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O frio e a chuva não me faziam desistir. De vez em quando o vento soprava forte, e eu desejava mais intensidade. Que mistério esconderia o pendão, atirado para o telhado por forte rajada?

A cor sugeria-me panos, que escondem altares no tempo da Quaresma. Mas era casa do Governo, e ninguém tinha notícias da realização de uma procissão dos Passos.

Porto Santo. Foto: © Nelson Veríssimo, Abril 2019.

 

Recordei-me da minha escola primária, do Senhor Vento e do Senhor Sol, que, numa disputa, pretendiam saber qual era o mais forte. Tudo fizeram para que o viajante despisse o casaco. História que ouvi na Escola da Carreira e me fascinou.

Em dia determinado e horário certo, que a minha classe ansiava, havia o programa da Rádio Escolar, transmitido pela Emissora Nacional. Na parede da sala, debaixo do crucifixo e entre as molduras empoeiradas com as fotografias do Presidente da República e do Presidente do Conselho, um altifalante, depois de uns ruídos esquisitos, tornava audível o programa elaborado pela Direcção-Geral do Ensino Primário. O silêncio imperava sob o olhar vigilante do professor. Por mais de uma vez, ouvi a história e a moral do Senhor Vento e do Senhor Sol, que depois li num livro emprestado pela Biblioteca Calouste Gulbenkian, instalada no edifício da Câmara Municipal do Funchal.

Nesse conto, vencera o sol, mas agora o que mais queria era vento, para que o pendão se desapegasse das telhas de canudo e voltasse a roçar de mansinho a fachada.

Não largava a máquina fotográfica. O momento mágico tardava. Impacientava-me.

Invocavam-se divindades e santos para acalmar o vento. Eu só o queria despertar naquele beiral. Já não havia deuses e os santos meus conhecidos aplacavam vendavais. Ulisses teve sorte – pensei – quando Éolo lhe presenteou com um saco de couro, «em que atou os caminhos dos ventos turbulentos». Mas logo me lembrei que os seus companheiros abriram o saco, «e para fora se precipitaram todos os ventos».

Porto Santo. Foto: © Nelson Veríssimo, Abril 2019.

Quando recordava a fabulosa Odisseia – estranha coincidência –, uma rajada impetuosa arrancou do telhado o pendão. Podia agora ler: 600 / ANOS / MADEIRA / PORTO SANTO.

Quis o vento mostrar-me mais aquela fanfarronice duma Comissão, que não conhece, não respeita, nem honra a História do Porto Santo, com o apoio da Secretaria Regional do Turismo e Cultura.

De novo, se colocou diante de mim aquela Resolução do Conselho do Governo Regional, a n.º 243/2017, publicada no JORAM, n.º 71, I Série, de 18 abril de 2017, que criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo».

Sempre vi essa deliberação governamental como malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Bem, concluí então, nasceu torto.

Presumo que resultou assim, por falta de conhecimentos sobre rotas marítimas e História de Portugal, sobretudo do arquipélago da Madeira. Ou teria aquele diploma sido infestado pela velha e rançosa sobranceria elitista da Madeira em relação à ilha vizinha?

João Gonçalves Zarco e Tristão desembarcaram primeiro no Porto Santo. Contudo, a Comissão Executiva da Estrutura de Missão continua a inverter a ordem dos acontecimentos no pendão que o vento fincou, por algum tempo, no telhado da casa de sobrado.

Como me dizia um bem-humorado porto-santense: «a gente tem de virar o pano de pernas para o ar, para Porto Santo ficar por cima.» Que seja!

Surgiu depois o vento forte e aprisionou de novo o pendão. Incorporando o habitual desdém porto-santense por atrevimentos infelizes, metamorfoseou-o, com sabedoria, no protesto da primeira ilha que os portugueses descobriram e povoaram, distinção histórica que o ignominioso pano não reconhecia.

Funchal Notícias. 10 Abril 2019

https://funchalnoticias.net/2019/04/10/a-sabedoria-do-vento/

 

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Na edição do dia 6 de Abril do DN-Madeira, a senhora eng.ª agrónoma Paula Cabaço, na qualidade de secretária do Turismo e Cultura, declarou que o representante do município de Santa Cruz, no Conselho Consultivo da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 Anos, teve oportunidade de apresentar propostas e sugestões, mas que não o fez. Tendo o município de Santa Cruz sido representado nas únicas três reuniões daquele órgão, duas em 2018 e uma em 2019, na primeira por mim e nas duas seguintes pelo Dr. Emanuel Gaspar, venho publicamente afirmar que as declarações da dita secretária regional não correspondem à verdade, pois, tanto por mim, como por quem me substituiu, foram apresentadas propostas válidas e sugestões de rigor no referido Conselho. Assim sendo, concluo que a senhora secretária delas não teve conhecimento ou, por conveniência política, esqueceu-as, porque me recuso a acreditar que goste de mentir publicamente.

Nelson Veríssimo

Diário de Notícias. Funchal. 143: 46 964 (7 Abril 2019) 30

Elaborar um programa comemorativo de uma efeméride implica conhecimento da História. Mas o que se tem visto, nas comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira, é a ignorância da História. Porque não sabem nem ouvem os historiadores, vão perdendo oportunidades de uma celebração condigna de um Sexto Centenário, com iniciativas que contribuam para a educação dos porto-santenses e madeirenses, fortaleçam a sua identidade cultural, promovam a cidadania e divulguem a cultura madeirense fora do arquipélago, sendo este último objectivo de consecução difícil por algumas manchas negativas, aqui geradas, e um sentimento de desconfiança do outro lado do mar arreigado.

Cruz da Ordem de Cristo. Capela-mor da Sé do Funchal

O poder espiritual no arquipélago da Madeira pertenceu à Ordem de Cristo. A heráldica da Região Autónoma da Madeira ostenta a cruz da Ordem de Cristo. A Ordem de Cristo comemora 700 anos de vida. Logo as comemorações dos 600 anos do povoamento do Porto Santo e da Madeira deveriam associar-se ao Sétimo Centenário da Ordem de Cristo.

Não se trata de um silogismo. Mas de sentido de oportunidade: agregar efemérides e projectar as comemorações insulares num contexto mais vasto.

A divulgação da História não depende do calendário. Contudo, a celebração apropriada de datas significativas tem efeitos pedagógicos, e sempre as comunidades tiraram partido dos dias festivos. Desconsiderar esta realidade é não compreender as dinâmicas sociais e os seus ritos.

Instituída pela Bula Ad ea ex quibus, do papa João XXII, datada de 14 de Março de 1319, a Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo surgiu por diligências do rei D. Dinis, junto da Santa Sé, na sequência da abolição da Ordem do Templo. A nova Ordem recebeu os bens, que tinham pertencido à Ordem extinta, e acolheu alguns ex-freires templários. A sua primeira sede localizou-se em Castro Marim, no Algarve, vila fronteiriça do mar e de terras de mouros. Só em 1357, a Ordem de Cristo ocupou o convento de Tomar, antiga sede dos Cavaleiros do Templo.

Em 1420, a administração da Ordem de Cristo foi confiada ao Infante D. Henrique. Doravante, esta Ordem ficará associada às conquistas e aos descobrimentos portugueses, pelo ideal de combate aos infiéis e de expansão da fé cristã. A bula Inter cetera, do papa Calisto III, de 13 de Março de 1456, que confirmou a Romanus Pontifex de Nicolau V, de 8 de Janeiro do ano anterior, concedeu, perpetuamente, à Ordem de Cristo, o poder, domínio e jurisdição espiritual sobre as terras, portos, vilas, ilhas e lugares já adquiridos ou que viessem a sê-lo pelo Infante, desde os Cabos Bojador e Não, por toda a Guiné e costa meridional até aos índios.

O rei D. Duarte, por carta de 26 de Setembro de 1433, doou à Ordem de Cristo, a pedido do seu irmão, o Infante D. Henrique, o espiritual das ilhas da Madeira, Porto Santo e Deserta. Na mesma data, D. Henrique recebeu o senhorio do arquipélago da Madeira. Assim, nestes primeiros tempos do povoamento, o Infante era Senhor destas ilhas, na qualidade de donatário, e, simultaneamente, interferia na administração eclesiástica, como regedor e governador da Ordem de Cristo.

A actuação da Ordem de Cristo ultrapassava a jurisdição espiritual e englobava também domínios da administração e da justiça.

Pelo papel que desempenhou no arquipélago madeirense, desde os primórdios do povoamento, mostra-se pertinente assinalar o Sétimo Centenário da Ordem de Cristo, associando-o às comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Na Sociedade de Geografia de Lisboa, realizar-se-á amanhã um colóquio comemorativo dos 700 anos da Bula Ad ea ex quibus, bula fundacional da Ordem de Cristo (14 Março 1319-14 Março 2019). A História da Madeira estará presente através da comunicação de Vítor Serrão, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e vice-presidente da Academia Nacional de Belas Artes, subordinada ao tema O retábulo ‘Manuelino’ da Sé do Funchal, uma obra-prima do mecenato da Ordem de Cristo.

Funchal Notícias. 13 Março 2019

https://funchalnoticias.net/2019/03/13/saber-e-sentido-de-oportunidade/

 

Ao grande historiador madeirense, Joel Serrão, será dedicado o Dia literário, uma iniciativa do Centro Nacional da Cultura [CNC] em parceria com o Centro Cultural de Belém [CCB], que ocorrerá no dia 9 de Março.

De acordo com o CNC, os Dias Literários «propõem uma reflexão sobre figuras ímpares da literatura portuguesa, o aprofundar do conhecimento sobre o seu legado e a importância que a sua obra reveste para o pensamento contemporâneo e o desenvolvimento da identidade do país e dos seus cidadãos.»

Após os CTT, em Fevereiro passado, terem incluído Joel Serrão na emissão filatélica Vultos da História e da Cultura, a par com Sophia de Mello Breyner Andresen, Fontes Pereira de Melo, Gago Coutinho, Francisco de Lacerda, Fernando Namora e Jorge de Sena, agora, numa organização do CNC e do CCB, é lembrado como historiador, pensador e cidadão.

Tão honroso reconhecimento ao notável historiador e ensaísta, com vasta e multifacetada obra, merece ser amplamente divulgado na sua terra natal, porque, supomos, por razões ideológicas, nunca foi devidamente homenageado por esta Região.

Joel Serrão nasceu na freguesia de Santo António do concelho do Funchal em 12 de Dezembro de 1919 e faleceu em Sesimbra no dia 5 de Março de 2008.

Fez o ensino primário e liceal na Madeira, matriculando-se depois na Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.

No Funchal, foi professor do Liceu e da Escola do Magistério Primário, nos finais da década de 40 do século passado. Exerceu também a docência nos liceus de Viseu, Setúbal e no Passos Manuel, em Lisboa.

Como professor do ensino superior, leccionou no Instituto Superior de Economia (1972-75), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1975-79) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se jubilou no ano de 1989.

Integrou o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, de 1975 a 1995, com o pelouro da Ciência.

Entre 1992 e 1996, exerceu as funções de presidente da Direcção do Centro de Estudos de História do Atlântico.

Da sua ampla bibliografia, salientamos: Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes Rodrigues (1945); O carácter social da Revolução de 1383 (1946); Temas oitocentistas: para a História de Portugal no século passado (I: 1959; II: 1962); Temas de Cultura Portuguesa (1960); Dicionário de História de Portugal (direcção e 81 artigos da sua autoria; 4 vols.: 1963-1971); Do sebastianismo ao socialismo em Portugal (1969); A emigração portuguesa (1972); Fontes de demografia portuguesa (1973); Portugueses somos (1975); O primeiro Fradique Mendes (1985); Da situação da mulher portuguesa no século XIX (1987); Da “Regeneração” à República (1990).

Editou importantes e úteis antologias, entre as quais: Antologia do pensamento político português: Liberalismo, socialismo, republicanismo (1970); Testemunhos sobre a emigração portuguesa (1976); Da indústria portuguesa: do Antigo Regime ao Capitalismo (1978, em co-autoria com Gabriela Martins); Prosas sócio-políticas: Antero de Quental (1982); António Sérgio: uma antologia (1984).

Para além da edição sob o formato de livro, escreveu numerosos artigos em jornais e revistas prestigiadas (Diário de Lisboa; Análise Social; Vértice; Seara Nova; O Tempo e o Modo; Annales; Revista de História e Teoria das Ideias…).

Sobre a história da Madeira, publicou diversos estudos entre 1950 e 1961, no Funchal, Lisboa, Coimbra e Paris. Esses artigos vieram a ser compilados e editados sob o título Temas históricos madeirenses (1992).

Deu especial atenção à História Cultural, tendo estudado Alexandre Herculano, Antero de Quental, Oliveira Martins, Sampaio Bruno, Manuel Laranjeira, Cesário Verde, Fernando Pessoa e António Sérgio, sempre com a preocupação de compreender a sua época, bem como as suas ligações com o meio.

Joel Serrão nutria particular admiração pela historiografia francesa da École des Annales, em parte devido à sua convivência com Magalhães Godinho, e contribuiu de forma determinante para a renovação da historiografia portuguesa. O século XIX constituiu a sua época de eleição. António Sérgio guiou-o no labor historiográfico e na acção cívica e pedagógica.

Para o grande historiador madeirense, a História não se resumia à compreensão do passado, como sublinhou:

«Quanto à história, importa acentuar, com toda a clareza possível, que ela serve o presente e o futuro, – e não o passado! Se estudamos as épocas pretéritas, é tão-só porque o nosso próprio tempo o exige. É porque precisamos de compreendê-lo, para nele situarmos a nossa acção.» (Temas de cultura portuguesa, pp. 17-18)

A sua obra, pioneira em muitos estudos, compreende quase todos os campos historiográficos – História social, política, económica, das mentalidades, das ideias, da mulher, da cultura e da literatura portuguesa –, sempre com o propósito de contribuir para «o apetrechamento cultural e mental do País».

Aproxima-se o 1.º centenário do nascimento de Joel Serrão, nome maior da historiografia portuguesa contemporânea. Que a sua terra natal – doou à Biblioteca Municipal do Funchal a sua biblioteca pessoal e parte do seu acervo, com acesso já disponível, após tratamento técnico – saiba prestar justa homenagem ao grande historiador, ensaísta e democrata anti-salazarista.

Funchal Notícias. 6 Março 2019

https://funchalnoticias.net/2019/03/06/homenagem-a-joel-serrao/

 

Andam alguns madeirenses indignados com as comemorações oficiais do «Dia de Portugal» de 2019, em Portalegre e Cabo Verde. Consideram atitude de menosprezo para com a Região, porquanto, no seu entender, este é o ano do Sexto Centenário do Descobrimento da ilha e, por tal, deveriam acontecer na Madeira.

Tendo chegado a Belém esses clamores, apressou-se o Senhor Presidente da República a comunicar, no passado dia 7, que as cerimónias do «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» se realizarão em 2020 na Região Autónoma da Madeira. Justificou não ter sido no presente ano, pois decidira «manter a orientação, anterior ao seu mandato, de não realizar tais comemorações numa Região Autónoma em ano de eleições regionais.»

O anúncio prematuro e a justificação da Presidência da República calaram os ânimos mais exaltados. Mas antes desta notícia, já eu admitia compreender que, neste ano, o Senhor Presidente da República não escolhesse a Madeira para a celebração da Portugalidade, pelas opções e circunstâncias regionais.

No ano passado, convidaram o Senhor Presidente da República para participar nas comemorações do Sexto Centenário do Descobrimento do Porto Santo, em 1 de Novembro. O Presidente aceitou de boa fé, mas foi enganado quanto à cronologia, pois, como já demonstrei, a data não tem fundamento histórico nem estatuto de tradição. Ora, dando-se conta do logro, achavam que o Senhor Presidente da República estaria disponível para, no ano seguinte, celebrar, na mesma linha, a efeméride do descobrimento da Madeira?

A falsa efeméride festejada no Porto Santo foi um fracasso como comemoração de um acontecimento histórico, mas a cobertura dos media possibilitou inegável propaganda governamental. A perpetuar a despropositada celebração, deixaram uma réplica da estátua do «Senhor da Ilha», concebida, nos anos 30 do século passado, para exaltar o colonialismo, uma espécie de prenda artística aos porto-santenses, mas fora de moda, que não se usa mais, a lembrar velhos tempos, quando para lá se levava o que já não se utilizava na Madeira. Então crêem que o Senhor Presidente gostou desta comemoração infeliz e teria gosto em repeti-la no ano seguinte?

Neste ano, tudo está envolvido pela febre partidária. As comemorações dos 600 anos estiveram, desde o início, na mira eleitoral e não se têm desviado do alvo. Não fosse 2019 ano de importantes eleições e, provavelmente, os mentores da celebração teriam adoptado a perspectiva da historiografia actual e não a do século XIX, como fizeram, ao teimarem no pretenso descobrimento do Porto Santo em 1418 e o da Madeira no ano seguinte, tudo para que os 600 anos coincidissem com o XII Governo Regional. Julgam que seria correcto o Senhor Presidente da República apadrinhar festejos com marcas de uma força partidária nas vésperas de actos eleitorais?

Por tudo isto, compreendemos muito bem a posição do Senhor Presidente da República. Esta ajuizada decisão constitui oportunidade única para a Região, em 2020, celebrar, condignamente, os 600 anos do povoamento do arquipélago da Madeira (1420-2020).

Funchal Notícias. 13 Fevereiro 2019

https://funchalnoticias.net/2019/02/13/pois-eu-ate-compreendo/

 

Faz hoje 4 anos que a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um projecto de resolução, apresentado pelo Partido Ecológico «Os Verdes», que recomendava a candidatura das levadas da ilha da Madeira a Património da Humanidade (Resolução n.º 18/2015, DR, I, n.º 35, 19-02-2015, p. 959).

No próximo dia 17 de Março, fará 25 anos que o Governo Regional da Madeira deliberou elaborar uma proposta a fim de obter igual classificação.

O XII Governo, presidido por Miguel Albuquerque, reafirmou esta pretensão no ano de 2015. Todavia em Outubro de 2017, adicionou à candidatura das Levadas da Madeira a Património Mundial da UNESCO, a da ilha do Porto Santo como Reserva da Biosfera. Para o efeito, pelo Despacho n.º 464/2017, nomeou Susana Fontinha, para prestar assessoria nestas candidaturas, a cargo da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (JORAM, II, n.º 194, 14-11-2017, p. 5).

Pouca informação sobre o processo está disponível, o que é lamentável, porque uma candidatura desta natureza deve implicar a participação da comunidade.

Continua-se com a velha ideia do secretismo dos gabinetes, quando este assunto merecia, sem dúvida, ampla divulgação, debate na opinião pública e acarinhado envolvimento dos madeirenses. Que se tenha em atenção o trabalho desenvolvido noutras candidaturas a Património da Humanidade, junto da UNESCO, em especial as actividades de interacção com os cidadãos e os programas de difusão nos media.

Apesar de as levadas serem muito faladas, percorridas e promovidas, é dos assuntos da História da Madeira deficientemente estudados. Ainda hoje, a monografia do Padre Fernando Augusto da Silva (1863-1949), As Levadas da Madeira, de 1944, revela-se como o melhor trabalho historiográfico nesta matéria. No entanto, tem-se consciência das suas lacunas, ditadas pelas circunstâncias e limitações da época em que foi elaborado.

Uma investigação histórica sobre as levadas exige conhecimento profundo da História da Madeira e das fontes documentais, tempo, muita dedicação, gosto e experiência na leitura de documentação antiga. Preferencialmente, deverá ser desenvolvida por um grupo de trabalho.

Não se verificou nem se verifica investimento institucional nesta área do saber. Há anos elegeram o deve e o haver como prioridade, e ao resultado aplica-se célebre fábula atribuída a Esopo:

A montanha dava à luz, no meio de gemidos medonhos,

imensa era nos povos a expectativa.

Mas ela pariu um rato.

Isto foi escrito para ti,

Que, embora projectes grandes coisas,

Nada acertas.

É verdade que, neste século, surgiram diversas dissertações de mestrado e uma tese de doutoramento sobre levadas, mas, ao que sei, nenhuma da área específica da História. De salientar também duas edições de 2017: Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, e Levadas, de Marco Livramento, ambas em português e inglês. Sempre úteis são: Veredas e levadas da Madeira, de Raimundo Quintal (1994) e Levadas: os caminhos da água na Madeira, de Alberto Vieira (2015). No entanto, esta temática precisa de investigação histórica bem alicerçada.

Estando o mandato deste Governo Regional quase no fim e passado já muito tempo sobre a idealização do importante projecto de candidatura das levadas, os madeirens Continuar a ler »

Celebrar uma efeméride histórica com a História é princípio elementar e consensual. Diferente tem sido, todavia, o entendimento da Comissão Executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira, que se guia por aquilo que diz ser a tradição e pela historiografia do século XIX, lida indirecta e enviesadamente no velho Elucidário Madeirense, editado, pela primeira vez, em 1921 e acrescentado em 1940.

Trata-se de uma comissão presidida por um conhecido advogado e composta por cinco vogais sem formação em História, sendo quatro deles ligados à Secretaria Regional do Turismo e Cultura e um à Associação de Promoção da Região Autónoma da Madeira, que, por sua vez, está relacionada com a Direcção Regional de Turismo.

Também na Comissão de Honra não está nenhum historiador madeirense. Nem tão-pouco o Arquivo Regional da Madeira e o Centro de Estudos de História do Atlântico mereceram representação institucional.

Apesar de publicamente sugerida, nunca fizeram uma reflexão sobre a data mais adequada para assinalar o Sexto Centenário. Inventaram a desculpa de que os historiadores não chegariam a uma opinião consensual e logo, animados com o espírito do arraial madeirense, decidiram os governantes regionais celebrar de véspera, projectando para 2018 uma efeméride engendrada na fantasia, na senda do velho ditado: Da Festa, as vésperas.

Não se conhece o Programa Oficial das Comemorações. Apenas tive notícia, no Conselho Consultivo, de um rol mal-amanhado de algumas intenções e eventos, numa folha Excel. Pesquisando no sítio oficial dos 600 anos: Madeira, Porto Santo não se encontra tal Programa, mas sim uma agenda de eventos ocorridos e a realizar, sendo os próximos da pouco imaginativa série Madeira a cantar, concurso mais adequado a uma empresa de animação ou a uma estação de rádio ou televisão do que a uma Direcção Regional de Cultura ou uma Secretaria Regional do Turismo e Cultura, mas que integra as comemorações e já rendeu contratos no valor de cerca de 164 300,00 euros (IVA incluído) para a respectiva logística.

Esta Comissão, que desdenha o saber da História, andou no Porto Santo a celebrar presunçosamente uma data sem significado histórico e colocou nesta ilha uma estátua do Infante D. Henrique, concebida há quase 90 anos para uma exposição internacional de exaltação do colonialismo. Em vez da assunção da contemporaneidade artística, preferiram uma peça escultórica com significado diminuto na obra do grande Francisco Franco; em vez de aproveitarem a ocasião para homenagear o porto-santense que, durante séculos, resistiu estoicamente a fomes, secas, epidemias, ataques de piratas e corsários, cativeiros e outras pragas e misérias, optaram por dar relevo ao Senhor da Ilha – o duque de Viseu – que lhes cobrava tributos, apesar dos escassos rendimentos então alcançados; em vez de uma escultura desinteressante e anacrónica, péssima e indignamente colocada no espaço público, os porto-santenses desejariam, por certo, o transporte marítimo todos os meses do ano.

Outro exemplo de desprezo pela História: do livro do historiador Alberto Vieira O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões foram impressos 300 exemplares. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícias, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000. O primeiro é um livro de História, de quem muito se tem dedicado à investigação. O segundo é um folheto de propaganda, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem pré-cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados. O livro perdurará, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada acabará fatalmente no lixo ou na fogueira. Mas custou 88 450,00 (IVA incluído). Assim se gasta o dinheiro público na instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

Em jeito de balanço, como é comum neste tempo, concluo que o trabalho da Comissão Executiva dos 600 anos pouco interesse teve para os madeirenses e porto-santenses, sobretudo no âmbito da educação, cultura e promoção da identidade insular. Recorde-se aquele bem dispendioso Congresso Internacional – Contributo da Expansão Portuguesa para a Economia Mundial –, realizado em Novembro passado no Centro de Congressos do Casino da Madeira, sem ninguém a assistir para além dos oradores participantes, mas com certificado de presença à discrição para quem assomasse à porta.

Convém também referir a exposição, que custou mais de 1 milhão de euros, As ilhas do ouro branco – arquipélago da Madeira: do século XV ao século XVI, com cerca de 13 000 visitantes, número muito aquém do esperado e bastante baixo para um projecto do Museu Nacional de Arte Antiga, conforme afirmou o seu director no programa Casa das Artes, episódio n.º 11, de 8-03-2018. Anunciou-se provável deslocação desta exposição ao Porto, mas afinal o acervo regressou silenciosamente à Região, após o seu encerramento na capital, sem que a maioria dos madeirenses ou porto-santenses a pudesse visitar. No Funchal teria, por certo, maior número de visitas.

Não fosse a programação alusiva da RDP e da RTP-M e o cidadão comum não daria conta das comemorações do descobrimento.

Tudo tem servido para associar aos 600 anos: Carnaval, provas desportivas, desfiles de moda, festas da flor, do vinho e do fim do ano… Até o fogo-de-artifício era dos 600 anos, mas afinal nada se viu de diferente! Quando se cola às comemorações tudo o que há anos habitualmente acontece no calendário de eventos festivos, é sinal de que nada de novo se tem para oferecer.

Funchal Notícias. 9 Janeiro 2019

https://funchalnoticias.net/2019/01/09/celebrar-a-efemeride-historica-sem-a-historia/