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Archive for the ‘Crónica’ Category

A casa emoldurada por um terreno agrícola, latadas de vinha, viçosas bananeiras, canas-de-açúcar ondeando na vizinhança, mantas de semilhas e outras hortaliças, árvores de fruto, estimadas mas quase sempre não de propósito ali plantadas, marcaram a paisagem dos meus primeiros anos. O cenário não desapareceu por completo, mas há muito tempo que dele me separei.

Nesse mundo semi-rural, porque bem próximo do centro da cidade, então a única da ilha, a água de rega era uma riqueza. Nada existia sem ela.

Dia de rega era dia de agitação. Preparavam-se os tornadouros, reforçava-se aqui ou ali os camalhões para o rego não rebentar. Vigiava-se o tempo, a levada, o levadeiro e o vizinho com a responsabilidade de entregar a água.

Na véspera ou no dia da rega, acertava-se o relógio pelo sinal horário da estação de rádio. Se fosse nocturna, importava preparar as lanternas ou ver se o olho de boi tinha as pilhas carregadas. Percorria-se a levada para verificar se não havia uma artimanha para furtar água, uma pedra estrategicamente colocada, uma tampa levantada ou uma laje do mainel deslocada. Falava-se com o levadeiro e perguntava-se-lhe as horas para confirmar se tinha o relógio acertado. Então o levadeiro colocava a foice no ombro e, teatralmente, retirava o relógio do bolso, deixando ver a grossa corrente de prata presa numa das alhetas da cintura das calças. Tudo teria de estar a postos para pegar na água, quando o regante anterior a entregasse. Mas convinha estar atento, não fosse o vizinho prolongar o tempo a que tinha direito e houvesse necessidade de lhe tapar a água. Por vezes, havia também que ir buscá-la, porque não a tinham trazido ou cansara.

Quando a levada vinha boa, isto é, com um volumoso caudal, a rega era mais rápida e dava para encher o poço.

Havia muitos poços nas fazendas. Até podia ser sinal de alguma abastança. Havia quem não gostasse de regar de noite e então metia a água no poço. Descobertos ou rodeados com rede de galinheiro, armazenavam a água que serviria para a rega diurna, a meio do giro ou quando o calor apertava e as culturas exigiam.

Cuidava-se do poço como do terreiro. Devia ser esvaziado com frequência e lavado, para a água se manter limpa. Havia poços com peixes e rãs. Evitavam os mosquitos, dizia-se. No Verão, alguns transformavam-se em piscinas. Havia quem aprendesse a nadar no poço. E também quem morresse afogado.

Muitas imagens de água andam comigo. Ia para a escola a pé, seguindo a levada da berma do caminho. Água limpa a transbordar e a escorrer no empedrado. Quando passava na margem da Ribeira de São João, via as mãos agitadas das lavadeiras na água cristalina, que por ali corria, esfregando, batendo e enxaguando peças de roupa alheia, que depressa estenderiam sobre os calhaus das redondezas, para corar ou secar.

Com água se fazia sabedoria. Dela se tirava ou dava ensinamento. Havia ditos e provérbios. Águas passadas não movem moinhos. A água o dá, a água o leva. A água corre sempre para o mar. Água mole em pedra dura tanto bate que fura. Águas da Ascensão das palhas fazem pão…

A minha avó sempre lembrava de que não se podia tirar água limpa de um poço sujo, quando pretendia precaver-se de uma troca de palavras inútil. E logo acrescentava, agora personificando: «O melhor é virar-lhe as costas!»

Palavras sábias estas e de aplicação sempre proveitosa. Quer o poço sujo se situe no Caminho dos Pretos ou na Penteada, nunca dali virá água limpa.

 

Funchal Notícias. 14 Junho 2017

 

A água limpa e o poço sujo

 

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A Assembleia da República aprovou por unanimidade, em 6 de Fevereiro de 2015, um projecto de resolução, apresentado pelo Partido Ecológico «Os Verdes», que recomendava ao Governo o apoio à candidatura das levadas da ilha da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO.

A Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais assumiu a tarefa de elaboração da proposta de candidatura e anunciou, na imprensa, a data prevista para a sua conclusão. Por certo, o processo está em curso. Contudo, quase nada veio a público sobre este assunto.

Uma classificação desta natureza deveria, porém, envolver a população e não surgir apenas como deliberação de cima para baixo dos órgãos de governo.

Quando a comunidade está informada e participa numa candidatura de classificação do património cultural, avocando o projecto como seu, o bem a salvaguardar revela a marca da identidade regional e, no futuro, estará mais protegido, pelos laços de afecto que suscita.

Classificar as levadas não é classificar canais que transportam água. À volta das levadas, há história, leis, iconografia, textos literários, património natural, imóvel (casas da água e dos levadeiros, relógios de água…), móvel (instrumentos ou utensílios usados na construção e manutenção) e imaterial (lendas, vocabulário, tradições, saberes e técnicas ou práticas ancestrais…). Há problemáticas geológicas, hidráulicas, silvícolas e ecológicas.

Levada. Balcões, Ribeiro Frio, Madeira. Foto: NV, Dezembro 2015.

Uma classificação suscita questões do domínio da propriedade e do direito consuetudinário. Implica condicionamentos nas zonas envolventes. Restrições que precisam de ser explicadas ao povo e por ele compreendidas.

Outra questão diz respeito ao estado de algumas levadas que se apresentam muito alteradas ou, melhor, adulteradas por intervenções pouco felizes, principalmente após as frequentes derrocadas, quando o tempo urge e os princípios de salvaguarda do património são postos de parte.

Levanta-se, por conseguinte, a dúvida se se devem classificar apenas algumas levadas, as principais ou as que apresentam características tradicionais, ou todo o sistema de irrigação, canais principais e secundários. Como chegar a um critério de classificação consensual e adequado à realidade regional?

Por outro lado, hoje é indiscutível o valor das levadas para o Turismo. A levada deixou de ser apenas um canal que conduz água para consumo doméstico, regadio ou para produção de energia eléctrica.

Uma classificação terá, como é lógico, grandes repercussões nesta área vital da economia da Região Autónoma da Madeira. Implica mais e melhor informação, obras de recuperação e conservação, segurança nos percursos. Investimento de capital com possível retorno a médio ou longo prazo.

Destas e de outras questões sobre a classificação das levadas não se pode manter afastado o madeirense. Há, pois, que romper com o secretismo e promover acções que envolvam a população num projecto ambicioso e, por natureza, interdisciplinar, a condizer com a grandiosidade das levadas, nascidas das necessidades do quotidiano, mas que o culto e o fascínio pela paisagem, e a motivação para a sua descoberta, trouxeram outros desígnios a essa obra secular da cultura madeirense.

 

Funchal Notícias. 29 Março 2017

Classificação das levadas

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A «Sereia» da marina do Funchal poderá vir a ser deslocada para a Praça do Povo (Funchal Notícias, 13-03-2017). O bronze de Ricardo Velosa já lá está há cerca de vinte e oito anos, bem assente sobre um bloco de cantaria rija. Cansada daquelas vistas, a «Sereia», segundo se diz, anseia por outros horizontes.

Se ocorrer tal mudança, será apenas mais uma das muitas andanças das esculturas do Funchal. Senão, vejamos.

No Cemitério de Nossa Senhora das Angústias, o «Anjo» veio do antigo cemitério, com a mesma denominação, que se localizava onde hoje é o Parque de Santa Catarina. De igual proveniência é também o «Monumento aos mortos na manhã de 3 de Dezembro de 1916», que se encontra à entrada do cemitério de São Martinho. Ambas as esculturas são da autoria de Francisco Franco.

Os bustos do conde de Canavial e de João Fernandes Vieira foram, de início, colocados na Avenida Arriaga. Ambos mudaram de lugar em Dezembro de 1932. O primeiro para o Campo da Barca e o segundo para o Jardim Municipal.

Em 1941, a «Leda e o Cisne» veio do Mercado D. Pedro V para o átrio da Câmara Municipal do Funchal, onde ainda hoje poderá ser visitada.

Semeador. Escultura da autoria de Francisco Franco. 1923. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

O «Semeador», de Francisco Franco, foi inaugurado na Praça de Tenerife em Dezembro de 1936. Quase trinta anos depois, passou para a entrada do edifício da Junta Geral, na Avenida Zarco. Em 1989, seguiu para o Parque de Santa Catarina e, nos dias de hoje, está num jardim da Câmara Municipal do Funchal, junto à Rua Padre Gonçalves da Câmara. Como a actual localização em nada dignifica esta belíssima escultura, provavelmente também será um dia transferida para um sítio mais adequado.

Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Duas outras esculturas de Franco também se deslocaram. O «Aviador», em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que, em 1921, realizaram, com sucesso, a primeira travessia aérea entre Lisboa e a Madeira, estava no Jardim Municipal e transitou para o Parque de Santa Catarina. O busto de Henrique Vieira de Castro deixou o Hospital dos Marmeleiros e encontra-se no Museu Henrique e Francisco Franco.

A alegoria à Autonomia da Madeira, de Ricardo Velosa, inaugurada em 1987 junto ao Aeroporto de Santa Catarina, em Santa Cruz, foi transferida em 1990 para a Praça da Autonomia, no Funchal. As obras de junção das fozes das ribeiras de Santa Luzia e João Gomes implicaram o seu apeamento.

O monumento à Revolta da Madeira, do mesmo escultor, deixou a Estrada da Liberdade, na zona de São Martinho, e veio para o Largo Charles, conde de Lambert.

A escultura alegórica à Paz e Liberdade, de Manuela Aranha, esteve provisoriamente na Avenida do Mar, sendo, dois anos depois, deslocada para o Largo da Paz, no início da Rua Dr. Pita.

João Paulo II. Estátua da autoria de Lagoa Henriques. 1995. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

A estátua do papa João Paulo II, de Lagoa Henriques, foi inaugurada em 1995 na Rua António José de Almeida. Presentemente está no adro da Sé do Funchal. Mas a mudança de local nada adiantou. A desproporção intencional da mão direita exige um plinto mais alto, o que não é possível nem adequado junto à catedral.

Mais recentemente, transferiu-se o monumento de homenagem ao combatente madeirense no Ultramar, da mata da Nazaré, para junto da entrada do Regimento de Guarnição n.º 3, na Rua dos Estados Unidos da América.

Haveria mais, mas, por agora, ficam estes exemplos para ilustrar a «dança das esculturas» no Funchal. Algumas mudaram de local com benefícios para o observador e, naturalmente, para a arte pública. Outras nem por isso. Algumas transferências foram inevitáveis, face à evolução da malha urbana. Outras não.

Melhor seria ponderar o lugar, antes da aquisição. Até porque o escultor, no seu acto criativo, tem também em mente o espaço para o qual se destina a sua obra.

Uma certeza, porém, nos resta: todas as deslocações têm custos. De modo que convém pensar um pouco na altura certa. Por outras palavras: impõe-se o planeamento urbano.

Funchal Notícias. 22 Março 2017

As esculturas «andam»?

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Uma alteração toponímica raramente se justifica. Se as ruas, avenidas, praças, largos, becos ou travessas têm nomes, comummente aceites, não faz sentido alterá-los. Dificilmente, uma nova denominação será popularmente reconhecida, se alheia à memória do lugar. Além disso, implica transtornos para os residentes. Há vários casos em que prevalece o nome popular ou tradicional em detrimento da inscrição na placa toponímica.

A nossa relação com um lugar passa também pela toponímia. O nome da artéria ou do sítio faz parte da nossa identidade. Constitui referência cultural, que importa descobrir e valorizar.

Antigamente, os topónimos nasciam da espontaneidade popular, gerada, por exemplo, nas relações de proximidade com moradias, estabelecimentos de notáveis, igrejas e capelas, instituições ou equipamentos urbanos… Assim temos: Rua do Esmeraldo, Beco do Gerardo, Rua de São Pedro, Rua da Alfândega, Largo do Corpo Santo, Rua do Frigorífico, Largo do Poço, Travessa do Forno, Largo do Pelourinho…

Na actualidade, as designações toponímicas resultam de deliberações municipais, de acordo com as motivações dos titulares dos órgãos autárquicos ou decorrentes de iniciativas de cidadãos. Na maioria dos municípios da Região, não há comissões de toponímia, o que faz com que a iniciativa, neste domínio, resulte quase exclusivamente da vontade do executivo camarário. Inexiste também documentação disponível em linha sobre toponímia, para além de mapas.

Em 6 de Dezembro de 2016, o presidente da Câmara Municipal do Funchal apresentou uma proposta de deliberação no sentido de atribuir os topónimos «Rua Henrique José de Sousa Machado» ao troço com início no cruzamento da Calçada do Pico, Beco do Amaro, Rua dos Frias e Caminho da Achada e termo na Rua do Paiol, e «Rua Alberto Sena Mendes», ao troço compreendido entre o actual Beco do Paiol e a Travessa do Paiol.

Justificou tal proposta com a solicitação conjunta que lhe tinha sido dirigida pelo representante da República para a Região Autónoma da Madeira e pelo comandante operacional e da Zona Militar da Madeira, com o objectivo da Câmara Municipal do Funchal perpetuar, da forma que considerasse mais adequada, as memórias destes dois militares madeirenses, naturais da freguesia de São Pedro, falecidos em combate na Grande Guerra.

Foto: NV, 12-03-2017.

Achou o presidente da edilidade funchalense de prestar reconhecimento e homenagem àqueles cidadãos através da toponímia, tendo em atenção a informação da Divisão de Fiscalização Municipal e o parecer favorável da Junta de Freguesia de São Pedro.

De acordo com a acta da referida sessão da Câmara (n.º 43/16), o vereador Bruno Pereira, do PSD, questionou se se tratavam de novos arruamentos ou de renomeação. Esclareceu então o vereador Miguel Gouveia, da Mudança, que eram novos arruamentos. Submetida a votação, foi a proposta aprovada por unanimidade.

Ora, quem conhece o Funchal, sabe muito bem que «o troço com início no cruzamento da Calçada do Pico, Beco do Amaro, Rua dos Frias e Caminho da Achada» não é um novo arruamento. Com uma simples e rápida consulta aos mapas do Google ou de outra qualquer aplicação, os vereadores, que desconhecem esta zona da cidade, teriam obtido cabal esclarecimento. Trata-se, na verdade, do Beco do Paiol, que existe há quase dois séculos.

Beco do Paiol. Funchal. Foto: NV, 12-03-2017.

Nesta zona, inaugurou-se, de facto, um novo arruamento com a extensão de 270 m, em 18 de Novembro de 2015: a ligação do Beco do Paiol à Rua do Paiol.

O Beco do Paiol, como o próprio topónimo indica, conduzia ao Paiol, construído nos anos vinte do século XIX e concluído em 1825. Era o acesso utilizado pelos militares, principalmente os da Fortaleza do Pico, quando se deslocavam ao armazém da pólvora.

A Câmara do Funchal entendeu dar-lhe agora a denominação de Rua Henrique José de Sousa Machado. Já lá se encontra a placa toponímica, debaixo da antiga, agora ilegível por desleixo do município.

Foto: NV, 12-03-2017.

Em meu entender, esta deliberação camarária de renomear o Beco do Paiol constitui um erro. Assim, a Câmara mata a toponímia falante. O novo topónimo nada diz sobre a história do lugar. É verdade que, naquela área, permanecem a Rua do Paiol, a Travessa do Paiol e um estreito Beco do Paiol. Mas aquele que era o caminho para o Paiol, baptizado com o nome de Henrique José de Sousa Machado, perdeu o significado histórico.

Parece que a Rua Alberto Sena Mendes, também decidida na reunião de 6 de Dezembro passado, não se concretizará no troço compreendido entre o actual Beco do Paiol e a Travessa do Paiol, devido aos protestos dos moradores, conforme Rui Marote escreveu no ‘Funchal Notícias’.

Decisão acertada seria repensar a homenagem, na toponímia do Funchal, ao tenente Henrique José de Sousa Machado e ao segundo sargento Alberto Sena Mendes, e enquadrá-la no conjunto de tantas outras personalidades ilustres, certamente inventariadas pela autarquia, que mereciam ter nome numa rua ou praça do concelho.

A toponímia faz parte do património cultural. Ajuda a conservar a memória dos lugares. Alterar topónimos não é uma prática recomendável, principalmente quando as antigas designações contam histórias.

Funchal Notícias. 15 Março 2017

Travessuras toponímicas

Nota:

Deliberação da Câmara Municipal do Funchal na sua reunião de 16 de Março de 2017:

8 – TOPONIMIA:

Alteração do traçado do arruamento denominado “Rua Henrique José de Sousa Machado” – Reatribuição do topónimo “Beco do Paiol”: – Submetida pelo Senhor Presidente, foi presente a proposta de deliberação que se transcreve:

“Considerando o teor da informação da Divisão de Fiscalização Municipal, anexa à presente Proposta de Deliberação, com a referência 284/DJF/DFM/2017, cujo teor se dá por integralmente reproduzido, dando conhecimento do apelo de diversos moradores do antigo Beco do Paiol, no sentido da Câmara manter esta anterior designação do arruamento, em substituição do topónimo, “Rua Henrique José de Sousa Machado”, atribuído por deliberação, tomada na reunião da Câmara, em 06 de dezembro de 2016; Considerando ainda o parecer favorável emitido pela junta de freguesia de São Pedro, tenho a honra de propor que esta Câmara Municipal delibere, ao abrigo da competência plasmada na alínea s), do n.º 1 do artigo 33.º, do Regime jurídico das Autarquias Locais, aprovado pela Lei n.º 75/2015, de 12 de setembro, alterar a deliberação acima referida nos seguintes termos: – Reatribuir o topónimo Beco do Paiol, na sua configuração original; – Que a Rua Henrique José de Sousa Machado tenha o seu início no Beco do Paiol, mantendo o seu termino na Rua do Paiol. Em tudo o resto mantem-se o teor da deliberação suprarreferida. Ao abrigo do estatuído nos n.ºs 3 e 4, do artigo 57.º, do Regime Jurídico das Autarquias Locais e do n.º 3.º do artigo 21.º, do Regimento das Reuniões desta Câmara Municipal, a presente deliberação é aprovada em minuta para a produção de efeitos imediatos.”

Posta à votação, foi aprovada por unanimidade.

(Ata número 11/2017. Reunião ordinária da Câmara Municipal do Funchal, realizada em 16 de Março de 2017)

Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

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Apesar dos muitos alertas, o antigo Seminário da Encarnação continua votado ao abandono pela Diocese do Funchal. A degradação acentua-se dia após dia. A Igreja não trata do edifício, não apresenta publicamente um projecto para a sua recuperação e parece também não o querer vender. Devoluto, desprotegido, desprezado, danificado, o antigo Seminário caminha para a ruína. Entretanto, constitui uma zona de risco, susceptível de ser afectada por um incêndio, com elevadas possibilidades de propagação urbana. Para além do muito combustível ali existente, a proliferação de ratos no logradouro constitui uma ameaça à saúde pública.

Antigo Seminário da Encarnação, Funchal. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Antigo Seminário da Encarnação, Funchal. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Em 1905, o Estado Português cedeu provisoriamente, à Diocese do Funchal, o extinto Convento de Nossa Senhora da Encarnação, para ali ser instituído o novo seminário diocesano. O bispo D. Manuel Agostinho Barreto (1835-1911) mandou demolir o antigo convento, sem que o decreto de concessão lhe desse tal prerrogativa. Foram conservadas, apenas, a capela, de traça manuelina, e a «casa do coro».

Construiu-se, então, um novo edifício, com apoio financeiro do Estado e da Igreja e doações particulares, que ficou concluído em 1909, tendo-se iniciado as aulas do seminário em Outubro desse ano.

Com a promulgação da Lei de Separação das Igrejas do Estado, de 20 de Abril de 1911, o seminário do Funchal foi extinto.

Em 1913, a Diocese arrendou este edifício à Junta Geral do Distrito, por uma verba anual de 500 escudos, para instalação de uma Escola de Utilidades e Belas-Artes, que aqui funcionou até 1918. Encerrado este estabelecimento de ensino em Setembro, a Junta devolveu o extinto seminário à Diocese. Mas, em Agosto de 1919, este edifício e respectivos terrenos anexos foram concedidos, a título definitivo, à Junta Geral, que o havia requisitado ao Governo Central, para instalação da sua sede e serviços dispersos por prédios arrendados.

Durante a Ditadura Militar, o prédio da Encarnação foi cedido novamente à Diocese, pelo Decreto-Lei n.º 13 514, de 25 de Abril de 1927, o que suscitou a firme oposição da Junta Geral do Distrito.

Somente em 1933, a Junta saiu do edifício da Encarnação para ocupar as instalações da antiga Santa Casa da Misericórdia no centro do Funchal, depondo então, nas mãos do governador civil, a posse daquele prédio. E, em Outubro desse ano, voltou a funcionar ali o seminário.

Até 1958 foi o único seminário da diocese do Funchal. A partir deste ano, passaram a existir dois seminários: o Maior, na Rua do Jasmineiro, e o Menor, na Encarnação.

O bispo D. Francisco Santana (1924-1982), em 1974, encerrou o Seminário Menor, com a intenção de criar ali um Centro Pastoral Diocesano.

No ano da «Revolução dos Cravos», o «casarão verde» foi ocupado pelos estudantes liceais, face à falta de instalações para o elevado número de alunos matriculados no ano lectivo de 1974-75, no Liceu Nacional do Funchal. Nos finais de Outubro, as aulas ainda não se tinham iniciado, tendo a Comissão de Gestão comunicado publicamente que não havia salas suficientes.

Já anteriormente, Rui Vieira, em nome da Junta Geral, Carlos Azeredo, por parte do Movimento das Forças Armadas, e o governador civil, Fernando Rebelo, tinham tentado negociar, com a Diocese, o arrendamento do Seminário da Encarnação, que estava vago. Mas o bispo, o Conselho de Administração da Diocese e o Cabido opuseram-se. O Colégio de Santa Teresinha havia também recusado a cedência de salas ao Liceu.

Após a ocupação do antigo seminário, em 30 de Outubro, a Diocese arrendou o edifício para estabelecimento de ensino, tendo posteriormente sido ali instalada a Escola Preparatória Bartolomeu Perestrelo. Durante três décadas, esta renda constituiu importante receita para o bispado funchalense.

Em 2005, o imóvel foi entregue à Diocese, sem que a proprietária lhe desse uso. A falta de iniciativa da Igreja condenou-o à ruína.

É incrível que, nestes anos, nunca se tivesse esboçado publicamente uma ideia capaz de concitar apoios da União Europeia ou do Governo Regional da Madeira para a salvaguarda do edifício.

Entretanto, o antigo seminário da Encarnação apodrece, constituindo um «ponto de risco» da cidade do Funchal.

Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Aquando do congresso comemorativo do Quinto Centenário da Diocese do Funchal, no debate que se seguiu à sessão, onde o cónego José Fiel de Sousa apresentou uma comunicação intitulada “O seminário e a formação do clero”, alguém da assistência, ex-membro da Acção Católica, sugeriu que o velho casarão da Rua de Santa Luzia se transformasse num centro de acolhimento para os sem-abrigo da nossa cidade. Contudo, esta ideia nem discutida foi. Um enorme silêncio encobriu-a.

Na citada comunicação, o cónego Fiel de Sousa, vigário geral da diocese, após mencionar a bem visível degradação do seminário, reflecte: «Neste momento, amarrados por ser um edifício classificado e com os planos diretores da Câmara Municipal, será necessário fazer uma revolução de ideias para que este edifício seja ocupado e funcione com o selo da eternidade.»

Ora bem, pondo de lado o devaneio de circunstância, diga-se que, mais do que uma «revolução de ideias», a Diocese precisa de ter uma ideia. Quanto ao funcionamento com o «selo da eternidade», o bom senso, despretensiosamente, recomenda intervenção urgente, antes da ruína total. O selo que se impõe é de dinamismo, não da eternidade.

Mas a Diocese parece não pensar assim. Recorde-se que, em 10 de Setembro de 2013, o padre Marcos Gonçalves, responsável pelo Gabinete de Informação do Paço Episcopal, afirmou, ao Diário de Notícias: «Não há pressas. Vai depender das possibilidades, necessidades e objectivos pastorais da Diocese do Funchal e das oportunidades que possam surgir. A Igreja tem toda a eternidade». Aguardava então a Igreja, segundo referiu, pelo plano de urbanização daquela zona.

A Igreja poderá contar com toda a eternidade. Trata-se de uma questão do domínio da fé. Mas o património arquitectónico, que detém, não subsiste sem obras de manutenção, arejamento e utilização.

A Diocese deve, por conseguinte, pôr ponto final na hesitação ou indolência, no constante adiamento, e tomar uma decisão, que, inevitavelmente, terá de passar pela recuperação do edifício e a sua reutilização, ou a venda. A indecisão só faz aumentar o processo de degradação do secular Seminário da Encarnação, o que tem vindo a acontecer desde 2005.

 

Funchal Notícias. 1 Março 2017

Seminário da Encarnação: até à ruína total?

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A Barricada

Não se trata aqui de uma espécie de trincheira ou de um vulgar acto tresloucado de alguém que, com ou sem reféns, resolveu isolar-se, que, com ou sem armas ou explosivos, teima em fazer ouvir a sua voz irreverente, radical ou desesperada.

A barricada da nossa crónica é bem diversa. Não constitui estratégia militar nem posição extremista de alienado ou militante de uma qualquer organização marginal ou terrorista.

Não sei se é mais ou menos grave. Certo, é não ter cobertura mediática.

Esta barricada é de gente que se considera de alto gabarito. De gente que tudo fez para tomar o poder e, quando o alcançou, armou a paliçada com astúcia e meias-verdades, rodeou-se de colaboradores submissos e alguns bajuladores e tudo faz para sempre se manter no poder.

Na barricada, reina a intolerância, a vingança, o poder tentacular que tudo quer dominar e manipular.

Na barricada, domina o discurso fascizante de que enquanto «eu aqui estiver tu nunca levantarás cabeça».

E os da barricada julgam-se felizes, competentes, geniais, por infernizarem a vida dos outros.

Quando confrontados com a idoneidade e a imparcialidade do exterior, coisa que repugnam, mas a que irremediavelmente estão sujeitos, aí não têm outro remédio senão tentar esconder os seus pés de barro. Mas isso é como tapar o sol com a peneira. Fora da barricada, há transparência.

Descalços, mas sempre agarrados ao poder, não vêm o abismo que têm vindo a arquitectar. E, quando o mensageiro grita que o rei vai nu, tudo fazem para que ele sucumba. E, ao que não morre, aplica-se o velho ditado: «não mata, mas mói!»

As barricadas no seio das instituições são abcessos dolorosos, escaras da democracia. Mas pior do que a sua existência é a bênção que quem governa lhes dá, em nome de uma pretensa autonomia que serve de almofada à liderança.

Bem sei que nas instituições não habitam anjos nem tão-pouco são governadas por arcanjos. Todavia, em democracia, o líder devia garantir a (con)vivência democrática, combater a discriminação e a intolerância, respeitar a oposição, não permitir cortes de apaniguados, enfim expurgar da casa as barricadas que um bolorento corporativismo ainda teima em erguer.

Funchal Notícias. 15 Fevereiro 2017 

A Barricada

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Ainda não se sabe como o Governo Regional assinalará o 6.º centenário do descobrimento da Madeira, nem em que data(s).

Sobre esta matéria já dei publicamente a minha opinião em 2015, com base nas fontes históricas disponíveis e na historiografia. Defendi, então, face ao facto de o arquipélago madeirense ser já conhecido e representado cartograficamente, antes da viagem de Zarco e Tristão, e atendendo à impossibilidade de, com exactidão, enunciar o ano da chegada dos portugueses a estas ilhas, que mais correcto se me afigurava comemorar o início do povoamento, ocorrido em 1420, segundo o cronista Gomes Eanes de Zurara.

Apesar de se tratar de uma celebração histórica, a verdade é que os políticos regionais, nas suas decisões e comissões, parecem valorizar pouco o papel e o trabalho dos historiadores. Contentam-se com a leitura, quiçá em diagonal, do Elucidário Madeirense, escrito para celebrar o 5.º centenário do descobrimento do nosso arquipélago, como se, desde então, e já lá vão quase 100 anos, mais nada se tivesse escrito sobre o assunto.

Já ouvi falar que pretendiam comemorar o descobrimento do Porto Santo em 1418 e o da Madeira no ano seguinte, seguindo a lição de Álvaro Rodrigues de Azevedo, de 1873. A ser verdade, não é somente ridículo, mas triste pela ignorância que encerra.

Independente de datas, por agora sempre simbólicas no caso em apreço, espero, todavia, que o programa, a ser delineado, não fique pelo efémero. Que sirva de exemplo a comemoração do 5.º centenário da criação da cidade do Funchal, onde, para além dos espectáculos e festejos, sem dúvida importantes em termos de promoção e adesão da comunidade, houve um ambicioso programa editorial, que perpetuou a efeméride.

Assim, dei-me a pensar que, no âmbito do 6.º centenário da Madeira, seria pertinente incluir a recuperação de imóveis do património cultural que remontam aos primeiros tempos do povoamento do arquipélago e que, vergonhosamente, se encontram degradados ou arruinados. Restaurava-se o património arquitectónico, criava-se emprego e possibilitava-se a sua fruição aos interessados, madeirenses ou forasteiros. Reabilitava-se a memória de alguns lugares históricos, apesar das transformações ao longo do tempo.

Capela de São Paulo, Funchal. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias, 2017.

Capela de São Paulo, Funchal. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias, 2017.

Neste âmbito, ressalta a necessidade de recuperar a capela de São Paulo e o imóvel adossado do lado nascente, ali quase no final da Rua da Carreira.

Esta capela teria sido mandada erguer por João Gonçalves Zarco, o primeiro capitão do donatário do arquipélago da Madeira, na capitania do Funchal. De início, o seu orago era São Pedro.

Junto à capela, foi instituído um hospital, o primeiro do Funchal, edificado em terreno doado por Zarco no ano de 1454. Funcionou durante quinze anos.

A freguesia de São Pedro, instituída em 1566, extinta em 1579 e restabelecida em 1587, teve a sua primeira sede na capela com a mesma invocação, e aí se manteve até à edificação da nova igreja, concluída pelos finais do século XVI.

Nos nossos dias, a Capela de São Paulo está encerrada ao culto, devido ao seu estado de degradação. Deixou de celebrar-se missa neste templo, em Junho de 2014. O edifício, que lhe está adossado do lado nascente, também se encontra em ruína, em parte devido às obras de construção da circular à cota 40. Já em 1996 se falava da necessidade de recuperar estes imóveis, tendo sido projectada a respectiva intervenção. Mas, apesar de classificada, desde 1940, como imóvel de interesse público do património cultural da Região Autónoma da Madeira, a capela vai arruinando-se, bem como a memória do primeiro hospital do Funchal.

Funchal Notícias. 8 Fevereiro 2017

A propósito do 6.º centenário do «descobrimento» e povoamento da Madeira: recuperar a memória: a Capela de São Paulo

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