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O deputado Fonseca

Cartoon de Eder Luís. Diário de Notícias, Funchal, 16-02-2020, p. 26

O impagável Lopes da Fonseca, com aquele seu ar impo, a lembrar uma das personagens que Eça caricaturou, escreveu uma arengada no DN-Madeira de 15-02-2020, na qual, a certa altura, confunde o papel político de um secretário regional da Saúde com o de um director clínico de um Hospital, a quem cabe, sobretudo, “coordenar a actividade do corpo clínico e fazer o elo entre este e a administração” e, evidentemente, não pode, à partida, ser personalidade reprovada pelos seus pares ou mais directos colaboradores. O grande erro de toda esta polémica reside no facto de o CDS e o PSD terem acordado em distribuir lugares de chefia, não necessariamente políticos, aos seus apaniguados, sem atenderem às imprescindíveis competências científicas e técnicas. Em boa verdade, nunca um lugar de director clínico de um Hospital deveria entrar nessa lista de tachos. O resto da arengada, bem como as suas recentes intervenções como ferrenho porta-voz da coligação PSD/CDS, esquecendo ou fingindo não se lembrar do que disse e escreveu há poucos meses, ou ainda aquele seu lapso, no passado dia 11, quando, no decurso da discussão de um voto de louvor à pintora Lourdes Castro, felizmente ainda viva, deu, com ar carregado, condolências à família da grande artista plástica, sem pedir depois desculpas públicas pela sua falha de memória ou de cultura, só descobrem a verdadeira careca do deputado Fonseca. É, por esta e outras, que o povo não tem confiança nos políticos, o que é muito mau para a democracia.

Assembleia Legislativa da Madeira, 11-02-2020

Até agora, a obra maior dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira foi, em meu entender, Epílogo (Poesia Reunida), de José Agostinho Baptista. Contudo, não tem a chancela oficial dos Seiscentos Anos.

Só associo esta edição à data tradicional do centenário da efeméride, porque veio a lume em 2019. Por coincidência (ou talvez não!), ostenta o ano (ou talvez não!) do Sexto Centenário do início da ocupação portuguesa destas ilhas.

De acordo com diversas notícias publicadas na imprensa regional, este magnífico livro é um enjeitado da Comissão Executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações dos Seiscentos Anos do Descobrimento da Madeira e Porto Santo. Enfim, contas tristes de um longo rosário…!

Apesar desse feio imbróglio, Epílogo ergue-se como monumento grandioso e perene destas ilhas atlânticas e da insularidade. Ninguém, como José Agostinho Baptista, cantou tão bem a Ilha. Ademais, a sua obra entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

Epílogo reúne os seguintes livros: Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O Último Romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Auto-retrato (1986); O Centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Agora e na Hora da Nossa Morte (1998); Anjos Caídos (2003); Esta Voz é Quase o Vento (2004); Quatro Luas (2006); Filho Pródigo (2008); Caminharei pelo Vale da Sombra (2011).

No entanto, não se apresenta como a obra completa do poeta. Aliás, o subtítulo é elucidativo: Poesia Reunida. Não foram incluídos: Debaixo do Azul sobre o Vulcão (1995); O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos (2009); Assim na Terra como no Céu (2014).

Para José Agostinho Baptista, estes três livros não habitavam «como todos os outros a geografia plena e coerente da [sua] poesia em verso, iniciada e continuada como um rio que traçou indelevelmente as suas margens e correu em consonância de tempo e inspiração para o seu destino final, para o seu epílogo decidido pelos obscuros desígnios do Cosmos ou de Deus.»

Poeta de vivências insulares e, em especial, de nostalgia por lugares e memórias, na distância sonhou e desenhou paisagens numa linguagem intimista e sublime: «Tudo acaba na sedução das cadeiras, / das páginas onde soletramos um sonho atlântico, / o ancoradouro que nos prende: / ainda que o digas não partirei – / conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da / infância e dos barcos.» (p. 300)

A visão da ilha a partir do exterior, mas fortemente acalentada no íntimo, originou um texto poético marcado pela «transfiguração do real» e pela «fuga para uma certa espiritualidade e para um mundo ideal em confronto com o mundo real», como um dia o poeta disse da sua poesia (Entrevista a Maria Augusta Silva).

Atente-se, como exemplo, o belo poema «Porto da Cruz», do livro Quatro Luas:

Foi aqui,

diz uma voz ao longe,

que, muito depois, ouviste a canção da tua vida,

a água que ainda corria numa levada sem a

morte das cidades que abandonaste.

Aqui viste,

quando as tardes se fechavam pouco a pouco

como um livro de palavras ternas,

o teu rosto que os anos atravessaram de rugas.

 

Aqui ouviste,

junto aos barcos parados,

a incessante música dos pássaros sem nome,

aqui bebeste

num balcão de faia e fogo lento,

as canas doces da tua loucura. (p. 892)

Em toda a poesia de José Agostinho Baptista avulta a terra-mãe, associada a desesperada lembrança ou incerto reencontro com o punhado de infância e de juventude, inatingível, alterado ou desaparecido. Com casas e lugares vazios ou transfigurados. Com sentidas ausências.

«Nunca fomos deste mundo, dir-lhe ei por fim, ao fechar / a última porta.» Eis o verso final, e com tamanha força agora no contexto da obra que o poeta acredita ser a última da sua lavra.

Epílogo revela-se como longo cântico à Ilha-Mãe, construído com rara sensibilidade e paixão durante mais de quarenta anos, cheio de raízes, esperança e desânimo, saudade e gratidão, permanência e despedida, inquietação e tranquilidade, angústia e fé. Povoado de pessoas e lugares de uma geografia de afectos delineada quase sem rodeios. Imagem de uma fonte que secou de tanto brotar, de uma casa agora vazia, de flores e frutos que perderam, entretanto, o sentido. Apogeu da entrega do poeta. A sua dádiva maior. Abrigo também da renúncia ou da pausa decretada pelo fado e o tempo, porque o tal rio com margens bem traçadas desembocou finalmente no mar. E nunca mais chega ânimo para voltar a partir para onde novo rio possa vir a nascer e correr.

BAPTISTA, José Agostinho – Epílogo (Poesia Reunida). Porto: Assírio & Alvim, 2019. ISBN 978-972-37-2056-3.

Funchal Notícias, 5 Fevereiro 2020

‘Epílogo’, de José Agostinho Baptista

Vicejam searinhas nas lapinhas. No verde tenro, gotinhas de água a tremuluzir. Quem as contempla, diz que se cumpriu a tradição ou que procurou fazer o mesmo que os seus pais e avós. E os gestos repetem-se por quem não aprecia arremedos pirosos de searas em plástico.

Searinhas de milho. Foto: © Nelson Veríssimo, 2019.

No dia de Nossa Senhora da Conceição, põe-se o milho a hidratar. Na primeira Missa do Parto, o trigo, a lentilha, o tremoço, a alpista ou o chícharo. Quando começam a germinar, plantam-se as gramíneas ou as leguminosas em pequenos vasos de barro com terra, que são regados amiúde. Pela Festa, as searinhas já crescidas são colocadas na lapinha.

Searinhas de trigo. Foto: © Rui Marote, 2019.

Searinhas verdejantes e densas são bom augúrio. Bom é que pormeneçam – diz-se na ilha. Dá sorte… Para o ano, todos cá estaremos…

O verbo pormenecer, sinónimo de crescer, foi registado por Eduardo Antonino Pestana em Linguagem Popular da Madeira (1970) e continua a ser usado.

Na literatura madeirense, abundam referências sobre as searinhas da Festa. Albino de Meneses faz alusão ao «trigo verde» (1925). Cabral do Nascimento escreveu que «sobre a mesa, rodeando a toalha de linho, corre uma fila de searas dentro de xícaras – trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal modo que formam como que um bloco duro e redondo.» (1950). Horácio Bento de Gouveia observou «tigelas com trigo espigante» (1949). Para João Carlos Abreu, as searas anunciam o Natal: «É Natal, mãe! / As searas cresceram. Os sinos estão / a tocar. / É Natal na cidade…» (1977). António Fournier serviu-se de uma metáfora bem expressiva: «uma cortina espessa de searas viçosas» (2007).

Há, por vezes, a tentação ingénua de considerar este costume natalício como tradição genuína ou tipicamente madeirense. Na realidade, tal não corresponde à verdade.

As searinhas fazem-se em muitas terras e até em diversas ocasiões do calendário de festividades. São reminiscências de antigos ritos agrários e cultos de fecundidade. Dádivas na esperança de boas e fartas colheitas.

Maria Vitória Afonso, em Contos e vivências do Sudoeste Alentejano, deixou testemunho sobre searinhas de trigo, cevada e cizirão na sua freguesia natal, Colos, no concelho de Odemira. Depois do Natal, eram lançadas nas sementeiras para que o Menino Jesus as abençoasse e proporcionasse boa colheita. Noutras terras alentejanas, ocorre este costume, como, por exemplo, em Elvas.

Idêntica prática também se verifica no Algarve, onde a escadinha do Menino Jesus é ornamentada com laranjas e searas de trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico.

A escritora e professora Teresa Rita Lopes, natural de Faro, em «O meu Natal de antigamente», poema publicado em Afectos (2000), recordou: «Quando eu era menina / não havia Pai Natal nem Árvore de Natal. / Armava-se o presépio com chão de musgo / rochas de cortiça virgem ervas a valer / pedrinhas de verdade / e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias / no dia 8 de Dezembro / e eram o pequeno milagre o primeiro / a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.»

Nos Açores, encontramos também searas nos altarinhos do Menino Jesus ou nos presépios: «Entre o dia de Santa Bárbara e o da Imaculada Conceição, ou então no dia de Santa Luzia, coloca-se a grelar em tigelas e pratinhos, ervilhaca, trigo, milho, tremoço e alpista para, juntamente com laranjas e tangerinas, enfeitar o presépio ou o altar do Menino Jesus.» (Açoriano Oriental, 23-12-2012)

José Miguel Alzola, na obra La Navidad en Gran Canaria (1982), afirmou que no dia de Santa Luzia, 13 de Dezembro, era habitual semear trigo, alpista e lentilhas em recipientes de reduzido tamanho e pouca altura. Este costume – la siembra – teria vindo da ilha da Madeira e constituía a primeira tarefa na preparação dos nacimientos.

Em França, na Provença, há a tradição de le blé de la creche ou le blé de la Sainte Barbe, por ser o trigo plantado em três tacinhas no dia dedicado a esta Santa, ou seja, 4 de Dezembro. Associada a esta prática estava a antiga crença de que trigo bem germinado era sinal de ano próspero (Quand le blé va bien, tout va bien !). As três searinhas (alusão à Santíssima Trindade) ornamentam a mesa da consoada e do dia de Natal e são colocadas no presépio somente no dia 26, aí permanecendo até ao dia de Reis.

Falando destas usanças com a minha colega Mahnaz Khadem, professora e investigadora da Faculdade de Ciências da Vida, da Universidade da Madeira, fiquei a saber que no Irão também se fazem as searinhas para ornamentar a mesa do Ano Novo (Haft sin), celebrado no dia da chegada da Primavera (equinócio de Março). A searinha de trigo, representando o renascimento, é um dos sete elementos tradicionais, cada um com o seu significado simbólico, do Haft sin, conjuntamente com a maçã (saúde e beleza), o vinagre (longevidade e paciência), pasta de trigo (nova vida), bagas (amor), moedas (prosperidade), alho (cura das doenças). Com frequência, o vinagre é substituído por uma especiaria (sumak), que simboliza a vitória do bem contra o mal.

‘Haft sin’, de Khatereh Hashemian. Foto: © Gentileza da Prof.ª Mahnaz Khadem.

O costume das sementes germinadas em épocas assinaladas remonta a tempos anteriores ao Cristianismo. No Egipto Ptolemaico (canteiros de Osíris) e na Grécia Antiga (festivais em honra de Adónis) podem estar as raízes do que hoje denominamos de searinhas. Em algumas localidades italianas, não faltam no dia de São José ou na Páscoa. Pode-se assim concluir que as searinhas da lapinha madeirense, introduzidas no arquipélago pelos povoadores portugueses, provêm de usos de civilizações antigas incorporados na tradição cristã, e que ainda hoje se manifestam em diferentes espaços geográficos e em diversas festividades cíclicas, com um simbolismo próprio.

Funchal Notícias. 25 Dezembro 2019

As “searinhas” da Festa

 

Sítio do cabo da freguesia, enroscado na montanha e sempre a vigiar o mar, era o melhor lugar do mundo para quem ali continuava a viver. Agora eram uns trinta. A idade pesava a quase todos, mas a sua alegria impressionava. Raramente saíam daquele lugar, ou como perguntava a Serafina «Para quê caminhar daqui?». Concordei, de imediato, lembrando que o caminho ficava distante, havia uma escadaria irregular e as forças já lhe iam faltando. Serafina não apreciou os meus argumentos e franziu a testa. «Ó Senhor, a gente tem quase tudo aqui no Cerrado do Castanheiro. Caminhar só para ir ao Doutor, de vez em quando à Igreja – à festa da Graça não se pode faltar – e para fazer umas comprinhas, lá de mês a mês». Com um «pois sim», condescendi.

Davam-se todos bem. Por ali, não havia desavenças. Viviam como bons vizinhos. De vez em quando, reuniam-se para uma «brincadeira». Assim chamavam a um convívio com comida e bebida.

Pois em Novembro, com a abundância de castanhas, acontecia sempre um magusto, num domingo aprazado.

Este ano, a Ti Maria, sempre com aquele ar divertido e gargalhada desprendida, teve a ideia de dar um nome à «brincadeira das castanhas». Haveria de ser dos 600 anos, pois, quase de repente, tinham deixado de falar deles, e no Cerrado ainda nada se fizera. Mas só o magusto era pouco. Deram-se a então a pensar em que mais podiam fazer nesse dia. «Então se por essa ilha fora se serviram de tudo e mais alguma coisa para os 600, cá a gente não vai ficar atrás» – dizia com entusiasmo a Ti Maria. De boca em boca, o programa começou a ficar composto.

Seiscentos anos era muito tempo, de modo que tinha de ser uma «brincadeira» a valer. Ficou combinado que, depois do almoço, fariam uma corrida de cachorros. Um bom osso era o prémio para o mais veloz. Adivinhava-se que seria para o «ratazana», o cão do João Fogueira, conhecido pela sua habilidade em tratar da rataria do sítio. Depois haveria uma briga de palheiros. Para quem não sabe, palheiro é um galináceo especial, mais pequeno do que um galo, muito estimado nos quintais e fazendas. São aves atrevidas, e um frente a frente de machos dá briga certa. A contenda seria interrompida quando um deles corresse o risco de ficar bastante ferido. De seguida, teria lugar o brinco das cabaças. Enchiam-nas com água, carregavam-nas na cabeça e, com equilíbrio, percorriam a levada até ao tornadouro do poio do José Vinagre. Ganhava quem, no final, mais água mantivesse na cabaça ou, como costumavam dizer, «mais água tivesse na cabeça». Por fim, realizariam o magusto, com castanhas apanhadas durante a semana. À noitinha, no terreiro da casa da Ti Maria beberiam o licor dos 600 anos.

Dito e feito. Os cachorros foram valentes, os palheiros honraram a sua fama, o jogo da cabaça fez sucesso, as castanhas não tinham bicho e o vinho seco rodou bem.

O melhor, segundo eles, estava para vir. O licor dos 600 anos era segredo bem trancado. Só se sabia que não levava pós nem essências. Aquilo era à base de ervas. Maria tinha percorrido sozinha a serra à procura do que precisava. Depois foram dias de infusão na aguardente. Há uma semana acrescentara-lhe calda de açúcar.

No terreiro, provava-se e gabava-se o famigerado licor. Ti Maria, sentada na sua cadeira de vimes, sentia-se honrada com a presença dos vizinhos. Do licor ela não tinha dúvidas que estava bom. Por precaução, não fosse a sua rica bebida se acabar no domingo, já o vinha provando, mesmo antes de apurado. E, nesse mesmo dia, voltou a degustá-lo várias vezes pela manhã, para se certificar da sua qualidade.

Beberam e voltaram a encher os copos, enquanto cantavam e riam. Quem mais cascalhava era a Ti Maria. As suas gargalhadas pegavam rapidamente, principalmente nas mulheres. Era uma galhofa. Ti Maria estava a ficar com a face mais rosada. De repente, sem qualquer discrição, levantou um pouco a volumosa nádega esquerda e deixou escapar um estrondoso pum. Fez-se algum silêncio, mas logo uma mulher lhe disse «Ti Maria, olhe que esse foi forte». E ela, de imediato reagiu:

– O que é que tu queres, Serafina? Olha foi o fogo dos 600 anos.

Muito riram com o pum da Ti Maria. Festa mais alegre e genuína dos 600 anos do que a do Cerrado do Castanheiro ainda não se tinha visto. Até dias depois, quando lhes vinha à cabeça aquela lembrança, era gargalhada certa. O traque da Ti Maria ficará para a posteridade.

Funchal Notícias. 27  Novembro 2019

Seiscentos anos no Cerrado do Castanheiro

Logo que se conheceram os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, ficámos a saber que o PSD e o CDS estavam para casar, o que nos leva a supor que o namoro vinha de longe, embora de forma discreta.

O líder do CDS, que acabava de perder mais de 9200 votos e 4 mandatos, mostrou-se bem-disposto, a sorrir, faceta, na verdade, quase desconhecida do público. O outro noivo também cantou vitória, com um ar mefistofélico, depois de ter perdido 3 deputados e, por conseguinte, a maioria absoluta. E festejou na rua, apesar de ter obtido a percentagem mais baixa de sempre em votos no PSD, nas eleições legislativas regionais.

Preparam agora o casamento governamental, que deverá ser oficialmente anunciado depois das eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no próximo domingo. Provavelmente, esperam ainda idêntico matrimónio em Lisboa, o que não deverá acontecer.

O PS, que se mostrou demasiado confiante antes do tempo, obteve excelente votação, mas com o casamento à direita, resta-lhe uma oposição firme na Assembleia Legislativa Regional, um trabalho sem tréguas, pensando no bem comum e no futuro, que se constrói sem desânimos e com muita persistência. Neste resultado, há que distinguir o efeito da popularidade de Paulo Cafôfo na votação dos socialistas. Contudo, Cafôfo precipitou-se, quando, na noite eleitoral, lançou o repto de construção de uma alternativa governativa com diversas forças políticas, uma espécie de salada russa. Deveria ter gerido esse projecto de forma recatada, fora dos holofotes da comunicação social, e só apresentá-lo quando tivesse conquistado a noiva, inicialmente rendida aos encantos do PSD.

O JPP também perdeu 2 mandatos e 5284 votos, o que se pode justificar, entre outras razões, pela inegável bipolarização – PSD / PS, que afectou todos os partidos mais pequenos, e também, por agora, confrontar-se com um contexto bem diverso das eleições de 2015, tempo em que estava mais presente o sentimento de repúdio pelas fórmulas governativas do PSD e do Dr. Jardim.

A CDU perdeu 1 deputado e 4483 votos, enquanto o BE deixou de ter representação parlamentar.

Não fosse a ganância pelo Poder, a política madeirense centrar-se-ia doravante na Assembleia Legislativa, como deveria ser, e nunca aconteceu devido às maiorias absolutas.

Obrigar o PSD a negociar no parlamento, para governar, fortaleceria a nossa democracia. O casamento de conveniência dará ao CDS o prazer de degustar a governação da Região, mas, como em outros matrimónios interesseiros, a excitação da lua de mel cedo poderá transformar-se numa grande desilusão, com prejuízos avultados. O conúbio ficará ainda marcado indelevelmente pela violência e humilhações que uma parte sujeitou a outra durante quatro décadas. Contudo, o noivo deslumbrado com a cadeira, onde aspira vir a se sentar, parece esquecido desses tempos em que era insultado e ridicularizado.

Se o casamento vier a se consumar, mesmo contra a vontade de alguns notáveis da família CDS, que ainda têm memória e dignidade, resta aos deputados, que não se identificam com a governação PSD, a união de forças no sentido de a presidência da Assembleia Legislativa da Madeira ter uma cor diferente, para que assim a Região comece a trilhar o percurso de uma democracia adulta. Negociações discretas, estratégias bem delineadas e o voto secreto podem assegurar este desejável desfecho.

Se assim não acontecer, estão a abrir caminho para que, daqui a 4 anos, o PSD retome a maioria absoluta e o CDS caia do pináculo.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2019

Política no pináculo

No tempo de campanha eleitoral na Região Autónoma da Madeira, vem sempre ao de cima a questão do ser autonomista. Uns dizem sê-lo e acusam os demais de não comungarem do mesmo ideal. Outros assumem, de forma diferente, a autonomia. Uns arrumaram a sua vida e a da sua família à custa da autonomia e proclamam-se de autênticos autonomistas. Alguns continuam a afirmar que lutam por uma verdadeira autonomia. Há ainda quem se ache dono da autonomia.

Mas, afinal, o que é ser autonomista, quando a autonomia está consagrada na Constituição e constitui um dos limites materiais de uma revisão constitucional? O que é ser autonomista, quando ainda há tanto para aprofundar, em benefício dos cidadãos, no actual regime autonómico?

Autonomista será o contínuo e, tantas vezes, inconsequente confronto com o Governo da República?

Autonomista será a recorrente recriação e alimentação do fantasma do inimigo externo?

Autonomista será a atribuição a outrem da incapacidade governativa, por inoperância, falta de massa crítica, meios e verbas ou ainda por desmesuradas expectativas numa região limitada em recursos e riquezas?

Haverá somente uma única via para o autonomista?

Ser autonomista é perseverar no mesmo caminho, que levou ao Plano de Ajustamento Económico e Financeiro da Região Autónoma da Madeira em 2012?

Autonomista é quem esbanjou milhões em obras inúteis, em detrimento, por exemplo, da área da Saúde?

Ser autonomista é contribuir para que esta Região seja sempre vista com desconfiança e, simultaneamente, motivo de chacota?

Ser autonomista é apoderar-se da propriedade privada de gente simples e sem dinheiro para contratar um advogado, através de expropriações a preços miseráveis, numa espécie de comunismo laranja?

Ser autonomista é discriminar os municípios da oposição?

Ser autonomista é parir um subsídio de mobilidade para, sub-repticiamente, injectar capital na TAP, com tarifas aéreas inflacionadas, pagas adiantadamente pelos ilhéus?

Ser autonomista é estabelecer uma apertada rede de poder, com numerosos tentáculos, onde tudo gira à volta dos interesses do clã?

Ser autonomista é impingir aos porto-santenses, como lembrança dos 600 anos do ‘descobrimento’ da sua ilha, uma estátua concebida para exaltar o colonialismo internacional nos anos 30 do século passado?

Na verdade, uma definição ou um conceito não se constrói pela enunciação do que não é ou não deve ser. Sirvam, porém, as questões acima expostas como motivação e reflexão.

Pegando na denominação infeliz – o cubano –, com raiz nos tempos do PREC [Processo Revolucionário em curso decorrente do 25 de Abril] e na definição matreira e cáustica, mais tarde veiculada, de que «cubano era aquele que não tinha a Madeira no coração», poderíamos também dizer que autonomista é quem tem a Madeira no coração, aquele que ama a Região, trabalha e luta pelo melhor para o arquipélago e o seu povo e reage quando estão em causa valores e direitos consagrados ou a consagrar. Do processo autonómico, pela sua dialéctica, não se pode excluir o contencioso.

Partindo destes ideais, de aceitação pacífica, segundo cremos, convém, no nosso tempo, observar o autonomista no seu território, e não, exclusivamente, no confronto entre a periferia e o poder central.

Esse posicionamento crítico obrigaria, por certo, posturas diversas, que conduziriam a um trabalho profícuo com resultados significativos para o progresso e afirmação positiva da Região.

Há temáticas que, com efeito, já nem deviam ser objecto de discussão, depois de 40 anos de autonomia, mas a Região real impõe essa necessidade. Colocando o autonomista como autor e actor no seu próprio espaço, urge a implantação e o desenvolvimento de comportamentos e medidas, nos seguintes domínios, entre outros:

Vivência democrática: um autonomista não ostraciza nem persegue o porto-santense ou madeirense que pensa de forma diferente e tem outro projecto de sociedade, porque a autonomia só pode existir em democracia. Foi a Revolução do 25 de Abril que possibilitou a democracia e a autonomia. São inseparáveis, apesar das resistências à democracia nesta Região.

Emprego e riqueza: O emprego e a distribuição de riqueza não devem apenas contemplar o grupo político dominante, afastando os conotados com a oposição ou condenando, ao silêncio e à demissão da cidadania activa, os menos fervorosos, em troca de trabalho, casa e pão.

Respeito pela Natureza: se o sentimento autonomista nasce do amor à terra natal, como pode o autonomista continuar a destruir a riqueza maior destas ilhas e, sem dúvida, a grande atracção turística? Depois do descarado assalto ao litoral e às ribeiras, prepara-se a invasão da floresta, altivamente (re)anunciada com um «quer queiram, quer não queiram».

Identidade Cultural: o autonomista valoriza a Cultura Regional e contribui para a sua promoção, não discriminando quem não partilha a mesma opção. Promover a Cultura não é subjugá-la ao padrão oficial e aos redutos insulares. O diálogo entre a identidade e a universalidade constitui o caminho da nossa afirmação como Região Autónoma.

Cultura de Clã: o autonomista, que trabalha em favor da sua Região, não pode constantemente promover a exclusão, o privilégio, o favoritismo, o clientelismo e, consequentemente, a corrupção.

Nada do que temos vindo a afirmar constitui novidade. Poderá até ser considerado utopia. Contudo, como cantou o poeta António Gedeão: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança.

Infelizmente, muitos exemplos do quotidiano podem ilustrar como alguns ditos autonomistas actuam, o que sugere mais vandalismo político do que verdadeira afeição à autonomia.

Uma coisa é ser autonomista da boca para Lisboa, outra é a práxis do autonomista no governo da sua própria terra e no dia-a-dia.

Funchal Notícias. 11 Setembro 2019

Ser “autonomista” é…

 

Grande parte da obra poética de José Agostinho Baptista, reunida sob o título Epílogo, deveria ser editada em Outubro do ano passado, numa iniciativa da Comissão dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira e a Porto Editora. Chegou a ser anunciada em dois jornais nacionais, mas não se efectivou.

A imprensa deu conta da insatisfação do Poeta pela não concretização do projecto na data aprazada. Guilherme Silva garantiu então que Epílogo viria a lume e, para tal, desenvolvia esforços no sentido de obter patrocínio da Assembleia da República. Afiançou mesmo que «em momento algum está em causa a edição» (DN-Madeira, 7-10-2018, pp. 36-37).

A verdade é que a XIII legislatura chegou ao fim, como também está a terminar o mandato deste Governo Regional, e nada mais veio a público sobre a prometida edição.

As comemorações dos seiscentos anos estão em curso, é certo. Todavia, não se conhece o seu programa editorial. De vez em quando surgem edições com o logótipo da Comissão, mas ninguém percebe bem quais os objectivos, temáticas seleccionadas e cronograma. Tudo vai acontecendo um tanto ao acaso ou conforme as oportunidades ou a agenda governamental. Vejamos: em 12 deste mês foi apresentado no Porto Santo, Das ilhas, a primeira, de Cláudia Faria e Graça Alves, uma edição de 2018 do Centro de Estudos de História do Atlântico, não comercializada, com uma tiragem de 300 exemplares; no dia 30 ocorreu o lançamento de Ondas de Glória: momentos históricos da Natação na Madeira, da Associação de Natação da Madeira e Arteleia, livro pago quase na totalidade pela Direcção Regional de Cultura e integrado nas celebrações do descobrimento, logo com o respectivo logótipo (DN-Madeira, 27-07-2019, p. 29). Entretanto, foi divulgado que, «no âmbito do ciclo de publicações dos 600 anos, está ainda previsto o lançamento de mais de 20 obras» (Ibidem, 13-07-2019, p. 42). Quais? Edição? Colecção? Quando? Não se sabe…!

Voz poética singular, José Agostinho Baptista nasceu no Funchal em 1948. A sua poesia, marcada pela originalidade, desenvolve-se em muitos títulos:

Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O último romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Autoretrato (1986); O centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Afectos (2002); Anjos caídos (2003), Prémio PEN Clube Português; Esta voz é quase o vento (2004), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT; Quatro luas (2006); Filho pródigo (2008); O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos (2009); Caminharei pelo vale da sombra (2011); Assim na terra como no céu (2014).

Em todos, o Poeta rememora a terra natal, como confessou: «A Madeira no fundo era a poesia que eu andei a escrever, longe dela. Mas sempre com ela no pensamento e no coração.» (DN-Madeira, 7-10-2018, p. 37)

Desse apego à ilha mãe, realço, em particular, Canções da Terra Distante, livro autobiográfico, sem cariz realista, onde o Poeta evoca lugares da geografia dos seus afectos. Narrativa obsessiva de quem, fora da ilha, permanece nela através de paisagens e recordações, que indelevelmente povoam a sua mente.

A sua obra tem merecido vários estudos, sob a forma de dissertações académicas, ensaios, artigos e recensões críticas. Ana Margarida Falcão (1949-2016), na sua tese de doutoramento – Os novos shâmanes: um contributo para o estudo da narratividade na poesia portuguesa mais recente (2003), concluiu de modo lapidar:

«Nostálgica viagem da lembrança ou melancólica peregrinação pelos lugares da memória, a poesia de José Agostinho Baptista conta, em episódios vários e em diversa dimensão narrativa, o exílio de um sujeito em si mesmo, corpo e mente desdobrados em múltiplas variantes que sacralizam o sonho, o devaneio e os vestígios do passado, proporcionando a enunciação de representações essencialmente em função da ausência.» (p. 398)

A obra de José Agostinho Baptista entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

O Poeta não publica há cinco anos. Diz também que deixou a escrita. Contudo, a obra que construiu, desde 1976, atesta da sua grandeza poética.

O Poeta tem dado muito à Madeira e à Literatura Portuguesa. Não constitui, por isso, favor algum a publicação de Epílogo, o que deveria ter acontecido há quase um ano. Razões ou circunstâncias mal-esclarecidas atrasaram a edição. Por falta de dinheiro não foi, de certeza! Convém, por isso, lembrar: Palavra dada deve ser palavra honrada. Por gratidão, com José Agostinho Baptista maior é o compromisso.

Funchal Notícias. 31 Julho 2019

Palavra dada é para ser honrada