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1. Estes três tópicos sempre andaram juntos. A cama como via para o poder. A morte, implacável circunstância de renovação do poder ou de afirmação da liberdade.


Não constituem temas exclusivos do passado. A cama e o poder continuam bem apegados, ainda que em conúbio pós-modernista e sob protecção do incontestável direito à reserva da intimidade e da vida privada.


Basta uma leitura rápida dos blogues mais conhecidos para verificar a pertinência do tema no microcosmos insular. Ainda recentemente, a propósito do «caso S. Vicente», Bernardino da Purificação, no Terreiro da Luta, escreveu que, «na Madeira, há uma política de travesseiro que se sobrepõe à política institucional».


O conteúdo de alguns blogues poderá ser fruto da má-língua. Todavia, não devemos ignorar o papel crescente da blogosfera na opinião pública. Igualmente, não é de desprezar esta informação como fonte para a História, daí a importância de arquivá-la ou editá-la em suporte diverso.


2. A cama, o poder e a morte: rainhas e princesas da Europa do Renascimento ao Iluminismo é a mais recente publicação de Bartolomé Bennassar, reputado historiador e hispanista francês (Nîmes, 1929).


Na primeira década do século XXI, recrudesceu o interesse pelas biografias de rainhas e princesas, que tem originado diversos livros e filmes.


No entanto, a obra de Bennassar não se enquadra nessa linha de reconstituição de percursos de vida de altas figuras da aristocracia europeia. Procura, antes, analisar o papel desempenhado por algumas rainhas e princesas nas relações políticas da Europa Ocidental, pelo seu protagonismo ou, principalmente, pela sua importância nas negociações matrimoniais e subsequentes alianças políticas.


O livro tem como objectivo principal um capítulo da condição feminina na sociedade do Antigo Regime, que não se resume à vida faustosa na Corte, mas que explora atentamente os bastidores do poder. Salienta, ainda, o contributo de mais de cem mulheres de sangue real na construção da Europa, se bem que, quase sempre, se assemelhassem a «peões deslocados ao sabor de sucessivas combinações no tabuleiro da grande política» (p. 39).


Em idade núbil, jovens de sangue real ou descendentes da alta nobreza, com uma educação esmerada, entravam, não por sua vontade, no jogo diplomático e político da Europa, através de intrincadas negociações de casamentos que visavam garantir a sucessão das casas reinantes, a segurança entre as nações intervenientes, as uniões dinásticas ou a hegemonia de algumas Coroas. Não tinham o direito de recusar o pretendente útil, mesmo sob a justificação de aspirarem ingressar num convento, porque a razão de Estado tinha precedência sobre a vida consagrada a Deus.


Depois de casadas, quase sempre com menos de vinte anos, o destino imposto exigia-lhes muitos filhos para a sucessão ou para o estabelecimento de alianças estratégicas. Muitas morreram cedo, devido a sucessivas gravidezes e complicações periparto. Outras, porém, alcançaram considerável longevidade, apesar do assédio procriador.


Algumas, pelo seu temperamento, lograram desempenhar papel importante, político ou cultural, inclusive como mecenas. Outras só obtiveram a liberdade ou o poder com a morte dos maridos.


Neste particular, avulta a figura da rainha viúva, mãe do rei, muitas vezes chamada a exercer a regência na menoridade do herdeiro ao trono e demonstrando excelentes capacidades de governação.


Bartolomé Bennassar serve-se de uma linguagem muito expressiva e recorre, por vezes, a pormenores e episódios singulares do quotidiano palaciano, pouco utilizados na historiografia das Casas Reais. Dá-nos, assim, um retrato muito vivo de rainhas, princesas e arquiduquesas, entre a cama, o poder e a morte, chegando a lamentar o infortúnio de algumas: «Pouco se exageraria afirmando que, entre as mulheres dos séculos passados, rainhas e princesas se contam muitas vezes entre as vítimas mais dignas de dó.» (p. 39); «As pastoras decididamente tinham mais sorte.» (p. 251)

 

Diário de Notícias, Funchal, 5 de Julho de 2009

Em conversa recente, concluía-se que «tudo não passava de mera luta pela sobrevivência». A frase, fria e convincentemente pronunciada, impôs-se, de imediato, como mote para a crónica deste dia.


Como se sabe, a luta pela sobrevivência não se resume à satisfação de necessidades básicas. É, porém, certo que quase tudo passa por aí. No início dos tempos, o homem foi buscar à Natureza alimentos e instrumentos de que necessitava. Vivia o período da economia de recolecção. Mas, mesmo nessa época, a actividade humana não se restringiu à caça, pesca, recolha de frutos e ovos ou a outras necessidades fisiológicas. Houve também lugar para a arte e a espiritualidade. No Neolítico, começou o homem a dominar a Natureza, a cultivar e a domesticar, para garantir o seu próprio abastecimento em comida, procurando já armazenar grãos até novas colheitas.


Desde a Pré-História até à actualidade, assegurar o pão e as comodidades tem sido preocupação dominante.


No entanto, a sobrevivência, de que falávamos, era outra. Tratava-se de subsistir em termos de mando ou influência, e de todo o aparato que o culto do grude envolve.


A disputa democrática do poder constitui inquestionável manifestação de cidadania. Já a alternância partidária corresponde a um estádio dos regimes democráticos, onde à oposição são reconhecidos, através do sufrágio, o mérito do seu programa e o trabalho em prol da sua afirmação como alternativa.


Contudo, no terreno, proliferam, com frequência, clientelas poderosas, expectativas e laços que condicionam a liberdade e a opção de alguns cidadãos, como é humano e natural, preocupados com o seu futuro.


O mote da sobrevivência, assaz invocado e, já pelo fim, envolvido, em saudável ironia, na aludida conversa, dizia respeito ao quotidiano dos pequenos grupos que, tendencial e perniciosamente, se transformam em «capelinhas», sem orago reconhecido fora do adro, mas com tementes fiéis e farsas ensaiadas de véspera e representadas, em dia aprazado, com acabrunhante despudor.


Por desgraça, «capelinhas» destas abundam. Com elas, o interesse superior fica sempre ameaçado. A sua actuação discreta, mas corrosiva, engenhosa, mas intolerável, delicada, mas perversa, envernizada mas imunda, tudo numa lógica febril de relações de poder, vai minando os alicerces das instituições, dificultando reformas necessárias e obstruindo prementes inovações.


Há que permanecer atento a essas manobras de sobrevivência no poder, em especial por parte dos «sacristães de capela», e conservar a verticalidade e a forte motivação para um trabalho honesto e persistente, mesmo quando o insulto é uma arma, a demagogia uma especialidade e a sede de vingança a crónica histeria.


Sobretudo importante é cultivar a serenidade e a esperança, não recear, porque, afinal, ninguém sobrevive à morte.


Por outro lado, convém não esquecer o grande ensinamento do Padre António Vieira, de que sempre me socorro, e com ele termino, por uma questão de sobrevivência: «Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta.» (Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, na Capela Real, 1649, § III)


Diário de Notícias, Funchal, 7 de Junho de 2009

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Foi, finalmente, editado um CD que recupera gravações de Lomelino Silva, realizadas em 1926. Com enorme satisfação, registamos esta iniciativa, apresentada, publicamente, na cidade do Funchal a 30 de Maio de 2009, não somente por nos permitir ouvir a voz do tenor madeirense, mas também porque, desde 1993, temos vindo a sugerir esta edição discográfica nos meios oficiais e através das páginas do Diário de Notícias.


A 20 de Janeiro de 1993, escrevemos:


«Integrou famosas companhias de ópera internacionais e gravou para His Master’s Voice. Será possível recuperar as suas gravações para a edição de um CD alusivo ao 1.º centenário do seu nascimento? Antevejo (sonho) esse lançamento no Teatro Municipal, envolvido por uma exposição evocativa de Lomelino Silva.»


No mesmo períódico, a 17 de Junho de 2001, nas vésperas de uma homenagem pública promovida pela Direcção Regional dos Assuntos Culturais, do Governo Regional da Madeira, voltámos a apelar para a edição de um CD do cantor lírico madeirense. É esse artigo que, de seguida, reproduzimos.

 

Uma voz de ouro: Lomelino Silva

 


Tenor de reputação internacional, Nuno Estêvão Lomelino Silva foi, sem dúvida, o madeirense mais conhecido em todo o mundo, no segundo quartel do século XX. Muito provavelmente, será também o madeirense que mais aplausos recebeu na centúria de Novecentos. Nos Estados Unidos da América, chamaram-no «o Caruso português»; no Brasil, «o rouxinol madeirense».


Em diversos países, a imprensa relevou as singulares características da sua melodiosa voz e reconheceu o seu enorme talento. Mário Moreau na obra Cantores de ópera portugueses (Lisboa, 1984, 2.º vol.) dedicou-lhe 56 páginas, transcrevendo algumas das críticas que jornais de todo o mundo dirigiram ao mais conhecido tenor português. O New York Herald Tribune, por exemplo, afirmou que Lomelino Silva cantava «com a garganta livre, com um timbre inesgotável e um sentimento enorme».


Na imprensa funchalense, colhe-se também abundante documentação sobre o famoso tenor, em especial no Diário de Notícias, O Jornal, Comércio do Funchal e Eco do Funchal, principalmente por ocasião dos seus espectáculos na capital madeirense.


Lomelino Silva, nasceu à Rua das Maravilhas, no sítio da Cruz do Carvalho, em 26 de Dezembro de 1892, sendo filho de Guilherme Augusto da Silva e de D. Helena Lomelino da Silva. Baptizou-se na Igreja de S. Pedro da cidade do Funchal aos 22 de Janeiro de 1893. Morreu em Lisboa, a 11 de Novembro de 1967.


Estreou-se na Madeira em 1916, no Teatro Municipal do Funchal, na altura denominado Dr. Manuel de Arriaga. Cantou, então, a opereta Primeiros afectos, cuja letra é da autoria de Alberto Artur Sarmento. Na oportunidade, convém referir que em 24 de Maio de 1933, no Teatro-Circo, Lomelino Silva voltou a cantar versos de Alberto Artur Sarmento. Desta vez, e em primeira audição, Saudades da Terra, uma canção com música do grande maestro e compositor Francisco de Lacerda.


Estudou em Lisboa e em Itália. Neste país, foi discípulo de Giovanni Laura e Ercole Pizzi. A sua carreira artística, como cantor de ópera, iniciou-se em Milão em 29 de Dezembro de 1921, onde alcançou assinalável êxito no Rigoletto, de Verdi. Em Fevereiro seguinte, apresentou-se na ópera La Bohème, de Puccini.


Lomelino Silva considerava 1921 e Milão como o início da sua carreira artística. Em 1946, comemorou no Funchal as suas bodas de prata com um recital de canto no Teatro Baltasar Dias.


Os primeiros sucessos em Milão proporcionaram-lhe, de imediato, projecção internacional, tendo actuado em vários países, por todo o mundo, nas décadas de vinte, trinta e quarenta do século XX. Para além de Portugal e Itália, cantou na Holanda, Brasil, Inglaterra, Estados Unidos da América, Havai, Japão, China, Macau, Hong-Kong, Filipinas, Singapura, Índia, África do Sul, Moçambique, Trindade, Guianas, Venezuela, Curaçao, Colômbia, Cuba, Panamá, Espanha, Marrocos. Aliás, actuou mais no estrangeiro do que em Portugal, porque no nosso país realizavam-se poucos concertos.


Cantou também, por diversas vezes, no Teatro Municipal do Funchal depois da sua consagração internacional. Sem pretensão de lista exaustiva, referimos espectáculos em 1921, 1925, 1926, 1928, 1933, 1939, 1943, 1944 e 1946. O número de actuações no Funchal revela bem a afeição que tinha com a sua família e a terra natal.


A propósito, registe-se o que afirmou Lomelino Silva numa entrevista publicada neste Diário em 21 de Novembro de 1943:


«Gostei de ver a minha terra e isto faz-me recordar que, da última vez que passei em Nova York, um amigo levou-me a um museu de pintura, onde encontrei um quadro com esta legenda: ‘Uma visão do paraíso’. Era apenas uma pérgola vulgaríssima, tendo ao fundo um pedaço de céu azul. E eu lembrei-me da nossa terra, onde esses cantos de paraíso se vêem por toda a parte, tendo quase cada pessoa um no seu quintal, para uso e regalo próprio… O facto de ter viajado muito […] tornou-me cada vez mais orgulhoso da minha linda terra.»


Em 1926, gravou para a His Master’s Voice composições de Verdi, Sarti, Tomás de Lima (com este compositor, também pianista de renome, Lomelino Silva apresentou-se no Funchal, em Outubro-­Novembro de 1928, e no Brasil), Fernando Moutinho, Coutinho de Oliveira, António Menano, Alfredo Keil e Rui Coelho. Seria importante recuperar estas gravações num CD, tal como se fez para Edmundo de Bettencourt.


Do seu vasto repertório, destacam-se o Rigoletto, La Bohème, Mefistófeles, Tosca, Fausto, O Barbeiro de Sevilha, La Traviata… Todavia, Lomelino Silva também incluía nos seus espectáculos canções portuguesas bastante conhecidas.


De registar ainda o facto de, em 1937, o actor de cinema Edward Everett Horton, grande admirador de Lomelino, ter inaugurado, na sua casa em Hollywood, um teatro com 400 lugares denominado Da Silva’s Musical Gallery, em homenagem ao tenor madeirense.


Depois de uma brilhante carreira internacional, Lomelino Silva despediu-se dos palcos em 6 de Fevereiro de 1949, no Cinema Tivoli, em Lisboa.


A primeira homenagem ao tenor madeirense ocorreu em 14 de Setembro de 1925, promovida pelo Club Sport Marítimo, na presidência de Travassos Lopes. Foi então organizado um concerto no Teatro Municipal do Funchal e descerrada, no Salão Nobre, uma lápide com o seu nome e a data da sua consagração no Funchal, tendo Álvaro Reis Gomes, membro da direcção do clube do Almirante Reis, saudado o homenageado.


Passados oitenta anos sobre o início da carreira artística de Lomelino Silva, uma lápide no local onde nasceu e um concerto no Teatro Baltasar Dias, no próximo dia 22, servirão para avivar a memória de um grande tenor que, pelos quatro cantos do mundo, granjeou admiração e muitos aplausos.


Bem a propósito, afirmou Carlos M. Santos em O Jornal de 25 de Março de 1946:


«Estampado nos cartazes o seu nome português, que nunca modificou, apesar de fortes insistências e razões, Lomelino Silva apregoou por essas terras além o nome de Portugal, bem como o do torrão que lhe foi berço, honrando-se sempre em se declarar português, sem se esquecer de falar do seu país e de o colocar no melhor conceito dos seus ouvintes.»


Em 20 de Janeiro de 1993 e 1 de Janeiro do ano seguinte, neste Diário, propusemos uma ampla homenagem a Lomelino Silva. Em parte, será realizada no próximo dia 22 de Junho. Contudo, esperamos ainda que se venha a concretizar o CD com as suas gravações de 1926, e que o seu nome seja dado a uma rua do Funchal. Ficaria, assim, perpetuado nesta cidade o nome de um dos madeirenses mais famosos do século XX.

 

Diário de Notícias, Funchal, 17 de Junho de 2001

 

Outros artigos da minha autoria no Diário de Notícias com referências a Lomelino Silva:


«A propósito de um centenário», Diário de Notícias, Funchal, 20 de Janeiro de 1993.


«Nomes de ruas», Diário de Notícias, Funchal, 31 de Julho de 1993.


«Uma prenda adiada: a homenagem a Lomelino Silva», Diário de Notícias, Funchal, 1 de Janeiro de 1994.

 


O Cemitério dos Judeus, da cidade do Funchal, continua num deplorável estado de conservação, apesar de ser um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira. A esta situação nos referimos em 2004 e 2007. Contudo, até hoje, nada se fez para recuperar o «chão sagrado» dos judeus que foram sepultados na ilha da Madeira, nos séculos XIX e XX.


Qualquer investimento nesta zona deveria respeitar a memória do lugar.


A comprovar o abandono a que foi votado o velho cemitério judaico e as implicações deste bem cultural no investimento imobiliário projectado para o Toco, transcrevemos aqui, com a devida vénia, o artigo publicado no Diário de Notícias, Funchal, 27 de Maio de 2009, p. 19, da autoria do jornalista Francisco José Cardoso:

 

Lei judaica proíbe mudar o local dos cemitérios


Embaixador de Israel está cá e é recebido hoje por Jardim. Processo encalha ‘Toco’


O embaixador do Estado de Israel em Lisboa defende a construção de um muro de suporte para o cemitério judaico existente na zona do Lazareto, em Santa Maria Maior. A posição de Ehud Gol, no cargo há quase cinco meses e de visita pela primeira vez à Madeira, é aliás, parecida com a do seu antecessor quando se colocou, em 2003, a hipótese de trasladação dos corpos para o cemitério de São Martinho.


Este deverá ser um dos pontos de destaque das reuniões que o diplomata tem realizado desde segunda-feira com entidades e autoridades regionais, a culminar hoje com uma recepção de Alberto João Jardim na Quinta Vigia. Em declarações exclusivas ao DIÁRIO, Ehud Gol lembrou que a religião que professa impede a mudança de local dos cemitérios e, por consequência, é muito complicado fazer trasladações dos corpos como pretende a Câmara do Funchal, com apoio do Governo Regional.


Para tomar melhor conhecimento do estado deste cemitério, datado do século XIX e em completo abandono, o diplomata israelita deslocou-se ontem ao local. Acompanhado por um cidadão do seu país a viver na Madeira, Ehud Gol pôde constatar que a degradação da infra-estrutura requer uma solução que tarda.


“Estou ciente do problema, com algumas das sepulturas à beira da falésia e o seu estado é muito mau”, começou por referir. Sabe, na nossa religião não se podem remover cemitérios, uma situação que podia ser resolvida mais facilmente com a construção de um muro de suporte que proteja as sepulturas que estão em perigo de cair ao mar”, afirmou.


Ehud Gol lembrou ainda o anterior embaixador em Lisboa, Shmuel Tevet, que esteve também na Madeira (em 2003), altura em que se levantou a possibilidade de vir de Israel uma delegação que viesse encontrar uma solução em conjunto com as autoridades regionais.


“Vamos tentar encontrar uma solução melhor que a mudança do cemitério”, afirma. “É claro que gostaríamos de ter uma solução que mantivesse o espaço com a dignidade e de acordo com a lei judaica e local”, reafirma, garantindo sempre que as autoridades madeirenses devem ter sempre papel crucial nesta matéria.


Em tom diplomático, Ehud Gol lembra que há outros temas que podem trazer bons frutos para a Madeira e que pretende apresentar às autoridades e entidades públicas e privadas com quem tem mantido reuniões. “O Turismo é o assunto principal”, exemplificou. “A Madeira tem grandes paisagens, uma ilha fantástica e até tem um Casino, que pode ser atractivo”, concluiu.


O certo é que, caso se mantenha esta ideia de manter o cemitério no Lazareto, este é mais um impedimento que o projecto privado calculado em 390 milhões de euros vá para o terreno.


Tradição a respeitar


O caso já se prolonga há alguns anos e ficou ainda mais conhecido quando foi anunciado um projecto de ‘frente-mar’ para toda a zona leste do Funchal, e que implicaria uma mudança de local do cemitério judaico. Já se falou em transformar o local em atracção turística, dada a sua localização e interesse histórico, mas o mais importante em todo este processo será o respeito por uma cultura que, em séculos passados, teve o seu papel no desenvolvimento socioeconómico da Madeira.

 

Colóquio Internacional

 

A História da Imprensa e a Imprensa na História: o contributo dos Açores

 

Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 28 a 30 de Maio de 2009

 

 

«A educação da mulher segundo a imprensa madeirense: de meados de Oitocentos ao início do século XX»

 Nelson Veríssimo

(Universidade da Madeira)

 

RESUMO

 

Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas para ambos os sexos em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.

Contudo, só na década de 1840 se verificou a propagação da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.

O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino e pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.

A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser esta pouco significativa face ao número de crianças recenseadas. Colaborou também com as autoridades na difusão da informação oficial e deu voz aos anseios das populações na instituição de novos estabelecimentos de ensino.

Por vezes, crítica em relação ao rumo da educação para o sexo feminino, outras bem mais avançada do que as práticas vigentes, a imprensa revela-se, indiscutivelmente, uma fonte fundamental para o estudo deste interessante capítulo da História da Educação.

 

Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009

Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009


Martina Emonts acaba de publicar, na Alemanha, a sua dissertação de doutoramento. Com a chancela da prestigiada Königshausen & Neumann, editora especializada em Ciências da Cultura, de Würzburg, Mechtilde Lichnowsky – Sprachlust und Sprachkritik (Mechtilde Lichnowsky – o prazer e a crítica da linguagem) constitui mais um importante contributo para a internacionalização da Universidade da Madeira. Trata-se de investigação desenvolvida na UMa, agora disponível no mercado livreiro.

É o primeiro estudo de grande fôlego sobre Mechtilde Lichnowsky (1879-1958), escritora que, em vida, publicou dezoito livros. Para além da escrita (poesia, romance, novela, ensaio, reflexão filosófica – é difícil enquadrar a sua produção literária na nomenclatura tradicional), dedicou-se à música, fotografia, desenho, escultura e caricatura. Era uma mulher de grande sensibilidade e lucidez, que prezou o amor e o humor. A linguagem, o género e a arte são temas recorrentes na sua obra. Assumiu também atitudes pedagógicas a respeito do comportamento e da linguagem, norteada por princípios de bom gosto, de coerência e de recusa de qualquer forma de opressão.

Apesar da vasta obra editada, da admiração que granjeou em vida, em particular de Karl Kraus, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Theodor W. Adorno, dos seus ideais democráticos e dos círculos que frequentou, Mechtilde Lichnowsky, nos dias de hoje, é uma escritora pouco conhecida, insuficientemente estudada e fora do cânone de expressão alemã.

Foi, exactamente, esta constatação que motivou a investigação de Martina Emonts. Sobre a escritora havia encontrado breve referência, uma única linha numa História da Literatura, e que se resumia ao seguinte: «Mechtilde Lichnowsky tem uma maneira invulgar de descrever figuras femininas».

É conhecido o interesse de Martina Emonts sobre as questões do género. Recorde-se que a sua dissertação de mestrado – Onde há galo não canta galinha: discursos femininos, feministas e transgressivos nos anos vinte em Portugal. O caso do suplemento literário e ilustrado de A Batalha (1923-1927) – foi galardoada com o prémio Mulher Investigação – Carolina Michaëlis de Vasconcelos, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, em 2001.

Martina Emonts desenvolveu a sua investigação em arquivos e bibliotecas alemães, checos, americanos, austríacos e suíços, tendo a felicidade de descobrir e identificar documentos inéditos ou que se julgavam desaparecidos. Em resultado destas pesquisas, novos elementos nos são revelados sobre a obra de Mechtilde Lichnowsky e outra perspectiva nos é apresentada sobre a Europa do seu tempo, que não somente influenciou a escritora, mas também beneficiou dos seus contributos.

Mechtilde Lichnowsky dedicou grande atenção à linguagem, imprescindível na observação de uma pessoa ou uma sociedade. Daí a sua atenção à análise do discurso. Exemplo disso é o seu estudo, por razões óbvias não publicado, sobre o Mein Kampf (A minha luta), de Adolf Hitler. Mechtilde concluiu, pela linguagem, que H. (a escritora recusou sempre escrever ou pronunciar o seu nome, e a ele se referia apenas por esta inicial) era um homem perturbado.

Outro aspecto interessante diz respeito ao que Mechtilde Lichnowsky pensava sobre os especialistas e que ficou bem expresso em Der Kampf mit dem Fachmann (A luta com o especialista), de 1924, livro muito apreciado por T. W. Adorno. A escritora, através de múltiplos exemplos, ilustrou o quanto pretensos especialistas proferiam tretas, simplesmente, por não reflectirem sobre o uso da sua própria linguagem.

Mechtilde Lichnowsky tinha uma avó portuguesa – D. Matilde Lobo da Silveira, condessa de Oriola (1827-1889) –, a quem atribuía a sua veia literária e dedicava profunda admiração. Contudo, as obras da escritora alemã nunca foram editadas em Portugal. E durante a sua vida, compreende-se bem porquê – a autora fora vítima do bibliocausto nazi.

O livro de Martina Emonts contribuirá para a reabilitação da memória de Mechtilde Lichnowsky na História da Literatura e Cultura de expressão alemã e para a sua integração no cânone estabelecido.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Maio de 2009



O filósofo francês Georges Gusdorf (1912-2000) sublinhou a necessidade da existência de «especialistas da não especialidade», ou seja, de homens e mulheres de cultura científica e humanística que vissem para além do ramo estreito que estudaram.


Esta afirmação, associada a outras teses suas sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, vem sugerir a premência da abertura de pensamento para o «campo unitário da cultura». Não se trata somente de reunir especialistas de diferentes ramos do saber («interdisciplinaridade por justaposição ou por adição», segundo Gusdorf), mas antes procurar o saber universal. Daqui decorre nova forma de conhecimento. Uma cosmovisão totalizadora e unificadora. Um espírito científico aberto ao diálogo.


Em síntese, Gusdorf, neste particular, preconizava a «educação do sentido interdisciplinar», partindo do princípio que inúmeras especialidades fragmentavam o conhecimento e faziam desaparecer o sentido da unidade humana.

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Logo, o professor deveria ser um «revelador da totalidade», proposta pedagógica que implicava profunda reformulação das mentalidades e consciência da unidade do saber.


Com efeito, as divisões do campo científico são traçadas com linhas artificiais. Existem apenas pela necessidade de sistematizar, tendo em vista pesquisa e conhecimento mais aperfeiçoados de determinados ramos do saber.


No entanto, se as delimitações de diferentes campos têm-se revelado, na sua maioria, úteis e fundamentais ao progresso científico, já os muros que, estupidamente, alguns criam à volta de uma determinada área, cerrando barreiras como se a «sua ciência» fosse um compartimento estanque, constituem desastrados empecilhos à cooperação, à inovação e à compreensão da totalidade, tão cara à filosofia e tão importante para a ciência contemporânea.


Esses nichos, que proliferam em alguns meios académicos, não se coadunam com um verdadeiro espírito universitário. Geram separações que dificultam o trabalho em comum, prioritário na instituição.


Quem estudou História facilmente tem consciência do todo que constitui o passado do Homem. O historiador tem, obrigatoriamente, de praticar a interdisciplinaridade, para compreender e explicar as vivências sociais.


Em História, constitui prática constante o intercâmbio com várias ciências ou a colaboração recíproca. Vejamos um exemplo: como explicar os efeitos da Peste Negra, sem recorrer à medicina, à economia, à política, à demografia, à religião, à antropologia, sem entender as práticas agrícolas medievais, os fenómenos do banditismo, vagabundagem e mendicidade, a atracção das cidades ou os mecanismos tributários, por exemplo?


Por outro lado, o historiador consciente sabe perfeitamente que os territórios da sua arte podem constituir especialidades ou subespecialidades. Todavia, serão sempre partes de um todo, divisível apenas por abstracção. Falamos em História Económica, História Social, História Política ou História Cultural. Mas todas estas especialidades são História. Representam sofisticadas divisões para o desenvolvimento de uma investigação mais profícua.


A História da Educação é, naturalmente, História, pese embora a sua afirmação no âmbito académico das Ciências da Educação. Tem um campo de investigação delimitado. Estuda uma parcela da actividade humana – a educação. Contudo, tem, em devida conta, outros aspectos da vida do Homem em sociedade e as estruturas políticas, administrativas e económicas. Constitui, sem dúvida, uma disciplina da área da História, uma investigação sectorial da História. E se recusar a sua natureza, radicalmente histórica, perderá credibilidade científica.


Os historiadores da educação devem envolver-se em projectos com outras áreas da História e das demais Ciências Humanas e Sociais e não se fecharem no seu recanto. Devem integrar-se na comunidade científica dos historiadores e contribuir para a promoção daquilo que verdadeiramente os une: a História.


Diário de Notícias, Funchal, 5 de Abril de 2009

Cruz Filipe

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Para muitas gerações, o nome deste autor é sobejamente conhecido. Embora fossem quatro os autores de Leituras da IV Classe – da minha e de quantas, meu Deus! –, o livro aprovado oficialmente era, na verdade, denominado por Cruz Filipe. Dos outros co-autores – Manuel Subtil, Faria Artur e Gil Mendonça –, ninguém, inexplicavelmente, se lembrava. As ilustrações, da responsabilidade de Eduardo Romero, também não eram mencionadas.

Guardo, zelosamente, exemplares de 1952 (79.ª edição) e de 1962 (126.ª edição) da Livraria Sá da Costa Editora. A 1.ª edição é de 1931.

Este livro de leitura é composto de textos de autores diversos, de quadros históricos, máximas, alguns exercícios, uma breve síntese de regras ortográficas e uma pequena lista de vocabulário.

Alguns autores consagrados da nossa literatura são incluídos na parte final e deles foram esboçados curtos traços biográficos, que acompanham excertos da sua obra. Camões, António Vieira, Manuel Bernardes, Herculano, Garrett, Castilho, Tomás Ribeiro, Camilo, Júlio Dinis, João de Deus, Trindade Coelho, Eça e Augusto Gil são os vultos literários que constam desta antologia. Curiosa e propositadamente, não aparecem autores de livros para crianças ou adolescentes.

No Salazarismo não havia, com efeito, lugar para Maria Lamas, Mestre Aquilino, Sidónio Muralha ou Sophia de Melo Breyner, entre outros. Além da aversão a escritores democratas, o regime preconizava uma educação austera, sem espaço para a fantasia mágica da literatura infantil ou juvenil, como, por exemplo, de A Menina do Mar, editada, pela primeira vez, em 1957.

As máximas, na sua maioria de Castilho, no final de algumas páginas, só por si denotavam os valores dominantes do sistema educativo de então: «Na família, o chefe é o Pai: na escola, o chefe é o Mestre: no Estado, o chefe é o Governo.»; «No barulho ninguém se entende, é por isso que na Revolução ninguém se respeita.»; «Obedece e saberás mandar.»; «Se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida.»; «Mandar não é escravizar: é dirigir. Quanto mais fácil for a obediência, mais suave é o mando.»; «A tua Pátria é a mais linda de todas as Pátrias: merece todos os teus sacrifícios.»

Não é minha intenção analisar o modelo educacional dos anos do consulado salazarista, nestes Passos na Calçada. Mas as Leituras, à moda da época, vieram-me à lembrança, desgraçadamente, nos dias da Festa. Explico já porquê.

Na minha quase obsessão de recolher referências bibliográficas sobre a Madeira, encontrei na Biblioteca Nacional, há cerca de um mês, um opúsculo intitulado A Ilha da Madeira, pérola do oceano. A cidade do Funchal, jóia rotária. Trata-se da publicação da palestra realizada na sessão de 11 de Fevereiro de 1936, no Rotary Club de Lisboa, pelo Prof. Cruz Filipe. Associei-o, de imediato, com as Leituras da IV classe. Uma pesquisa posterior permitiu-me concluir que o co-autor do famigerado livro dos ditados e interrogatórios de interpretação e gramática escrevera sobre a Madeira.

Cruz Filipe (Manteigas, 1890-Lisboa, 1972) era professor da Casa Pia, em Lisboa, especialista no ensino de surdos-mudos, ortofonia e de deficientes mentais.

No fim do ano de 1935, reuniram-se, no Funchal, rotários de Tenerife, Suíça, Riga, Hamburgo, Porto e Lisboa.

O Prof. Cruz Filipe participou neste encontro comemorativo do segundo aniversário do Rotary Club do Funchal, como representante do clube de Lisboa. Chegou ao Funchal no Lima nas vésperas do Natal de 1935.

Na Madeira, os rotários participaram em diversas manifestações de solidariedade social: distribuição de roupas, brinquedos e bolos na creche de Santa Clara e no Lactário; de bengalas a cegos e berços e enxovais a doze crianças pobres.

Além de vários passeios pela ilha, reuniram-se em jantares no Hotel da Bela Vista, no Reid’s Palace e Savoy. Realizou-se também um baile de gala na Quinta Vigia.

A passagem de ano motivou uma festa rotária oferecida por Frederico de Freitas, primeiro presidente do clube funchalense, na sua residência. Vinhos, doces, música, dança e «uma gentileza fidalga» tornaram inesquecíveis essas provas de amabilidade nas primeiras horas de 1936, conforme narra Cruz Filipe em A Ilha da Madeira, pérola do oceano…

Nesta preciosidade bibliográfica, pode-se ainda colher interessante descrição da noite de S. Silvestre, no Funchal.

Depois de deslumbrado pela imensidade de luzes que serpenteavam as encostas, na ansiosa espera pela meia-noite, Cruz Filipe vê assim o espectáculo da passagem do ano:

De repente, um silvo, outro e outro, muitos sem fim e por entre aclamações frenéticas, estonteantes, sentimo-nos presos de tanta maravilha. É meia-noite em ponto.

O fogo-de-artifício começa a enfeitiçar aquele solene momento. Já ninguém pensa nas agruras do ano que morre. Também ninguém se detém a supor o que será o ano que começa, porque é tal o frenesi que de todos se apodera que tudo esquece, para só se admirar, em êxtase, o deslumbramento deste fogo em conjunto, com crateras chispando chamas de ouro, num clarão constante de prata reluzente; foguetes que lá no alto estalejam para deixarem cair chuvas de estrelas multicolores, bouquets formosos e estonteantes; uma infinita maravilha que nos obriga a fixar ora aqui, ora ali, cada vez mais lindos, fogos brilhantes, num entrelaçamento harmonioso, a resplandecerem nas águas quietas da baía, casando-se intensamente com as linhas iluminadas dos oito navios que silvavam na baía, como que anunciar ao mundo este espectáculo de encanto, único, inconfundível – a glória da Pérola do Oceano.

Passado mais de meio século sobre estas palavras, ainda o fim de ano na Madeira continua a ser momento mágico de majestosa e enternecedora glória da ilha.

Este texto de Cruz Filipe nada tem a ver com as Leituras da IV Classe, da sua co-autoria. Devo dizer que desconheço a sua quota-parte nesse livro e, hoje, deve ser impossível fazer essa destrinça.

Do livro aprovado oficialmente, creio, desde 1931, que pretendia fazer de nós todos «um Gonçalo» tocado pelo «santo orgulho» da «santa Pátria»: rapaz pontual, bondoso, aplicado, cortês, respeitador, modesto, sem pretensões, aluno exemplar, – «Rapazes! Vamos a ver / se sabemos imitá-lo!… / se podemos proceder / em tudo como o Gonçalo.» – não guardo memória de um único texto dos seus autores.

Até a prosa dos escritores, seleccionados pelo seu valor literário, foi escolhida para satisfazer os objectivos do Regime, em termos educacionais. Apenas escapa «A balada da neve», de Augusto Gil, pela sua musicalidade e intenso lirismo.

Acabei desencantado ao reler, trinta anos depois, o meu livro da quarta classe. Ao invés, as impressões de Cruz Filipe, sobre o Funchal de 1935, despertaram-me para estes Passos, maquinados no ano velho e guardados para «o varrer dos armários».

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 15 de Janeiro de 1995, p. 12

 

Chegava-se até lá facilmente, apesar de o sítio quase não se avistar do caminho. Qualquer pessoa das redondezas apontava a casa, indicava as melhores horas e o tempo provável de espera. Antes da vereda circundar alguns poios de terra cultivada, desciam-se cinquenta e sete degraus irregulares. Um alpendre, envolvido por uma vinha, acolhia-nos com frescura. Depois de um cumprimento quase a medo, correndo os olhos pelos que ali também esperavam, na ânsia de descobrir um conhecido, dizer «que fresquinho bom!» era a introdução habitual, em tempos de calor, para indagar se todos seriam recebidos ou até abrir caminho para confidenciar os motivos da ida àquele lugar, ainda que a justificação apresentada nem sempre coincidisse com a real.

A casa era antiga, modesta, de pedra aparelhada e coberta com telha de canudo. As paredes estavam caiadas de ocre, com uma barra cor de cinza. Os calhaus pequenos e redondos davam a volta à casa, formando aqui e ali irregulares desenhos geométricos. Esperava-se no alpendre, junto à porta da casa. Havia cadeiras e bancos de madeira encostados às paredes.

Para a porta convergiam os olhares, mal o trinco se desprendia. Levantava-se, de imediato, alguém, porque entendia ser chegada a sua vez. Nesse vaivém, agitava-se o ar e ouvia-se sempre uma voz rouca, bem forte, num alerta obsessivo, quase ritual, «O Santo e a Vizinha não se hão-de afundar». As pessoas calavam-se. Havia quem fechasse os olhos como a não querer ver a direcção da frase constantemente atirada para fora da porta, não sei se a empurrar os que tinham estado no interior da casa ou a saudar os que agora lá chegavam. Ninguém conhecia o significado exacto da profecia. Apesar de já se ter aventado estranha relação com as ilhas, todos temiam discussão lúcida sobre as repetidas palavras de Felismina.  

A sua fama corria a ilha e era muito consultada, até pelas autoridades, dizia-se. Todo o ofício tem a sua designação, mas o que esta mulher fazia não era, segundo ela própria, uma profissão. «É um serviço, e não importa o nome!», assim respondia quando lhe perguntavam. Insinuava-se que trabalhava com os anjos, seus filhos, e Felismina sorria levemente sem estranhar a curiosidade que despertava.

Não fosse um artigo publicado na imprensa, e poucos conheceriam o seu passado. Agora sabia-se que tivera sete filhos e todos haviam morrido com poucos anos de vida. Por esta razão, o marido partira, acusando-a de ter nascido para parir e não para criar. Embarcara para Angola. Mudara-se depois para a África do Sul, e nunca mais dele se soubera. A reportagem dava grande relevância aos «poderes» de Felismina, mas a jornalista não fora autorizada a publicar a sua fotografia.

Felismina não consentira, lembrando que há alguns anos fora levada à PIDE, na Rua da Carreira, para interrogatório. Estivera em apuros, um ror de suspeitas e questões que respondera com dificuldade, não só pelo seu teor, mas também por não estar habituada a que lhe fizessem perguntas com tão desmesurada insistência. Repetidas vezes invocara o facto de não saber ler nem escrever, para se esquivar ao interrogatório. Porém, os agentes não desistiam. Pretendiam saber por que razão Felismina havia afirmado a um militar, mobilizado para a Guiné, que a guerra estava quase a terminar e que, se ele tivesse juízo, não deveria partir. O cabo partilhou esta novidade com alguns amigos, e passado algum tempo todo o seu batalhão ficou a saber. A PIDE também foi informada e logo tratou de interrogá-la. O caso acabou arquivado com a ajuda de pessoa influente. Todavia, recebera algumas ameaças e até à Revolução praticou muito discretamente o seu serviço.

A jornalista tratou-a quase como uma heroína e a curiosidade sobre Felismina aumentou após a publicação da reportagem.

A ilha abrigava medos e ansiedades ancestrais, num diálogo surdo entre as montanhas e o mar. Lendas, superstições e rituais estranhos não eram somente cultivados entre o povo. Havia outras Felisminas, mas esta conquistara a cidade. Ela raramente saía de casa, mas quem governava pedia-lhe conselho.

 Para Felismina havia dois tipos de pessoas, os que vinham pelo dia e esperavam horas no seu alpendre e os outros, em hora marcada, quase sempre à noite. Só muito excepcionalmente aceitava deslocar-se a casa de quem pretendia consultá-la. A todos atendia de igual forma, até na confidencialidade, apesar de os da noite insistirem muito no sigilo, e para reforçarem esse pedido deixavam lembrança maior na caixa da sua sobrevivência.

Foi à noite que conheceu a mulher do governador. Não lhe tinha ainda perguntado o nome e a data do nascimento, como era habitual, e já se apercebera da condição de quem estava à sua frente. Não era pelo perfume. Na sua sala reinava o cheiro do seu ofício, sete velas a arder serenamente e, numa concha de latão sobre brasas incandescentes, incenso bastante, mirra, alecrim e outras ervas recolhidas em noites bentas. A senhora elegante, sentada num banco de madeira, com olhar temeroso percorria a sala, fixando-se nas estampas emolduradas que cobriam as paredes. Naquele ambiente de fraca luz, apenas conseguira ler «D. Sebastião» numa das gravuras. No entanto, não podia confirmar com a amiga que consigo viera, por ela ter sido impedida de entrar. Felismina revelou-lhe algumas verdades e aconselhou-a com sabedoria. Foi esta senhora quem a livrou da PIDE, conforme confessara à jornalista, sem mais nada revelar. Felismina fizera-lhe chegar a informação do que estava passando e, logo no dia seguinte, acabou-se o interrogatório.

 

O encanto da cidade estava na vizinhança com o mar. O cais era lugar privilegiado do entardecer soalheiro. Passeava-se ali, deixando a ilha para trás. Retornava-se a ela depois, sem nunca dela se sair. Parecia que entrávamos pelo mar, com os pés em terra.

Em meados de Novembro de 1975, o ambiente do cais tinha-se alterado. As conversas, junto das varandas, eram também diferentes. Algumas traineiras vindas de Benguela estavam ancoradas do lado esquerdo do cais. Traziam mazelas da viagem. As cores das listras do casco mal se distinguiam, assim cobertas por borrões de manchas ferruginosas. Ainda se distinguiam os seus nomes, Rainha Santa, Sãozinha, Santíssima Trindade, Caniçal e outros mais, nomes de devoção, de namoradas, da terra natal, e até do proprietário, Calafatinho, que embora parecesse alcunha, não o era. A bordo, algumas mulheres, crianças, poucos homens e um macaco travesso, amarrado por uma corda ao mastro principal.

Das traineiras olhava-se o cais e interrogava-se a ilha. Do varandim sentia-se o desmoronar do Império, perante o angustiado regresso. Deixaram casas, automóveis e tantos outros bens. Contudo, poderiam voltar à faina.

No cais também estavam muitos dos que haviam regressado de avião. Descobriam-se amigos, contavam-se amarguras, antecipava-se o futuro. Não se escutava resignação. A cidade tornara-se mais pequena, com mais gente, rostos queimados pelo sol, deambulando pelas ruas…

Edifícios degradados e com demolição anunciada e casas há anos desocupadas enchiam-se agora de refugiados. As autoridades municipais fechavam os olhos diante das ocupações. As pensões do centro da cidade estavam cheias. Nas varandas estendia-se roupa, e ao fim da tarde viam-se caras estranhas que gostavam de fixar o horizonte.

No cais também se falava do horizonte, enquanto as lagartixas corriam sobre os calhaus mais afastados das arremetidas da maré. Retornava-se a casas e fazendas distantes, entre aventuras e muito trabalho. Cada um fazia por contar proezas invulgares, como se tal lhes conferisse valor, riqueza ou admiração numa atmosfera onde as hierarquias de anos se tinham transformado em destino comum ante a incerteza do regresso.

Ao fim da tarde, o cais concitava novas atenções. Dali transmitia em directo uma estação de rádio, num programa conduzido por uma jornalista recém-regressada de Moçambique. Era o «Entardecer», quase, na totalidade, preenchido com intervenções do exterior. Em tempo mais propício à difusão da palavra do que de música, este programa alcançava considerável nível de audiência. Tratava-se de uma crónica da cidade, com imagens vivas do quotidiano.

A 22 de Novembro, o «Entardecer» foi dedicado às traineiras vindas de Benguela. A jornalista conhecia bem a temática dos refugiados. Durante quase uma hora sucederam-se entrevistas sobre a problemática viagem.

Felismina ligava sempre o seu aparelho de telefonia na sua hora de repouso, antes da preparação do jantar. Atirava-se para uma cadeira junto da janela, e ficava-se a olhar as serras do Estreito e o Cabo Girão. Bebia aos goles a sua infusão de hortelã-pimenta e, por vezes, deliciava-se com duas ou três bolachas Maria, retiradas pausadamente de uma antiga caixa de chocolates. De vez em quando, molhava a bolacha no chá, saboreando-a, enquanto parecia descortinar alguém distante através da vidraça.

O regresso daquela gente de Angola, em barcos de pesca, deixou-a pensativa. Veio-lhe depois uma enorme angústia. Já não conseguiu jantar. Também não atendeu ninguém nessa noite. Nem conseguiu dormir, tão perturbada se mostrava.

Manhã cedo, espreitou pelo tapa-sol a passagem, pela sua porta, do Remígio, motorista de táxi que habitualmente àquela hora se dirigia para a estrada, onde, resguardado pelo lampião, costumava deixar o seu Mercedes.

Felismina decidira ir ver o que se passava na cidade. Nada como se certificar do que ouvira pela rádio. Se o regresso das traineiras fosse real, então aproximava-se o fim, e entregue a estes pensamentos entrou no automóvel.

Remígio estranhou o procedimento de Felismina e, apesar da sua prática em meter conversa com os passageiros, nada conseguia arrancar da sua vizinha. Acabou por se calar, julgando que ela já lhe adivinhava os segredos muito bem guardados na sua viatura. Mas qual nada, ela apenas ia remoendo as histórias do último «Entardecer», enquanto o percurso parecia maior do que habitualmente.

Até ao centro do Funchal foram só quinze minutos. Eram agora 6:15 h na torre da Sé. Com a lua cheia, as Desertas, entre a escuridão, pareciam mais próximas. O luar abatia-se pela baía e as traineiras mal iluminadas recortavam o amanhecer.

Felismina aproximou-se da varanda do cais com um olhar penetrante e misterioso. Fixava os barcos de pesca, mas parecia não estar ali. Depois foi esquadrinhando o mar raiado pela lua e já via no espelho de água outros regressos. D. Sebastião voltaria numa manhã de nevoeiro e, acercando-se da ilha, logo desenterraria a sua espada, há muitos anos guardada no Ilhéu da Cruz.

Naquela manhã não havia neblina, e os regressos que sobre a água se desenhavam eram de gente simples. Mas ela temia pela ilha que, tendo emergido das profundezas do oceano, ao fundo não poderia regressar. A não ser que tudo fosse mentira e a espada do malogrado rei lá não estivesse.

Pela proa do Santo António já algumas pessoas se movimentavam. Felismina avistava-as, pensando na mãe e na espada que desferira golpes violentos em Alcácer-Quibir. A mãe, a avó e outros vultos, que não conseguia identificar, segredavam-lhe insistentemente que, se a espada fosse retirada da rocha, onde havia sido escondida, as águas subiriam até às escadas da Senhora do Monte, antes da ilha regressar às entranhas da terra.

Felismina calcorreava agora por sítios que parecia mal conhecer e, entre o repetido «santo e a vizinha», balbuciava palavras aparentemente sem sentido. A sua perturbada pressa despertava a curiosidade dos transeuntes. Depois de cerca duas horas de tão estranha caminhada, sentava-se finalmente no miradouro, mas parecia não ver a cidade nem o porto. O mar visto daquela altura parecia calmo. Ela continuava a falar do «santo e da vizinha», da espada de D. Sebastião e da água a beijar os pés da Senhora do Monte.

Até o dia de ontem, sempre se convencera de que a lenda, que da sua mãe vezes sem conta havia escutado, era mesmo lenda. Para reforçar essa ideia apregoava aos que a visitavam que «O Santo e a Vizinha nunca se haveriam de afundar». No entanto, depois de ter observado as traineiras e de saber do regresso de tanta gente, a confusão hospedara-se na sua mente. Ouvia aproximarem-se os exércitos reais, escutava os passos dos soldados e o galope dos cavalos. Ergueu-se, então, e, com dificuldade, trepou para o varandim do miradouro. Lá em baixo, o mar parecia chamá-la. Sentia o choro dos filhos junto ao calhau. Queria juntar-se a eles. Mas as proeminências rochosas assustavam-na.

Nesses momentos de hesitação, sentiu uma mão forte, segurando-a. Remígio, entre perguntas e alertas, logo a fez descer. Felismina explicou-lhe que os exércitos e o rei estavam a chegar. Remígio cortou-lhe a palavra, lembrando-lhe de que, nesse dia, não havia nevoeiro. Com determinação, levou-a para o carro. Depois de se certificar de que as portas estavam bem fechadas, pediu desculpas ao casal, que ali conduzira para observar a paisagem, por ter de interromper o percurso. Num inglês aceitável, disse-lhes que observassem tranquilamente a paisagem, porque dentro de meia hora lá estaria para continuar a excursão.

     

Revista Girão, Câmara de Lobos – Madeira, vol. II, n.º 1, 2005, pp. 29-32; traduzido para italiano e publicado com o título «Il santo e la vicina», in FOURNIER, António (a cura di), Nostalgia dei Giorni Atlantici, Asti: Scritturapura Editore, 2005, pp. 207-213.

 

 

 


O Dia Internacional da Mulher tem a sua origem nos movimentos socialistas do início do século passado, associados à luta pelo direito de voto da mulher, ao reconhecimento da sua dignidade e à prerrogativa de participar activamente na construção de uma sociedade mais justa.

 

Habitualmente, o 8 de Março aparece relacionado com suposto episódio dramático, que a pesquisa histórica não legitima. Independentemente dos fundamentos da data, importa, todavia, referir que, desde 1909, se começou a festejar, nos EUA, o Woman´s Day e, posteriormente, em diversos países da Europa, de início sem data fixa. Pretendia-se, com esse dia, consciencializar a mulher para o valor da sua pessoa e do seu papel na sociedade. Simultaneamente, procurava-se suplantar tradicionais preconceitos e discriminações absurdas.

 

Sem menosprezar os ideais socialistas, as lutas operárias e os movimentos sufragistas, entendemos que a valorização da mulher, como pessoa e como cidadã, está também intimamente associada à educação e à revolução sexual.

 

O acesso da mulher à escola, em particular à instrução pública, inicia-se no século XIX, apesar de muitos autores, em épocas anteriores, terem preconizado o direito da mulher à educação.

 

Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas, para ambos os sexos, em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.

 

Contudo, é só na década de 1840 que se verifica a difusão da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.

 

O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino, mas também pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.

 

A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser pouco significativa face ao número de crianças recenseadas.

 

No entanto, não foi de menor valor a acção das professoras na motivação dos pais para matricularem as filhas nas escolas oficiais e se comprometerem na assiduidade. É também de justiça mencionar a dedicação dessas professoras, sobretudo as das freguesias rurais, num tempo de comunicações difíceis, instalações precárias e comodidades inexistentes. Em boa medida, o seu empenho e as muitas horas de trabalho, para além do horário estipulado, promoveram o sucesso escolar.

 

O acesso da mulher à Educação foi, sem dúvida, determinante para a sua emancipação e ascensão social. Não se julgue, porém, que escolarização significa igualdade de oportunidades, por exemplo, no mercado de trabalho. Prevalecem ainda muitas desigualdades e atitudes discriminatórias. De resto, a própria educação da mulher continua a ser um dos problemas da actualidade, em muitos países.

 

No processo de emancipação da mulher, revelou-se fundamental a possibilidade de ela própria controlar, com eficácia, a natalidade. A generalização do uso da pílula anticoncepcional, na década de 1960, permitiu à mulher evitar gravidezes indesejadas e fruir livremente da sexualidade.

 

A revolução sexual dos anos sessenta possibilitou à mulher outra visibilidade e, consequentemente, intervenção mais dinâmica na sociedade, inclusive ao nível político, como aconteceu com as manifestações de protesto contra a guerra do Vietname.

 

Falava-se, então, da libertação da mulher, tendo sido retomada a ideia da internacionalização do seu dia, embora com motivações diversas das do início do século.

 

Em 1975, a ONU declarou o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, no âmbito do Ano Internacional da Mulher, então comemorado, e trinta anos depois de a Carta das Nações Unidas ter proclamado o princípio da igualdade de direitos dos homens e das mulheres.

 

O fim da discriminação e da violência de género é um dos grandes objectivos deste dia.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Março de 2009

 

 

 

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