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Archive for Novembro, 2008

Educação e Cultura

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ESCALLIER, Christine e VERÍSSIMO, Nelson, org. (2008). Educação e Cultura. Funchal: Departamento de Ciências da Educação da  Universidade da Madeira.










A Cultura, pois, sendo embora um produto humano, simultaneamente forma e torna possíveis as operações de uma mente distintamente humana. Neste sentido, o aprender e o pensar estão sempre situados num enquadramento cultural e sempre dependentes da utilização de recursos culturais.

Jerome Bruner, Cultura da Educação, Lisboa, Edições 70, 2000, p. 20


A Educação e a Cultura são temas muito caros aos organizadores deste livro e dos colóquios que estão na sua origem, principalmente pela sua formação científica – a Antropologia e a História –, áreas que abrem perspectivas a projectos futuros. Ambas estas Ciências Sociais buscam «as mesmas presas e os mesmos territórios de caça» (Lucette Valensi et al., Para uma História Antropológica: a noção de reciprocidade, Lisboa, Edições 70, 1974, p. 11).

Em meu entender, nos dias de hoje, a Escola está, excessivamente, a ceder aos códigos culturais e sociais que definem as narrativas e histórias dos estudantes e vai desprezando, com perigosa arrogância, recursos culturais nacionais e universais de referência para todas as épocas, e que constituem uma espécie de biblioteca universal da Humanidade, nomeadamente os autores ditos clássicos.

Por isso, creio, que o diálogo entre a História e a Etnologia poderá ajudar a compreender melhor a Cultura da Educação, ou o binómio Educação-Cultura. Mas para tal há que promover pontes e não olhar estas áreas do saber como um mundo à parte nos «domínios» da Educação.

Na verdade, a Educação enquadra-se num universo muito amplo e, só por mera abstracção, podemos criar pequenos compartimentos de áreas de conhecimento, na sua essência, dominados pela unidade. Muito menos convém tornar estanques esses compartimentos, ainda que por pretensas razões científicas.

Por mim, direi como Fradique Mendes:

«Levou-me pois efectivamente à História o meu amor da Unidade – amor que envolve o horror às interrupções, às lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe o que há. Viajei por toda a parte viajável, li todos os livros de explorações e de travessias – porque me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus extremos limites, e não sentir contínua solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a História, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que pertenço e sentir a compacta solidariedade do meu ser com a de todos os que me precederam na vida.» (Carta de Fradique Mendes a Oliveira Martins, 1886, in Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas), Porto, Livraria Lello, Limitada – Editora, 1932, p. 87)

Talvez não seja a despropósito, mais uma citação, ainda que corra o risco do pedantismo, que reprovava Montaigne, mas não resisto a lembrar novamente Bruner, quando afirma que «a cultura é provavelmente a última e decisiva proeza evolutiva da Biologia», porque «outorga a liberdade ao Homo Sapiens, a fim de que este possa construir um mundo simbólico suficentemente flexível para obviar a necessidades locais e adaptar-se à infinidade de circunstâncias ecológicas.»

Essa adaptação, esse processo educativo, criativo ou de verdadeira pesquisa científica, só frutifica, sadiamente, no respeito pela diferença, na cultura da liberdade, com a capacidade de reconhecer, em particular, e com isenção, o mérito de cada um, o que é de grande relevância entre nós, como Universidade, e que se impõe também à nossa sociedade, para que, afinal, não se repitam erros do passado. Não aconteça o mesmo que a Santo António de Lisboa, que se tornou de Pádua, porque conforme o grande Padre António Vieira disse em 1670: «Saiu para ser grande, e porque era grande, saiu.»

É com outra perspectiva cultural, eivada de humanismo, não teórica, mas realizada no quotidiano, que a Escola e a Cultura poderão reunir e não separar, poderão incluir e não excluir, poderão amar e não votar a diferença ao ostracismo.

 

Excerto da minha intervenção na apresentação do livro Educação e Cultura: Actas do II Colóquio do Departamento de Ciências da Educação da Universidade da Madeira e VII Colóquio Internacional da Sociedade Europeia de Etnografia da Educação, no dia 3 de Dezembro de 2008, às 18:00, no auditório da Reitoria da Universidade da Madeira.

 

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Com a entrada em vigor dos novos Estatutos da Universidade da Madeira (UMa), diversos actos eleitorais mobilizarão professores, estudantes e funcionários.

 

Em breve, serão eleitos os membros do Conselho Geral, órgão que escolherá o Reitor. É impossível, neste primeiro escrutínio, não deixar de associar os dois órgãos de governo da Universidade.

 

Votar, conscientemente, numa lista para o Conselho Geral, implica conhecer o candidato a Reitor, que os respectivos membros defendem. Em nome da democracia, cada lista deveria apresentar o seu candidato na “campanha eleitoral”, apesar de os Estatutos remeterem o processo de candidatura do Reitor para o seio do Conselho Geral e admitirem candidatos de outras instituições, nacionais ou estrangeiras.

 

Independentemente da autonomia das instituições de ensino superior, a eleição de um Reitor sempre movimentou no exterior, mais ou menos discretamente, forças sociais e políticas, movimentos e associações, com reais, mas inconfessados interesses na Universidade.

 

O novo Regime jurídico das instituições de ensino superior, ao determinar a inclusão de personalidades externas de reconhecido mérito no Conselho Geral e ao conceder-lhes direito de voto na eleição do Reitor e demais competências, veio legitimar a intervenção de membros não pertencentes à Universidade, no seu governo.

 

Logo, a eleição do Reitor da Universidade da Madeira não diz somente respeito à instituição, mas, também, à sociedade madeirense, particularmente representada, no Conselho Geral, por seis personalidades externas.

 

Actualmente, o Reitor não tem que ser professor catedrático. A nova legislação, ao admitir a candidatura de professores e investigadores ao órgão superior de governo e de representação externa da Universidade, reconheceu que, devido ao carácter piramidal das promoções, há professores não catedráticos e investigadores com currículos brilhantes e bem preparados para desempenharem cabalmente as funções de Reitor.

 

Pelo menos, três professores já manifestaram, de forma mais ou menos explícita, a sua intenção de se candidatarem ao lugar de Reitor da Universidade da Madeira. Outros, provavelmente, espreitam as uvas da alta latada, como a raposa da fábula.

 

O Prof. Pedro Telhado Pereira, actual Reitor, é candidato natural. Quem detém o poder, quase sempre pretende dar continuidade a projectos que não concluiu ou que, entretanto, delineou, face a uma nova conjuntura. Contudo, o exercício do cargo desgasta, principalmente quando, com regularidade anormal, surgem, na Imprensa, notícias pouco abonatórias para a UMa, em especial, inglórios e dispendiosos litígios judiciais, por questões administrativas, e reparos do Tribunal de Contas.

 

Além disso, as alianças que fez, quando demitiu dois vice-reitores, inclusive com quem, de início, não o apoiava, e, mais recentemente, a controversa abertura de concursos, para provimento de duas vagas de professores catedráticos, poderão prejudicar a sua candidatura.

 

O Prof. José Manuel Castanheira da Costa revelou também interesse em se candidatar. Profundo conhecedor da instituição, voz respeitada e discreta, detentor de experiência pelo facto de ter sido Reitor entre 1996 e 2000, beneficia de considerável apreço em diversas áreas científicas da UMa.

 

Podendo vir a obter outros votos, a Prof.ª Isabel Torres prefigura-se na disputa eleitoral com a vantagem de não ter ainda exercido o cargo, de ser considerada uma executiva determinada, de possuir experiência como vice-reitora e de ser credora de valiosos apoios também fora da UMa.

 

Nos termos estatutários, os candidatos terão oportunidade de apresentar o seu programa de acção, e só ao Conselho Geral compete ajuizar do seu perfil, em tempo oportuno.

 

Todavia, parece-me democraticamente indispensável que os eleitores do Conselho Geral e a sociedade madeirense conheçam, antes da votação, o candidato a Reitor de cada lista concorrente ao principal órgão de governo da nossa Universidade.

 

Diário de Notícias, Funchal, 2 de Novembro de 2008

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