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Archive for Outubro, 2020

Na falésia sobranceira à margem direita da Ribeira do Porto Novo, mal se distingue o antigo forte. Votado ao abandono, ainda lá se encontra a vigiar o mar e o vale. A vista, que dali se desfruta sobre o Atlântico, é magnífica. Já o que se observa no vale é desolador, diria mesmo horroroso em termos paisagísticos.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Sobre o estado desta antiga edificação militar, já o Funchal Notícias publicou em 14 de Junho de 2015 um artigo de Emanuel Silva. Como é habitual nestes casos de denúncia pública, fingiram que não leram, continuaram a não se importar e nada fizeram. Hoje escrevo sobre o forte, exactamente, pelos mesmos motivos de há cinco anos: o seu abandono e a falta de sensibilidade para, no mínimo, limpar, requalificar e enquadrar este imóvel nos miradouros de Santa Cruz.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Na verdade, todas as edificações militares alienadas em favor da Região Autónoma têm sido pouco valorizadas como Património Cultural. O Fortim da Ribeira Brava, transformado em posto de informação turística, apresenta um aspecto pindérico e desmotivador. A Fortaleza de São Tiago é, praticamente, um restaurante, depois da saída do Museu de Arte Contemporânea e apesar do previsto Museu de Arqueologia da Madeira. Entregue à restauração está também o Forte de Nossa Senhora da Conceição ou do Ilhéu, completamente adulterado. Até um famoso guindaste que ali existia, tantas vezes desenhado ou fotografado, foi furtado, ou, como agora se diz, transportado para outro lugar (desconhecido, esclareça-se!). A Fortaleza do Pico ou de São João, depois de transferida para a Região Autónoma da Madeira, esteve cerca de três anos abandonada e à mercê de actos de vandalismo. Depois de requalificada e recuperada, abriu ao público em Junho de 2018. É, essencialmente, uma cafetaria com vista privilegiada sobre o Funchal.

Não conheço o projecto, noticiado recentemente, para o Forte de São José, à entrada do molhe, o Principado da Pontinha de Renato Barros, que agitou as águas do período final do jardinismo. Mas nada do que veio a público sobre o planeado restaurante com esplanada, dos investidores luso-venezuelanos, augura intervenção adequada, em termos de salvaguarda do Património Histórico.

Perante tão elucidativas evidências, não foi com surpresa que, numa tarde deste mês, visitei e fotografei o arruinado Forte do Porto Novo, quase vinte anos depois de lá ter estado.

Trata-se de mais um exemplo do desinteresse, da incúria e da falta de visão dos nossos governantes. Um sítio com história localizado num caminho bastante inclinado e com o piso maltratado, sem saída para o trânsito automóvel, com passagem pedonal, estreita e com degraus, para a antiga estrada, que serve uma urbanização relativamente recente. Um forte oitocentista desprezado, que acumula lixo e vegetação infestante, de onde se avista a soberba imensidão do mar.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

O Forte do Porto Novo foi construído no início do século XIX e veio complementar a defesa deste lugar, onde se podia entrar, sem dificuldades, pelo litoral e chegar facilmente ao Funchal, então em pouco mais de duas horas de jornada pela estrada. Nessa época, como de resto já no século XVI, o Porto Novo era considerado lugar estratégico para a segurança dos madeirenses, em especial, da cidade. Junto ao calhau existia o reduto de São Marcos, construído no século XVIII.

O governador e capitão-general da Madeira tratou de guarnecer o Forte do Porto Novo, para oferecer resistência às forças absolutistas que, em 1828, se deslocaram para a ilha, a fim de subjugar os liberais, empenhados na oposição ao rei D. Miguel, usurpador da Coroa de Portugal. Apesar, de início, as forças do Porto Novo terem obstado uma tentativa de desembarque ali, a resistência à expedição miguelista fracassará alguns dias depois.

Após o desembarque em Machico, quando, por terra e mar, se movimentavam os militares miguelistas com destino ao Funchal, as defesas do Porto Novo foram atacadas, tendo muitos soldados debandado. A explosão do paiol, por um tiro de canhão da esquadra miguelista, e a impreparação militar contribuíram para o insucesso dos liberais na denominada Batalha das Voltas do Porto Novo.

A explosão danificou o forte, tendo vindo a ser reconstruído no início dos anos 30 do século XIX. Até hoje vai resistindo, sem que autoridade alguma se interesse na sua reabilitação ou, pelo menos, na limpeza daquele sítio com História.

Funchal Notícias. 28 Outubro 2020

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Numa tentativa de dar aplicação a uma, no mínimo, surpreendente e insólita interpretação, recentemente divulgada, a propósito de declarações falsas num currículo, que, pasme-se, constituem procedimento de somenos importância, não considerado crime, e a pedido de quem prepara candidaturas para concursos da carreira docente, elaborei breve guia de conselhos úteis, como se se tratasse de receita culinária, desvendando logo, e contra a tradição, o segredo do pitéu, indicando depois ingredientes e o modo de fazer, para finalmente mencionar a degustação no banquete. 

Segredo:

Ponha a máxima atenção na escrita do seu nome, copiando-o devagar e fielmente do Cartão do Cidadão. O mesmo procedimento deverá ter para com a filiação e a data de nascimento. Procure o recibo da electricidade e copie o endereço da sua residência. De seguida, consulte o recibo do vencimento e escreva a profissão, a categoria e o local de trabalho. Registe o endereço de correio electrónico, com este aberto, e o número do telemóvel, depois de o ligar. Nestes itens, não pode falhar. Deve mesmo ler várias vezes, para verificar se tudo é verdadeiro.

Ingredientes:

Para a confecção do currículo, utilize produtos de elevada qualidade. Aqui não conta a veracidade dos factos. Permaneça tranquilo e relaxado, para que o devaneio flua livremente. Há que aprimorar. Adicione, com frequência, abundante delírio. Boas pitadas fazem crescer laços e abraços.

Escolha uma das melhores universidades mundiais para o seu título académico. Não seja modesto na classificação a indicar. Oxford, Stanford, Harvard, MIT, München, Heidelberg, Aachen, Konstanz, Université PSL (Paris Sciences & Lettres) ou a Sorbonne são boas opções. Se não pretende privilegiar instituições estrangeiras, opte por Coimbra, Lisboa ou o Porto. Aquela sua universidade, onde fez mestrado, doutoramento e agregação no meio do Atlântico, não é para si.

Quanto à docência, orientações de mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos e conferências, dê asas à sua imaginação. Mas voe alto e para longe. Não se coíba de mencionar regências, seminários e aulas até nos anos em que, por acaso, não esteve ao serviço. Não deixe também de furtar regências e leccionação de alguns colegas, delas se servindo como suas, de facto. Eles depois confirmarão ter sido erro informático.

Pode sempre dizer que publicou em revistas indexadas, mesmo que o tenha feito somente na da paróquia. Fale ainda dos livros que tenciona publicar, mas como se já estivessem editados.

Relativamente a congressos ou colóquios, considere-se da Comissão Organizadora ou da Comissão Científica de qualquer um, mesmo daqueles em que o seu nome não figurou nos documentos oficiais distribuídos aos participantes, em especial livros de resumos das comunicações ou de actas.

Para prémios, tudo vale, com excepção do Nobel, pois este é largamente difundido em cerimónia pública. Seja ambicioso. Recomendo o Pulitzer ou o Man Booker. Tenha em atenção com os Grammy Awards, BAFTA Awards ou do Festival de Cannes. Podem não ser da sua especialidade.

No que diz respeito a patentes, não aponte coisas de pouco ou nenhum valor. Sirva-se de um reputado registo internacional e copie um número qualquer. Confie. Ninguém irá verificar.

Convém exercitar permanentemente a criatividade. Escreva o que realizou e o que ainda não fez, pois o que já está, na sua cabeça, é fruta pronta a servir, mesmo sem aquelas fases da necessária maturação. Atrás da mentira, mentira vem. (Provérbio popular). Proceda exactamente como noutras ocasiões da sua vida. Um cálice de brandy Constantino, o da fama que vem de longe, inspira o seu retorno ao passado. O sucesso carrega coerências dessa natureza.

Leia tudo umas quatro vezes. Se, entretanto, lhe ocorrer mais uma fantasia, não tenha pudor em acrescentar. Polvilhe tudo com um pouco de Ética, cultivada num jardim sombrio e empestado. Sempre atenua amargos de boca. Interiorize tudo ser verdade. A mente fará o resto. Os seus amigos constantemente dirão como a mulher de Pantaleão, personagem criada por Chico Anysio, que, após cada mentira espalhafatosa, perguntava: «– É mentira, Terta?» e ela sempre lhe respondia «– Verdade!». Tudo aparece encoberto no reino da vaidade e da indigência cultural.

Modo de fazer:

Aqui não há mistérios nem canseiras. Tudo já foi disposto de forma convincente. O conluio há muito foi preparado. É só uma questão de tempo em forno vigiado.

Banquete:

No banquete, as sumidades convidadas, com uma folha de cálculo à mão, não têm paciência nem tempo para apreciar ou verificar, com rigor, currículos. Um braço comprido já lhes apontou o melhor, qual o que devem saborear. Na sua indicação confiam, como sempre. Um dia também eles estenderão o seu braço, e a lei da corporação imperará. O contraditório traz dores de cabeça e muitas preocupações. É de evitar problemas com os iluminados, antes inimigos e agora ternos confrades.

Témis foi escorraçada e Astreu fugiu para o céu. A Justiça jamais habita no Casarão. Nem no esconso de velho armário.

Resultado:

O preparado e esperado.

Conclusão:

Quanto à identidade e estado, pela infalibilidade do processo de fabrico, jamais poderá haver declarações falsas.

As restantes mentiras enquadram-se dentro dos factos relevantes de outra qualidade, que a lei atribui efeitos jurídicos, próprios ou alheios. Mas ninguém quer saber disso. Mentir num currículo não faz parte do conceito de ‘declarar falsamente’ – dizem. Nesta engenhosa premissa, reside a inovação bombástica, a porta do futuro, o cerne deste guia, a esperança da juventude desempregada e dos professores que patinam há anos na mesma categoria.

Como diz o povo, são mentiras para arremedeio da nossa vida. Logo, não haverá problemas, mesmo quando premeditadas. Fique descansado quanto àquele documento que o obrigam a assinar na admissão ao concurso, no qual declara serem verdadeiros os elementos e factos constantes da sua candidatura, tendo pleno conhecimento de que a prestação de falsas declarações implicará a exclusão do concurso, porque, se a conveniência assim o exigir, será completamente esquecido, impiedosamente queimado ou levará sumiço. Ninguém se lembrará de que se trata de contra-ordenação muito grave.

Candidatos, dai largas à imaginação e, no vosso currículo, menti com quantos dentes tendes na boca. Arrogai-vos sempre de experiências que não tendes. A mentira corre mais que a verdade. (Provérbio popular).

Apelo (in)útil:

Tomai em atenção o provérbio popular: Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

Parafraseando os últimos versos do soneto «Já Bocage não sou!»: Oh se me creste gente ímpia / Rasga estes conselhos, crê na honestidade.

P. S. O meu currículo está online desde 2007, tendo vindo a ser actualizado com frequência. Quem nada tem a esconder, publica-o com livre acesso. O meu está aqui:

https://passosnacalcada.wordpress.com/curriculo-2/

Funchal Notícias. 21 Outubro 2020

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Sempre a conheci em ruínas. Sempre a imaginei grandiosa.

Com o tempo, novas pedras se deslocam, desabam paredes e o matagal cerca-a.

Casa do Agrela. Caniço, Santa Cruz, Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Tem resistido a sismos e tempestades. Parece milagre a sua longevidade. De pé há-de cair

Propriedade privada. Delimitada. Mal-amada. Assemelha-se a doente terminal e rico, observado por herdeiros ávidos e impacientes. Quando tudo desmoronar, mais fácil e rendível será o investimento imobiliário. O poder regional e autárquico descarta-se da memória e do património cultural.

Quem passeia pelos Reis Magos, observa, com carinho, a altivez da casa arruinada. Faz parte da paisagem. Sempre esteve ali. Imagine-se: limpa do lixo e de matos e bem iluminada. Que beleza de sítio! “Não! Retorna à realidade: tem dono! Nada se pode fazer!” “Não é bem assim…” “Esquece. Não há interesse, nem dinheiro…!” “Nem para limpar? Nem vontade da Câmara para obrigar o proprietário a limpar o terreno! Gestão de combustível é assunto ignorado por estas bandas?” “Ninguém quer saber de ruínas.” “Ninguém, quem?” “Eu, eu gosto destas ruínas. Há anos que as admiro.”

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Ruínas! Ninguém assoma à janela. Não há uma luneta na torre. Não se ouve a música do salão. Não se sente o cheiro a tabaco. Não se ouvem gemidos nem o ranger das camas pela noite. Não há fogo na cozinha. Nem gritos de um tresloucado.

Pelos escombros inçam ratos e lagartixas. Vagueiam gatos atentos. Descansam pombos e gaivotas no cimo dos muros. Riem-se fantasmas adejantes, porque ninguém os escuta.

Ninguém se lembra de quem construiu esta casa nobre. No século XVIII, seria. Requintado gosto e dinheiro não faltariam, por certo, ao seu proprietário, que encomendou magníficas pedras de cantaria para portas e janelas. Da mesma época, não se conhece na ilha outra assim, tão majestosa. Ninguém a estudou ou procurou delinear a sua história.

A cartografia do século XIX identifica-a como a Casa do Agrela, ali bem próximo do Reduto de São Sebastião ou Fortim dos Reis Magos, também descaracterizado, maltratado e apoucado. Agrelas que se fixaram no Caniço de Baixo, junto ao mar, no início do século XVI, tendo Francisco de Agrela Ferreira sido nomeado capitão de ordenanças deste lugar em 1643.

Sítio com história do município de Santa Cruz a merecer cuidadosa intervenção.

Funchal Notícias. 14 Outubro 2020

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