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O contributo do Padre Pita Ferreira para a histotiografia madeirense

Conferência integrada no ciclo de conferências temáticas sobre a obra do Padre Pita Ferreira

Museu de Arte Sacra do Funchal: 22-02-2018, 15:30 h.

RESUMO

Nos anos cinquenta do século passado e inícios da década seguinte, o padre Pita Ferreira (1912-1963) publicou diversos estudos sobre a História da Madeira, em especial sobre o património cultural e a problemática do descobrimento e povoamento do arquipélago madeirense.

Procurou sempre fundamentar as suas hipóteses e conclusões em fontes documentais impressas e manuscritas credíveis, profusamente transcritas. Algumas das suas opiniões vieram, porém, a ser fortemente contestadas, nomeadamente pelo visconde do Porto da Cruz (1890-1962) e pelo padre Eduardo Clemente Nunes Pereira (1887-1976), que chegaram a utilizar argumentos políticos para denegrir o seu labor historiográfico.

Contudo, Pita Ferreira contra-argumentou vigorosamente, valorizando a sua investigação e o rigor documental que o animava. Na convicção de que muito havia a rever na historiografia madeirense à luz dos documentos, sugeria aos seus detratores que seguissem outro rumo, pois, no seu entender, a crítica moderna «exige que se consultem e citem as fontes, que se tomem precauções contra aqueles que escreveram sem indicar os documentos de que deitaram a mão, que se transcrevam, muitas vezes na íntegra, os documentos citados, que as hipóteses sejam fundadas em factos verdadeiros, que as conclusões sejam lógicas […]» (Ferreira, 1959, p. XIV).

Nelson Veríssimo

 

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DESCOBRIMENTO E POVOAMENTO DO ARQUIPELAGO DA MADEIRA

VERÍSSIMO, Nelson – Descobrimento e povoamento do arquipélago da Madeira. In FRANCO, José Eduardo, dir. – Grande Dicionário Enciclopédico da Madeira. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, [2016]. ISSN 1647-8088. vol. antezero, p. 18-22.

 

 

A Assembleia Municipal de Machico iniciou, no passado dia 2, um debate público acerca do «dia do concelho», procurando ouvir a população sobre a continuidade ou a alteração da respectiva data.

Presentemente, esta comemoração ocorre no dia 9 de Outubro, coincidindo com a Festa do Senhor dos Milagres. Não foi feliz opção, creio que feita em 1977, e enquadra-se dentro do espírito do Decreto 38 596, de 4 de Janeiro de 1952, que preconizava o feriado municipal no dia de uma festa tradicional e característica do concelho.

A ideia de alteração da efeméride, escolhida para assinalar o «dia do concelho», vem sendo acalentada por vários edis e deputados municipais, pelo menos desde os finais dos anos oitenta do século passado.

A memória da fatídica aluvião de 1803, através da veneração da escultura do Cristo, arrastada pela torrente para o mar e, anos depois, das águas retornada à sua capela, pela determinação da Misericórdia de Machico, quando na Sé lhe queriam dar guarida, pela sua própria natureza – «festa de tristeza e de sentimento», diz o povo –, impede a Câmara de assinalar o «dia do concelho» (ou a «semana do concelho») com um amplo programa festivo, como é comum noutros municípios.

Fachos. Procissão do Senhor dos Milagres, Machico. Foto: http://www.jornaldamadeira.com/2017/10/08/machico-celebra-festa-do-senhor-dos-milagres/

Nove de Outubro é, popularmente, o «dia do Senhor dos Milagres». A tradição e a devoção, o luto e a esperança renovam-se, em cada ano, na procissão da véspera e no pagamento das promessas. Machico converte-se em lugar de peregrinação com madeirenses de toda a ilha e também emigrantes, que, por fé ou outro qualquer motivo, que não importa indagar, se deslocam para a Festa do Senhor dos Milagres.

No dia 9 de Outubro, só as autoridades municipais e os representantes do poder regional ou central celebram o dia do concelho de Machico. A sessão é solene, mas outra solenidade amortalha o «dia do concelho».

Compreende-se que o «Dia do Senhor dos Milagres» continue a ser feriado municipal. Mas mostra-se pertinente arranjar outra data para assinalar o «dia do concelho». Não seria situação inédita. Em Santa Cruz, por exemplo, o feriado municipal não coincide com o «dia do concelho».

Não somente por razões laicas, o «dia do concelho» deve ser alterado. Há também motivos de ordem cultural, económica e turística. O «dia do concelho» noutra data permitiria a organização de uma semana festiva e cultural, que se poderia tornar um evento com repercussões económicas semelhantes à Semana Gastronómica.

Qualquer mexida em dias consagrados aos municípios gera controvérsia. Logo o boato invade o território. Já se diz que «querem tirar o Senhor dos Milagres» e outros disparates sub-repticiamente alimentados.

A pretendida mudança não constitui, por certo, prioridade municipal. Mas, sem dúvida, é pertinente e boa para o concelho.

Duas datas significativas parecem merecer algum consenso na almejada alteração: o 8 de Maio, alusivo à carta de doação da capitania de Machico a Tristão, e o 2 de Julho, dia provável do desembarque dos povoadores portugueses, que, sob a autoridade de Zarco e a mando do rei D. João I, ocuparam o arquipélago madeirense.

O 2 de Julho tem vindo a ser comemorado pela Junta de Freguesia desde 1976, nalguns anos com a oposição das forças de direita, e é hoje o «dia da freguesia» de Machico. Associar o «dia do concelho» a esta efeméride poderia ser vantajoso no âmbito das comemorações dos 600 anos do «descobrimento» e povoamento do arquipélago da Madeira.

O 8 de Maio representa a implementação jurídica de uma instituição, que marcou a Expansão Portuguesa e, em Machico, teve a sua primeira formalização oficial. O 8 de Maio de 1440 está, temporalmente, mais próximo da fundação do concelho de Machico, cuja data desconhecemos. Todavia, a capitania simboliza o poder senhorial e não o poder municipal.

A alteração do «dia do concelho» é uma decisão política. Deve, no entanto, referir-se a uma efeméride com particular significado na História local ou ser um dia tradicionalmente assinalado no quotidiano do concelho e reconhecido em todo o seu território. Caberá a Machico decidir.

 

Funchal Notícias. 7 Fevereiro 2018

Machico: o ‘dia do concelho’ em discussão

Fora de prazo

De braços no ar e em alta voz, ele gritava furioso: «Tu estás morto, e bem morto, e ainda não sabes!». Quem por ali passava e não podia deixar de ouvir, ficou sem saber o contexto irado em que se gerou o insulto.

Mas trata-se, sem dúvida, de ofensa grave. Caminha alguém pela cidade, aparentando boa saúde e, por motivo que se ignora, cai-lhe em cima aquela pesada afronta.

Como, por prudência, vergonha, medo ou elevação moral, o cidadão enxovalhado não reagiu, o que poderia originar briga séria reduziu-se a exaltação momentânea, manifestada através de uns berros na via pública.

Há frases, involuntariamente registadas no quotidiano, que, no nosso íntimo, se juntam a outras vozes, em diálogos estranhos e irregulares, crescendo em espiral até se derramarem num escrito formalmente aceite e desejado.

E, nesse emaranhado de ruídos, o impropério assume a racionalidade de se aplicar a alguém, que não consegue acompanhar o tempo, falando e escrevendo com a linguagem de outrora, quando espalhava ódios, ameaças e armadilhas para levantar ondas de medos entorpecentes.

Tantos anos se passaram, e o veneno não lhe sai da boca, agora ressequida e trémula, denegrindo velhos amigos e pretensos inimigos, a uns ofendendo, a outros aplicando, com experiência de mestre, rótulos falsos e ridículos, que a sua mente perversa sonha para disseminar pela manhã ou pela calada da noite, criando fantasmas e papões, atingindo tudo o que se lhe opõe, com mal contido receio da História não lhe vir a reservar a cadeira, para a qual andou sempre encomendando boa madeira e forte grude.

O veneno não surpreende. Foi sempre assim. O mesmo de anos, apesar de agora proceder de laboratório anacrónico, com prazo há muito expirado.

Já os leitos, que acolhem o veneno, dão que pensar. São do género «quanto mais me bates, mais gosto de ti», de triste reputação. Porta aberta que, sem pudor ou memória, dá guarida a arengadas bafientas.

É tempo de espantar a tralha e arrumar a casa sem a mobília do «defunto», que se entretém a despejar peçonha, a repetir velhas e gastas tácticas e a distribuir papéis aos peões, para se vangloriar que continua a andar por aí.

 

Funchal Notícias. 31 Janeiro 2018

Fora de Prazo

 

Separar as águas

Agora, tudo ficou mais claro. O actual presidente da Câmara Municipal do Funchal está disponível para encabeçar a lista do PS às próximas legislativas regionais, perfilando-se como candidato a presidente do Governo Regional da Madeira.

Há muito que se desconfiava desta sua intenção. Eu próprio, num artigo aqui publicado em 26 de Julho de 2017, a propósito de uma sondagem sobre as eleições para a Câmara do Funchal, escrevi que Paulo Cafôfo deveria elucidar os funchalenses se tencionava ou não cumprir integralmente o mandato para o qual se recandidatava. Então, a resposta parecia ser sim, e os eleitores confiaram-lhe o voto para presidir à Câmara durante um mandato.

Contudo, perante calculada e cortejada oportunidade política, traçada pelas imperiosas eleições no PS, logo o compromisso com os funchalenses foi posto de lado, porque a maioria dos militantes socialistas acredita que, com Paulo Cafôfo, há a possibilidade de conquistar o poder regional, aspiração, na verdade, também acalentada por muitos cidadãos não filiados naquele partido.

Não se discute a ambição de um cidadão, nem tão-pouco o não cumprimento integral do mandato para o qual mereceu o voto da maioria dos eleitores, facto que não é inédito. As circunstâncias ditam as oportunidades e a política, tantas vezes, foge aos desígnios da coerência da palavra dada, em nome de outros valores, mais ou menos generosos.

No entanto, há questões que merecem ser analisadas. Paulo Cafôfo foi eleito para a CMF através de uma coligação de diferentes forças partidárias, perante as quais tinha também o compromisso de assumir a presidência durante um mandato. A sua nova postura obriga as forças da coligação autárquica para o Funchal a repensarem a sua participação no projecto «Confiança», dado que o pressuposto fundamental da mesma – servir o município durante quatro anos – deixou de existir.

Quem quiser sobreviver politicamente, terá de assumir uma posição neste novo, mas previsto cenário. Ou continuará vinculado à coligação, que ficou sem cabeça, na expectativa de eventual coligação para as regionais, onde obterá migalhas, ou lutará pelos interesses dos munícipes do Funchal, marcando a sua identidade, mas sem os impedimentos que, com frequência, as lógicas dos acordos eleitorais impõem.

Por outro lado, não deixa de ser importante analisar até que ponto não há uma sobreavaliação, por parte do PS-M, no seu posicionamento para as regionais. O efeito das políticas do governo de António Costa é favorável, mas o confronto Lisboa-RAM trará ao de cima o debate autonomista e as tentativas de interferência do Centro no poder regional, pelo que se impõe, aos novos protagonistas, profundo conhecimento das questões mais contundentes e adequada competência técnica.

A onda, que envolveu um candidato independente, apoiado por diversas forças políticas, para um segundo mandato autárquico no Funchal, poderá não se repetir para a Assembleia Legislativa da Madeira, porque se mostra bem diversa a dinâmica do próximo acto eleitoral.

Até lá, há muita pedra para partir…, embora se sinta, junto do eleitorado, significativa vontade de mudança. Ganhará quem mostrar saber interpretar e corresponder a essa vontade.

Funchal Notícias. 21 Janeiro 2018

Separar as águas

 

O Governo da Madeira, em 4 do corrente, deliberou mandatar a vice-presidência para conduzir o processo do Forte de São João Baptista, em Machico, tendo em vista uma política de preservação e rendibilização do Património Cultural, cuja propriedade pertence a esta Região Autónoma.

Trata-se de mais um passo para solucionar um velho problema, que mancha a paisagem da baía de Machico. Esperamos que, finalmente, seja reabilitado aquele edifício e outra imagem envolva o lugar onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez, para darem início ao povoamento da ilha da Madeira.

O Forte de São João Baptista é um edifício classificado do património cultural madeirense pelo Decreto 32 973, de 18 de Agosto de 1943.

Ao contrário de outras localidades, Machico conservou, até aos dias de hoje, duas importantes fortificações construídas no início do século XVIII. De facto, os fortes de São João Baptista e o de Nossa Senhora do Amparo sobreviveram à torrente destruidora das construções militares na ilha. Somente não chegou até nós o Reduto de São Roque, do qual temos algumas notícias desde a segunda metade de Seiscentos.

O Forte de São João Baptista foi mandado edificar pelo governador Duarte Sodré Pereira no ano de 1708, conforme se pode ler na lápide que encima a porta de armas. Contudo, já em 1695 existia o Reduto do Embarcadouro, onde, nesse ano, Manuel Ferreira Maciel iniciou as funções de condestável.

Em 1817, segundo a Descrição de Paulo Dias de Almeida, a artilharia do Forte do Desembarcadouro ou de São João Baptista encontrava-se «toda no chão». Igualmente, a do Forte de Nossa Senhora do Amparo achava-se em mau estado. Não obstante, em 22 de Agosto de 1828, quando a armada miguelista tentou desembarcar em Machico, ou simulou tal, os três fortes da vila abriram fogo sobre os navios que entraram na baía.

O engenheiro António de Azevedo registou, no ano de 1863, que este Forte estava bastante arruinado e abandonado. Depois do ataque miguelista, a sua utilidade militar revelou-se, na verdade, praticamente nula.

No entanto, novas funções caberão ainda ao velho Forte. Assim serviu de hospital, durante a epidemia de cólera dos finais da primeira década do século XX. Mais tarde, abrigou diversas colónias de férias nos meses de Verão, organizadas pelas irmãs da Congregação das Franciscanas Missionárias de Maria, do Convento de Santa Clara do Funchal. A fim de se constituir como Colónia Balnear Infantil, a Junta Geral do Distrito procedeu a várias obras de adaptação, inclusive a construção de um dormitório e de uma capela, desenhada pelo escultor João Tomás Figueira da Silva (1920-2011).

Depois do 25 de Abril, o Centro de Informação Popular de Machico fundou ali um Jardim de Infância, o qual foi encerrado em Janeiro de 1976 pelo brigadeiro Carlos de Azeredo. Refira-se que, em Setembro de 1975, o Forte foi ocupado por refugiados das antigas colónias portuguesas em África. Aqui habitaram diversas famílias, em condições pouco dignas, até ao início deste século.

O realojamento das famílias, que viviam no Forte, abriu caminho à recuperação deste edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira

Na verdade, em 2002 o Governo Regional aprovou um programa de recuperação, que previa espaços museológicos e de restauração. Contudo, não foi concretizado.

Em 2005, surgiu um novo projecto, com a assinatura do arquitecto Victor Mestre, para uma unidade hoteleira com quarenta quartos, que seria executado pela empresa Mare Nostrum. O prazo de concessão do Forte de São João Baptista, de acordo com o que foi divulgado por ocasião da assinatura do respectivo contrato com o Governo Regional, era de trinta anos. Mas o projecto não foi concluído, ainda que, em 2008, tivesse sido abordado o processo de transferência da concessão da obra de recuperação e de exploração hoteleira para outra empresa. A construção de uma ETAR na área de protecção do monumento classificado foi, por certo, um óbice ao prosseguimento do investimento no Forte. A crise financeira justificou o seu fim e o abandono nos últimos anos.

Não se sabe ainda como será o novo projecto de recuperação do Forte de São João Baptista, mas impõe-se atenção especial a este edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, bem como à sua área de protecção.

A cidade de Machico carece deste espaço para o seu desenvolvimento e progresso. A memória do lugar também exige a preservação da sua História. A reabilitação do forte setecentista seria forma condigna de assinalar os 600 anos do início do povoamento da Madeira, porquanto foi ali que os portugueses desembarcaram, pela primeira vez, nos finais da segunda década do século XV.

 

Funchal Notícias. 17 Janeiro 2018

O Forte de S. João Baptista em Machico

Lapinha de poesia: antologia de poetas madeirenses reúne vinte e seis vozes do Natal na Ilha, ilustradas com figuras de presépio do acervo da Casa-Museu Frederico de Freitas.

São leituras poéticas de um tempo cristão, que se conjuga harmoniosamente com um maravilhoso popular, ingénuo e criativo.

Nesta Lapinha, convivem recriações da Natividade, visões líricas e intimistas, vivências, memórias, saudades, preces, apelos e registos etnográficos da Festa.

Os poetas antologiados são apresentados por ordem cronológica com base na data de nascimento.

Trata-se de uma antologia com composições significativas para a compreensão do Natal na Ilha, numa perspetiva poética.

Poetas representados: Baltasar Dias, Eugénia Rego Pereira, Cabral do Nascimento, Octávio de Marialva, Alfredo Vieira de Freitas, João França, Florival de Passos, Henrique Pereira, Herberto Helder, João Carlos Abreu, Irene Lucília Andrade, José Martins Júnior, Ângela Varela, António José Vieira de Freitas, José Viale Moutinho, Dalila Teles Veras, Guilhermina da Luz, João Dionísio, Fátima Pitta Dionísio, António Manuel Loja Neves, José Baptista Fernandes, José António Gonçalves, Teresa Jardim, José Tolentino Mendonça, Laura Moniz, José Luís Rodrigues.

LAPINHA DE POESIA: ANTOLOGIA DE POETAS MADEIRENSES
Nelson Veríssimo, org. António Fournier, pref. Funchal: Imprensa Académica, 2017. ISBN 978-989-54002-0-1.

 

05-01-2018

Com agrado recebi a notícia de que a Lapinha de Poesia está esgotada na editora. Haverá, todavia, nova reimpressão em breve, para quem quiser adquirir uma colectânea de poemas natalícios de autores madeirenses, ilustrados com figuras de presépio do acervo da Casa-Museu Frederico de Freitas. Raramente fica esgotada uma edição na Madeira, mas desta vez aconteceu. Como o produto da venda deste livro destina-se a apoio social de estudantes da Universidade da Madeira, fiquei duplamente grato pelo reconhecimento  público deste projeto.

 

O QUE DISSERAM…

http://sensoconsenso.blogspot.pt/2017/12/ilha-natal-de-ontem-e-de-hoje.html