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Archive for Novembro, 2018

A Imprensa Académica deu à estampa Os Mistérios do Funchal, na colecção Ilustres Desconhecidos. O romance veio a lume em 1881, mas esta edição é muito rara. A reedição, agora disponível, foi elaborada a partir do exemplar da Biblioteca Municipal do Funchal.

A primeira edição não revelava o autor. Na introdução, intitulada «Duas palavras», esclarecia-se que se tratava de uma obra que beneficiara da escrita de três mãos: «Três homens unidos pelo mesmo pensamento e compenetrados do mesmo fim colaboraram neste romance.»

No entanto, a leitura do romance não sugeria escrita partilhada. Aquela afirmação tentava, por certo, dissimular a verdadeira autoria e enquadrava-se numa estratégia de adensar a natureza «misteriosa» da obra.

Uma recensão literária ao primeiro volume de Os Mistérios do Funchal, publicada no Diário de Notícias, do Funchal, em 28 de Agosto de 1881, provavelmente escrita por Alfredo César de Oliveira (1840-1908), revelou que Ciríaco de Brito Nóbrega era o autor do romance recém-editado.

A preocupação do fundador do Diário de Notícias pode explicar-se pelo facto de este jornal ter também publicado um folhetim intitulado Mistérios do Funchal, de Março de 1877 até Abril do ano seguinte, que não chegou a ficar concluído, mas cuja edição em livro havia sido anunciada. Acrescente-se que, de acordo com os autores do Elucidário Madeirense, esse folhetim era da autoria do cónego Alfredo César de Oliveira.

Não se absteve o articulista do Diário de Notícias de tecer alguns juízos críticos sobre a obra em apreço, revelando ter sido escrita em oito dias.

Por sua vez, O independente: semanário democrático, dirigido por F. Pinto Coelho (1850-1916), criticou a publicação de Os Mistérios do Funchal:

«Mas, segundo nos parece, o referido livro refere-se a factos, que segundo a nossa humilde opinião, só deveriam ser publicados um século depois de terem sido praticados.

Nem todas as verdades se dizem e muito menos quando elas desacatam a memória dos que já não existem, e podem ainda ofender as famílias dos que lhe sobrevivem.» (6-08-1881, p. 3)

Os mysterios do Funchal: primeira parte: A herança maldicta. Funchal: Typ. do Diário da Madeira, 1881.

Nas «Duas palavras», que antecedem o romance, o autor fez questão de sugerir que se baseara em factos reais, que havia observado ou deles tivera informação em apontamentos facultados por amigos. No entanto, as raras pistas da intriga, que conduziram a uma investigação histórica, revelaram-se infrutíferas. Tudo leva a crer, portanto, que não se trata de factos reais, pelo menos na sua totalidade.

Haverá, por certo, personagens inspiradas no quotidiano funchalense, como o temido Castanheta, que parecia «o demónio em carne e osso» (Os Réprobos, cap. II). Uma alusão a este famigerado marginal surge no folhetim de Faustino Brazão, publicado no Diário de Notícias, de 1 de Março de 1877, sob a epígrafe «Respostas a pertinaz curioso: o Filho da Velha». O «Filho da Velha», além de contrabandista, famoso na pancada e na pinga, era, para o folhetinista, «um digno émulo de Castanheta e outros quejandos».

Os Mistérios do Funchal, romance não publicado previamente sob a forma de folhetim na imprensa periódica, como era habitual em narrativas literárias desta categoria, desenvolve-se à volta de Margarida, uma jovem de humilde condição, que se enamorou de um padre católico, mas não consumou esse amor. Forçada, pela adversidade, a casar-se com um abastado proprietário, vem a ser vítima do cunhado que tudo fez para impedir Margarida de herdar a fortuna do seu marido. Depois de uma estada no estrangeiro e diversas contrariedades, como a doença do filho e a traição da sua companheira, o cunhado pretendeu redimir-se do mal que fizera a Margarida, planeando a devolução da herança a que ela tinha direito. Neste seu intento, contou com a oposição desesperada do seu filho.

O romance revela uma estrutura narrativa da denominada «literatura de Mistérios», que proliferou na segunda metade do século XIX e obteve grande popularidade.

Abordando Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue (1804-1857), Umberto Eco (1932-2016), salienta que «estão cheios de pequenos dramas iniciados, parcialmente resolvidos, abandonados para seguir desvios do arco narrativo maior, como se a história fosse uma grande árvore» (O Super-Homem das Massas, 2016, p. 59). Ainda que menos sensacional do que a obra de Sue, vislumbram-se estas características em Os Mistérios do Funchal.

Ciríaco de Brito Nóbrega (1856-1928). Photographia Vicente, 17 Dezembro 1912. Col. ABM – Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira.

Ciríaco de Brito Nóbrega

Filho de Roberto Constantino de Nóbrega e Matilde Leocádia de Brito Nóbrega, nasceu na freguesia de São Pedro, Funchal, em 15 de Março de 1856. Faleceu na sua residência, na Rua do Favila, da cidade do Funchal, em 1 de Abril de 1928.

Ao noticiar a sua morte, o Diário de Notícias delineou o seu retrato:

«A figura de Brito Nóbrega era inconfundível: baixo, magro, impressionantemente magro, dependurado, quase incessantemente, num charuto, com um andar em baloiço, conhecia-se a distância.» (3-04-1928)

Exerceu funções profissionais na Repartição de Finanças do distrito do Funchal, como primeiro-oficial, mas foi o jornalismo a sua atividade predilecta.

Segundo O Jornal, Ciríaco de Brito Nóbrega «foi um cidadão a quem a defesa dos interesses desta ilha muito deve. Jornalista de largos recursos, a sua acção manifestou-se em artigos de propaganda, possuindo, além duma clara noção dos vários assuntos que versou com inteligência, uma memória apreciável que lhe permitia reproduzir os acontecimentos com uma precisão digna de registo.» (3-04-1928)

Os seus primeiros artigos na imprensa madeirense surgiram n’ A Aurora Liberal em 1875-76. Em Setembro de 1881, era proprietário do Diário da Madeira, conjuntamente com José A. P. Ramalho. Colaborou em diversos jornais, sendo redactor principal do Diário de Notícias, da Madeira, entre 28 de Abril de 1907 e 25 de Março de 1927. Já na penúltima década do século anterior havia sido redactor deste periódico durante quase três meses, mas saiu por divergências editoriais, tendo fundado, em 1884, o Correio da Manhã, do qual saiu o primeiro número em 31 de Agosto e o último em 14 de Março de 1886.

Para além de Os Mistérios do Funchal, publicou, sob o pseudónimo Alberto Didot, Um crime célebre (Funchal: Tip. Popular, 1883), que saíra como folhetim no Diário da Madeira, em 1881. Com Óscar Leal é co-autor de Um marinheiro do século XV: romance histórico sobre a descoberta da Índia (Funchal: Tip. Esperança, 1898), por ocasião das celebrações do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. No ano de 1901, veio a lume o seu romance, O perdão do marido: Primeira parte: Um drama íntimo (Funchal: Tip. Esperança), publicado como folhetim do Diário de Notícias do Funchal, a partir de 26 de Outubro de 1900. Editou ainda uma reportagem sobre A visita de Suas Magestades os Reis de Portugal ao Arquipélago Madeirense (Funchal: Tip. Esperança, 1901).

Ciríaco de Brito Nóbrega é um escritor pioneiro das narrativas ficcionais de crime, da literatura madeirense.

A herança

No romance Os Mistérios do Funchal, a disputa de uma herança constitui tema recorrente ou leitmotiv da narrativa. Com base neste topos, a apresentação do livro, que se realizará no dia 29 de Novembro, pelas 18:00, no auditório da Universidade da Madeira, no antigo Colégio dos Jesuítas, será pretexto para uma tertúlia à volta do tema: O valor da herança: (re)pensar a sociedade à luz da dinâmica da nova ordem mundial. Serão convidados o padre José Luís Rodrigues, o arquitecto Rui Campos Matos, o advogado Brício Martins Araújo, o médico João Pedro Vieira e o professor da UMa, Thierry Proença dos Santos, autor do posfácio da reedição de Os Mistérios do Funchal.

NÓBREGA, Ciríaco de Brito – Os mistérios do Funchal. Nelson Veríssimo, edição literária e nota de apresentação. Thierry Proença dos Santos, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2018. ISBN 978-989-54002-7-0. PVP: 15,70€.

 

Funchal Notícias. 28 Novembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/11/28/os-misterios-do-funchal/

 

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Porto Santo, 1 de Novembro de 2018

Infante – Que vindes aqui fazer com tão grande atrevimento?

1.ª voz – O príncipe fala?

2.ª voz – Encomendei com voz…

3.ª voz – E Lisboa não vai querer pagar, com certeza!

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Já o avisei de que agora o Professor é outro.

Infante – Por todas as terras, vejo o meu nome em praças e ruas. Meu retrato desejais e meu corpo também pretendeis. Até me assentaram na longínqua Tanegashima, ilha que nem em sonhos vislumbrei e onde os navegadores deste Reino somente chegaram mais de 80 anos depois de entregar a minha alma a Deus. Bem sabeis, mordomo-mor, que de mim licença nunca alcançastes para tanto enfeitamento e folgança.

2.ª voz – Senhor, por recompensamento do vosso feito, quis que aqui fôsseis sempre lembrado, e, para maior glória, na presença deste meu companheiro de jornada.

1.ª voz – A esta vossa ilha vim, excelente príncipe e poderoso Senhor.

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Homem, lembre-se de que agora o Professor é outro.

Infante – Vós não ousais pensar que me maravilho ataviado de bronze, com tão desmesurada altura e assente neste acanhado plinto. Sempre cuidei de me resguardar de pintores e escultores, quer como governador da Ordem de Cristo, duque de Viseu ou Senhor da Covilhã.

2.ª voz – Ainda que assim fosse a vontade de Vossa Alteza, é assaz conhecido o vosso rosto. Com esse, um escultor da Madeira deu vulto à vossa pessoa.

Infante – Há quem me reveja num daqueles painéis de Nuno Gonçalves. Outros me identificam com uma ilustração da Crónica de Guiné. Mas nunca usei o chapeirão borgonhês com que me cobriram a cabeça. Não fosse a destruição do meu túmulo no Mosteiro da Batalha pelos malvados invasores franceses, e teriam conhecido a minha fisionomia pelos traços da estátua jacente.

2.ª voz – Senhor, quis tão-só proceder como em 1960, quando por todo o Portugal se assinalou, de maneira exaltada, o V Centenário da vossa morte. Era eu muito jovem e fiquei arrebatado por esses momentos gloriosos de patriotismo, dos quais jamais me esqueci.

Infante – Esse é o tempo do passado. Mas fostes mais além. Buscastes o tempo em que ainda não eras nascido. Desenterrastes o cinzel de Francisco Franco que me petrificou para uma exposição internacional em Vincennes, nesse distante ano de 1931. Celebrava-se o colonialismo, mas havia já vozes de protesto contra a política ultramarina imperial. Nos anos 80, Paris não me quis, e deslocaram a minha estátua para Nantes. Colocaram-me numa praça onde ninguém me conhece. Aos meus pés, inscreveram o cognome de O Navegador. Henri le Navigateur, porque chegaram a me confundir com um Fernando de Magalhães. Nunca me conformei com esta roupagem da imaginária oficial da ditadura, nem com aquela alcunha. Até às mãos do Criador, fui sempre um cruzado. Com 64 anos ainda combati muçulmanos em Alcácer Ceguer.

1.ª voz – Vossa glória e fama, Senhor, vai além do Norte de África. Depois do descerco de Ceuta, todos os anos, enviastes navios em busca de novas terras.

2.ª voz – E assim descobristes o Porto Santo e, um ano depois, a Madeira.

5.ª voz – O nosso Porto Santo, Senhor Professor…

4.ª voz, num aparte segredado – Cale-se.

Infante – Sempre no passado, mordomo-mor. Não sabeis que procurei terras a sul das águas conhecidas? Destas ilhas já havia manifesta certidão. Mandei-as povoar, antes que os castelhanos a tomassem. No Atlântico, meu grande desejo era passar o Cabo do Bojador e alcançar a terra de Guiné, para acrescentar a santa fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer ao Reino muitas mercadorias e fazer bom trato.

2.ª voz – Bem sabeis, Vossa Alteza, que fostes o Senhor deste arquipélago…

Infante – Da Madeira, veio-me bom proveito.

3.ª voz, num aparte – Essas contas estarão já feitas?

Infante – Doei o Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, mas nesta ilha o capitão não pôde tirar grande proveito da lavra, pela praga dos coelhos e a escassez de água. Arrecadou pão nalguns anos, criou gado e colheu sangue de dragão.

2.ª voz – Agora, Senhor, ficarás sempre na memória desta ilha e do seu povo.

Infante – Os moradores deste lugar serão sempre dignos de lembrança. Mas não me apraz trajar de bronze no meio destas palmeiras. Nem a mim nem a Deus trouxestes benefícios com esta obra. Bem sabeis que sempre fiz mercês aos que bem me serviam. Nunca deixei de recompensar os serviços que me prestaram com coroas e dobras de ouro, algumas vezes contraindo dívidas, que paguei com terras dos meus senhorios. Mas a vós não farei acrescentamento com galardão de natureza alguma.

2.ª voz – Senhor! Sabeis o grande trabalho que tenho levado a efeito. Nunca me pareceu que de vós haveria de receber ouro, pois outros rendimentos diligencio. Bem conheceis como desejo ser feito cavaleiro, e, se isso for da vossa vontade, sempre com a minha gratidão e lealdade contareis. Por meus merecimentos e bondade, fazei-me esse acrescentamento.

Infante – Não me apraz que me houvésseis requerido honra tão avantajada, depois de me embalsamares neste bronze. Só ao povo desta ilha é devido merecido tributo, no tempo certo. Fostes aos confins para me desinquietares e tomastes a dianteira no folguedo por artifícios do pôr-do-sol sem ao calendário atenderes. Uma máxima vos darei, que vos pode trazer grande benefício. Lembrai-vos do dito de Túlio, que dei a conhecer ao cronista Zurara, quando escreveu os meus feitos: não abasta ao homem fazer boa coisa, mas fazê-la bem.

5.ª voz – Falastes bem, Senhor Infante.

E todos se retiraram com a cabeça baixa e o semblante carregado. O Infante, porém, continuava a pensar no futuro daquela ilha, do seu país e até da Humanidade.

Funchal Notícias. 6 Novembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/11/06/do-agastamento-do-senhor-infante-na-ilha-do-porto-santo/

 

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