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Archive for Novembro, 2007

Um pé de alegra-campo

O alegra-campo enroscava-se preguiçosamente nas estacas da latada, encobrindo alguns ramos da videira de americano.

 

Ao aproximar-se da Festa, o arbusto sabia que a podoa lhe seria apontada sem piedade. Ia para a lapinha, deixando campo aberto para as cepas que, depois de acordadas pelo podão, voltariam a se estender sobre as varas de pinheiro.

 

A casa era grande, mas nela vivia apenas uma mulher com mais de oitenta anos. O filho estava na África do Sul, desde os dezasseis de idade. O marido morrera, há mais de vinte, depois de tantos anos emigrado naquele Cabo da sua desventura. Quase toda a vida estivera só.

 

Governava a fazenda com mão de ferro. Desconfiada, deitava-se e levantava-se a fazer contas, com receio de vir a ser enganada, por não saber ler. Mas o seu nome, os meses do ano e alguns números conseguia pôr no papel. Costumava ter o modelo no verso de uma gravura de calendário, sempre à mão, na gaveta do armário da cozinha. Quando precisava de passar o recibo da renda, fazia uma cópia demorada.

 

No ano em que lhe morreu o marido, não deixou de armar a lapinha. Dizia que dava azar não fazê-la. Só que não a construiu na sala, mas numa arrecadação do rés-do-chão. Dessa vez, parece que foi maior do que nos anos anteriores. A rochinha enchia por completo o quarto. Abria-se a porta, que dava para o terreiro, e de fora admirava-se o seu presépio. Eram montanhas altas cheias de musgo e de algodão branco, deslizando pelas encostas abruptas. Na planície, dezenas de pastores, rebanhos de ovelhas e lagos de fragmentos de espelhos com muitos patos. Na gruta, a cena de Belém, rodeada de passarinhos da lapinha e jarras de vidro com junquilhos e sapatinhos do seu jardim.

 

No ano seguinte, o presépio voltou à sala de visitas, que quase sempre permanecia fechada. Era grande, com uma mesa ao centro, sobre um tapete bastante colorido, e uma dúzia de cadeiras desconfortáveis a toda a volta. Nas paredes, a Ceia do Senhor e o Imaculado Coração de Maria, em molduras douradas.

 

Preferia receber amigos e familiares na cozinha, à volta da mesa, quase sempre coberta com uma toalha de quadrados vermelhos, sentados em bancos pintados de azul. Lembro-me do seu sorriso, ao retirar o cântaro de avenca do centro da mesa, dobrar a toalha, abrir a gaveta e atirar as cartas para o jogo da bisca. Eram horas de partidas renhidas.

 

Depois começou a perder a paciência, deixou de sair, incompatibilizou-se com velhos conhecidos, e cada vez estava mais só.

 

A erva crescia com abundância entre as bananeiras. Algumas latadas estavam caídas. O fundo das levadas tinha muitas camadas de terra. O alegra-campo estava maior. No Natal, já não lhe cortava um ramo tão grande. Minguava a sua presença na lapinha. Ela já não podia subir o escadote, para dependurar a verdura nos pregos da parede, sobre as montanhas de papel pintado.

 

Há cinco anos, depois do Santo Amaro, não desarmou o presépio. Retirou as searas, as cabrinhas, os sapatinhos, os junquilhos e outros enfeites verdes do seu quintal, e depois estendeu um plástico sobre a rochinha. “Para a Festa, já não tenho trabalho”, disse-me.

 

E, nos últimos quatro natais, plantou o milho e o trigo em pequenos vasos, mandou cortar um galho do seu alegra-campo e acendeu a lamparina ao Menino Jesus. Mas já não rezava o terço junto da lapinha, como era seu hábito. Sentia muito frio e o sono abeirava-se dela, a meio do segundo mistério. Metia-se cedo na cama e pedia perdão a Deus, Nosso Senhor, por já não conseguir desfiar as contas do seu rosário.

 

Morreu só, há alguns meses.

 

O filho voltou depois do enterro. Desmanchou a lapinha, vendeu os móveis. Fez obras e pintou a casa. Comprou outras mobílias e cortinados, decorou tudo ao gosto da mulher. E cortou o alegra-campo, pela raiz, porque dizia que aquele matagal matava a vinha.

Diário de Notícias, Funchal, 25 de Dezembro de 1993; Passos na Calçada, Funchal, 1998, pp. 27-29. 

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Aproveitando umas horas vagas em Salvador da Bahia, decidi visitar um dos lugares de memória do Padre António Vieira. Interessava-me conhecer a Quinta do Tanque, antiga estância de descanso do Colégio Jesuíta da Bahia.

 

Recolheu-se Vieira em 1681, nesta quinta. Com 73 anos de idade, sentia-se injustiçado por D. Pedro II e desgostoso pela contínua intriga urdida à sua volta, sobretudo pela Inquisição, por alegada protecção aos cristãos-novos.

 

Na Quinta do Tanque, preparou a edição de diversos volumes de sermões, manteve intensa correspondência e deu continuidade à Clavis Prophetarum, contando com a ajuda do seu devotado amigo, o Padre José Soares. Pretendia também, neste lugar, preparar-se para a morte, porque o peso da idade já se fazia sentir.

 

A 23 de Maio de 1682, em carta dirigida ao núncio apostólico em Lisboa, Vieira afirmava estar a viver num deserto, tratando-se “em tudo como morto e sepultado”. Tendo frequentado distintos e animados meios sociais e culturais da Europa, estranhou, de início, a Quinta do Tanque, então lugar ermo dos subúrbios de Salvador.

 

Todavia, o último período da vida do famoso pregador jesuíta foi de grande dedicação aos trabalhos literários, não lhe faltando também determinação para intervir em importantes causas, como, por exemplo, a liberdade dos índios, demonstrando sempre enorme vontade de viver.

 

Pouco mais de quinze anos esteve o Padre António Vieira a residir na Quinta do Tanque. A doença obrigou-o a transferir-se para o Colégio da Bahia no início de Julho de 1696. Despedindo-se da quinta de retiro, escreveu: “Adeus, Tanque, não vou buscar saúde nem vida, senão um género de morte mais sossegado e quieto”. De facto, veio a morrer a 18 de Julho de 1697.

 

Se motivação não me faltava para visitar a Quinta do Tanque, inesperado impedimento quase comprometia este propósito. Situada na Baixa de Quintas, optei pelo transporte público nesta deslocação. Dando conta desta vontade, a recepcionista da pousada aconselhou-me a levar vestuário bem simples e nada de objectos de valor, para não despertar atenções.

 

De bermudas, havaianas, camisola leve e máquina fotográfica dentro de um saco de plástico apresentei-me na portaria do n.º 50 da Ladeira de Quintas. Logo o porteiro me alertou de que não podia entrar de bermudas. Expliquei que não pretendia visitar o edifício, mas apenas ver o exterior. Assinalou-me, então, um limite: poderia apenas ir até próximo da frondosa mangueira da entrada.

 

Funcionava agora, neste edifício, o Arquivo Público da Bahia. Estava, portanto, impedido de entrar, assim vestido. Convencer a respectiva directora a conceder excepcional autorização não foi fácil, mesmo exibindo identificação universitária. Contudo, depois de o porteiro informar, por telefone, de que as minhas bermudas ultrapassavam os joelhos, chegou a ansiada permissão, não só para me aproximar do edifício como também para visitar o seu interior.

 

Diz-se que se o hábito não faz o monge, o monge sem hábito não é tão monge, ou que o hábito não faz o monge, mas o faz parecer de longe. Apesar do incidente na Quinta do Tanque, continuo a preferir as palavras de Vieira:

 

“Os homens só os distingue a virtude, e não há mais que dois géneros de gente neste mundo: bons e maus. Só o que está dentro de nós, nos pode distinguir intrínseca e verdadeiramente, e este é o vício ou a virtude; tudo o mais são coisas que ficam de fora; podem mudar as aparências, mas não distinguir as pessoas.” (Comento ou Homilia sobre o Evangelho da Segunda-Feira da Primeira Semana da Quaresma).

 

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Novembro de 2007

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