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Archive for the ‘In memoriam’ Category

Rui Santos. Foto: Jornal da Madeira

Rui Santos. Foto: Jornal da Madeira

Foi nos anos 80 do século passado que conheci, no Arquivo Regional da Madeira, o Senhor Rui Santos. Leitor assíduo do nosso Arquivo, gostava de ocupar sempre o mesmo lugar na pequena sala do rés-do-chão do Palácio de São Pedro, à Rua da Mouraria.

Ficámos amigos e conversávamos muito, sobre tudo. Nunca em cafés ou esplanadas, mas deambulando pelas ruas do Funchal ou numa esquina qualquer. Tinha uma grande capacidade de memória, e contou-me histórias interessantíssimas das suas vivências pessoais e profissionais.

Apesar de nos separarem ideologias e concepções políticas, sempre falámos de tudo. Revelava uma enorme capacidade de argumentação, em defesa dos seus pontos de vista. E gostava de esgrimir com as palavras. No Futebol, estávamos do mesmo lado. Ambos do Benfica. Mas Rui Santos, sabia muito mais do Benfica do que eu (fraco adepto!), pois lembrava-se de jogos e jogadores que eu nunca fixara e pormenores que me passavam despercebidos.

Muitas vezes, dei-lhe a ler o que tencionava publicar, nomeadamente, crónicas para a imprensa. E da sua parte, vinham sempre sugestões proveitosas. Ele fazia o mesmo comigo, e com frequência li os seus textos antes de publicados no Jornal da Madeira.

Muitas das crónicas de Rui Santos resultaram das suas investigações no Arquivo Regional e na Biblioteca Municipal do Funchal. Porque bem fundamentadas, são referências para a História da Madeira, sobretudo do Funchal, pois à sua cidade dedicou particular atenção. Ainda que nem sempre tal fosse possível, Rui Santos elegia um tema e gostava de investigar até “esgotar” o assunto. Quando lhe escapava um elemento, que considerava importante, procurava-o incansavelmente. Só publicava, quando conseguia colmatar essa lacuna.

Felizmente, muitas dessas crónicas foram catalogadas pela Biblioteca Pública Regional da Madeira, sendo hoje fácil a sua localização. Caso tal não tivesse ocorrido, o investigador seria obrigado a percorrer centenas, senão milhares, de páginas de jornais em busca dos seus muitos escritos, ao longo de décadas.

Dessa colaboração no Jornal da Madeira, saliento a série de artigos sobre a Confeitaria Felisberta (26 Nov. 1989-7 Jan. 1990), Ruas da cidade do Funchal (Fev.-Abr. 1993) e Desertas (18-23 Nov. 1990). Mas tantos outros, que não resultaram da pesquisa nas fontes documentais, mas, sim, das suas observações do quotidiano funchalense, da recolha de informações, como relativamente ao Porto Santo, ou da sua experiência profissional na Comissão dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira e, depois, na Empresa de Electricidade da Madeira, são de inegável interesse para a compreensão da História da Madeira.

Rui Santos publicou:

  • Divisão das capitanias da Madeira: estudo. Funchal: 1953.
  • A construção do Teatro D. Maria Pia. Funchal: 1994.
  • Crónicas de outros tempos. Funchal: 1996.
  • Coisas do Porto Santo. Funchal: 2001.

E colaborou com importantes artigos na revista Islenha, editada pela DRAC, como os seguintes:

  • O Cemitério Israelita do Funchal. Islenha. Funchal. 10 (Jan.-Jun. 1992) 125-164.
  • A família Abudarham do Funchal. Islenha. Funchal. 12 (Jan.-Jun. 1993) 106-139.
  • As Desertas: sua dependência administrativa. Islenha. Funchal. 21 (Jul.-Dez. 1997) 23-34.
  • Eng.º Amaro da Costa: o Homem da água. Islenha. Funchal. 24 (Jan.-Jun. 1999) 85-92.
  • A demolição da muralha da cortina da cidade. Islenha. Funchal. 25. (Jul.-Dez. 1999) 38-58.

De registar ainda o seu empenho na preservação do arquivo e do acervo da Empresa de Electricidade da Madeira, colaborando activamente, mas já aposentado, na organização do arquivo daquela empresa e na montagem do Museu de Electricidade.

Disciplinado, metódico, seguro das suas convicções e intransigente com certos valores e princípios, Rui Santos foi um “homem bom” do Funchal, que se dedicou com particular afeição à “Casa da Luz”, onde trabalhou durante muitos anos, e ao Jornal da Madeira, onde entrou pelas mãos do seu pai, Carlos Maria dos Santos, e com este periódico colaborou em prol da promoção da Cultura e dos valores madeirenses, publicando com regularidade.

Os muitos artigos, que deixou nas páginas do JM, atestam do seu labor e empenho na divulgação da História e do Património Cultural da Madeira.

Nelson Veríssimo

14-07-2014

Depoimento escrito para o Jornal da Madeira, a pedido da jornalista Lúcia M. Silva, que reproduziu excertos no artigo ‘Partiu o homem das crónicas sobre o Funchal’ (Jornal da Madeira, Funchal, 15-07-2014, p. 8).

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António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em S. Vicente, Madeira, a 22 de Setembro de 1921.

 

Morreu no Funchal, em 11 de Agosto de 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

      

Vai não com mãos de fadas

a bailar quimeras…

Que outra voz

te anime o leme;

que outra vela

te guarde a saudade.

 

        António Aragão, Arquipélago, Funchal, 1952, p. 15. 

 

 

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa; especialização em Biblioteconomia e Arquivística pela Universidade de Coimbra.

Historiador, poeta, romancista, contista, dramaturgo e pintor.

Director do Arquivo Distrital do Funchal (Arquivo Regional da Madeira) de 1969 a 1986.

 

Preservação do Património Cultural: um alerta de 1979 repetido em 1987

 

E se a cidade do Funchal é vítima impotente duma espécie de destruição sistemática, que devemos dizer também do que se passa em toda a Madeira? Realmente, se o património urbano do Funchal posterior à época manuelina (séculos XVII e XVIII – cidade do vinho), já profundamente delapidado, caminha para uma breve extinção, outro tanto devemos apregoar quanto às construções tradicionais da Madeira e Porto Santo, as quais constituem as peças mais valiosas do património rural insular e que nos nossos dias rapidamente estão morrendo por toda a parte.

 

Qualquer dia nada resta. Consumou-se um crime. Aliás um duplo crime. Matou-se uma cultura e, conjuntamente, o homem que a concebeu e viveu – esse homem europeu que, numa agigantada ocasião da sua história, levantou a primeira cidade portuguesa fora da Europa, nas distanciadas paragens do Mar Atlântico.

 

Para a História do Funchal, Funchal, 1987, p. 284.

 

OBRAS PRINCIPAIS

 

HISTÓRIA

Pelourinhos da Madeira, Funchal, 1959.

O Museu da Quinta das Cruzes, Funchal, 1970.

Para a História do Funchal: pequenos passos da sua memória, Funchal, 1979.

A Madeira vista por estrangeiros. Funchal, 1981.

As armas da cidade do Funchal no curso da sua História, Funchal, 1984

Para a História do Funchal, Funchal, 1987 (2.ª ed.).

O espírito do lugar: a cidade do Funchal, Lisboa, 1992.

 

Lançou, em 1972, a Série Documental do boletim Arquivo Histórico da Madeira, editado pelo Arquivo Distrital do Funchal, a fim de divulgar fontes para a história da Madeira.

 

LITERATURA

 

Poema primeiro, Covilhã, 1962.

Roma nce de Iza Mor f ismo, in Poesia experimental 1: 1.º caderno antológico (org. António Aragão e Herberto Helder), Lisboa, 1964.

Mirakaum em 5 episódios in Poesia experimental 2: 2.º caderno antológico (org. António Aragão, E. M. de Melo e Castro e Herberto Helder), 1966 

Folhema 1, Funchal, 1966.

Folhema 2, Funchal, 1966.

Mais exacta mente p(r)o(bl)emas, Funchal, 1968.

Poema azul e branco, Funchal, 1970.

Poema vermelho e branco, Funchal, 1971.

um buraco na boca: romance, Funchal, 1971.

Os Bancos, Setúbal, 1975.

Metanemas, Funchal, 1981.

Desastre nu: peça em quatro episódios, Lisboa, 1981 (2.º Prémio do Concurso de Peças de Teatro Inéditas – 1980, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura).

Pátria, Couves, Deus, etc., Lisboa, 1982.

Textos do Abocalipse, Lisboa, 1992.

Pátria, couves, Deus, etc. com tesão, política, detergentes, etc., Lisboa, 1993

 

Em 1956, organizou o caderno literário, Búzio, onde colaboraram Edmundo Bettencourt, David Mourão-Ferreira, Eurico de Sousa, Esther de Lemos, Herberto Helder, Jorge Sumares e J. Escada, além do próprio António Aragão.  

 

ANTOLOGIAS

Arquipélago, Funchal, 1952.

Musa Insular (poetas da Madeira) / Luís Marino, Funchal, 1959.

Antologia da poesia concreta / José Alberto Marques e E. M. de Melo e Castro, Lisboa, 1973.

O Natal na voz dos poetas madeirenses / José António Gonçalves, Funchal, 1989.

Narrativa Literária de Autores da Madeira do Século XX: antologia / selecção de textos, prefácio e notas de Nelson Veríssimo, Funchal, 1990.

Narrativas contemporâneas da Madeira. Récits contemporains de Madère / selecção de textos, choix des textes, Thierry Proença dos Santos, Funchal, 1997.

Contos Madeirenses / org. e nota introdutória de Nelson Veríssimo, Porto, 2005.

 

ETNOGRAFIA

As recolhas de António Aragão e Artur Andrade, com a colaboração de Jorge Valdemar Guerra e Luís Alberto Silva, nos anos de 1972 e 1973, deram origem a diversos discos editados pela DRAC (duplo LP em 1982) ou com o apoio deste departamento governamental (seis CD, 1996 e 1998). Constituem, sem dúvida, significativos contributos para o estudo da cultura popular tradicional madeirense.

 

PATRIMÓNIO CULTURAL

Delegado dos Museus e Monumentos Nacionais na Madeira.

Membro da Comissão de Arte e Arqueologia da Câmara Municipal do Funchal.

Elaborou o Estudo de Prospecção e Defesa da Paisagem Urbana do Funchal, 1966-1967, e, a partir de 1969,  os Inventários Artísticos dos concelhos de Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta, a pedido da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Coordenador da exposição Funchal: ontem e hoje, Museu de Arte Sacra, Funchal, 1980.

Em 1956, esteve ligado à instalação do Jardim Arqueológico do Museu da Quinta das Cruzes e, em 1961, dirigiu as escavações arqueológicas do local onde se ergueu o Convento Franciscano de Nossa Senhora da Piedade, em Santa Cruz.

Procedeu também a levantamentos de moinhos do Porto Santo e de espécimes da arquitectura tradicional do arquipélago madeirense, tendo em vista a obra que preparava: Arquitectura Rural da Madeira e Porto Santo.

 

BIBLIOGRAFIA PASSIVA

DIONÍSIO, F. P. (1997). O experimentalismo em António Aragão. Islenha, n.º 20, Funchal, pp. 12-20.

GUERRA, J. V. (2009). Dr. António Aragão Mendes Correia (1921-2008). In BARROS, F., coord. Legados para a História: um agradecimento. Doações ao Arquivo Regional da Madeira de 2005 a 2008. Funchal: SREC-DRAC, pp. 28-33.

Margem 2, n.º 28, Funchal, 2011 (número inteiramente dedicado a António Aragão, coordenado por Nelson Veríssimo)

RODRIGUES, A. (1981, Dez.). Lendo António Aragão: um buraco na boca. Margem I, Funchal.

 

 

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