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Sem dúvida, aprende-se brincando. O lúdico na Escola constitui recurso didáctico largamente utilizado e, há mais de vinte séculos, recomendado por muitos pedagogos. Também não se põe em causa a necessidade de a criança jogar, brincar, inventar, criar… para se desenvolver, socializar e conhecer.

A valorização da actividade lúdica na aprendizagem não invalida, porém, a promoção de hábitos de trabalho e de comportamento social. Antes, pelo contrário.

Verificamos, no entanto, que muitos dos nossos alunos não adquiriram esses hábitos nem atitudes.

Não se pode continuar a pensar que a Escola deve facilitar ao máximo os alunos, aprovando quem não sabe ou não demonstra competências essenciais. Mas, infelizmente, é o que se constata e, por razões diversas, até o defende quem não devia.

Muitos encarregados de educação querem, simplesmente, que os seus educandos passem de ano, não se interessando em acompanhar os seus estudos e em responsabilizá-los pelos resultados escolares.

Os alunos, na sua maioria, mostram-se desinteressados. A nota mínima contenta grande número.

Os decisores políticos pretendem que os professores reprovem o menor número de alunos, para as estatísticas não revelarem o insucesso do sistema educativo. Até já aconteceu, por determinação superior, a alteração de cotações, depois das provas feitas e praticamente corrigidas, para que as médias subissem!

A situação tenderá ainda a piorar, se os alunos forem chamados a se pronunciar no processo de avaliação de desempenho dos seus professores. Poderão, então, muitos docentes facilitar a avaliação, a fim de não arranjarem problemas com a sua própria.

O facilitismo, a desmotivação, a falta de hábitos de trabalho e de competências essenciais estão a arrasar várias gerações e a contribuir para o aumento da iletracia, considerada já um drama social no nosso país.

Perante este cenário lastimoso, cada vez mais se exige do professor em relatórios, burocracias, investimento na carreira…, faltando, tantas vezes, o tempo e a disponibilidade mental para a missão maior: promover a aprendizagem!

Geralmente, a literacia aparece definida como «a capacidade de compreender e de aplicar conhecimento apresentado em forma impressa». Por outras palavras: entender o que se lê.

Na verdade, também a maioria dos alunos não sabe ler. Passa-se-lhes um texto para as mãos e pede-se a interpretação do que está escrito. Aí começam as dificuldades para muitos. Ora, um aluno que não é capaz de compreender aquilo que lê, como poderá estudar de forma autónoma?

Acresce, porém, outro grande obstáculo: entender a mensagem do professor. Nem é que se utilize vocabulário difícil, mas tão-somente linguagem cuidada, e muitos não compreendem o que se lhes diz. Depois, há quem pergunte o significado de palavras de uso corrente com aquele deselegante o quê?, como se o professor fosse um dicionário ambulante ao serviço das massas.

Para além da comunicação, que é um problema muito grave na Escola, verifica-se, com raras excepções, grande desconhecimento do que foi ensinado nos anos anteriores. Nada vem à memória. Tudo parece ser novidade. Isto porque, erradamente, se considerou inútil memorizar conhecimentos e a Escola deixou de ser lugar de trabalho.

Com o actual estado do ensino, o desenvolvimento económico e o progresso social estão comprometidos. O estudo A dimensão económica da literacia em Portugal, apresentado em Dezembro do ano passado, demonstra que «a exigência em conhecimentos e em competências do mercado de trabalho português é baixa», recomendando-se, por conseguinte, rápido aumento do nível de literacia.

Importa, todavia, que o investimento, nesta área, seja para, efectivamente, melhorar o nível de literacia dos portugueses e não apenas para os governantes distribuírem diplomas, com cobertura jornalística, e exibirem estatísticas mais favoráveis.

Diário de Notícias, Funchal, 7 de Fevereiro de 2010

Confeitaria Felisberta, Funchal, 2-1-2010

Deram-me, pelo Natal, Doce Lisboa: guia e receita das melhores pastelarias, de Clara Azevedo e Luís Chimeno Garrido. Graficamente cuidado, com textos curtos e bonitas fotografias, este livro mostra a doçaria de qualidade que Lisboa oferece no dia-a-dia.

As pastelarias seleccionadas apresentam-se com uma breve nota histórica e exibem duas especialidades, sendo publicadas as respectivas receitas.

Trata-se de uma espécie de inventário das mais famosas pastelarias lisboetas, como a Antiga Confeitaria de Belém (1837), a Confeitaria Nacional (1829), a Benard (1868), a Versailles (1922), a Mexicana (1946) ou a Suíca (1922). Constitui também um roteiro da mais bem conceituada doçaria da cidade. Avulta ainda como registo de memórias e vivências urbanas.

Por certo, este livro despertará a gula. Mas também faz pensar. Imagine-se a elaboração de um álbum idêntico para o Funchal. Quais as pastelarias a seleccionar? Haverá, com certeza, algumas para escolher, pela qualidade dos seus produtos. E pela sua história, por aquilo que representam para a cidade ou para a ilha, quantas figurariam no projectado álbum? Onde estão esses conceituados e antigos estabelecimentos urbanos, que constituem tão importantes pólos de atracção noutras cidades? Como chegaram até aos dias de hoje os que ainda sobrevivem? Mantiveram as características peculiares?

Imediatamente, surge na memória a velha Confeitaria Felisberta, da Rua das Pretas, fundada em 1837, por Felisberta Rosa. Encerrada nos anos oitenta do século passado, esta afamada casa jaz ao abandono.

Pela qualidade dos seus produtos, em especial bolos de mel, queijadas, fartes, morgados e compotas, foi, durante mais de um século, estabelecimento de referência do Funchal, frequentado pelos madeirenses e por muitos estrangeiros. Sobre esta confeitaria, há também diversas menções nas publicações periódicas, livros de viajantes e romances.

A imprensa registou a visita da Imperatriz Isabel, da Áustria, mais conhecida por Sissi, à confeitaria da D. Felisberta Rodrigues, em 23 de Dezembro de 1893, a fim de se «fornecer do magnífico doce que nesta casa se prepara».

Pela sua história, a Confeitaria Felisberta carece da devida atenção por parte das autoridades. Bem sei que há problemas de arrendamento, herdeiros e outras questões legais. Contudo, o interesse público deveria prevalecer, quando a iniciativa privada se revela incapaz de conceber solução adequada.

A cidade não pode ficar indiferente à ruína progressiva do seu estabelecimento comercial mais antigo. Para bem do turismo e da cultura, urge reabrir a velha e reputada pastelaria.

No estado actual, a Felisberta é o espelho do desinteresse pelas memórias da cidade. Reabilitada, a antiga confeitaria tornar-se-ia um estabelecimento procurado, não somente pelas suas especialidades, mas também pela sua história.

Há quem se dirija ao Monte para ver o túmulo do infeliz Carlos, imperador da Áustria e rei da Hungria. Com certeza, que também haverá quem se desloque à Felisberta para comer os doces que Sissi saboreou.

Inventam-se coisas estranhas para atrair turistas, mas, incrivelmente, por vezes, não se dá atenção ao que já existe e poderia ser rentabilizado.

Já em Dezembro de 1993 escrevi sobre o estado da Confeitaria Felisberta, alertando para a importância da sua reabertura. Em finais de 1989 e inícios do ano seguinte, Rui Santos publicou o historial desta pastelaria no Jornal da Madeira. Por essa altura, afirmava-se estar em estudo o futuro da confeitaria. Vinte anos depois, constata-se que nada foi feito.

Todas as vezes que passo na Rua das Pretas observo a ruína da histórica confeitaria. Depois vêm-me doces lembranças das suas deliciosas queijadas, mas por pouco tempo, tal é o amargo sentido pelo desprezo a que foi votado este lugar de memórias da cidade do Funchal.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Janeiro de 2010

Ouça música!

H. Memling, Cristo rodeado de anjos músicos (1480-81)


Entregava a refeição e, com sorriso farto, recomendava: «ouça música!». Anos seguidos a preparar almoços, naquela cantina, faziam com que conhecesse até as quantidades desejadas por muitos dos clientes habituais, para além de, por vezes, adivinhar sentimentos que o Inverno não conseguia enregelar.

A alegria da cabo-verdiana enchia o balcão. Imparável, transbordava pela sala, nesse dia pouco frequentada.

«Ouça música!» Diante de um mínimo gesto de surpresa, descrença ou relutância, justificava o seu voto natalício: «Olha que faz bem, é o melhor. Não apanha nervos!»

Retribuí-lhe as boas festas no ano passado. «Ouça música!» A frase afundou-se em mim, perfurante.

Não ligar às muitas questões preocupantes do dia-a-dia poderá, para alguns, ser o caminho da felicidade. Há, por isso, quem se alheie dos problemas ou recuse falar de determinados assuntos na ânsia do seu esquecimento definitivo. Outros não se importam com injustiças ou dificuldades à sua volta, e, sem engulhos, de tudo tiram partido em proveito próprio.

Para essa alienação ou oportunismo, concorrerá, por certo, boa porção de falta de consciência, seja ela moral, cívica, religiosa ou social.

Recordar e esquecer são faculdades de grande importância para a nossa sobrevivência. A cada um caberá geri-las, desde que isso esteja ao seu alcance.

Neste tempo da Festa, tudo se conjuga para colocar de lado coisas menos boas e deixar-se arrastar pela folia natalícia. Prendas, convívios, ementas especiais ou troca de mensagens afectuosas ajudam a esquecer amarguras.

Na verdade, nós construímos o Natal. O da ilha ou de outro qualquer lugar procede da imaginação de homens e mulheres de boa vontade que, ao longo de várias gerações, quiseram inscrever no calendário um tempo diferente, de tréguas, concórdia, solidariedade, amizade, tolerância e generosidade, associado ao nascimento de Cristo.

O Cristianismo transformou a Humanidade. O nascimento do Deus Menino é, pois, acontecimento indelével, embora, historicamente, se saiba tão pouco sobre a efeméride hoje lembrada.

A Igreja institucionalizou a Boa Nova. Daí advieram grandes benefícios e numerosas desgraças para a Humanidade. Escolas, hospitais, alimentos, progresso… – ao serviço do Senhor. Guerras, perseguições, tortura, censura, apropriação de terras… – em nome do Redentor.

Com efeito, somente o bem, a justiça e a paz se harmonizam com as vozes de esperança do Natal, antecipadas pelo Magnificat, de Maria: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. / Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu-os com as mãos vazias.»

Contudo, a dialéctica do bem e do mal, das memórias gratas e dos dias horríveis, do recordar e do esquecer, divide-nos.

A música, recomendada pela ajudante de cozinha cabo-verdiana, não era, disso tenho a certeza, incentivo à alienação ou sinal de desprezo pelo infortúnio de muitos na época do Natal.

A música envolve. Conduz-nos a outra dimensão. Proporciona prazer infindo. Alivia a dor. Desaloja a tristeza. Na verdade, ilumina a vida.

O Natal é também tempo de música. No presépio, os anjos entoaram um hino de louvor. Aos pastores anunciaram uma grande alegria. A benevolência divina contemplava os pobres e os humildes.

Talvez, sem que disso tivesse plena consciência, a mulher que, com alegria esfuziante e grande naturalidade, distribuía pratos e música, também estava perto da manjedoira, entre pastores e anjos músicos, ajudando a sarar feridas que o Natal não deveria abrigar.

«Ouça música!»

 Diário de Notícias, Funchal, 25 de Dezembro de 2009

Natal de bronze


Por fim, o descobridor juntou-se aos demais. São Francisco, o Infante e o Semeador já esperavam.

A ideia partira do Santo. No jardim, onde antigamente tinham casa os seus irmãos, ouvia, inquieto, vozes e cânticos franciscanos. Sentia rumor de procissões todo o ano. Cheirava-lhe ainda a incenso. Lembrava-se da noite em que construiu um presépio espectacular no bosque de  Greccio.

Todos os dias vinha ao jardim um homem vestido de negro, bastante sujo. O seu cabelo parecia lã antes do mês das tosquias, em dias lamacentos. Debaixo do braço, transportava sempre um maço de papel. Sentava-se na relva e escrevia ou fingia escrever. Ninguém decifrava os seus manuscritos. Grafismos esquisitos e enormes gatafunhos enchiam folhas e folhas de papel enegrecido.

O Santo olhava-o e comovia-se. Parecia um leproso que por ali passava, tal a relutância com que muitos se desviavam dele, agastados com o incómodo. Tanto pensou e cismou o Santo, que levou o seu plano por diante.

Pela calada, um dia chamou o cabeludo. Quase atraído magneticamente, o homem foi-se aproximando da estátua. Vagarosamente e a custo, o Santo estendeu o braço e esticou a mão que abençoava. Pediu-lhe uma folha de papel e redigiu breve mensagem. Ao cabeludo, encarregou ser portador daquelas palavras. Que se reunissem os bronzes da cidade, pois haveria Natal.

O Semeador e o Infante partiram cedo, temendo o trânsito mais intenso ao fim da tarde. São Francisco arrastando as sandálias lá foi caminhando e chegou antes de Zarco se decidir. O navegador e descobridor, nascido do cinzel de Franco, apeou-se finalmente do pedestal.

O Santo conduzi-os pela cidade até ao alto de Santa Catarina, onde a capitoa D. Constança tinha mandado erguer, piedosamente, uma capela à mártir da fé cristã.

S. Francisco sentou o Infante à direita e pediu que Zarco se prostrasse à ilharga, tal como um pastor em longas noites de lua cheia para vigilância do gado.

Depois, ajudado pelo cabeludo, com algumas madeiras fez uma manjedoura.

Sem que ninguém desse por isso, apareceram ovelhas, uma vaca e um jumento. Zarco cuidava agora do rebanho.

Faltava a mãe. Então Santa Catarina de Alexandria, padroeira dos filósofos, desceu do altar e aproximou-se. Se tinha conseguido enfrentar o Imperador Maximino, que com ela queria casar, e manter-se firme diante da roda da tortura, bem poderia colocar-se ao lado do Infante, de quem se diz nunca ter conhecido mulher.

O luar recortava sombras no parque. A luz escoava entre ramos de árvores e descobria quem se encontrasse ao seu alcance. O Santo, afanosamente, procurava compor o quadro. Colombo não quis participar do cenário de Belém, mas indicou um menino que dormia à sombra de um arbusto, na sua vizinhança. Francisco levantou-o da noite e da moita e maternalmente estendeu-o sobre a manjedoura. Por baixo, arrumou a caixa de cartão que o garoto parecia querer sempre agarrar, ainda que a dormir.

De repente, acenderam-se velas no altar e despertaram os pássaros nas copas das árvores, como se fosse o amanhecer. Quem dormia no parque, também acordou. Todos se dirigiram à porta da velha ermida. Zarco, o Infante, São Francisco e o Semeador, Santa Catarina, a meio da noite, mas parecia manhã. Havia tanta luz, mas faltava o sol, ainda pequenino a romper o Garajau.

O cabeludo escrevia, mas a crónica do acontecimento não ficaria nas suas páginas. Enquanto o lápis continuava a deslizar estonteante nas folhas da sua história, ele ria cada vez mais alto. Até que o santo se levantou e cantou. O sino da capela começou depois a tocar. As badaladas sucediam-se com cadência.

Os do parque trouxeram flores. Pela escada, ruidosamente, subia o trabalhador. Encostara a picareta que há tantos anos segurava. Rompera montanhas, desenhara poios e levadas da sua desventura.

Dos olhos do Santo saía luz, como se pela primeira vez chegasse à ilha e repetisse o gesto dos padres que benzeram a terra. Zarco ainda se recordava desse ano e do primeiro Natal. Choviam lágrimas de lembranças.

O Semeador lançou sementes. A criança acordou e logo se lembrou da caixinha. E atirou moedas. Flores, sementes e dinheiro. Novas espigas cresceriam no chão fértil se o bronze não abafasse a seara tenra, disse o Santo. O cabeludo sorria e continuava a riscar vivamente, sem nunca parar. Traços de luz enchiam agora as quadrículas das páginas do seu desventrado bloco.

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 17 de Dezembro de 1995

 

 

Escadinha, Sítio das Carreiras, Funchal. © Rui Camacho, 2006.


Suspenso de um prego espetado na viga do tecto, mesmo por cima das pipas, repousava, quase todo o ano, velho cesto de vimes com pequenos vasos de cerâmica e alguns recipientes de vidro.

Ninguém se atrevia a empoleirar-se num banco ou num cesto de vindima para deitar a mão àquelas cobiçadas quinquilharias, animado por uma brincadeira qualquer. Eram da lapinha. Para a Festa haveriam de ter o seu uso.

Pela Senhora da Conceição, meu avô partia o último bolo de mel, bem guardado na velha caixa de folha, que antes fora de bolachas. Reservado religiosamente para aquele dia, conservava ainda o sabor e a textura peculiares. Estava, enfim, aprovada a amassadura do ano anterior.

Para acompanhar o bolo, o licor de tangerina da Festa passada também era apreciado, pelos adultos, naturalmente. Os pequenos regalavam-se com a laranjada.

Nesse primeiro dia da Festa, uma mão-cheia de grãos de milho era atirada para uma taça de faiança Sacavém com água bem fresca. E o milho ficava de molho até grelar. Depois plantava-se nos cantarinhos.

Na primeira Missa do Parto era a vez do trigo, centeio, lentilha, alpista, grão-de-bico ou tremoços. O processo era o mesmo. Mal começava a germinar, ia para os vasos cheios de terra escolhida nas mantas de bananeiras. Só a lentilha tinha direito aos pequenos recipientes de vidro. «Dava-se bem ali!» – e não havia lugar a outras explicações.

Abrigadas, de início, em lugar de pouca luz e, só a meio crescimento, expostas ao sol, se o tempo assim permitisse, pela Festa a lapinha era sempre guarnecida com searas viçosas.

As searinhas do Natal ou de outras festividades cíclicas são resquícios de antigos rituais associados à terra, colheitas e fertilidade.

Ainda, nos nossos dias, há quem veja, nas searinhas verdejantes, augúrio de bons tempos. No passado, dizia-se que, nas searinhas da lapinha, o Menino Jesus abençoava as searas e, por conseguinte, a colheita de cereais seria abundante.

Apesar da beleza e do profundo significado deste costume natalício, nos últimos anos, sem que disso houvesse necessidade, começaram a surgir «searas artificiais» entre os enfeites da época. Ao que parece, estas imitações pirosas até se vendem bem, principalmente aos que renegam a tradição na ansiedade consumista ou na sorna comodista.

Mas pior é verificar que, infelizmente, em algumas escolas do 1.º ciclo do ensino básico a lapinha, armada para ou pelos alunos, ostenta foleiras «searas de plástico», perdendo-se, sem desculpa alguma, oportunidade rara para estudar e recriar a tradição e, em simultâneo, promover o conhecimento da germinação de gramíneas ou leguminosas, em actividades interdisciplinares do âmbito do Estudo do Meio.

Se, na sua própria casa, cada um coloca o que bem quiser, incluindo as tais «searas artificiais», a Escola deve, no entanto, assumir outra postura relativamente a um tempo dominado pela imagem da tradição e que dispensa artificialismos grosseiros.

Contudo, será sempre legítima a pergunta: se se tolera e até se incentiva, em termos ecológicos, a utilização de uma árvore de plástico, por que razão não se admite a «searinha artificial»?

Por mim, a explicação habita naquele cesto pendurado no telheiro da casa onde nasci. Imagem que percorre uma vida. Prática que deslumbrava e contagiou para sempre. Fascinante mistério da germinação, adensado na lapinha. O verde benzido. Iluminado pela lamparina de azeite, tremeluzente, a agigantar searas nas paredes da sala, num jogo de sombras agasalhado na memória.

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Dezembro de 2009

infante
Com a chancela de A Esfera dos Livros, veio a lume, no mês passado, Henrique, o Infante, de João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e director do Centro de História de Além-Mar.

O infante D. Henrique (1394-1460) é uma das personalidades mais conhecidas da História de Portugal e com fama além-fronteiras, sobretudo pela acção desenvolvida na fase inicial dos Descobrimentos.

Sobre a vida do Infante e o seu tempo, muito já se escreveu, nem sempre com o rigor histórico desejável e, tantas vezes, apenas em função da Expansão Portuguesa. Fazia, pois, falta uma biografia de D. Henrique, assente na documentação, principalmente a Monumenta Henricina, e delineada com a preocupação de conhecer e compreender «o homem que espoletou as Descobertas, mas cuja vida não se resumiu ao perscrutar do oceano.» (p. 34). Como sublinha ainda Oliveira e Costa, este é um livro «sobre a totalidade da sua personalidade», destinado ao grande público.

Pela sua natureza, a obra, em apreço, não privilegiou, logicamente, o debate sobre as diferentes teses historiográficas a respeito do Infante e da conjuntura quatrocentista. Contudo, as opiniões, que veicula, demonstram a preocupação do autor em apresentar linhas interpretativas, em sintonia com a investigação histórica mais recente, e em destituir lugares-comuns e mitos que envolvem o Infante, em particular, e o início dos Descobrimentos, em geral.

Com um plano meticulosamente traçado, esta biografia proporciona-nos a compreensão, à luz da época, da ascensão económica, social e política do quarto filho varão legítimo do rei D. João I, em especial, a vontade de engrandecimento e a firmeza em alcançar objectivos sonhados pela sua geração.

Para João Paulo Oliveira e Costa, o Infante ultrapassou a condição de nascimento, construiu fortuna e o seu próprio destino, alterou o rumo do País e, por conseguinte, tornou-se herói nacional e figura da História da Humanidade, e isto já no século XVI.

O infante D. Henrique foi duque de Viseu, Senhor da Covilhã, governador e administrador da Ordem de Cristo, Senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, Senhor de Lagos e de Alvor… Animou-o o espírito de cruzado. Combateu em Ceuta, Tânger e Alcácer-Ceguer. Interessou-se pelo mar desconhecido e desencadeou uma Revolução Geográfica. Por sua iniciativa, abriu-se a passagem do Bojador e, ainda em sua vida, as caravelas chegaram ao arquipélago de Cabo Verde e à Serra Leoa. Participou activamente da vida política portuguesa, assumindo, com frequência, papel conciliador, norteado pelos mais altos interesses do Reino.

A leitura de Henrique, o Infante constitui um prazer, não somente pela linguagem cuidada e o estilo elegante, mas também porque a história da personalidade e da sua época é-nos revelada com precisão e clareza, por vezes num tom coloquial, diria até com certa preocupação didáctica, a fim de o leitor reter os dados essenciais e, com naturalidade, comungar o entusiasmo do autor em desvendar e compreender a personalidade biografada, sem que a frieza da História contamine, por completo, o discurso.

Registe-se, a propósito, que Oliveira e Costa considera D. Henrique «uma personagem histórica fascinante», logo declarando que não tem por ele nem simpatia nem antipatia. Compreende-se tal preocupação, anunciada de início, no contexto da objectividade almejada pelo historiador. Todavia, o seu convívio intenso com o Infante durante a pesquisa e escrita do livro, bem como o facto de este corresponder a um «sonho da juventude», como confessa, adicionaram, por certo, a esse fascínio boa pitada de simpatia, sem que, na verdade, a obra disso se ressinta.

Biografia bem estruturada e solidamente construída, Henrique, o Infante é, sem dúvida, obra de referência na bibliografia da Expansão Portuguesa.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Novembro de 2009
Nas últimas eleições legislativas, a abstenção, no território nacional, atingiu 39,4%. Decidiram não participar, no acto eleitoral, 3 688 820 eleitores. Votaram menos cerca de 55 000 eleitores do que em 2005, ano em que a abstenção, para as mesmas eleições, se situou nos 34,98%. No entanto, em 2009 havia mais 561 553 eleitores inscritos do que em 2005.

A Madeira apresentou uma abstenção de 45,48%, enquanto em 2005 foi de 38,69. No concelho de Câmara de Lobos, cifrou-se nos 49,21%, sendo a mais elevada a nível regional nas eleições do passado dia 27 de Setembro.

Na nossa Região, não votaram 114 653 eleitores. Para se avaliar bem este número, convém referir que corresponde a 1,73 vezes o total de sufrágios obtidos pelo partido mais votado na Região (PPD/PSD = 66 194). A nível nacional, a abstenção equivale a 1,78 vezes os votos do partido vencedor (PS = 2 068 560) [1].

Este défice de participação num acto eleitoral que dita a formação de um novo governo, depois de uma campanha amplamente coberta pelos meios de comunicação social, deveria merecer análise cuidada por parte dos políticos. Não se pode, simplesmente, classificar os eleitores, que se abstiveram, como irresponsáveis, mal-agradecidos ou desinteressados no futuro do seu país. Há quem não exerça o direito de voto por comodismo, mas também outros há, e não serão assim tão poucos, que deixaram de acreditar na classe política, porque guardam, na memória, situações de inércia, incapacidade, falta de zelo, injustiça, satisfação de clientelas, corrupção, embuste, má-criação, arrogância ou intolerância. Tudo isto gera desconfiança e desmotivação no eleitorado.

A elevada abstenção não retira aos vencedores legitimidade democrática nem se resolve com a obrigatoriedade do voto. Mas constitui grave problema para a democracia.

Muitos políticos conhecem de cor, e alguns citam com frequência, aquela célebre frase de Júlio César: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Contudo, a aplicação do princípio, que esta máxima encerra, deixa muito a desejar no nosso país. Convém lembrar que César, apesar de publicamente ilibar a sua esposa de qualquer responsabilidade, divorciou-se de Pompeia Sulla, porque um homem entrou em sua casa disfarçado de mulher, durante a celebração de um ritual sagrado, exclusivamente para o sexo feminino. Isto é, por via das dúvidas ou eventuais rumores a respeito da principal matrona de Roma, César tomou a decisão de terminar o seu casamento.

Este princípio ético do ser e, simultaneamente, parecer anda mutilado desde longa data. Para muitos políticos, não interessa ser, mas somente parecer. Até há quem, em nome da presunção da inocência e de outros recursos jurídicos, mesmo depois de condenado, não deixe de disputar eleições. Daí o descrédito e a desilusão. Em meu entender, muitos eleitores optam pela abstenção, devido ao comportamento de alguns políticos e às numerosas querelas político-partidárias que desacreditam as instituições e alimentam até fartar os média.

No entanto, o défice de participação não se manifesta apenas nos actos eleitorais. Infelizmente, é problema com mais grave amplitude, que mina a sociedade actual. Há quem recuse participar numa discussão, nunca compareça a um evento fora da sua área profissional, se demita de ter opinião, jamais ouse reivindicar os seus direitos, num desinteresse anormal e incompatível com o moderno exercício da cidadania. Por outro lado, verifica-se também o fomento de um obscurantismo cultural que aliena os cidadãos e os desincentiva da participação democrática. Para não falar da tão propagandeada asfixia, que vai empestando as instituições. Mal que não se deverá explicar somente por eventuais atitudes persecutórias de alguns políticos, mas também pela actuação retrógrada de pessoas intolerantes que, no seio de pequenos grupos, destroem a coesão tradicional, manietam consciências, disseminam o medo, apregoam vinganças e tudo manobram numa lógica autocrática de poder.

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Outubro de 2009


[1] Elementos recolhidos a 2-10-2009 em http://www.eleicoes.mj.pt/. O cálculo da abstenção decorre da subtracção entre o número de inscritos e o de votantes, conforme os dados da fonte oficial consultada. Embora se reconheça a existência de eleitores-fantasmas (mortos, desaparecidos e emigrantes), o seu número não pode ser tomado em conta, pela impossíbilidade de contabilizá-lo com rigor. Os cadernos eleitorais, apesar dessa mácula, constituem uma referência objectiva. Em estudo recente, dois investigadores, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, estimam haver mais de 930 000 eleitores-fantasmas (Diário de Notícias, Lisboa, 27 de Setembro de 2009, consultado em http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1373568). Ver carta do leitor Francisco Leite Monteiro no Diário de Notícias, Funchal, 6 de Outubro de 2010 (
http://www.dnoticias.pt/Default.aspx?file_id=dn04010507061009&id_user=).

 ILucília Cisnes 0001

Cristóvão Azevedo é a personagem principal do romance Porque me lembrei dos cisnes, de Irene Lucília Andrade, vindo a lume em 2000. Personagem revelada ao leitor com parcimónia, à medida que a narrativa se desenvolve, o professor Cristóvão conquista-nos, não, particularmente, pelo que, em termos profissionais, representa ou preconiza, mas pela força do seu carácter, pelos dilemas com que se confronta, pelo oculto «casulo de compromissos e ansiedades» (p. 13) que progressivamente se vai rompendo, enfim, pela sua densidade psicológica. 

Não sendo propriamente um alter ego da escritora, a personagem beneficia, porém, da experiência docente de quem a criou. Afigura-se-nos ainda que alguns desencantos, acerca do sistema de ensino e até do mundo, sejam partilhados por ambos [1].

A autora dedica este livro às espécies ameaçadas, incluindo aquela a que pertence. Das razões profundas desta dedicatória, saberá a escritora. Contudo, o leitor atento, por certo, concordará que, na mesma, também se inclui o protagonista.

Na verdade, Cristóvão Azevedo refugiou-se na ilha do Porto Santo para escrever um livro (poema longo, conto ou romance – não estava ainda seguro do resultado, p. 93), perante a ameaça de, profissionalmente, ser obrigado a uma actuação que a sua consciência repudiava, após trinta anos de serviço docente. Sucessivas reformas educativas perturbaram-no. O trabalho diário com os alunos já não o entusiasmava. O desinteresse e a indisciplina constituíam grave preocupação. A imagem e a autoridade do professor estavam altamente desvalorizadas.

«As mudanças aconteciam a um ritmo que se sobrepunha às capacidades estruturais da escola e a falibilidade dos processos experimentados era rapidamente comprovada, os manuais apinhados de propostas controversas, onde surgiam completamente baralhados por critérios desconexos, conteúdos interdisciplinares, tudo de tal modo denso, tão saturado, tão inconvincente que ele não sentia prazer em seleccionar objectivos, por já não acreditar neles. Desejava veementemente deixar o seu ofício de uma vida inteira.» (p. 140)

Não só com a sua profissão se sentia desiludido. Logo, numa primeira carta, confessou à mulher que, irreversivelmente, se aborreceu com «boa parte do mundo», invocando depois o direito de se suprimir à «voragem das imagens», que lhe impunham, e de legítima defesa contra quem violentar o seu cansaço, ainda que sob o risco de ser acusado de «místico ou obscuro» (pp. 9-10).

Irene Lucília não nos revela a área disciplinar do professor Cristóvão. Pelo que se pode deduzir, seria a Língua Portuguesa e a Educação Visual, matérias que, no nosso sistema de ensino, não andam nas mãos do mesmo professor, mas que, sem dúvida, são do interesse da escritora. Há uma referência a sintagmas, conjuntos, projectos, estruturas, animais e flores que ilustra a simbiose das duas disciplinas (p. 79). O leitor fica ainda a saber que Cristóvão, na sua juventude, desejou ser fotógrafo ou cineasta e fez formação em fotografia, heliogravura e cinema no formato super-8 (pp. 91-92). Este gosto pela Arte levou-o a matricular-se na Academia Real de Belas Artes, quando vivia na Bélgica, para onde emigrou a fim de escapar ao serviço militar e à guerra colonial (p. 39).

Cristóvão Azevedo via a arte como «estruturante do pensamento» que acentuava a «consciência duma ética da conduta humana» (p. 64). A arte identificava-se com «um princípio regulador de atitudes, criador de formas iminentes de compromisso com o valor humano na sua forma global.» (p. 139). A arte possibilitava, ao artista, «uma solidão irradiante, uma tranquila doçura» (p. 39).

Este professor revelava particular afecto pela Natureza e numa das cartas a Maria Ester recordou uma das suas aulas no jardim, para observar as plantas e registar as singularidades de cada espécie quanto à forma, estrutura, número e cor (p. 97), metodologia muito característica da Educação Visual.

«Cristóvão era um homem silencioso, tímido, vibrátil, comprometido por natureza com tudo o que o rodeava, tudo lhe valia uma reflexão, nada acontecia que não fosse por ele questionado, capaz de amar um penhasco, uma erva, um recanto…». (pp. 55-56)

Esse generoso enternecimento pela Natureza revela-se bem quando decidiu alugar um carro por um dia, para dar uma volta pelo interior da ilha do Porto Santo, porque «as paisagens lavadas refrescavam-lhe os olhos e o fundo do cérebro.» (p. 113). Cristóvão precisava de laços próximos. O apelo telúrico poderia contribuir para a sua reabilitação psíquica:

«Cristóvão de Azevedo enchia os olhos e o desejo, queria criar com aquela terra um compromisso qualquer. Não sabia bem se a amava ou viria a amá-la, mas havia um frémito que lhe percorria o corpo, uma sensação física muito próxima dum estado erótico que o prendia à voluptuosidade das espessas dunas e ao hálito quente que se evolava das vinhas rasteiras expostas ao sol.» (p. 34)

Intimamente, a personagem principal assume-se como um poeta que, para assegurar a sobrevivência, ingressou na carreira docente. Todavia, desiludido com a sua actividade profissional e a poucos anos da aposentação, admitia que se sentiria bem caso tivesse sido jardineiro, músico, pastor, hortelão ou filósofo, porque, afinal, poderia sempre, em qualquer uma destas profissões, ser poeta (pp. 140-141).

Era um professor dedicado, sonhador, inconformista, com ideias diferentes para a Escola e para o mundo que, mentalmente, recusava a massificação ou a clonagem (p. 62). Bastante elucidativo deste seu ponto de vista é a descrição que o próprio fez do seu comportamento numa das actividades escolares.

No «Dia Mundial da Árvore», escreveu Cristóvão, as crianças saíram da escola «contidas e submissas em seus rebanhos formais, badalando por dentro uma frase que ainda não entendiam muito bem» (p. 84). Por solidariedade com os seus alunos, assistia à plantação programada e às demais actividades educativas que decorriam num «vale ondulado dentro da acidentada cidade, com vertentes férteis e algumas quintas ao fundo» (p. 85). Sem o expressar de viva voz, criticava o ritual que observava, antecipando, no seu íntimo, o cenário dos meninos «fabricados em série» para a civilização que se anunciava (p. 87). Neste confronto interior, fica bem claro a sua predilecção pelo ensino individualizado, preconizado, por exemplo, por Henri Bouchet e Robert Dottrens [2].

«Através do encontro pretendia-se unificar a força que havia de ter o acto educativo na formação das consciências. Mas as dúvidas persistiam. A multidão não é uma força inteligente. Move-se pelo acto mecânico do estímulo que uniformiza o gesto e espartilha o comportamento. As crianças precisam de ser individualizadas para que dentro delas se formem pessoas diferenciadas e criativas, o que tornará mais proeminente e válida a espécie humana.» (p. 85)

Nesta linha de pensamento, Cristóvão manifestava também posição crítica em relação à informatização. Admitia iniciar-se na aprendizagem da utilização do computador, mas resistia à palavra de ordem – informatizar, preservando-se da massificação, recusando-se à obrigação de seguir o rebanho (p. 89). Opunha-se à imposição da máquina com critério obrigatório (p. 93), porque, acerrimamente, defendia o pluralismo (p. 92).

«Havia uma mão funesta, oculta, algures, a ordenar uma perfídia incontrolável que era esta de nos arrastar a todos para a unicidade sem ter em conta as diferenças de cada um e a transculturalidade.» (p. 93)

Não lhe agradava, por conseguinte, a apologia desmedida das bibliotecas digitais. Rejeitava o desprezo pelo livro em suporte de papel, nem tão-pouco aceitava a desvalorização das bibliotecas tradicionais (p. 92).

Igualmente, manifestava algumas reservas quanto aos computadores individuais, designadamente como novo processo de combate à ignorância. Nas conversas que mantinha com um seu colega de profissão, Rui Morais, procurava certificar-se da qualidade da informação disponível (p. 88).

Não chegando talvez a ser o protótipo de um determinado professor, Cristóvão poderá, todavia, testemunhar a decepção de muitos profissionais da educação, na recta final da carreira, pelo rumo da Escola em Portugal, ferida por reformas mal ensaiadas e mal avaliadas, alvo de medidas inadequadas de quem desconhece a realidade do país, repleta de indisciplina e insucesso, e também a inadaptação de alguns face às mudanças operadas e, sobretudo, o descontentamento pelo inaudito desprestígio da profissão.

No entanto, Cristóvão não se evidencia somente como professor. A decisão de se afastar da profissão, da mulher e do meio que habitualmente frequentava, optando pelo refúgio na ilha do Porto Santo constitui também investimento pessoal: a busca do rejuvenescimento pela recusa do tédio e da opressão (p. 167). É ainda manifestação de cidadania, afirmação da liberdade do Homem e prova de fé num outro horizonte. 

 
 
NOTAS
 
(1) Em conversa com Irene Lucília Andrade, no dia 3 de Abril de 2009, a escritora disse-nos que a origem desta personagem e do próprio romance está numa colaboração com o Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), no suplemento Educação, pelos finais dos anos oitenta do século XX. Os dois textos, que então publicou no JL, surgem a pp. 77-83 e 83-87 de Porque me lembrei dos cisnes, Leiria, Editorial Diferença, 2000. 

(2) H. Bouchet, L’individualisation de l’enseignement: L’individualité des enfants et son rôle dans l’éducation, Paris, Alcan, 1934; R. Dottrens, O ensino individualizado, Porto, Livraria Civilização, 1973.
 
 

Revista Margem 2, n.º 26, Funchal, 2009, pp. 108-111

 

 

 
 
 

Plágio


Plagiar é tentação antiga. Mas, nos nossos dias, os prevaricadores têm a vida facilitada. Seleccionar informação na Internet e copiar e colar tornou-se terrível praga nos estabelecimentos de ensino, sobretudo, nas universidades.


Solicitar trabalhos de pesquisa aos alunos acarreta cuidados dobrados para o professor, pois, ao corrigir, deve também verificar se houve ou não plágio, tarefa nem sempre concludente, mas que exige paciência, tempo e conhecimento.


Em Agosto passado, esta questão mereceu destaque especial no Expresso. Neste semanário, o reitor da Universidade de Coimbra defendeu um acompanhamento mais regular dos alunos, para prevenir a fraude. Porque já se encontraram dissertações de mestrado e de doutoramento plagiadas, Nuno Crato, por sua vez, afirmou ser impossível orientar, devidamente, uma dúzia ou mais de teses de mestrado ou de doutoramento. Concluiu ainda, com propriedade, que «quando se procura contribuir para a ciência, a fraude é mais difícil.»


Tomadas em devida conta, estas duas posições pedagógicas podem, na verdade, desencorajar o plágio. Contudo, tal implica trabalhar com menos alunos, o que, por razões orçamentais, é inviável ao nível de alguns cursos do 1.º ciclo do ensino superior. Por outro lado, obriga também a repensar a distribuição das orientações científicas, optimizando recursos humanos em prol da qualidade.


Para combater a fraude, a Universidade da Madeira, a exemplo de outras instituições congéneres, introduziu, este ano lectivo, o detector de plágios. Assim, os trabalhos, entregues no Gabinete de Apoio ao Estudante, serão certificados da detecção ou não de plágio e, de seguida, remetidos aos docentes.


O programa de detecção de plágios, consumados com materiais disponibilizados na Internet, ajudará, e muito, na correcção dos trabalhos. Contudo, os professores terão também em conta que o plagiador poderá servir-se de meios não electrónicos.


Constitui nossa tarefa combater o flagelo do plágio que ameaça infestar a Escola, com prejuízo da actividade científica. Com perspicácia, escreveu o professor Castanheira da Costa, reitor da Universidade da Madeira, no início deste ano lectivo: «Agir no sentido de garantirmos que este fenómeno é controlado na nossa Universidade é fundamental para o nosso bom nome e, sobretudo, para a qualidade e o prestígio dos nossos cursos.»


Não se julgue, no entanto, que o plágio é prática exclusiva dos alunos. Em 2003, foram amplamente divulgados dois plágios da bióloga, escritora e professora Clara Pinto Correia, na revista Visão. Escritores consagrados também foram acusados de plagiar, como Camilo José Cela, laureado com o Prémio Nobel da Literatura.


Em épocas mais antigas, o plágio não apresentava a gravidade actual. Muitas vezes, os escritores integravam textos anteriores nas suas obras, mencionando, quase sempre, a autoria, mas não distinguindo a obra trasladada dos acrescentos. Veja-se este exemplo, respeitante às primeiras crónicas insulares. No Livro Segundo das Saudades da Terra (1584), o micaelense, Gaspar Frutuoso (1522-1591), reproduziu o manuscrito que lhe enviou o cónego da Sé do Funchal, Jerónimo Dias Leite (c. 1536 – c. 1593), embora tivesse introduzido novos elementos. Todavia, o clérigo madeirense também teria copiado a narrativa de Gonçalo Aires Ferreira, acrescentando-a com outras notícias históricas.


Cópias e adaptações eram comuns nesse tempo. Hoje reprova-se o plágio, como prática deplorável que lesa direitos autorais e retira qualquer credibilidade científica a quem se serve, ilicitamente, de obra alheia.


Esta fraude não se limita, porém, ao irreflectido, preguiçoso ou espertalhão copiar e colar dos estudantes. Não se reduz à transcrição, com as mesmas palavras. Neste crime incorrem também aqueles que, com fina astúcia, fazem traduções literais de excertos de capítulos de livros ou artigos, disponíveis na Internet em línguas estrangeiras, e transcrevem-nas, nos seus artigos ou comunicações, sem itálico nem aspas, referenciando-os depois, na bibliografia, com outro formato ou suporte. A reprodução de uma tradução fiel, não devidamente assinalada, constitui, sem dúvida, crime de contrafacção, por apresentar como sendo seu, total ou parcialmente, o trabalho alheio.

 

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Setembro de 2009

Memória futura


Florbela Espanca (1894-1930), no último ano de vida, escreveu no seu diário: «que importa o que está para além?». A Literatura Portuguesa conferiu-lhe, porém, imortalidade, reconhecendo o valor da sua criação poética.


Contudo, há quem, ingenuamente, corra para reservar lugar na História. Outros, em momentos de perturbação, receiam o juízo dos historiadores. Por irrefreável necessidade de afirmação, medo ou vaidade excessiva, sempre alguns se preocuparam em criar para a posteridade um retrato virtuoso, bem diferente da realidade.


Ao contrário do que vulgarmente se pensa, não cabe à História julgar, mas compreender (não no sentido passivo), como nos ensinou Marc Bloch (1886-1944), que também sublinhou as características peculiares desta ciência dos homens e o facto de o historiador não ser alheio às paixões.


A construção da imagem a transmitir para a História, ainda obsessivamente cultivada, poderá ser feita com generosidade ou requintes perversos.


A generosidade é hoje mais significativa no domínio da ajuda aos mais necessitados e já não está tão associada ao sufrágio da alma ou à busca da salvação, como no passado. De facto, os verdadeiramente generosos não se movimentam por qualquer recompensa.


A edificação de igrejas, capelas e conventos, a instituição de ordens religiosas, vínculos, obras de beneficência e fundações, a elaboração de crónicas, livros de linhagens, biografias ou memórias perpetuam as personalidades intervenientes.


Todavia, o registo escrito poderá proporcionar a manipulação da informação. Quem conta, constrói o discurso à sua maneira, quase sempre sem preocupações de objectividade. Quem escreve sob encomenda, raramente ousa desagradar o patrono. Por vezes, as memórias constituem pretexto para auto-elogio ou deplorável ajuste de contas.


Esquecem, porém, os protagonistas de que há sempre elementos que lhes escapam e que o historiador, um dia, poderá dispor de fontes diversas para a sua análise.


Na construção da imagem futura, ocorrem, por vezes, gestos premeditados com consequências bastante graves. A limpeza ou a destruição de um arquivo, por exemplo, prejudicarão, de forma irremediável, a investigação. Contudo, só excepcionalmente a impedirão por completo. Quase sempre, há informação subsidiária em outros lugares, que o aniquilamento projectado não logrou apagar.


Além das acções destrutivas que, pelo aparato, saltam à vista, outras há que, sub-repticiamente, têm efeitos semelhantes. A ocultação de determinados assuntos, de resoluções e a forma e os resultados das respectivas votações em actas ou a deliberada inexistência destas, o branqueamento em alguns relatórios, a eliminação de documentação comprometedora nos arquivos correntes ou o silenciar de vozes dissonantes poderão servir essa ânsia de forjar uma imagem imaculada para consumo futuro.


A liberdade permite, sem dúvida, confrontar todas essas atitudes manipuladoras com realidades distintas. A imprensa e a blogosfera têm papel determinante no esclarecimento da opinião pública, na manifestação do contraditório e na denúncia do desrespeito pela legalidade e pelos princípios democráticos.


As publicações periódicas impressas assumem ainda papel privilegiado como fontes da História Contemporânea, apesar de os blogues serem mais arrojados ou contundentes nas suas análises ou comentários, porque não estão sujeitos às redes clientelares.


Na Madeira, desde 1876, é impossível fazer história sem o Diário de Notícias. Se para o passado esta é verdade inquestionável, mesmo havendo várias publicações periódicas em circulação, na actualidade muito mais se impõe o Diário para a formação de uma opinião pública plural e como fonte indelével para a compreensão do quotidiano da Região e do devir histórico.



Diário de Notícias, Funchal, 2 de Agosto de 2009

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