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Archive for Abril, 2009



O filósofo francês Georges Gusdorf (1912-2000) sublinhou a necessidade da existência de «especialistas da não especialidade», ou seja, de homens e mulheres de cultura científica e humanística que vissem para além do ramo estreito que estudaram.


Esta afirmação, associada a outras teses suas sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, vem sugerir a premência da abertura de pensamento para o «campo unitário da cultura». Não se trata somente de reunir especialistas de diferentes ramos do saber («interdisciplinaridade por justaposição ou por adição», segundo Gusdorf), mas antes procurar o saber universal. Daqui decorre nova forma de conhecimento. Uma cosmovisão totalizadora e unificadora. Um espírito científico aberto ao diálogo.


Em síntese, Gusdorf, neste particular, preconizava a «educação do sentido interdisciplinar», partindo do princípio que inúmeras especialidades fragmentavam o conhecimento e faziam desaparecer o sentido da unidade humana.

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Logo, o professor deveria ser um «revelador da totalidade», proposta pedagógica que implicava profunda reformulação das mentalidades e consciência da unidade do saber.


Com efeito, as divisões do campo científico são traçadas com linhas artificiais. Existem apenas pela necessidade de sistematizar, tendo em vista pesquisa e conhecimento mais aperfeiçoados de determinados ramos do saber.


No entanto, se as delimitações de diferentes campos têm-se revelado, na sua maioria, úteis e fundamentais ao progresso científico, já os muros que, estupidamente, alguns criam à volta de uma determinada área, cerrando barreiras como se a «sua ciência» fosse um compartimento estanque, constituem desastrados empecilhos à cooperação, à inovação e à compreensão da totalidade, tão cara à filosofia e tão importante para a ciência contemporânea.


Esses nichos, que proliferam em alguns meios académicos, não se coadunam com um verdadeiro espírito universitário. Geram separações que dificultam o trabalho em comum, prioritário na instituição.


Quem estudou História facilmente tem consciência do todo que constitui o passado do Homem. O historiador tem, obrigatoriamente, de praticar a interdisciplinaridade, para compreender e explicar as vivências sociais.


Em História, constitui prática constante o intercâmbio com várias ciências ou a colaboração recíproca. Vejamos um exemplo: como explicar os efeitos da Peste Negra, sem recorrer à medicina, à economia, à política, à demografia, à religião, à antropologia, sem entender as práticas agrícolas medievais, os fenómenos do banditismo, vagabundagem e mendicidade, a atracção das cidades ou os mecanismos tributários, por exemplo?


Por outro lado, o historiador consciente sabe perfeitamente que os territórios da sua arte podem constituir especialidades ou subespecialidades. Todavia, serão sempre partes de um todo, divisível apenas por abstracção. Falamos em História Económica, História Social, História Política ou História Cultural. Mas todas estas especialidades são História. Representam sofisticadas divisões para o desenvolvimento de uma investigação mais profícua.


A História da Educação é, naturalmente, História, pese embora a sua afirmação no âmbito académico das Ciências da Educação. Tem um campo de investigação delimitado. Estuda uma parcela da actividade humana – a educação. Contudo, tem, em devida conta, outros aspectos da vida do Homem em sociedade e as estruturas políticas, administrativas e económicas. Constitui, sem dúvida, uma disciplina da área da História, uma investigação sectorial da História. E se recusar a sua natureza, radicalmente histórica, perderá credibilidade científica.


Os historiadores da educação devem envolver-se em projectos com outras áreas da História e das demais Ciências Humanas e Sociais e não se fecharem no seu recanto. Devem integrar-se na comunidade científica dos historiadores e contribuir para a promoção daquilo que verdadeiramente os une: a História.


Diário de Notícias, Funchal, 5 de Abril de 2009

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Para muitas gerações, o nome deste autor é sobejamente conhecido. Embora fossem quatro os autores de Leituras da IV Classe – da minha e de quantas, meu Deus! –, o livro aprovado oficialmente era, na verdade, denominado por Cruz Filipe. Dos outros co-autores – Manuel Subtil, Faria Artur e Gil Mendonça –, ninguém, inexplicavelmente, se lembrava. As ilustrações, da responsabilidade de Eduardo Romero, também não eram mencionadas.

Guardo, zelosamente, exemplares de 1952 (79.ª edição) e de 1962 (126.ª edição) da Livraria Sá da Costa Editora. A 1.ª edição é de 1931.

Este livro de leitura é composto de textos de autores diversos, de quadros históricos, máximas, alguns exercícios, uma breve síntese de regras ortográficas e uma pequena lista de vocabulário.

Alguns autores consagrados da nossa literatura são incluídos na parte final e deles foram esboçados curtos traços biográficos, que acompanham excertos da sua obra. Camões, António Vieira, Manuel Bernardes, Herculano, Garrett, Castilho, Tomás Ribeiro, Camilo, Júlio Dinis, João de Deus, Trindade Coelho, Eça e Augusto Gil são os vultos literários que constam desta antologia. Curiosa e propositadamente, não aparecem autores de livros para crianças ou adolescentes.

No Salazarismo não havia, com efeito, lugar para Maria Lamas, Mestre Aquilino, Sidónio Muralha ou Sophia de Melo Breyner, entre outros. Além da aversão a escritores democratas, o regime preconizava uma educação austera, sem espaço para a fantasia mágica da literatura infantil ou juvenil, como, por exemplo, de A Menina do Mar, editada, pela primeira vez, em 1957.

As máximas, na sua maioria de Castilho, no final de algumas páginas, só por si denotavam os valores dominantes do sistema educativo de então: «Na família, o chefe é o Pai: na escola, o chefe é o Mestre: no Estado, o chefe é o Governo.»; «No barulho ninguém se entende, é por isso que na Revolução ninguém se respeita.»; «Obedece e saberás mandar.»; «Se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida.»; «Mandar não é escravizar: é dirigir. Quanto mais fácil for a obediência, mais suave é o mando.»; «A tua Pátria é a mais linda de todas as Pátrias: merece todos os teus sacrifícios.»

Não é minha intenção analisar o modelo educacional dos anos do consulado salazarista, nestes Passos na Calçada. Mas as Leituras, à moda da época, vieram-me à lembrança, desgraçadamente, nos dias da Festa. Explico já porquê.

Na minha quase obsessão de recolher referências bibliográficas sobre a Madeira, encontrei na Biblioteca Nacional, há cerca de um mês, um opúsculo intitulado A Ilha da Madeira, pérola do oceano. A cidade do Funchal, jóia rotária. Trata-se da publicação da palestra realizada na sessão de 11 de Fevereiro de 1936, no Rotary Club de Lisboa, pelo Prof. Cruz Filipe. Associei-o, de imediato, com as Leituras da IV classe. Uma pesquisa posterior permitiu-me concluir que o co-autor do famigerado livro dos ditados e interrogatórios de interpretação e gramática escrevera sobre a Madeira.

Cruz Filipe (Manteigas, 1890-Lisboa, 1972) era professor da Casa Pia, em Lisboa, especialista no ensino de surdos-mudos, ortofonia e de deficientes mentais.

No fim do ano de 1935, reuniram-se, no Funchal, rotários de Tenerife, Suíça, Riga, Hamburgo, Porto e Lisboa.

O Prof. Cruz Filipe participou neste encontro comemorativo do segundo aniversário do Rotary Club do Funchal, como representante do clube de Lisboa. Chegou ao Funchal no Lima nas vésperas do Natal de 1935.

Na Madeira, os rotários participaram em diversas manifestações de solidariedade social: distribuição de roupas, brinquedos e bolos na creche de Santa Clara e no Lactário; de bengalas a cegos e berços e enxovais a doze crianças pobres.

Além de vários passeios pela ilha, reuniram-se em jantares no Hotel da Bela Vista, no Reid’s Palace e Savoy. Realizou-se também um baile de gala na Quinta Vigia.

A passagem de ano motivou uma festa rotária oferecida por Frederico de Freitas, primeiro presidente do clube funchalense, na sua residência. Vinhos, doces, música, dança e «uma gentileza fidalga» tornaram inesquecíveis essas provas de amabilidade nas primeiras horas de 1936, conforme narra Cruz Filipe em A Ilha da Madeira, pérola do oceano…

Nesta preciosidade bibliográfica, pode-se ainda colher interessante descrição da noite de S. Silvestre, no Funchal.

Depois de deslumbrado pela imensidade de luzes que serpenteavam as encostas, na ansiosa espera pela meia-noite, Cruz Filipe vê assim o espectáculo da passagem do ano:

De repente, um silvo, outro e outro, muitos sem fim e por entre aclamações frenéticas, estonteantes, sentimo-nos presos de tanta maravilha. É meia-noite em ponto.

O fogo-de-artifício começa a enfeitiçar aquele solene momento. Já ninguém pensa nas agruras do ano que morre. Também ninguém se detém a supor o que será o ano que começa, porque é tal o frenesi que de todos se apodera que tudo esquece, para só se admirar, em êxtase, o deslumbramento deste fogo em conjunto, com crateras chispando chamas de ouro, num clarão constante de prata reluzente; foguetes que lá no alto estalejam para deixarem cair chuvas de estrelas multicolores, bouquets formosos e estonteantes; uma infinita maravilha que nos obriga a fixar ora aqui, ora ali, cada vez mais lindos, fogos brilhantes, num entrelaçamento harmonioso, a resplandecerem nas águas quietas da baía, casando-se intensamente com as linhas iluminadas dos oito navios que silvavam na baía, como que anunciar ao mundo este espectáculo de encanto, único, inconfundível – a glória da Pérola do Oceano.

Passado mais de meio século sobre estas palavras, ainda o fim de ano na Madeira continua a ser momento mágico de majestosa e enternecedora glória da ilha.

Este texto de Cruz Filipe nada tem a ver com as Leituras da IV Classe, da sua co-autoria. Devo dizer que desconheço a sua quota-parte nesse livro e, hoje, deve ser impossível fazer essa destrinça.

Do livro aprovado oficialmente, creio, desde 1931, que pretendia fazer de nós todos «um Gonçalo» tocado pelo «santo orgulho» da «santa Pátria»: rapaz pontual, bondoso, aplicado, cortês, respeitador, modesto, sem pretensões, aluno exemplar, – «Rapazes! Vamos a ver / se sabemos imitá-lo!… / se podemos proceder / em tudo como o Gonçalo.» – não guardo memória de um único texto dos seus autores.

Até a prosa dos escritores, seleccionados pelo seu valor literário, foi escolhida para satisfazer os objectivos do Regime, em termos educacionais. Apenas escapa «A balada da neve», de Augusto Gil, pela sua musicalidade e intenso lirismo.

Acabei desencantado ao reler, trinta anos depois, o meu livro da quarta classe. Ao invés, as impressões de Cruz Filipe, sobre o Funchal de 1935, despertaram-me para estes Passos, maquinados no ano velho e guardados para «o varrer dos armários».

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 15 de Janeiro de 1995, p. 12

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