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Obrigado, Padre Rafael Andrade.

Nos anos de 1973 e 1974, tive longas conversas com o Padre Rafael Andrade. Sabia ouvir, sem ser confessor; procurava conhecer, sem perguntar; discordava, sem o dizer abertamente; não fazia valer as suas ideias ou a sua posição. Sempre guardava um respeito enorme pelo ponto de vista diferente. Sem discussões, acabávamos por concordar nalguns assuntos. Era, na verdade, um bom conversador, sem pressa, com humor e uma visão do mundo de quem gostava de conhecer outras realidades.

Sem nunca se revelar um político, falou-me, antes do ’25 de Abril’, da democracia e do atraso de Portugal. Há uma conversa que sempre me recordo. Em 1973, Marcelo Caetano visitou Londres. Por aqui, a imprensa apregoava o sucesso da deslocação do Presidente do Conselho ao Reino Unido. O Padre Rafael contou-me outra versão: as vaias e os protestos contra a ditadura em Portugal, em especial a política colonial e a repressão. Porque sabia inglês e ouvia a BBC estava bem informado. Esta conversa foi muito importante para a minha consciência política, que, na realidade, ainda não possuía.

Ao longo dos anos, sempre que nos encontrávamos, retomávamos a conversa. Por ele tinha grande estima, que sei ter sido recíproca. Foi ele quem celebrou o meu casamento, na Igreja de Santa Luzia em 1979. Vinte e cinco anos depois lembrou-me a data e perguntou-me se não a celebraria, com um sorriso e uma palmada nas costas.

Bem-haja, Padre Rafael, pelo que me ensinou, sem ser meu professor ou confessor.

Que o Deus bondoso, de que tanto gostava de falar, o acolha.

No âmbito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, será hoje apresentado o livro Autonomia da Madeira, de Manuel Pestana Reis (1894-1966). A edição tem merecido referências nos meios de comunicação regionais e nacionais. Os menos familiarizados com a História da Madeira poderão pensar, face à publicidade, que se trata de um estudo sobre a autonomia.

Na verdade, a publicação, que hoje vem a lume, reproduz um texto apresentado por Pestana Reis numa assembleia de madeirenses, realizada em Dezembro de 1922, por altura das comemorações do Quinto Centenário do Descobrimento da Madeira e do debate, suscitado pelo presidente da Comissão Executiva da Junta Geral, para o alargamento da autonomia administrativa da Madeira, a exemplo do que também acontecia nos Açores. Esse documento intitulado de ‘Bases’ (leia-se para a discussão da alteração do estatuto autonómico) veio a ser incluído na edição comemorativa do Quinto Centenário e publicado no Diário de Notícias, do Funchal. Foi, por mim, estudado e publicado em 1989 e, mais tarde, também pelo Alberto Vieira.

Pestana Reis, um católico conservador e adversário do parlamentarismo republicano, virá a ser um ferrenho sequaz do regime instituído por Salazar, porta-voz da Comissão de Propaganda da União Nacional, director do Diário da Manhã e deputado na Assembleia Nacional, em duas legislaturas (1935-38 e 1938-42). Enquanto personalidade influente do “Estado Novo” não se conhece qualquer intervenção sua em favor da autonomia da Madeira. Mesmo como deputado, nunca interveio em prol da sua terra natal. Se alguma vez foi um autonomista, isso aconteceu só em 1922, e mesmo assim para, politicamente, se demarcar da Primeira República.

É um texto desta personagem que a Madeira apresenta, com pompa e circunstância, nas comemorações do Dia de Portugal, com a presença do presidente da República.

Sinto vergonha alheia pelo relevo dado a esta reedição, não porque as ‘Bases’ não sejam importantes para a História, mas pela ocasião em que é lançada e, principalmente, por saber que há um historiador madeirense com um livro sobre a autonomia da Madeira, recentemente impresso, e pronto para ser apresentado, esse, sim, novidade e produto de investigação.

Nada disto é inocente…!

09-06-2021

JM. Funchal. III: 2104 (10-06-2021) 11.

Afinal o livro lançado ontem na Assembleia Legislativa da Madeira, e por esta pago, era também uma homenagem do afilhado ao padrinho, como revela hoje o JM. Mesmo compreendendo esse gesto de ternura, continuo a pensar ser indecente apresentar, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portugueses, um livro de um ferrenho salazarista, que apesar de ser autor de um importante texto sobre a autonomia, cedo renunciou a esse ideal para apoiar a ditadura instalada em Portugal.

P. S. a) Nunca tinha visto uma edição com uma capa a dar tamanho relevo aos autores do prefácio e textos (com os respectivos cargos estampados!).

b) Na apresentação do livro, invocar o salazarista Manuel Pestana Reis, como madeirense ilustre, ombreando-o com Herberto Helder, Vicente Jorge Silva, Marta Teles ou Joel Serrão, como o fez José Manuel Rodrigues, é uma ofensa à Democracia.

10-06-2021

Conferência na Igreja do Colégio, Funchal, 20 de maio de 2021, no âmbito das Comemorações dos 500 anos do Voto a São Tiago Menor.

https://funchalnoticias.net/2021/05/20/nelson-verissimo-da-hoje-conferencia-sobre-a-peste-no-funchal-quinhentista/

https://funchalnoticias.net/2021/05/20/historiador-nelson-verissimo-tracou-retrato-vivido-da-peste-no-funchal-de-500/

VERÍSSIMO, Nelson – Mulheres bomboteiras. In SANTOS, Thierry Proença dos, coord. – De uma voz a outra: Travessias. Livro de homenagem a João David Pinto Correia. Lisboa: Edições Colibri, 2020. ISBN 978-989-689-944-8. p. 291-307.