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Archive for the ‘Opinião’ Category

Queijadas da Madeira

Não são muitas as especialidades da doçaria madeirense. A par com os bolos de mel, as queijadas sempre mereceram particular referência na pastelaria. Ficaram célebres as queijadas da Confeitaria Felisberta, da Mimo ou da antiga Penha d’Águia.

Hoje é difícil encontrar uma boa queijada no mercado regional. A industrialização do produto e a sua adulteração retiraram-lhe o sabor e também a forma tradicional. Agora até são congeladas e descongeladas conforme a procura.

É claro que ainda há dois ou três lugares onde se pode adquirir uma boa queijada. Boa, mas não a verdadeira! Infelizmente, na generalidade não se recomendam. As das máquinas de venda automática são de péssima qualidade. E é pena, porque um destino turístico também vive de produtos tradicionais, genuinamente preparados.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Julho 2020

Em 2019, no certame as Sete Maravilhas Doces de Portugal, as queijadas da Madeira foram amplamente divulgadas e elogiadas, apresentando-se as melhores que se produziam na ilha, as da pastelaria Miminho, sendo esta especialidade escolhida como representante da Região Autónoma da Madeira.

Provavelmente, a queijada tem origem conventual, como, de resto, muitos outros doces. Nos registos de despesas do Convento de Nossa Senhora da Encarnação, do Funchal, encontramos referências à aquisição de ingredientes para a confecção de queijadas, no século XVIII. Contudo, não se conhece a receita das monjas clarissas.

O que distingue uma boa de uma má queijada é a farinha que se acrescenta ao requeijão, no recheio.

Num episódio do programa da RTP-Madeira Esquina dos Doces, em Setembro de 2019, vi, com estupefacção, um pasteleiro misturar excessivas quantidades de farinha e açúcar com requeijão, na produção em massa de queijadas. Evidentemente, que o resultado não pode ser bom, mas, quem não conhece, come e não reclama. Contenta-se com o docinho. Outros, mais esclarecidos, não voltarão a gastar dinheiro com queijadas daquele tipo.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Agosto 2020

Antigamente, não se adicionava farinha ao requeijão. Entre outros, o Tratado Completo de Cozinha e de Copa, de Carlos Bento da Maia (Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1904), apresenta uma receita de queijadas da Madeira, na qual os ingredientes do recheio são o requeijão, açúcar pilado, gemas e claras de ovos. Para a massa, farinha de trigo, manteiga e açúcar q. b. para adoçar levemente. Já confeccionei queijadas, seguindo esta receita, e o resultado é sempre muito bom. Não tem mesmo nada a ver com o que por aí se apresenta e vende.

Idêntica receita foi também publicada em Aprender: Cozinha Madeirense (1988) e no Almanaque PEF (2000). Com ironia, posso concluir que o segredo das verdadeiras queijadas da Madeira é não adicionar farinha ao requeijão. Os outros ditos segredos, que os pasteleiros gostam de insinuar com ar enigmático, são perfeitamente dispensáveis. Fazem parte da fantasia da cozinha. Dir-me-ão que, não acrescentar farinha, encarece o produto, reduz as vendas e baixa o lucro. Acredito que sim! A qualidade, porém, tem custos.

A queijada da Madeira, a que merece este título, tem de ser autêntica. Deveria ser certificada. São as coisas diferentes que marcam a diferença. Num mercado competitivo, a qualidade, a diferença e a inovação são vectores essenciais.

Funchal Notícias. 5 Agosto 2020

Queijadas da Madeira

 

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O edifício adquirido, há anos, para sede da Associação Recreio Musical União da Mocidade, situado no Caminho do Lombo Segundo, em São Roque, encontra-se em adiantado estado de degradação. Sem portas, é fácil entrar na antiga moradia da família Lopes. Já algumas pessoas receiam a sua destruição por um incêndio, como tem acontecido com outros imóveis desocupados e vandalizados do Funchal. Recordam-se do fogo que destruiu imponente edifício da vizinhança, a Casa do Xavier, no Encontro, entretanto demolido.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2020

A nova sede era um sonho de João Eurico Martins (1954-2014), que durante vários anos dirigiu a Orquestra de Bandolins e tinha em mente a criação de uma escola de música especializada na área dos bandolins. Igualmente, o presidente desta Associação, Gil Caroto, tem várias vezes apelado ao Governo Regional apoios para a construção da sede, em especial nas comemorações do aniversário do Grupo.

Recorde-se que pela Resolução n.º 16/2014, o Governo Regional autorizou a celebração de um contrato-programa com a Associação Recreio Musical União da Mocidade, tendo em vista a comparticipação nos encargos bancários, para aquisição do terreno onde seria construída a futura sede. Previa-se então a ajuda financeira de 30 939 euros.

Nessa altura, considerou-se, para o efeito, ser «de manifesto interesse público que a Região Autónoma da Madeira contribua para a concretização de atividades culturais que se revelem estruturantes e imprescindíveis para a promoção e divulgação da Região também enquanto destino de cultura.»

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2020

Hoje o edifício caminha para a ruína. De porta escancarada para quem lá quiser entrar, constitui um foco de risco para o centro da freguesia de São Roque.

Fundado em 18 de Fevereiro de 1913, o Grupo Recreio Musical União da Mocidade distingue-se actualmente pela sua Orquestra de Bandolins. Durante muitas décadas, a música e o teatro foram as principais actividades da ‘União da Mocidade’. Para muitos jovens desta freguesia, foi o Grupo que lhes possibilitou formação musical.

Nelson Veríssimo

30-07-2020

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Permiti, Senhor, que vos trate por tu. É menos formal. Adequa-se melhor ao meu desabafo.

Colocaram-te nesse pedestal, quando nestas ilhas se celebrou o Quinto Centenário da tua primeira viagem. O cinzel de Francisco Franco deu-te rosto e corpo. Desde então, vens observando em silêncio a cidade que nasceu da tua vila.

Hoje os pregoeiros dos 600 anos não querem saber de ti. Só a Marinha Portuguesa te prestou homenagens em Agosto passado, deixando aqui uma coroa de flores. Mas os da governança da terra não aplaudiram tão nobre gesto.

Desembarcaste numa «terra brava e nova, nunca lavrada», como escreveu o primeiro cronista. Ilhas desabitadas. Contudo, a elite, que há mais de quarenta anos tomou o poder, acha que nesse longínquo tempo já por aqui vivia um povo superior, eleito entre os humanos para se fixar neste rochedo atlântico.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, 2 Julho 2020

Recusaram, por isso, no seu brasão, como divisa, aquele conhecido e verdadeiro verso do canto V d’Os Lusíadas, do grande Camões: «Das que nós povoámos a primeira». E lá inscreveram improvisado fingimento ao gosto de Narciso: «Das ilhas as mais belas e livres».

Como bem sabes, a apreciação da beleza depende da educação e do gosto de cada um, não do espelho. Quanto à liberdade, nem no rebanho vinga, pela peçonha intolerante continuamente destilada. Por todo o lado, construíram redis vigiados por zagais e bufos, fanáticos do poder.

Lembras-te quando te rias daquelas mesas do Golden, ocupadas pelos senhores da terra que solenemente depositavam os seus chapéus nas cadeiras vagas? Pois, hoje eles não usam chapéu preto nem se sentam nesse café, mas continuam os mesmos poderosos, através de filhos e netos, como as oligarquias da tua época.

Isso da Madeira Velha e da Madeira Nova é pura falácia!

O poder político está nas garras do poder económico. Sem meios nem vontade para o resgate. Pior, agora também a imprensa ficará prisioneira desses senhores do dinheiro.

É verdade que duas medidas perturbaram o velho esquema: o fim da colonia e a criação de uma universidade. Alterou-lhes o caminho. Souberam, porém, dar a volta. Arrebanharam mais alguns e fizeram o que puderam por si e pelos seus.

Se a extinção da colonia libertou parcelas de terra, poucos já as cultivam. Se abundam escolas, a ignorância e a falta de educação continuam a reinar. Nada que a propaganda não oculte ou dissimule.

Nesta terra, uma mulher desbocada dizia, para quem a quisesse ouvir, que ficou com o rabo a arder, mas arranjou a sua casinha e trabalho para todos os da sua família. Até dos mais pobres se serviram brutalmente, antes de os atirarem para a lixeira. Perversamente, lugares da administração foram sendo preenchidos com silêncios e cumplicidades.

O povo continua adormecido e a não dar valor ao que possui. Nem parou para reflectir, quando um ser não vivo arrasou o mundo.

Tudo parece ruir. A pedincha cresceu muito. Mas lá por Lisboa também andam com as calças arriadas. Não há um saco de dinheiro atrás da porta do Terreiro do Paço. Ninguém sabe como vai ser. Na crescente despesa, a galope aumentada pelo casamento de fachada, ninguém quer cortar. Os grandes pedem muito. Os pequenos reclamam pão e trabalho. O velho remédio – embarcar – já não pode ser prescrito. O povo voltará a desbravar o matagal e semear, como tu mandaste fazer nos primeiros anos.

Destas misérias, bem sabes. Mas eu não vim só desabafar.

Por estes dias, faz seiscentos anos que desembarcaste nesta ilha para povoá-la. Zurara, que, por certo, bem conheceste, fixou o ano: «E foi o começo da povoação desta ilha no ano do nascimento de Jesus Cristo de mil quatrocentos e vinte anos.»

Mais tarde, Jerónimo Dias Leite, cónego da Sé do Funchal, lendo uma narrativa que os teus descendentes guardaram, precisou ser no início de Julho, no dia da Visitação de Santa Isabel.

Há seiscentos anos iniciaste o povoamento desta ilha, por ordem do rei D. João I. Distribuíste terras, zelaste pelo bem comum, pela ordem e a defesa. Foste o capitão da barca, a primeira autoridade na ilha, o capitão do donatário, o criador de uma nova sociedade no Atlântico. Presidiste à Câmara do Funchal. Foste, enfim, o primeiro obreiro do povoamento da Madeira. Com o teu labor, a terra prosperou. Novos moradores vieram. Criaste riqueza. Proporcionaste rendimentos ao Infante e à Coroa.

Como te esquecer, quando se celebram seiscentos anos do teu desembarque na ilha, que já conhecias em mapas e da qual já tinhas ouvido falar, nas longas cavaqueiras com homens do mar?

No Quinto Centenário, ergueram-te imponente estátua. Hoje nem uma singela coroa de flores! Talvez fosse melhor assim, porque nunca te habituaste a longos arrazoados, e dessa altura um desmaio seria fatal.

A História não se faz só com os grandes. Mas é justo lembrar o teu vigoroso empenho para da terra brava arrancar sustento e riqueza, governar a sociedade, que nascia, e criar as primeiras instituições, que cuidariam de homens e mulheres e dos seus bens.

Muito obrigado, Capitão.

Funchal Notícias. 2 Julho 2020

Muito obrigado, Capitão

 

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O deputado Fonseca

Cartoon de Eder Luís. Diário de Notícias, Funchal, 16-02-2020, p. 26

O impagável Lopes da Fonseca, com aquele seu ar impo, a lembrar uma das personagens que Eça caricaturou, escreveu uma arengada no DN-Madeira de 15-02-2020, na qual, a certa altura, confunde o papel político de um secretário regional da Saúde com o de um director clínico de um Hospital, a quem cabe, sobretudo, “coordenar a actividade do corpo clínico e fazer o elo entre este e a administração” e, evidentemente, não pode, à partida, ser personalidade reprovada pelos seus pares ou mais directos colaboradores. O grande erro de toda esta polémica reside no facto de o CDS e o PSD terem acordado em distribuir lugares de chefia, não necessariamente políticos, aos seus apaniguados, sem atenderem às imprescindíveis competências científicas e técnicas. Em boa verdade, nunca um lugar de director clínico de um Hospital deveria entrar nessa lista de tachos. O resto da arengada, bem como as suas recentes intervenções como ferrenho porta-voz da coligação PSD/CDS, esquecendo ou fingindo não se lembrar do que disse e escreveu há poucos meses, ou ainda aquele seu lapso, no passado dia 11, quando, no decurso da discussão de um voto de louvor à pintora Lourdes Castro, felizmente ainda viva, deu, com ar carregado, condolências à família da grande artista plástica, sem pedir depois desculpas públicas pela sua falha de memória ou de cultura, só descobrem a verdadeira careca do deputado Fonseca. É, por esta e outras, que o povo não tem confiança nos políticos, o que é muito mau para a democracia.

Assembleia Legislativa da Madeira, 11-02-2020

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Logo que se conheceram os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, ficámos a saber que o PSD e o CDS estavam para casar, o que nos leva a supor que o namoro vinha de longe, embora de forma discreta.

O líder do CDS, que acabava de perder mais de 9200 votos e 4 mandatos, mostrou-se bem-disposto, a sorrir, faceta, na verdade, quase desconhecida do público. O outro noivo também cantou vitória, com um ar mefistofélico, depois de ter perdido 3 deputados e, por conseguinte, a maioria absoluta. E festejou na rua, apesar de ter obtido a percentagem mais baixa de sempre em votos no PSD, nas eleições legislativas regionais.

Preparam agora o casamento governamental, que deverá ser oficialmente anunciado depois das eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no próximo domingo. Provavelmente, esperam ainda idêntico matrimónio em Lisboa, o que não deverá acontecer.

O PS, que se mostrou demasiado confiante antes do tempo, obteve excelente votação, mas com o casamento à direita, resta-lhe uma oposição firme na Assembleia Legislativa Regional, um trabalho sem tréguas, pensando no bem comum e no futuro, que se constrói sem desânimos e com muita persistência. Neste resultado, há que distinguir o efeito da popularidade de Paulo Cafôfo na votação dos socialistas. Contudo, Cafôfo precipitou-se, quando, na noite eleitoral, lançou o repto de construção de uma alternativa governativa com diversas forças políticas, uma espécie de salada russa. Deveria ter gerido esse projecto de forma recatada, fora dos holofotes da comunicação social, e só apresentá-lo quando tivesse conquistado a noiva, inicialmente rendida aos encantos do PSD.

O JPP também perdeu 2 mandatos e 5284 votos, o que se pode justificar, entre outras razões, pela inegável bipolarização – PSD / PS, que afectou todos os partidos mais pequenos, e também, por agora, confrontar-se com um contexto bem diverso das eleições de 2015, tempo em que estava mais presente o sentimento de repúdio pelas fórmulas governativas do PSD e do Dr. Jardim.

A CDU perdeu 1 deputado e 4483 votos, enquanto o BE deixou de ter representação parlamentar.

Não fosse a ganância pelo Poder, a política madeirense centrar-se-ia doravante na Assembleia Legislativa, como deveria ser, e nunca aconteceu devido às maiorias absolutas.

Obrigar o PSD a negociar no parlamento, para governar, fortaleceria a nossa democracia. O casamento de conveniência dará ao CDS o prazer de degustar a governação da Região, mas, como em outros matrimónios interesseiros, a excitação da lua de mel cedo poderá transformar-se numa grande desilusão, com prejuízos avultados. O conúbio ficará ainda marcado indelevelmente pela violência e humilhações que uma parte sujeitou a outra durante quatro décadas. Contudo, o noivo deslumbrado com a cadeira, onde aspira vir a se sentar, parece esquecido desses tempos em que era insultado e ridicularizado.

Se o casamento vier a se consumar, mesmo contra a vontade de alguns notáveis da família CDS, que ainda têm memória e dignidade, resta aos deputados, que não se identificam com a governação PSD, a união de forças no sentido de a presidência da Assembleia Legislativa da Madeira ter uma cor diferente, para que assim a Região comece a trilhar o percurso de uma democracia adulta. Negociações discretas, estratégias bem delineadas e o voto secreto podem assegurar este desejável desfecho.

Se assim não acontecer, estão a abrir caminho para que, daqui a 4 anos, o PSD retome a maioria absoluta e o CDS caia do pináculo.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2019

Política no pináculo

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Ser ‘autonomista’ é…

No tempo de campanha eleitoral na Região Autónoma da Madeira, vem sempre ao de cima a questão do ser autonomista. Uns dizem sê-lo e acusam os demais de não comungarem do mesmo ideal. Outros assumem, de forma diferente, a autonomia. Uns arrumaram a sua vida e a da sua família à custa da autonomia e proclamam-se de autênticos autonomistas. Alguns continuam a afirmar que lutam por uma verdadeira autonomia. Há ainda quem se ache dono da autonomia.

Mas, afinal, o que é ser autonomista, quando a autonomia está consagrada na Constituição e constitui um dos limites materiais de uma revisão constitucional? O que é ser autonomista, quando ainda há tanto para aprofundar, em benefício dos cidadãos, no actual regime autonómico?

Autonomista será o contínuo e, tantas vezes, inconsequente confronto com o Governo da República?

Autonomista será a recorrente recriação e alimentação do fantasma do inimigo externo?

Autonomista será a atribuição a outrem da incapacidade governativa, por inoperância, falta de massa crítica, meios e verbas ou ainda por desmesuradas expectativas numa região limitada em recursos e riquezas?

Haverá somente uma única via para o autonomista?

Ser autonomista é perseverar no mesmo caminho, que levou ao Plano de Ajustamento Económico e Financeiro da Região Autónoma da Madeira em 2012?

Autonomista é quem esbanjou milhões em obras inúteis, em detrimento, por exemplo, da área da Saúde?

Ser autonomista é contribuir para que esta Região seja sempre vista com desconfiança e, simultaneamente, motivo de chacota?

Ser autonomista é apoderar-se da propriedade privada de gente simples e sem dinheiro para contratar um advogado, através de expropriações a preços miseráveis, numa espécie de comunismo laranja?

Ser autonomista é discriminar os municípios da oposição?

Ser autonomista é parir um subsídio de mobilidade para, sub-repticiamente, injectar capital na TAP, com tarifas aéreas inflacionadas, pagas adiantadamente pelos ilhéus?

Ser autonomista é estabelecer uma apertada rede de poder, com numerosos tentáculos, onde tudo gira à volta dos interesses do clã?

Ser autonomista é impingir aos porto-santenses, como lembrança dos 600 anos do ‘descobrimento’ da sua ilha, uma estátua concebida para exaltar o colonialismo internacional nos anos 30 do século passado?

Na verdade, uma definição ou um conceito não se constrói pela enunciação do que não é ou não deve ser. Sirvam, porém, as questões acima expostas como motivação e reflexão.

Pegando na denominação infeliz – o cubano –, com raiz nos tempos do PREC [Processo Revolucionário em curso decorrente do 25 de Abril] e na definição matreira e cáustica, mais tarde veiculada, de que «cubano era aquele que não tinha a Madeira no coração», poderíamos também dizer que autonomista é quem tem a Madeira no coração, aquele que ama a Região, trabalha e luta pelo melhor para o arquipélago e o seu povo e reage quando estão em causa valores e direitos consagrados ou a consagrar. Do processo autonómico, pela sua dialéctica, não se pode excluir o contencioso.

Partindo destes ideais, de aceitação pacífica, segundo cremos, convém, no nosso tempo, observar o autonomista no seu território, e não, exclusivamente, no confronto entre a periferia e o poder central.

Esse posicionamento crítico obrigaria, por certo, posturas diversas, que conduziriam a um trabalho profícuo com resultados significativos para o progresso e afirmação positiva da Região.

Há temáticas que, com efeito, já nem deviam ser objecto de discussão, depois de 40 anos de autonomia, mas a Região real impõe essa necessidade. Colocando o autonomista como autor e actor no seu próprio espaço, urge a implantação e o desenvolvimento de comportamentos e medidas, nos seguintes domínios, entre outros:

Vivência democrática: um autonomista não ostraciza nem persegue o porto-santense ou madeirense que pensa de forma diferente e tem outro projecto de sociedade, porque a autonomia só pode existir em democracia. Foi a Revolução do 25 de Abril que possibilitou a democracia e a autonomia. São inseparáveis, apesar das resistências à democracia nesta Região.

Emprego e riqueza: O emprego e a distribuição de riqueza não devem apenas contemplar o grupo político dominante, afastando os conotados com a oposição ou condenando, ao silêncio e à demissão da cidadania activa, os menos fervorosos, em troca de trabalho, casa e pão.

Respeito pela Natureza: se o sentimento autonomista nasce do amor à terra natal, como pode o autonomista continuar a destruir a riqueza maior destas ilhas e, sem dúvida, a grande atracção turística? Depois do descarado assalto ao litoral e às ribeiras, prepara-se a invasão da floresta, altivamente (re)anunciada com um «quer queiram, quer não queiram».

Identidade Cultural: o autonomista valoriza a Cultura Regional e contribui para a sua promoção, não discriminando quem não partilha a mesma opção. Promover a Cultura não é subjugá-la ao padrão oficial e aos redutos insulares. O diálogo entre a identidade e a universalidade constitui o caminho da nossa afirmação como Região Autónoma.

Cultura de Clã: o autonomista, que trabalha em favor da sua Região, não pode constantemente promover a exclusão, o privilégio, o favoritismo, o clientelismo e, consequentemente, a corrupção.

Nada do que temos vindo a afirmar constitui novidade. Poderá até ser considerado utopia. Contudo, como cantou o poeta António Gedeão: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança.

Infelizmente, muitos exemplos do quotidiano podem ilustrar como alguns ditos autonomistas actuam, o que sugere mais vandalismo político do que verdadeira afeição à autonomia.

Uma coisa é ser autonomista da boca para Lisboa, outra é a práxis do autonomista no governo da sua própria terra e no dia-a-dia.

Funchal Notícias. 11 Setembro 2019

Ser “autonomista” é…

 

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Grande parte da obra poética de José Agostinho Baptista, reunida sob o título Epílogo, deveria ser editada em Outubro do ano passado, numa iniciativa da Comissão dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira e a Porto Editora. Chegou a ser anunciada em dois jornais nacionais, mas não se efectivou.

A imprensa deu conta da insatisfação do Poeta pela não concretização do projecto na data aprazada. Guilherme Silva garantiu então que Epílogo viria a lume e, para tal, desenvolvia esforços no sentido de obter patrocínio da Assembleia da República. Afiançou mesmo que «em momento algum está em causa a edição» (DN-Madeira, 7-10-2018, pp. 36-37).

A verdade é que a XIII legislatura chegou ao fim, como também está a terminar o mandato deste Governo Regional, e nada mais veio a público sobre a prometida edição.

As comemorações dos seiscentos anos estão em curso, é certo. Todavia, não se conhece o seu programa editorial. De vez em quando surgem edições com o logótipo da Comissão, mas ninguém percebe bem quais os objectivos, temáticas seleccionadas e cronograma. Tudo vai acontecendo um tanto ao acaso ou conforme as oportunidades ou a agenda governamental. Vejamos: em 12 deste mês foi apresentado no Porto Santo, Das ilhas, a primeira, de Cláudia Faria e Graça Alves, uma edição de 2018 do Centro de Estudos de História do Atlântico, não comercializada, com uma tiragem de 300 exemplares; no dia 30 ocorreu o lançamento de Ondas de Glória: momentos históricos da Natação na Madeira, da Associação de Natação da Madeira e Arteleia, livro pago quase na totalidade pela Direcção Regional de Cultura e integrado nas celebrações do descobrimento, logo com o respectivo logótipo (DN-Madeira, 27-07-2019, p. 29). Entretanto, foi divulgado que, «no âmbito do ciclo de publicações dos 600 anos, está ainda previsto o lançamento de mais de 20 obras» (Ibidem, 13-07-2019, p. 42). Quais? Edição? Colecção? Quando? Não se sabe…!

Voz poética singular, José Agostinho Baptista nasceu no Funchal em 1948. A sua poesia, marcada pela originalidade, desenvolve-se em muitos títulos:

Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O último romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Autoretrato (1986); O centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Afectos (2002); Anjos caídos (2003), Prémio PEN Clube Português; Esta voz é quase o vento (2004), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT; Quatro luas (2006); Filho pródigo (2008); O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos (2009); Caminharei pelo vale da sombra (2011); Assim na terra como no céu (2014).

Em todos, o Poeta rememora a terra natal, como confessou: «A Madeira no fundo era a poesia que eu andei a escrever, longe dela. Mas sempre com ela no pensamento e no coração.» (DN-Madeira, 7-10-2018, p. 37)

Desse apego à ilha mãe, realço, em particular, Canções da Terra Distante, livro autobiográfico, sem cariz realista, onde o Poeta evoca lugares da geografia dos seus afectos. Narrativa obsessiva de quem, fora da ilha, permanece nela através de paisagens e recordações, que indelevelmente povoam a sua mente.

A sua obra tem merecido vários estudos, sob a forma de dissertações académicas, ensaios, artigos e recensões críticas. Ana Margarida Falcão (1949-2016), na sua tese de doutoramento – Os novos shâmanes: um contributo para o estudo da narratividade na poesia portuguesa mais recente (2003), concluiu de modo lapidar:

«Nostálgica viagem da lembrança ou melancólica peregrinação pelos lugares da memória, a poesia de José Agostinho Baptista conta, em episódios vários e em diversa dimensão narrativa, o exílio de um sujeito em si mesmo, corpo e mente desdobrados em múltiplas variantes que sacralizam o sonho, o devaneio e os vestígios do passado, proporcionando a enunciação de representações essencialmente em função da ausência.» (p. 398)

A obra de José Agostinho Baptista entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

O Poeta não publica há cinco anos. Diz também que deixou a escrita. Contudo, a obra que construiu, desde 1976, atesta da sua grandeza poética.

O Poeta tem dado muito à Madeira e à Literatura Portuguesa. Não constitui, por isso, favor algum a publicação de Epílogo, o que deveria ter acontecido há quase um ano. Razões ou circunstâncias mal-esclarecidas atrasaram a edição. Por falta de dinheiro não foi, de certeza! Convém, por isso, lembrar: Palavra dada deve ser palavra honrada. Por gratidão, com José Agostinho Baptista maior é o compromisso.

Funchal Notícias. 31 Julho 2019

Palavra dada é para ser honrada

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A Câmara Municipal de Machico deliberou encomendar e instalar uma escultura alusiva ao desembarque dos navegadores portugueses na ilha da Madeira, nos finais da segunda década do século XV. Para o Funchal, está também prevista uma obra para assinalar os 600 anos do descobrimento, conforme contrato celebrado em 11 de Dezembro de 2018 entre a Secretaria Regional do Turismo e Cultura e o escultor Amândio de Sousa.

Em ambos os casos, optaram as entidades adjudicantes por ajustes directos em detrimento do concurso público, que permitiria selecção criteriosa do objecto artístico a adquirir.

É frequente associar esculturas públicas a celebrações de momentos históricos. Nestes casos, recomenda-se uma obra plástica original com interesse estético, cultural e social, que tenha em conta o lugar, onde será implantada, e o público.

A Câmara de Machico optou por contratar um escultor nascido no concelho, Luís Paixão, já com obras no espaço urbano, encomendadas pela edilidade. Uma delas, intitulada «Na rosa dos ventos: Machico à proa», cuja concepção custou ao município 18 670,00 €, conforme contrato por ajuste directo celebrado em 30 de Abril de 2015, representa um navegador a colocar um padrão na terra descoberta, o que, na verdade, não aconteceu, pois o assentamento de padrões em pedra, como forma de marcar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão na margem sul da foz do Zaire, em 1482.

O baixo-relevo, inaugurado no passado dia 2, representa o desembarque de Zarco, Tristão e os seus companheiros em Machico. O escultor optou por uma composição figurativa, aplicando elementos que, no seu entender, retratam o descobrimento: navegadores, barca, batel, astrolábio, rosa dos ventos, ave marinha (gaivota?) e a linha de costa.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Neste baixo-relevo realista, o astrolábio não tem justificação histórica. Mais correcto seria uma agulha de marear e uma carta-portulano. A navegação astronómica é posterior ao descobrimento do arquipélago da Madeira. E, de início, no cálculo da altura meridiana da Estrela Polar utilizava-se o quadrante e não o astrolábio. (Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1985, p. 80)

Como ensinou Damião Peres:

«Anteriormente ao começo das navegações atlânticas promovidas pelo Infante D. Henrique, e mesmo durante os primeiros tempos destas, o sistema de navegação usado em navios portugueses foi sem dúvida igual ao seguido pelos Italianos e outros povos: navegar recorrendo às cartas de marear, que mostravam repetidamente as direcções dos rumos, e seguindo, com o auxílio da agulha magnética e do cálculo da distância percorrida, o adequado rumo.» (História dos Descobrimentos Portugueses, 3.ª ed., Porto, 1983, p. 187)

Este baixo-relevo assemelha-se a um trabalho escolar no qual se dispõe, sobre papel ou cartolina, um conjunto de signos tradicionalmente conotados com os descobrimentos portugueses. Se, no momento de avaliação de uma unidade didáctica dedicada à expansão portuguesa, eu propusesse aos alunos a elaboração de um cartaz alusivo ao descobrimento da Madeira, certamente lá apareceriam os mesmos elementos que Luís Paixão se serviu. Numa turma do ensino básico isso até mereceria boa classificação. Já o mesmo não é admissível numa escultura pública para perpetuar tão importante efeméride.

O baixo-relevo, Machico 600 anos, caracteriza-se por uma linguagem estética do passado. Sem criatividade. Démodé. Passadista até na inscrição «1419», ano do descobrimento, segundo a historiografia do século XIX e a corrente tradicionalista. Além disso, com tónica naïf ou erro de perspectiva: na posição em que se encontra o batel, nunca os homens que o empurram poderiam ter pé.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Esperava-se uma criação artística do século XXI, um legado dos 600 anos para as gerações vindouras. A Câmara de Machico gastou nesta obra 103 121,22 €. Contudo, no domínio da intervenção artística no espaço público, nada de novo e significativo acrescentou à cidade. Tão-pouco diversificou a linguagem estética da escultura pública no contexto urbano machiquense.

Para que não restem dúvidas, aqui fica a descrição da despesa, conforme o Portal Base (Contratos Públicos Online):

– Prestação de serviços para a idealização e concepção da obra escultórica Machico 600 anos, José Luís Alves Paixão, 13 500, 00 € (29-05-2019).

– Prestação de serviços para formação/execução da escultura Machico 600 anos, António Guedes Lopes, 17 700,00 € (21-06-2019).

– Fundição da escultura Machico 600 anos em bronze, Fundição de Bronze de Arte Lage, Ld.ª, 27 000,00 € (24-06-2019).

– Trabalhos acessórios para implementação de escultura em baixo-relevo, alusiva aos 600 anos – Machico, BC Construções, Unipessoal, 44 921,22 € (28-06-2019).

Discutível é também a localização do baixo-relevo. No meu entender, faria sentido na beira-mar. Escolheram um sítio próximo dos Paços do Concelho – com dignidade, é certo –, talvez para ficar sob o olhar vigilante dos autarcas.

Creio que Machico teria beneficiado com uma encomenda de uma escultura sujeita a concurso público e apreciação de propostas por um júri idóneo. Aliás, esta é a prática recomendável, pois o dinheiro dos contribuintes não deveria servir para custear gostos e padrões estéticos de autarcas ou governantes.

Funchal Notícias. 17 Julho 2019

O baixo-relevo alusivo ao desembarque em Machico

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No passado dia 6 de Junho, o Banco de Portugal colocou em circulação uma moeda de 2 euros, comemorativa dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Foi anunciada nos media no passado mês de Janeiro, após a publicação da Portaria n.º 16/2019 (Diário da República, I Série, n.º 10, 15-01-2019), que, no âmbito do Plano de Emissões de Moedas Comemorativas para 2019, tradicionalmente designado por Plano Numismático, autorizou a Imprensa Nacional-Casa da Moeda a cunhar a moeda de 2 euros, designada «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo».

De acordo com esta Portaria, a moeda teria as seguintes características: na face comum, o desenho europeu das moedas de euro em circulação; na face nacional, ocupando todo o campo central, a representação da silhueta das ilhas, onde se destacam linhas de rumo dos portulanos. A circundar a imagem do arquipélago, as legendas: «600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo»; «Portugal 2019»; «INCM» e a indicação do autor. Envolvendo todo o desenho, as 12 estrelas, dispostas em forma circular, que representam a União Europeia.

O desenho da face nacional desta moeda constava no anexo da referida Portaria, e a imprensa regional divulgou-o.

De imediato, em 15 de Janeiro, na rede social Facebook, foram apontadas três importantes críticas acerca da representação do território da Região Autónoma da Madeira e da legenda: a) Omissão do subarquipélago das Selvagens; b) Uso incorrecto da preposição «de» («de Porto Santo», em vez «do Porto Santo»); c) Colocação, em primeiro lugar, do descobrimento da Madeira, quando, por respeito da cronologia histórica, deveria ser «600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira».

Entregues estas críticas, logo a Comissão Executiva dos 600 anos tratou de corrigir os erros, mas somente dois mereceram a sua atenção. Surgiu, por conseguinte, a Declaração de Rectificação n.º 5/2019 (Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019), que alterou a Portaria anterior. Em concreto, emendou a legenda para «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo» e, no desenho, procedeu à inclusão das Ilhas Selvagens.

Declaração de Rectificação n.º 5/2019, Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019

Se Júlio Pomar executou o desenho da primeira versão, a inserção posterior do subarquipélago das Selvagens e outras alterações, inclusive na posição da assinatura, não podem ser da sua autoria, porque o famoso artista plástico faleceu em 22 de Maio de 2018.

Por ignorância ou caturrice, mas na linha daquela malformação congénita – Resolução n.º 243/2017, do Governo Regional da Madeira, que criou a Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos – manteve-se, na legenda, a precedência do descobrimento da Madeira sobre o da ilha do Porto Santo, o que está errado. Aliás, tudo o que é oficialmente publicado e dito pela Comissão dos 600 anos padece do mesmo vírus, o qual, por anormal resistência, parece ser incurável e ter o potencial de causar uma pandemia anti-histórica.

Para a posteridade, ficará uma moeda comemorativa com um percurso atribulado, e que não honra a História. Mas, sem dúvida, testemunhará como, até numa simples moeda, a Comissão Executiva dos 600 anos desconsidera o descobrimento do Porto Santo.

Maior atenção merecerá, com certeza, a leitura do valor inscrito na face comum, do que a infeliz legenda da face nacional da moeda comemorativa dos 600 anos do Porto Santo e da Madeira.

Funchal Notícias. 3 Julho 2019

Travessura numismática

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O bolo do caco, muito comum no Porto Santo e na Madeira, difere do pão, principalmente, pela natureza da cozedura e a forma redonda e achatada. Era cozido sobre um caco ou uma pedra de tufo de lapilli (cantaria mole vermelha) ou traquito (cantaria branco-suja do Porto Santo) e, nos nossos dias, sobre chapa ou numa frigideira. O pão vai ao forno. Há também quem aponte diferenças na massa (mais elástica no bolo do caco) e na levedura (menos lêveda do que o pão).

Já foram notadas semelhanças com o pão dos hebreus, referido, por exemplo, no Antigo Testamento: «pão cozido debaixo da cinza» (1 Rs 19:6). Em muitos lugares, coze-se pão sobre uma pedra aquecida. É um processo ancestral que se mantém na actualidade, em diferentes países.

O bolo do caco era o pão dos mais pobres, daqueles que não tinham forno ou fornalha e que, de uma maneira mais ou menos improvisada, coziam a massa sobre um caco ou pedra, aquecidos com lume vivo ou sobre brasas.

Acerca da naturalidade do bolo do caco, ou seja, se é originário do Porto Santo ou da Madeira, por agora e com certeza, nada se sabe. A diferença entre um e outro, quanto ao paladar, poderá ter a ver com as características da água ou a forma de levedar a massa, nas duas ilhas. De acordo com o testemunho de uma porto-santense à jornalista Alexandra Prado Coelho, «o segredo está na forma de tratar a massa, que se deve deixar levedar três vezes – e não apenas duas como fazem na ilha da Madeira» (Público, 28-05-2016).

A receita é muito simples: farinha de trigo, água, fermento e sal. Há quem acrescente batata-doce, previamente cozida e amassada, mas originalmente não entrava na massa. A utilização de um fermento natural garante-lhe o sabor original.

Cozedura do bolo do caco. Foto: © Rui Marote.

O bolo do caco associou-se à espetada e, nas últimas décadas, é iguaria reputada nos restaurantes e padarias. Nas festas e arraiais, tem presença obrigatória, barrado com manteiga de alho com salsa. Agora fazem-se pregos e hambúrgueres no bolo do caco. E há também bolo do caco com chouriço. As versões gourmet não convencem, porém, os bons apreciadores e conhecedores.

O bolo do caco vulgarizou-se, assumiu a categoria de tradicional e associou-se a outras especialidades. Deixou de ser produto exclusivamente artesanal, tornando-se industrializado.

No entanto, muitas vezes é de má qualidade, só disfarçada por estar quente e barrado com manteiga. É ver, em locais concorridos, a massa a levedar rapidamente, com fermento em excesso, porque os clientes não podem esperar. Por outro lado, a introdução de farinha de batata-doce, até da China, não o beneficia.

Desde há alguns anos, fala-se na certificação do bolo do caco, a fim de ser garantida a autenticidade e qualidade.

Com efeito, ao aumento considerável da procura não tem correspondido a produção alargada de um bolo do caco genuíno. Há, pois, necessidade de criar mecanismos de intervenção, a fim de ser garantida a qualidade de um produto tradicional. Igualmente, impõe-se a fiscalização em festas e arraiais sobre o bolo do caco e a dita manteiga de alho.

Sendo o bolo do caco tão comum na Madeira, o Mercado Quinhentista, realizado no início deste mês em Machico, não poderia deixar de lhe dedicar uma barraca. Ora, neste Mercado, procura-se uma recriação de ambientes do século XVI. Todavia, a barraca do bolo do caco constituía uma aberração. Havia uma batedeira eléctrica, para amassar, e o bolo era cozido sobre uma chapa aquecida com chama de gás.

Situações destas não deveriam acontecer num Mercado Quinhentista. O sucesso deste evento confere responsabilidades acrescidas à comissão organizadora, que, de futuro, não poderá deixar de se empenhar na eliminação de alguns anacronismos e desvios, aliás recorrentes nas últimas edições.

A recriação da amassadura artesanal do bolo do caco e da cozedura em pedra aquecida com lume de lenha, naquele Mercado, constituiria, sem dúvida, um atractivo bem mais próximo do tempo que se pretende recriar. Por outro lado, possibilitaria a divulgação das técnicas ancestrais do fabrico de um alimento tradicional, contribuindo para a valorização do nosso Património Cultural.

Funchal Notícias. 19 Junho 2019

Bolo do caco

 

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