando depois o direito de se suprimir à «voragem das imagens», que lhe impunham, e de legítima defesa contra quem violentar o seu cansaço, ainda que sob o risco de ser acusado de «místico ou obscuro» (pp. 9-10).

Irene Lucília não nos revela a área disciplinar do professor Cristóvão. Pelo que se pode deduzir, seria a Língua Portuguesa e a Educação Visual, matérias que, no nosso sistema de ensino, não andam nas mãos do mesmo professor, mas que, sem dúvida, são do interesse da escritora. Há uma referência a sintagmas, conjuntos, projectos, estruturas, animais e flores que ilustra a simbiose das duas disciplinas (p. 79). O leitor fica ainda a saber que Cristóvão, na sua juventude, desejou ser fotógrafo ou cineasta e fez formação em fotografia, heliogravura e cinema no formato super-8 (pp. 91-92). Este gosto pela Arte levou-o a matricular-se na Academia Real de Belas Artes, quando vivia na Bélgica, para onde emigrou a fim de escapar ao serviço militar e à guerra colonial (p. 39).

Cristóvão Azevedo via a arte como «estruturante do pensamento» que acentuava a «consciência duma ética da conduta humana» (p. 64). A arte identificava-se com «um princípio regulador de atitudes, criador de formas iminentes de compromisso com o valor humano na sua forma global.» (p. 139). A arte possibilitava, ao artista, «uma solidão irradiante, uma tranquila doçura» (p. 39).

Este professor revelava particular afecto pela Natureza e numa das cartas a Maria Ester recordou uma das suas aulas no jardim, para observar as plantas e registar as singularidades de cada espécie quanto à forma, estrutura, número e cor (p. 97), metodologia muito característica da Educação Visual.

«Cristóvão era um homem silencioso, tímido, vibrátil, comprometido por natureza com tudo o que o rodeava, tudo lhe valia uma reflexão, nada acontecia que não fosse por ele questionado, capaz de amar um penhasco, uma erva, um recanto…». (pp. 55-56)

Esse generoso enternecimento pela Natureza revela-se bem quando decidiu alugar um carro por um dia, para dar uma volta pelo interior da ilha do Porto Santo, porque «as paisagens lavadas refrescavam-lhe os olhos e o fundo do cérebro.» (p. 113). Cristóvão precisava de laços próximos. O apelo telúrico poderia contribuir para a sua reabilitação psíquica:

«Cristóvão de Azevedo enchia os olhos e o desejo, queria criar com aquela terra um compromisso qualquer. Não sabia bem se a amava ou viria a amá-la, mas havia um frémito que lhe percorria o corpo, uma sensação física muito próxima dum estado erótico que o prendia à voluptuosidade das espessas dunas e ao hálito quente que se evolava das vinhas rasteiras expostas ao sol.» (p. 34)

Intimamente, a personagem principal assume-se como um poeta que, para assegurar a sobrevivência, ingressou na carreira docente. Todavia, desiludido com a sua actividade profissional e a poucos anos da aposentação, admitia que se sentiria bem caso tivesse sido jardineiro, músico, pastor, hortelão ou filósofo, porque, afinal, poderia sempre, em qualquer uma destas profissões, ser poeta (pp. 140-141).

Era um professor dedicado, sonhador, inconformista, com ideias diferentes para a Escola e para o mundo que, mentalmente, recusava a massificação ou a clonagem (p. 62). Bastante elucidativo deste seu ponto de vista é a descrição que o próprio fez do seu comportamento numa das actividades escolares.

No «Dia Mundial da Árvore», escreveu Cristóvão, as crianças saíram da escola «contidas e submissas em seus rebanhos formais, badalando por dentro uma frase que ainda não entendiam muito bem» (p. 84). Por solidariedade com os seus alunos, assistia à plantação programada e às demais actividades educativas que decorriam num «vale ondulado dentro da acidentada cidade, com vertentes férteis e algumas quintas ao fundo» (p. 85). Sem o expressar de viva voz, criticava o ritual que observava, antecipando, no seu íntimo, o cenário dos meninos «fabricados em série» para a civilização que se anunciava (p. 87). Neste confronto interior, fica bem claro a sua predilecção pelo ensino individualizado, preconizado, por exemplo, por Henri Bouchet e Robert Dottrens [2].

«Através do encontro pretendia-se unificar a força que havia de ter o acto educativo na formação das consciências. Mas as dúvidas persistiam. A multidão não é uma força inteligente. Move-se pelo acto mecânico do estímulo que uniformiza o gesto e espartilha o comportamento. As crianças precisam de ser individualizadas para que dentro delas se formem pessoas diferenciadas e criativas, o que tornará mais proeminente e válida a espécie humana.» (p. 85)

Nesta linha de pensamento, Cristóvão manifestava também posição crítica em relação à informatização. Admitia iniciar-se na aprendizagem da utilização do computador, mas resistia à palavra de ordem – informatizar, preservando-se da massificação, recusando-se à obrigação de seguir o rebanho (p. 89). Opunha-se à imposição da máquina com critério obrigatório (p. 93), porque, acerrimamente, defendia o pluralismo (p. 92).

«Havia uma mão funesta, oculta, algures, a ordenar uma perfídia incontrolável que era esta de nos arrastar a todos para a unicidade sem ter em conta as diferenças de cada um e a transculturalidade.» (p. 93)

Não lhe agradava, por conseguinte, a apologia desmedida das bibliotecas digitais. Rejeitava o desprezo pelo livro em suporte de papel, nem tão-pouco aceitava a desvalorização das bibliotecas tradicionais (p. 92).

Igualmente, manifestava algumas reservas quanto aos computadores individuais, designadamente como novo processo de combate à ignorância. Nas conversas que mantinha com um seu colega de profissão, Rui Morais, procurava certificar-se da qualidade da informação disponível (p. 88).

Não chegando talvez a ser o protótipo de um determinado professor, Cristóvão poderá, todavia, testemunhar a decepção de muitos profissionais da educação, na recta final da carreira, pelo rumo da Escola em Portugal, ferida por reformas mal ensaiadas e mal avaliadas, alvo de medidas inadequadas de quem desconhece a realidade do país, repleta de indisciplina e insucesso, e também a inadaptação de alguns face às mudanças operadas e, sobretudo, o descontentamento pelo inaudito desprestígio da profissão.

No entanto, Cristóvão não se evidencia somente como professor. A decisão de se afastar da profissão, da mulher e do meio que habitualmente frequentava, optando pelo refúgio na ilha do Porto Santo constitui também investimento pessoal: a busca do rejuvenescimento pela recusa do tédio e da opressão (p. 167). É ainda manifestação de cidadania, afirmação da liberdade do Homem e prova de fé num outro horizonte. 

 
 
NOTAS
 
(1) Em conversa com Irene Lucília Andrade, no dia 3 de Abril de 2009, a escritora disse-nos que a origem desta personagem e do próprio romance está numa colaboração com o Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), no suplemento Educação, pelos finais dos anos oitenta do século XX. Os dois textos, que então publicou no JL, surgem a pp. 77-83 e 83-87 de Porque me lembrei dos cisnes, Leiria, Editorial Diferença, 2000. 

(2) H. Bouchet, L’individualisation de l’enseignement: L’individualité des enfants et son rôle dans l’éducation, Paris, Alcan, 1934; R. Dottrens, O ensino individualizado, Porto, Livraria Civilização, 1973.
 
 

Revista Margem 2, n.º 26, Funchal, 2009, pp. 108-111

 

 

 
 
 

Plágio


Plagiar é tentação antiga. Mas, nos nossos dias, os prevaricadores têm a vida facilitada. Seleccionar informação na Internet e copiar e colar tornou-se terrível praga nos estabelecimentos de ensino, sobretudo, nas universidades.


Solicitar trabalhos de pesquisa aos alunos acarreta cuidados dobrados para o professor, pois, ao corrigir, deve também verificar se houve ou não plágio, tarefa nem sempre concludente, mas que exige paciência, tempo e conhecimento.


Em Agosto passado, esta questão mereceu destaque especial no Expresso. Neste semanário, o reitor da Universidade de Coimbra defendeu um acompanhamento mais regular dos alunos, para prevenir a fraude. Porque já se encontraram dissertações de mestrado e de doutoramento plagiadas, Nuno Crato, por sua vez, afirmou ser impossível orientar, devidamente, uma dúzia ou mais de teses de mestrado ou de doutoramento. Concluiu ainda, com propriedade, que «quando se procura contribuir para a ciência, a fraude é mais difícil.»


Tomadas em devida conta, estas duas posições pedagógicas podem, na verdade, desencorajar o plágio. Contudo, tal implica trabalhar com menos alunos, o que, por razões orçamentais, é inviável ao nível de alguns cursos do 1.º ciclo do ensino superior. Por outro lado, obriga também a repensar a distribuição das orientações científicas, optimizando recursos humanos em prol da qualidade.


Para combater a fraude, a Universidade da Madeira, a exemplo de outras instituições congéneres, introduziu, este ano lectivo, o detector de plágios. Assim, os trabalhos, entregues no Gabinete de Apoio ao Estudante, serão certificados da detecção ou não de plágio e, de seguida, remetidos aos docentes.


O programa de detecção de plágios, consumados com materiais disponibilizados na Internet, ajudará, e muito, na correcção dos trabalhos. Contudo, os professores terão também em conta que o plagiador poderá servir-se de meios não electrónicos.


Constitui nossa tarefa combater o flagelo do plágio que ameaça infestar a Escola, com prejuízo da actividade científica. Com perspicácia, escreveu o professor Castanheira da Costa, reitor da Universidade da Madeira, no início deste ano lectivo: «Agir no sentido de garantirmos que este fenómeno é controlado na nossa Universidade é fundamental para o nosso bom nome e, sobretudo, para a qualidade e o prestígio dos nossos cursos.»


Não se julgue, no entanto, que o plágio é prática exclusiva dos alunos. Em 2003, foram amplamente divulgados dois plágios da bióloga, escritora e professora Clara Pinto Correia, na revista Visão. Escritores consagrados também foram acusados de plagiar, como Camilo José Cela, laureado com o Prémio Nobel da Literatura.


Em épocas mais antigas, o plágio não apresentava a gravidade actual. Muitas vezes, os escritores integravam textos anteriores nas suas obras, mencionando, quase sempre, a autoria, mas não distinguindo a obra trasladada dos acrescentos. Veja-se este exemplo, respeitante às primeiras crónicas insulares. No Livro Segundo das Saudades da Terra (1584), o micaelense, Gaspar Frutuoso (1522-1591), reproduziu o manuscrito que lhe enviou o cónego da Sé do Funchal, Jerónimo Dias Leite (c. 1536 – c. 1593), embora tivesse introduzido novos elementos. Todavia, o clérigo madeirense também teria copiado a narrativa de Gonçalo Aires Ferreira, acrescentando-a com outras notícias históricas.


Cópias e adaptações eram comuns nesse tempo. Hoje reprova-se o plágio, como prática deplorável que lesa direitos autorais e retira qualquer credibilidade científica a quem se serve, ilicitamente, de obra alheia.


Esta fraude não se limita, porém, ao irreflectido, preguiçoso ou espertalhão copiar e colar dos estudantes. Não se reduz à transcrição, com as mesmas palavras. Neste crime incorrem também aqueles que, com fina astúcia, fazem traduções literais de excertos de capítulos de livros ou artigos, disponíveis na Internet em línguas estrangeiras, e transcrevem-nas, nos seus artigos ou comunicações, sem itálico nem aspas, referenciando-os depois, na bibliografia, com outro formato ou suporte. A reprodução de uma tradução fiel, não devidamente assinalada, constitui, sem dúvida, crime de contrafacção, por apresentar como sendo seu, total ou parcialmente, o trabalho alheio.

 

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Setembro de 2009

Memória futura


Florbela Espanca (1894-1930), no último ano de vida, escreveu no seu diário: «que importa o que está para além?». A Literatura Portuguesa conferiu-lhe, porém, imortalidade, reconhecendo o valor da sua criação poética.


Contudo, há quem, ingenuamente, corra para reservar lugar na História. Outros, em momentos de perturbação, receiam o juízo dos historiadores. Por irrefreável necessidade de afirmação, medo ou vaidade excessiva, sempre alguns se preocuparam em criar para a posteridade um retrato virtuoso, bem diferente da realidade.


Ao contrário do que vulgarmente se pensa, não cabe à História julgar, mas compreender (não no sentido passivo), como nos ensinou Marc Bloch (1886-1944), que também sublinhou as características peculiares desta ciência dos homens e o facto de o historiador não ser alheio às paixões.


A construção da imagem a transmitir para a História, ainda obsessivamente cultivada, poderá ser feita com generosidade ou requintes perversos.


A generosidade é hoje mais significativa no domínio da ajuda aos mais necessitados e já não está tão associada ao sufrágio da alma ou à busca da salvação, como no passado. De facto, os verdadeiramente generosos não se movimentam por qualquer recompensa.


A edificação de igrejas, capelas e conventos, a instituição de ordens religiosas, vínculos, obras de beneficência e fundações, a elaboração de crónicas, livros de linhagens, biografias ou memórias perpetuam as personalidades intervenientes.


Todavia, o registo escrito poderá proporcionar a manipulação da informação. Quem conta, constrói o discurso à sua maneira, quase sempre sem preocupações de objectividade. Quem escreve sob encomenda, raramente ousa desagradar o patrono. Por vezes, as memórias constituem pretexto para auto-elogio ou deplorável ajuste de contas.


Esquecem, porém, os protagonistas de que há sempre elementos que lhes escapam e que o historiador, um dia, poderá dispor de fontes diversas para a sua análise.


Na construção da imagem futura, ocorrem, por vezes, gestos premeditados com consequências bastante graves. A limpeza ou a destruição de um arquivo, por exemplo, prejudicarão, de forma irremediável, a investigação. Contudo, só excepcionalmente a impedirão por completo. Quase sempre, há informação subsidiária em outros lugares, que o aniquilamento projectado não logrou apagar.


Além das acções destrutivas que, pelo aparato, saltam à vista, outras há que, sub-repticiamente, têm efeitos semelhantes. A ocultação de determinados assuntos, de resoluções e a forma e os resultados das respectivas votações em actas ou a deliberada inexistência destas, o branqueamento em alguns relatórios, a eliminação de documentação comprometedora nos arquivos correntes ou o silenciar de vozes dissonantes poderão servir essa ânsia de forjar uma imagem imaculada para consumo futuro.


A liberdade permite, sem dúvida, confrontar todas essas atitudes manipuladoras com realidades distintas. A imprensa e a blogosfera têm papel determinante no esclarecimento da opinião pública, na manifestação do contraditório e na denúncia do desrespeito pela legalidade e pelos princípios democráticos.


As publicações periódicas impressas assumem ainda papel privilegiado como fontes da História Contemporânea, apesar de os blogues serem mais arrojados ou contundentes nas suas análises ou comentários, porque não estão sujeitos às redes clientelares.


Na Madeira, desde 1876, é impossível fazer história sem o Diário de Notícias. Se para o passado esta é verdade inquestionável, mesmo havendo várias publicações periódicas em circulação, na actualidade muito mais se impõe o Diário para a formação de uma opinião pública plural e como fonte indelével para a compreensão do quotidiano da Região e do devir histórico.



Diário de Notícias, Funchal, 2 de Agosto de 2009


1. Estes três tópicos sempre andaram juntos. A cama como via para o poder. A morte, implacável circunstância de renovação do poder ou de afirmação da liberdade.


Não constituem temas exclusivos do passado. A cama e o poder continuam bem apegados, ainda que em conúbio pós-modernista e sob protecção do incontestável direito à reserva da intimidade e da vida privada.


Basta uma leitura rápida dos blogues mais conhecidos para verificar a pertinência do tema no microcosmos insular. Ainda recentemente, a propósito do «caso S. Vicente», Bernardino da Purificação, no Terreiro da Luta, escreveu que, «na Madeira, há uma política de travesseiro que se sobrepõe à política institucional».


O conteúdo de alguns blogues poderá ser fruto da má-língua. Todavia, não devemos ignorar o papel crescente da blogosfera na opinião pública. Igualmente, não é de desprezar esta informação como fonte para a História, daí a importância de arquivá-la ou editá-la em suporte diverso.


2. A cama, o poder e a morte: rainhas e princesas da Europa do Renascimento ao Iluminismo é a mais recente publicação de Bartolomé Bennassar, reputado historiador e hispanista francês (Nîmes, 1929).


Na primeira década do século XXI, recrudesceu o interesse pelas biografias de rainhas e princesas, que tem originado diversos livros e filmes.


No entanto, a obra de Bennassar não se enquadra nessa linha de reconstituição de percursos de vida de altas figuras da aristocracia europeia. Procura, antes, analisar o papel desempenhado por algumas rainhas e princesas nas relações políticas da Europa Ocidental, pelo seu protagonismo ou, principalmente, pela sua importância nas negociações matrimoniais e subsequentes alianças políticas.


O livro tem como objectivo principal um capítulo da condição feminina na sociedade do Antigo Regime, que não se resume à vida faustosa na Corte, mas que explora atentamente os bastidores do poder. Salienta, ainda, o contributo de mais de cem mulheres de sangue real na construção da Europa, se bem que, quase sempre, se assemelhassem a «peões deslocados ao sabor de sucessivas combinações no tabuleiro da grande política» (p. 39).


Em idade núbil, jovens de sangue real ou descendentes da alta nobreza, com uma educação esmerada, entravam, não por sua vontade, no jogo diplomático e político da Europa, através de intrincadas negociações de casamentos que visavam garantir a sucessão das casas reinantes, a segurança entre as nações intervenientes, as uniões dinásticas ou a hegemonia de algumas Coroas. Não tinham o direito de recusar o pretendente útil, mesmo sob a justificação de aspirarem ingressar num convento, porque a razão de Estado tinha precedência sobre a vida consagrada a Deus.


Depois de casadas, quase sempre com menos de vinte anos, o destino imposto exigia-lhes muitos filhos para a sucessão ou para o estabelecimento de alianças estratégicas. Muitas morreram cedo, devido a sucessivas gravidezes e complicações periparto. Outras, porém, alcançaram considerável longevidade, apesar do assédio procriador.


Algumas, pelo seu temperamento, lograram desempenhar papel importante, político ou cultural, inclusive como mecenas. Outras só obtiveram a liberdade ou o poder com a morte dos maridos.


Neste particular, avulta a figura da rainha viúva, mãe do rei, muitas vezes chamada a exercer a regência na menoridade do herdeiro ao trono e demonstrando excelentes capacidades de governação.


Bartolomé Bennassar serve-se de uma linguagem muito expressiva e recorre, por vezes, a pormenores e episódios singulares do quotidiano palaciano, pouco utilizados na historiografia das Casas Reais. Dá-nos, assim, um retrato muito vivo de rainhas, princesas e arquiduquesas, entre a cama, o poder e a morte, chegando a lamentar o infortúnio de algumas: «Pouco se exageraria afirmando que, entre as mulheres dos séculos passados, rainhas e princesas se contam muitas vezes entre as vítimas mais dignas de dó.» (p. 39); «As pastoras decididamente tinham mais sorte.» (p. 251)

 

Diário de Notícias, Funchal, 5 de Julho de 2009

Em conversa recente, concluía-se que «tudo não passava de mera luta pela sobrevivência». A frase, fria e convincentemente pronunciada, impôs-se, de imediato, como mote para a crónica deste dia.


Como se sabe, a luta pela sobrevivência não se resume à satisfação de necessidades básicas. É, porém, certo que quase tudo passa por aí. No início dos tempos, o homem foi buscar à Natureza alimentos e instrumentos de que necessitava. Vivia o período da economia de recolecção. Mas, mesmo nessa época, a actividade humana não se restringiu à caça, pesca, recolha de frutos e ovos ou a outras necessidades fisiológicas. Houve também lugar para a arte e a espiritualidade. No Neolítico, começou o homem a dominar a Natureza, a cultivar e a domesticar, para garantir o seu próprio abastecimento em comida, procurando já armazenar grãos até novas colheitas.


Desde a Pré-História até à actualidade, assegurar o pão e as comodidades tem sido preocupação dominante.


No entanto, a sobrevivência, de que falávamos, era outra. Tratava-se de subsistir em termos de mando ou influência, e de todo o aparato que o culto do grude envolve.


A disputa democrática do poder constitui inquestionável manifestação de cidadania. Já a alternância partidária corresponde a um estádio dos regimes democráticos, onde à oposição são reconhecidos, através do sufrágio, o mérito do seu programa e o trabalho em prol da sua afirmação como alternativa.


Contudo, no terreno, proliferam, com frequência, clientelas poderosas, expectativas e laços que condicionam a liberdade e a opção de alguns cidadãos, como é humano e natural, preocupados com o seu futuro.


O mote da sobrevivência, assaz invocado e, já pelo fim, envolvido, em saudável ironia, na aludida conversa, dizia respeito ao quotidiano dos pequenos grupos que, tendencial e perniciosamente, se transformam em «capelinhas», sem orago reconhecido fora do adro, mas com tementes fiéis e farsas ensaiadas de véspera e representadas, em dia aprazado, com acabrunhante despudor.


Por desgraça, «capelinhas» destas abundam. Com elas, o interesse superior fica sempre ameaçado. A sua actuação discreta, mas corrosiva, engenhosa, mas intolerável, delicada, mas perversa, envernizada mas imunda, tudo numa lógica febril de relações de poder, vai minando os alicerces das instituições, dificultando reformas necessárias e obstruindo prementes inovações.


Há que permanecer atento a essas manobras de sobrevivência no poder, em especial por parte dos «sacristães de capela», e conservar a verticalidade e a forte motivação para um trabalho honesto e persistente, mesmo quando o insulto é uma arma, a demagogia uma especialidade e a sede de vingança a crónica histeria.


Sobretudo importante é cultivar a serenidade e a esperança, não recear, porque, afinal, ninguém sobrevive à morte.


Por outro lado, convém não esquecer o grande ensinamento do Padre António Vieira, de que sempre me socorro, e com ele termino, por uma questão de sobrevivência: «Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta.» (Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, na Capela Real, 1649, § III)


Diário de Notícias, Funchal, 7 de Junho de 2009

LS0401080501


Foi, finalmente, editado um CD que recupera gravações de Lomelino Silva, realizadas em 1926. Com enorme satisfação, registamos esta iniciativa, apresentada, publicamente, na cidade do Funchal a 30 de Maio de 2009, não somente por nos permitir ouvir a voz do tenor madeirense, mas também porque, desde 1993, temos vindo a sugerir esta edição discográfica nos meios oficiais e através das páginas do Diário de Notícias.


A 20 de Janeiro de 1993, escrevemos:


«Integrou famosas companhias de ópera internacionais e gravou para His Master’s Voice. Será possível recuperar as suas gravações para a edição de um CD alusivo ao 1.º centenário do seu nascimento? Antevejo (sonho) esse lançamento no Teatro Municipal, envolvido por uma exposição evocativa de Lomelino Silva.»


No mesmo períódico, a 17 de Junho de 2001, nas vésperas de uma homenagem pública promovida pela Direcção Regional dos Assuntos Culturais, do Governo Regional da Madeira, voltámos a apelar para a edição de um CD do cantor lírico madeirense. É esse artigo que, de seguida, reproduzimos:


Uma voz de ouro: Lomelino Silva


Tenor de reputação internacional, Nuno Estêvão Lomelino Silva foi, sem dúvida, o madeirense mais conhecido em todo o mundo, no segundo quartel do século XX. Muito provavelmente, será também o madeirense que mais aplausos recebeu na centúria de Novecentos. Nos Estados Unidos da América, chamaram-no «o Caruso português»; no Brasil, «o rouxinol madeirense».


Em diversos países, a imprensa relevou as singulares características da sua melodiosa voz e reconheceu o seu enorme talento. Mário Moreau na obra Cantores de ópera portugueses (Lisboa, 1984, 2.º vol.) dedicou-lhe 56 páginas, transcrevendo algumas das críticas que jornais de todo o mundo dirigiram ao mais conhecido tenor português. O New York Herald Tribune, por exemplo, afirmou que Lomelino Silva cantava «com a garganta livre, com um timbre inesgotável e um sentimento enorme».


Na imprensa funchalense, colhe-se também abundante documentação sobre o famoso tenor, em especial no Diário de Notícias, O Jornal, Comércio do Funchal e Eco do Funchal, principalmente por ocasião dos seus espectáculos na capital madeirense.


Lomelino Silva, nasceu à Rua das Maravilhas, no sítio da Cruz do Carvalho, em 26 de Dezembro de 1892, sendo filho de Guilherme Augusto da Silva e de D. Helena Lomelino da Silva. Baptizou-se na Igreja de S. Pedro da cidade do Funchal aos 22 de Janeiro de 1893. Morreu em Lisboa, a 11 de Novembro de 1967.


Estreou-se na Madeira em 1916, no Teatro Municipal do Funchal, na altura denominado Dr. Manuel de Arriaga. Cantou, então, a opereta Primeiros afectos, cuja letra é da autoria de Alberto Artur Sarmento. Na oportunidade, convém referir que em 24 de Maio de 1933, no Teatro-Circo, Lomelino Silva voltou a cantar versos de Alberto Artur Sarmento. Desta vez, e em primeira audição, Saudades da Terra, uma canção com música do grande maestro e compositor Francisco de Lacerda.


Estudou em Lisboa e em Itália. Neste país, foi discípulo de Giovanni Laura e Ercole Pizzi. A sua carreira artística, como cantor de ópera, iniciou-se em Milão em 29 de Dezembro de 1921, onde alcançou assinalável êxito no Rigoletto, de Verdi. Em Fevereiro seguinte, apresentou-se na ópera La Bohème, de Puccini.


Lomelino Silva considerava 1921 e Milão como o início da sua carreira artística. Em 1946, comemorou no Funchal as suas bodas de prata com um recital de canto no Teatro Baltasar Dias.


Os primeiros sucessos em Milão proporcionaram-lhe, de imediato, projecção internacional, tendo actuado em vários países, por todo o mundo, nas décadas de vinte, trinta e quarenta do século XX. Para além de Portugal e Itália, cantou na Holanda, Brasil, Inglaterra, Estados Unidos da América, Havai, Japão, China, Macau, Hong-Kong, Filipinas, Singapura, Índia, África do Sul, Moçambique, Trindade, Guianas, Venezuela, Curaçao, Colômbia, Cuba, Panamá, Espanha, Marrocos. Aliás, actuou mais no estrangeiro do que em Portugal, porque no nosso país realizavam-se poucos concertos.


Cantou também, por diversas vezes, no Teatro Municipal do Funchal depois da sua consagração internacional. Sem pretensão de lista exaustiva, referimos espectáculos em 1921, 1925, 1926, 1928, 1933, 1939, 1943, 1944 e 1946. O número de actuações no Funchal revela bem a afeição que tinha com a sua família e a terra natal.


A propósito, registe-se o que afirmou Lomelino Silva numa entrevista publicada neste Diário em 21 de Novembro de 1943:


«Gostei de ver a minha terra e isto faz-me recordar que, da última vez que passei em Nova York, um amigo levou-me a um museu de pintura, onde encontrei um quadro com esta legenda: ‘Uma visão do paraíso’. Era apenas uma pérgola vulgaríssima, tendo ao fundo um pedaço de céu azul. E eu lembrei-me da nossa terra, onde esses cantos de paraíso se vêem por toda a parte, tendo quase cada pessoa um no seu quintal, para uso e regalo próprio… O facto de ter viajado muito […] tornou-me cada vez mais orgulhoso da minha linda terra.»


Em 1926, gravou para a His Master’s Voice composições de Verdi, Sarti, Tomás de Lima (com este compositor, também pianista de renome, Lomelino Silva apresentou-se no Funchal, em Outubro-­Novembro de 1928, e no Brasil), Fernando Moutinho, Coutinho de Oliveira, António Menano, Alfredo Keil e Rui Coelho. Seria importante recuperar estas gravações num CD, tal como se fez para Edmundo de Bettencourt.


Do seu vasto repertório, destacam-se o Rigoletto, La Bohème, Mefistófeles, Tosca, Fausto, O Barbeiro de Sevilha, La Traviata… Todavia, Lomelino Silva também incluía nos seus espectáculos canções portuguesas bastante conhecidas.


De registar ainda o facto de, em 1937, o actor de cinema Edward Everett Horton, grande admirador de Lomelino, ter inaugurado, na sua casa em Hollywood, um teatro com 400 lugares denominado Da Silva’s Musical Gallery, em homenagem ao tenor madeirense.


Depois de uma brilhante carreira internacional, Lomelino Silva despediu-se dos palcos em 6 de Fevereiro de 1949, no Cinema Tivoli, em Lisboa.


A primeira homenagem ao tenor madeirense ocorreu em 14 de Setembro de 1925, promovida pelo Club Sport Marítimo, na presidência de Travassos Lopes. Foi então organizado um concerto no Teatro Municipal do Funchal e descerrada, no Salão Nobre, uma lápide com o seu nome e a data da sua consagração no Funchal, tendo Álvaro Reis Gomes, membro da direcção do clube do Almirante Reis, saudado o homenageado.


Passados oitenta anos sobre o início da carreira artística de Lomelino Silva, uma lápide no local onde nasceu e um concerto no Teatro Baltasar Dias, no próximo dia 22, servirão para avivar a memória de um grande tenor que, pelos quatro cantos do mundo, granjeou admiração e muitos aplausos.


Bem a propósito, afirmou Carlos M. Santos em O Jornal de 25 de Março de 1946:


«Estampado nos cartazes o seu nome português, que nunca modificou, apesar de fortes insistências e razões, Lomelino Silva apregoou por essas terras além o nome de Portugal, bem como o do torrão que lhe foi berço, honrando-se sempre em se declarar português, sem se esquecer de falar do seu país e de o colocar no melhor conceito dos seus ouvintes.»


Em 20 de Janeiro de 1993 e 1 de Janeiro do ano seguinte, neste Diário, propusemos uma ampla homenagem a Lomelino Silva. Em parte, será realizada no próximo dia 22 de Junho. Contudo, esperamos ainda que se venha a concretizar o CD com as suas gravações de 1926, e que o seu nome seja dado a uma rua do Funchal. Ficaria, assim, perpetuado nesta cidade o nome de um dos madeirenses mais famosos do século XX.

Diário de Notícias, Funchal, 17 de Junho de 2001

Outros artigos da minha autoria no Diário de Notícias com referências a Lomelino Silva:


«A propósito de um centenário», Diário de Notícias, Funchal, 20 de Janeiro de 1993.


«Nomes de ruas», Diário de Notícias, Funchal, 31 de Julho de 1993.


«Uma prenda adiada: a homenagem a Lomelino Silva», Diário de Notícias, Funchal, 1 de Janeiro de 1994.

 


O Cemitério dos Judeus, da cidade do Funchal, continua num deplorável estado de conservação, apesar de ser um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira. A esta situação nos referimos em 2004 e 2007. Contudo, até hoje, nada se fez para recuperar o «chão sagrado» dos judeus que foram sepultados na ilha da Madeira, nos séculos XIX e XX.


Qualquer investimento nesta zona deveria respeitar a memória do lugar.


A comprovar o abandono a que foi votado o velho cemitério judaico e as implicações deste bem cultural no investimento imobiliário projectado para o Toco, transcrevemos aqui, com a devida vénia, o artigo publicado no Diário de Notícias, Funchal, 27 de Maio de 2009, p. 19, da autoria do jornalista Francisco José Cardoso:

 

Lei judaica proíbe mudar o local dos cemitérios


Embaixador de Israel está cá e é recebido hoje por Jardim. Processo encalha ‘Toco’


O embaixador do Estado de Israel em Lisboa defende a construção de um muro de suporte para o cemitério judaico existente na zona do Lazareto, em Santa Maria Maior. A posição de Ehud Gol, no cargo há quase cinco meses e de visita pela primeira vez à Madeira, é aliás, parecida com a do seu antecessor quando se colocou, em 2003, a hipótese de trasladação dos corpos para o cemitério de São Martinho.


Este deverá ser um dos pontos de destaque das reuniões que o diplomata tem realizado desde segunda-feira com entidades e autoridades regionais, a culminar hoje com uma recepção de Alberto João Jardim na Quinta Vigia. Em declarações exclusivas ao DIÁRIO, Ehud Gol lembrou que a religião que professa impede a mudança de local dos cemitérios e, por consequência, é muito complicado fazer trasladações dos corpos como pretende a Câmara do Funchal, com apoio do Governo Regional.


Para tomar melhor conhecimento do estado deste cemitério, datado do século XIX e em completo abandono, o diplomata israelita deslocou-se ontem ao local. Acompanhado por um cidadão do seu país a viver na Madeira, Ehud Gol pôde constatar que a degradação da infra-estrutura requer uma solução que tarda.


“Estou ciente do problema, com algumas das sepulturas à beira da falésia e o seu estado é muito mau”, começou por referir. Sabe, na nossa religião não se podem remover cemitérios, uma situação que podia ser resolvida mais facilmente com a construção de um muro de suporte que proteja as sepulturas que estão em perigo de cair ao mar”, afirmou.


Ehud Gol lembrou ainda o anterior embaixador em Lisboa, Shmuel Tevet, que esteve também na Madeira (em 2003), altura em que se levantou a possibilidade de vir de Israel uma delegação que viesse encontrar uma solução em conjunto com as autoridades regionais.


“Vamos tentar encontrar uma solução melhor que a mudança do cemitério”, afirma. “É claro que gostaríamos de ter uma solução que mantivesse o espaço com a dignidade e de acordo com a lei judaica e local”, reafirma, garantindo sempre que as autoridades madeirenses devem ter sempre papel crucial nesta matéria.


Em tom diplomático, Ehud Gol lembra que há outros temas que podem trazer bons frutos para a Madeira e que pretende apresentar às autoridades e entidades públicas e privadas com quem tem mantido reuniões. “O Turismo é o assunto principal”, exemplificou. “A Madeira tem grandes paisagens, uma ilha fantástica e até tem um Casino, que pode ser atractivo”, concluiu.


O certo é que, caso se mantenha esta ideia de manter o cemitério no Lazareto, este é mais um impedimento que o projecto privado calculado em 390 milhões de euros vá para o terreno.


Tradição a respeitar


O caso já se prolonga há alguns anos e ficou ainda mais conhecido quando foi anunciado um projecto de ‘frente-mar’ para toda a zona leste do Funchal, e que implicaria uma mudança de local do cemitério judaico. Já se falou em transformar o local em atracção turística, dada a sua localização e interesse histórico, mas o mais importante em todo este processo será o respeito por uma cultura que, em séculos passados, teve o seu papel no desenvolvimento socioeconómico da Madeira.

 

Colóquio Internacional

 

A História da Imprensa e a Imprensa na História: o contributo dos Açores

 

Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 28 a 30 de Maio de 2009

 

 

«A educação da mulher segundo a imprensa madeirense: de meados de Oitocentos ao início do século XX»

 Nelson Veríssimo

(Universidade da Madeira)

 

RESUMO

 

Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas para ambos os sexos em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.

Contudo, só na década de 1840 se verificou a propagação da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.

O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino e pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.

A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser esta pouco significativa face ao número de crianças recenseadas. Colaborou também com as autoridades na difusão da informação oficial e deu voz aos anseios das populações na instituição de novos estabelecimentos de ensino.

Por vezes, crítica em relação ao rumo da educação para o sexo feminino, outras bem mais avançada do que as práticas vigentes, a imprensa revela-se, indiscutivelmente, uma fonte fundamental para o estudo deste interessante capítulo da História da Educação.

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