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A Câmara Municipal de Machico deliberou encomendar e instalar uma escultura alusiva ao desembarque dos navegadores portugueses na ilha da Madeira, nos finais da segunda década do século XV. Para o Funchal, está também prevista uma obra para assinalar os 600 anos do descobrimento, conforme contrato celebrado em 11 de Dezembro de 2018 entre a Secretaria Regional do Turismo e Cultura e o escultor Amândio de Sousa.

Em ambos os casos, optaram as entidades adjudicantes por ajustes directos em detrimento do concurso público, que permitiria selecção criteriosa do objecto artístico a adquirir.

É frequente associar esculturas públicas a celebrações de momentos históricos. Nestes casos, recomenda-se uma obra plástica original com interesse estético, cultural e social, que tenha em conta o lugar, onde será implantada, e o público.

A Câmara de Machico optou por contratar um escultor nascido no concelho, Luís Paixão, já com obras no espaço urbano, encomendadas pela edilidade. Uma delas, intitulada «Na rosa dos ventos: Machico à proa», cuja concepção custou ao município 18 670,00 €, conforme contrato por ajuste directo celebrado em 30 de Abril de 2015, representa um navegador a colocar um padrão na terra descoberta, o que, na verdade, não aconteceu, pois o assentamento de padrões em pedra, como forma de marcar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão na margem sul da foz do Zaire, em 1482.

O baixo-relevo, inaugurado no passado dia 2, representa o desembarque de Zarco, Tristão e os seus companheiros em Machico. O escultor optou por uma composição figurativa, aplicando elementos que, no seu entender, retratam o descobrimento: navegadores, barca, batel, astrolábio, rosa dos ventos, ave marinha (gaivota?) e a linha de costa.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Neste baixo-relevo realista, o astrolábio não tem justificação histórica. Mais correcto seria uma agulha de marear e uma carta-portulano. A navegação astronómica é posterior ao descobrimento do arquipélago da Madeira. E, de início, no cálculo da altura meridiana da Estrela Polar utilizava-se o quadrante e não o astrolábio. (Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1985, p. 80)

Como ensinou Damião Peres:

«Anteriormente ao começo das navegações atlânticas promovidas pelo Infante D. Henrique, e mesmo durante os primeiros tempos destas, o sistema de navegação usado em navios portugueses foi sem dúvida igual ao seguido pelos Italianos e outros povos: navegar recorrendo às cartas de marear, que mostravam repetidamente as direcções dos rumos, e seguindo, com o auxílio da agulha magnética e do cálculo da distância percorrida, o adequado rumo.» (História dos Descobrimentos Portugueses, 3.ª ed., Porto, 1983, p. 187)

Este baixo-relevo assemelha-se a um trabalho escolar no qual se dispõe, sobre papel ou cartolina, um conjunto de signos tradicionalmente conotados com os descobrimentos portugueses. Se, no momento de avaliação de uma unidade didáctica dedicada à expansão portuguesa, eu propusesse aos alunos a elaboração de um cartaz alusivo ao descobrimento da Madeira, certamente lá apareceriam os mesmos elementos que Luís Paixão se serviu. Numa turma do ensino básico isso até mereceria boa classificação. Já o mesmo não é admissível numa escultura pública para perpetuar tão importante efeméride.

O baixo-relevo, Machico 600 anos, caracteriza-se por uma linguagem estética do passado. Sem criatividade. Démodé. Passadista até na inscrição «1419», ano do descobrimento, segundo a historiografia do século XIX e a corrente tradicionalista. Além disso, com tónica naïf ou erro de perspectiva: na posição em que se encontra o batel, nunca os homens que o empurram poderiam ter pé.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Esperava-se uma criação artística do século XXI, um legado dos 600 anos para as gerações vindouras. A Câmara de Machico gastou nesta obra 103 121,22 €. Contudo, no domínio da intervenção artística no espaço público, nada de novo e significativo acrescentou à cidade. Tão-pouco diversificou a linguagem estética da escultura pública no contexto urbano machiquense.

Para que não restem dúvidas, aqui fica a descrição da despesa, conforme o Portal Base (Contratos Públicos Online):

– Prestação de serviços para a idealização e concepção da obra escultórica Machico 600 anos, José Luís Alves Paixão, 13 500, 00 € (29-05-2019).

– Prestação de serviços para formação/execução da escultura Machico 600 anos, António Guedes Lopes, 17 700,00 € (21-06-2019).

– Fundição da escultura Machico 600 anos em bronze, Fundição de Bronze de Arte Lage, Ld.ª, 27 000,00 € (24-06-2019).

– Trabalhos acessórios para implementação de escultura em baixo-relevo, alusiva aos 600 anos – Machico, BC Construções, Unipessoal, 44 921,22 € (28-06-2019).

Discutível é também a localização do baixo-relevo. No meu entender, faria sentido na beira-mar. Escolheram um sítio próximo dos Paços do Concelho – com dignidade, é certo –, talvez para ficar sob o olhar vigilante dos autarcas.

Creio que Machico teria beneficiado com uma encomenda de uma escultura sujeita a concurso público e apreciação de propostas por um júri idóneo. Aliás, esta é a prática recomendável, pois o dinheiro dos contribuintes não deveria servir para custear gostos e padrões estéticos de autarcas ou governantes.

Funchal Notícias. 17 Julho 2019

O baixo-relevo alusivo ao desembarque em Machico

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João França (1908-1996) escreveu Uma família madeirense no início da década de 80 do século XX. Contudo, só em 2005 foi este romance editado pela Câmara Municipal de Santa Cruz, com um Preâmbulo de Irene Lucília Andrade.

No mês passado, veio a lume a reedição de Uma família madeirense através do original dactilografado, com a chancela da Imprensa Académica e edição literária de Thierry Proença dos Santos, que assina também uma esclarecedora Nota de Apresentação. Este é o n.º 4 da Colecção Ilustres Desconhecidos, planeada com o objectivo de relembrar autores e obras do corpus literário madeirense.

A nova edição justifica-se não somente pelo interesse literário da obra, mas também por fixar o texto de acordo com o dactiloscrito depositado no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira. Com efeito, conforme verificou e demonstrou Thierry Proença dos Santos, a edição de 2005 não respeitou o original. Pode-se, por conseguinte, dizer que só agora veio verdadeiramente a público este romance de João França, porquanto está conforme a vontade do autor.

A narrativa desenrola-se entre 1936 e 1975, no Caniço, freguesia então predominantemente agrícola e onde também se veraneava nas casas das fazendas.

Vestido de amor ao chão caniceiro, regalo sempre fora a vilegiatura da família Oliveira na sua casa de campo, isso após dez ou onze meses de canseiras, em cada ano, no lar e nos escritórios no Funchal. (p. 34)

Bonifácio Vaz de Oliveira é a personagem central. Representa o madeirense apegado aos pergaminhos da sua linhagem e aos valores tradicionais (por companhia tinha sempre a Bíblia e o livro da família Oliveira), salazarista, defensor ferrenho do «Estado Novo», autoritário e guardião da moral conservadora. Nada receptivo às mudanças políticas e sociais, repudiava os ideais da Revolução do 25 de Abril, que o surpreendeu aos 80 anos. Tão-pouco compreendia as manifestações de um povo que conquistara a Liberdade, como também não aceitara a implantação da República, a Revolta da Madeira (1931) nem a denominada Revolta do Leite (1936).

Quando daquela arruaça por causa dos lacticínios, lembra-se ele de ter dito estarem os homens de bem perante o desabar da instituição cristã do respeito humano. Afinal, via-o agora, era aquilo um quase nada comparado com tudo quanto para aí vai. Então, o sossego voltara ao seu lugar normal. E agora? Como iria ser? Que fariam os bolchevistas, com os seus gritos de liberdade? (p. 142)

No final da vida, o patriarca da família Oliveira era tolerado e respeitado, mas quase todos os seus parentes próximos discordavam das suas obstinadas decisões e rígidas atitudes.

Até Lúcia, a filha submissa, a quem o pai impusera um marido, tinha plena consciência do mal que o seu pai lhe fizera. Ainda que admitisse ter ele agido na «melhor das intenções», não deixava de considerar que «o pai ignorava a firmeza indestrutível de certos sentimentos do coração de uma mulher». Suscitava-lhe, por isso, inveja a liberdade dos sobrinhos.

A morte da personagem principal determina o termo da narrativa. Representa também o fim do poder patriarcal e de uma sociedade arcaica.

O procedimento de Marta, a sua neta, ao colocar o livro de família, embrulhado numa toalha de linho, debaixo da cabeça do avô defunto, para melhorar a postura do corpo dentro da urna, detém grande significado no contexto da narrativa. Doravante, a nova geração dos Oliveiras não se guiaria pelos padrões dos antepassados. Como sublinhou Irene Lucília Andrade, «todo o peso do passado responsável pela tragédia da família é destruído num acto simbólico» (p. 26).

Sem assumir a dimensão de romance histórico, Uma família madeirense contempla e analisa factos significativos do passado desta ilha no século XX, através da descrição de comportamentos e da construção de diálogos. Todavia, não se pode concluir que o escritor se identificava com as personagens que concebeu. Apenas pretendeu recriar situações cronologicamente verosímeis.

Do que conheço de João França, posso afirmar que, politicamente, o autor do romance não tinha quaisquer afinidades com o comendador Bonifácio Vaz de Oliveira. Mas, por certo, conhecera personalidades, que assim pensavam e agiam no «Estado Novo» e nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso) e se tornaram fontes para o desenho da personagem principal deste romance.

Secundando o editor literário de Uma família madeirense, considero que este romance tem lugar de mérito no âmbito da ficção ambientada na Madeira.

FRANÇA, João – Uma família madeirense. Thierry Proença dos Santos, edição literária e nota de apresentação. Irene Lucília Andrade, preâmbulo. Funchal: Imprensa Académica, 2019. ISBN 978-989-54361-3-2.

Funchal Notícias. 10 Julho 2019

Uma família madeirense

No passado dia 6 de Junho, o Banco de Portugal colocou em circulação uma moeda de 2 euros, comemorativa dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Foi anunciada nos media no passado mês de Janeiro, após a publicação da Portaria n.º 16/2019 (Diário da República, I Série, n.º 10, 15-01-2019), que, no âmbito do Plano de Emissões de Moedas Comemorativas para 2019, tradicionalmente designado por Plano Numismático, autorizou a Imprensa Nacional-Casa da Moeda a cunhar a moeda de 2 euros, designada «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo».

De acordo com esta Portaria, a moeda teria as seguintes características: na face comum, o desenho europeu das moedas de euro em circulação; na face nacional, ocupando todo o campo central, a representação da silhueta das ilhas, onde se destacam linhas de rumo dos portulanos. A circundar a imagem do arquipélago, as legendas: «600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo»; «Portugal 2019»; «INCM» e a indicação do autor. Envolvendo todo o desenho, as 12 estrelas, dispostas em forma circular, que representam a União Europeia.

O desenho da face nacional desta moeda constava no anexo da referida Portaria, e a imprensa regional divulgou-o.

De imediato, em 15 de Janeiro, na rede social Facebook, foram apontadas três importantes críticas acerca da representação do território da Região Autónoma da Madeira e da legenda: a) Omissão do subarquipélago das Selvagens; b) Uso incorrecto da preposição «de» («de Porto Santo», em vez «do Porto Santo»); c) Colocação, em primeiro lugar, do descobrimento da Madeira, quando, por respeito da cronologia histórica, deveria ser «600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira».

Entregues estas críticas, logo a Comissão Executiva dos 600 anos tratou de corrigir os erros, mas somente dois mereceram a sua atenção. Surgiu, por conseguinte, a Declaração de Rectificação n.º 5/2019 (Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019), que alterou a Portaria anterior. Em concreto, emendou a legenda para «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo» e, no desenho, procedeu à inclusão das Ilhas Selvagens.

Declaração de Rectificação n.º 5/2019, Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019

Se Júlio Pomar executou o desenho da primeira versão, a inserção posterior do subarquipélago das Selvagens e outras alterações, inclusive na posição da assinatura, não podem ser da sua autoria, porque o famoso artista plástico faleceu em 22 de Maio de 2018.

Por ignorância ou caturrice, mas na linha daquela malformação congénita – Resolução n.º 243/2017, do Governo Regional da Madeira, que criou a Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos – manteve-se, na legenda, a precedência do descobrimento da Madeira sobre o da ilha do Porto Santo, o que está errado. Aliás, tudo o que é oficialmente publicado e dito pela Comissão dos 600 anos padece do mesmo vírus, o qual, por anormal resistência, parece ser incurável e ter o potencial de causar uma pandemia anti-histórica.

Para a posteridade, ficará uma moeda comemorativa com um percurso atribulado, e que não honra a História. Mas, sem dúvida, testemunhará como, até numa simples moeda, a Comissão Executiva dos 600 anos desconsidera o descobrimento do Porto Santo.

Maior atenção merecerá, com certeza, a leitura do valor inscrito na face comum, do que a infeliz legenda da face nacional da moeda comemorativa dos 600 anos do Porto Santo e da Madeira.

Funchal Notícias. 3 Julho 2019

Travessura numismática

Bolo do caco

O bolo do caco, muito comum no Porto Santo e na Madeira, difere do pão, principalmente, pela natureza da cozedura e a forma redonda e achatada. Era cozido sobre um caco ou uma pedra de tufo de lapilli (cantaria mole vermelha) ou traquito (cantaria branco-suja do Porto Santo) e, nos nossos dias, sobre chapa ou numa frigideira. O pão vai ao forno. Há também quem aponte diferenças na massa (mais elástica no bolo do caco) e na levedura (menos lêveda do que o pão).

Já foram notadas semelhanças com o pão dos hebreus, referido, por exemplo, no Antigo Testamento: «pão cozido debaixo da cinza» (1 Rs 19:6). Em muitos lugares, coze-se pão sobre uma pedra aquecida. É um processo ancestral que se mantém na actualidade, em diferentes países.

O bolo do caco era o pão dos mais pobres, daqueles que não tinham forno ou fornalha e que, de uma maneira mais ou menos improvisada, coziam a massa sobre um caco ou pedra, aquecidos com lume vivo ou sobre brasas.

Acerca da naturalidade do bolo do caco, ou seja, se é originário do Porto Santo ou da Madeira, por agora e com certeza, nada se sabe. A diferença entre um e outro, quanto ao paladar, poderá ter a ver com as características da água ou a forma de levedar a massa, nas duas ilhas. De acordo com o testemunho de uma porto-santense à jornalista Alexandra Prado Coelho, «o segredo está na forma de tratar a massa, que se deve deixar levedar três vezes – e não apenas duas como fazem na ilha da Madeira» (Público, 28-05-2016).

A receita é muito simples: farinha de trigo, água, fermento e sal. Há quem acrescente batata-doce, previamente cozida e amassada, mas originalmente não entrava na massa. A utilização de um fermento natural garante-lhe o sabor original.

Cozedura do bolo do caco. Foto: © Rui Marote.

O bolo do caco associou-se à espetada e, nas últimas décadas, é iguaria reputada nos restaurantes e padarias. Nas festas e arraiais, tem presença obrigatória, barrado com manteiga de alho com salsa. Agora fazem-se pregos e hambúrgueres no bolo do caco. E há também bolo do caco com chouriço. As versões gourmet não convencem, porém, os bons apreciadores e conhecedores.

O bolo do caco vulgarizou-se, assumiu a categoria de tradicional e associou-se a outras especialidades. Deixou de ser produto exclusivamente artesanal, tornando-se industrializado.

No entanto, muitas vezes é de má qualidade, só disfarçada por estar quente e barrado com manteiga. É ver, em locais concorridos, a massa a levedar rapidamente, com fermento em excesso, porque os clientes não podem esperar. Por outro lado, a introdução de farinha de batata-doce, até da China, não o beneficia.

Desde há alguns anos, fala-se na certificação do bolo do caco, a fim de ser garantida a autenticidade e qualidade.

Com efeito, ao aumento considerável da procura não tem correspondido a produção alargada de um bolo do caco genuíno. Há, pois, necessidade de criar mecanismos de intervenção, a fim de ser garantida a qualidade de um produto tradicional. Igualmente, impõe-se a fiscalização em festas e arraiais sobre o bolo do caco e a dita manteiga de alho.

Sendo o bolo do caco tão comum na Madeira, o Mercado Quinhentista, realizado no início deste mês em Machico, não poderia deixar de lhe dedicar uma barraca. Ora, neste Mercado, procura-se uma recriação de ambientes do século XVI. Todavia, a barraca do bolo do caco constituía uma aberração. Havia uma batedeira eléctrica, para amassar, e o bolo era cozido sobre uma chapa aquecida com chama de gás.

Situações destas não deveriam acontecer num Mercado Quinhentista. O sucesso deste evento confere responsabilidades acrescidas à comissão organizadora, que, de futuro, não poderá deixar de se empenhar na eliminação de alguns anacronismos e desvios, aliás recorrentes nas últimas edições.

A recriação da amassadura artesanal do bolo do caco e da cozedura em pedra aquecida com lume de lenha, naquele Mercado, constituiria, sem dúvida, um atractivo bem mais próximo do tempo que se pretende recriar. Por outro lado, possibilitaria a divulgação das técnicas ancestrais do fabrico de um alimento tradicional, contribuindo para a valorização do nosso Património Cultural.

Funchal Notícias. 19 Junho 2019

Bolo do caco

 

Muitas intervenções, na área do Património Cultural, levam anos para serem realizadas. Por inércia ou falta de verbas, determinados projectos são protelados ou nunca se concretizam. Mas pior é quando nem chegam a existir projectos, e tudo se resume a ideias vagas e inconsistentes.

Tratando-se de património arquitectónico, aguarda-se, tantas vezes, pela degradação quase total, para se dar início ao restauro. Daí se dizer que a diferença entre a ruína de um imóvel classificado e a de um não classificado, é somente a classificação. Um cai com título, o outro sem tal distinção. Mas ambos desaparecem.

Contrariamente ao disposto e recomendado quanto à protecção e valorização do património cultural, a classificação de um edifício, na prática, não constitui, infelizmente, garantia da sua preservação.

Mesmo que a imprensa aborde, com frequência, casos vergonhosos do nosso Património Cultural, as respostas necessárias tardam ou nunca chegam. Quando demora, o restauro fica comprometido e mais caro. Se nunca se efectiva, perde-se, irremediavelmente, um bem da nossa herança cultural.

Às denúncias da imprensa, seguem-se hábeis notícias sobre restauros previstos e milhões disponíveis. Todavia, na prática, pouco acontece.

A Comissão dos 600 Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira, mesmo cumprimentando com chapéu alheio, ainda não apresentou nada no domínio da reabilitação do património arquitectónico da Região Autónoma da Madeira.

No Jardim do Mar, o solar de Nossa Senhora da Piedade, classificado desde 1977 e expropriado pelo Governo Regional da Madeira em 2008, para a criação de um Centro de Dia, está abandonado e cada vez mais arruinado. Desde 2009, o processo de expropriação encontra-se em Tribunal, devido à interposição de um recurso por parte dos antigos proprietários.

Relativamente ao destino deste imóvel, a Vice-Presidência do Governo Regional, no ano passado, informou o Diário de Notícias que «nada obsta a que o mesmo seja rentabilizado, atendendo a que a propriedade é da Região.» Acrescentou que, «cautelarmente, o entendimento, até ao momento, foi o de se aguardar pela conclusão do processo judicial.» (20-03-2018). Contudo, enquanto nada se resolve, acentua-se o estado de degradação deste edifício classificado.

A Capela de São Paulo, no Funchal, classificada desde 1940, como imóvel de interesse público do património cultural, está cada vez mais arruinada. Foi encerrada ao culto em Junho de 2014. Fala-se do seu restauro, bem como do edifício, que lhe está adossado do lado nascente, desde 1996. Mas até hoje, nada foi feito.

Para a reabilitação do Convento de Santa Clara, diferentes concursos têm sido noticiados pelos media, com pompa e circunstância, mas ainda não se deu início a qualquer obra. Anunciado foi também o restauro dos tectos da Sé do Funchal. A intervenção nestes monumentos nacionais tem já financiamento assegurado.

Os processos relativos ao Núcleo Histórico de Santo Amaro (Torre do Capitão, Capela de Santo Amaro e Casa dos Romeiros) e ao Museu de Arqueologia da Madeira (recuperação e readaptação do Forte de São Tiago para Laboratório e Museu de Arqueologia da Madeira e construção de galeria de visita às ruínas do Forte de São Filipe) não andam.

O projecto Capelas ao luar, para além das visitas guiadas e dos espectáculos musicais, contemplava a salvaguarda do Património. Iniciou-se na Capela da Nazaré, em Abril de 2016. No entanto, contrariamente ao prometido, até hoje nada foi feito para a conservação e restauro deste templo, nomeadamente dos azulejos historiados azuis e brancos do século XVIII, que cobrem totalmente as paredes do seu interior. O mesmo se pode dizer da Capela de São Roque, em Machico.

O monumento ao Infante D. Henrique ainda não mereceu os cuidados necessários, persistindo a numeração a azul nos blocos de cantaria, feita há cerca de cinco anos, aquando das obras de desvio do curso da Ribeira de São João, bem como o inestético e obsoleto sistema de iluminação.

A Diocese comunicou a intenção de reabilitar o Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira (JM, 1-04-2019), depois de fechado e a arruinar-se há vários anos. Contudo, desconhece-se qual o destino do Seminário da Encarnação, também ao abandono e bastante degradado.

A Câmara do Funchal já anunciou, por diversas vezes, o restauro da antiga Estação do Comboio, no Monte, para criar um espaço de evocação de memória histórica da freguesia. Em Janeiro de 2017, o presidente afirmou que o município pretendia «avançar com o projeto o mais rápido possível». Sabe-se ter sido adquirido o edifício, mas nada mais de concreto veio a lume.

Quanto a outro importante investimento cultural para o Funchal – o edifício do antigo Matadouro Municipal –, foi anunciado, em Março de 2018, que o projecto de arquitectura para revitalização deste imóvel bem como o respectivo caderno de encargos estavam concluídos, devendo ser lançado o concurso em breve (Diário de Notícias, Funchal, 24-03-2018).

Igualmente, tarda a requalificação do Museu de História Natural do Funchal, apregoada por vários Executivos Camarários, há vários anos

Mas, afinal, o que andou, ultimamente, depois de tantos anos nas páginas da imprensa? – A recuperação das capelas laterais da Matriz de Machico e o Cais do Carvão. A reabilitação da Quinta Magnólia estará concluída este Verão, segundo informações vindas a público. Para breve, está também a conclusão da obra de recuperação da Photographia-Museu Vicentes.

 

Funchal Notícias. 12 Junho 2019

O barco não anda…

Na Feira do Livro do Funchal, não encontrei as edições dos 600 Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Também não consta um plano editorial na página oficial da Estrutura de Missão para as comemorações.

Entretanto, o JM do passado 31 de Maio (p. 29) noticiou «a apresentação conjunta dos títulos dos 600 Anos» na Feira do Livro de Lisboa. Seriam oito livros «da responsabilidade dos serviços da Direcção Regional da Cultura», referiu o mesmo periódico. Esta segunda afirmação, embora incorrecta por incluir dois números de uma revista «no pacote de oito livros», contraria a primeira e vem afinal comprovar que, na verdade, a Comissão dos 600 Anos não tem um projecto editorial próprio, que permitiria a publicação de uma colecção de obras, devidamente planeada e com um layout identificativo.

As edições, apresentadas em Lisboa, resultam do trabalho consistente, contínuo e bem-sucedido do Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura, Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira e do Museu Etnográfico da Madeira. Da Comissão Executiva dos 600 Anos estas edições têm somente o logótipo na parte posterior da capa. Apenas isso!

Nos 600 Anos, deveria ter-se em conta o exemplo das comemorações do Quinto Centenário da Cidade do Funchal, lideradas por Virgílio Pereira e Francisco Faria Paulino. Ao nível editorial, foi planeada a colecção Funchal 500 Anos, tendo sido publicados mais de 30 títulos, quase todos primeiras edições. Vieram a lume sob o formato de livro em papel e continuam disponíveis na plataforma Calaméo.

Dentre os livros, que na capa ostentam o logótipo dos 600 Anos e foram publicitados como edições desta organização, mas não o são, refiro três de 2018, do Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA): O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões; Para (um)a história do Porto Santo; Tens saudades minhas? A temática dos dois primeiros tem particular interesse no contexto das celebrações.

Nenhum está no mercado livreiro. Não estão à venda, nem podem ser comercializados. Foi esta a informação que recebi. De facto, nunca encontrei esses títulos nas livrarias nem na Feira do Livro.

São edições graficamente pobrezinhas, com paginação básica e ilustrações a preto e branco esborratadas. Para cúmulo, as tiragens são reduzidíssimas: do primeiro, 300; do segundo, 600; do terceiro 300 exemplares.

Edições pouco cuidadas e de má qualidade gráfica em nada abonam a Comissão dos 600 Anos, que as chamou a si, aplicando o seu logótipo nas capas e a elas se referindo publicamente como suas, mas que, na verdade, são da responsabilidade do CEHA e estão integradas nas colecções desta instituição.

Uma Comissão, destinada a celebrar uma efeméride tão importante quanto o Sexto Centenário do Porto Santo e da Madeira, não se deve limitar, no domínio editorial, a mandar colocar o seu logótipo em capas de livros por outros editados. Exige-se mais: programa adequado e colecção própria. Tal como aconteceu com os 500 Anos do Funchal.

A inexistência de edições próprias faz com que a propagandeada «chancela das edições dos 600 Anos da Descoberta do Porto Santo e da Madeira» não passe de uma falácia. Sem edição não há chancela. Uma coisa é a chancela de uma editora, outra, bem diferente, é apor um logótipo numa capa ou numa folha de rosto de um livro. Confundir deliberadamente tudo isto é tentar enganar quem ouve ou lê.

Finalmente, convém não esquecer a promessa de apoio à edição da obra de José Agostinho Baptista, feita pelo Governo Regional da Madeira, através da Comissão Executiva dos 600 Anos. O livro, que reúne grande parte da obra do poeta madeirense, sob o título Epílogo, deveria ter saído em Outubro do ano passado, conforme foi anunciado na imprensa. Todavia a prometida ajuda financeira não se verificou, e a edição ainda não veio a lume. Ao Diário de Notícias, de 7 de Outubro de 2018 (p. 36), Guilherme Silva afirmou que estava a trabalhar no sentido de obter o patrocínio da Assembleia da República, mas com ou sem este, a obra seria editada no decurso das comemorações. Não creio que, neste caso, o problema seja falta de dinheiro, pois a Comissão, em Novembro do ano transacto, gastou 72 500,00 € na edição de 55 000 exemplares de um folheto de propaganda, adjudicado à Empresa do Diário de Notícias, Ld.ª, que certamente, na sua quase totalidade, foi atirado para o lixo ou o fogo.

Que a voz, que tão bem cantou as ilhas do Porto Santo e da Madeira, em breve ressoe na celebração da efeméride!

Funchal Notícias. 5 Junho 2019

Edições dos 600 Anos?

 

Numa época em que se comemoram os 600 anos do Porto Santo e da Madeira, há uma tendência para se falar mais, e também escrever, nos media sobre a História destas ilhas. Surgem ainda indivíduos ou organizações, que se socorrem da História para a realização de projectos artísticos e espectáculos. Tudo isto deveria, em princípio, ser pedagogicamente vantajoso para a cidadania, em especial, para a promoção da identidade cultural e da educação com base na consciência do passado histórico.

Infelizmente, por falta de conhecimentos ou de uma assessoria científica, algumas boas ideias degeneram em falsificações da História.

É certo que, em muitos assuntos, a História não apresenta certezas. Contudo, há matérias onde a especulação não tem lugar ou, pelo menos, está limitada. A historiografia vai, nalguns campos, cimentando conclusões, consensualmente tidas como certas.

O grande equívoco é muitos se armarem em historiadores sem a necessária formação ou sem nunca se terem dedicado ao estudo e à investigação da História. Ainda no passado mês de Fevereiro, ouvi uma senhora deputada afirmar, na RTP-Madeira, que fulano tal era, sem dúvida, uma «individualidade de reconhecido mérito nacional e internacional, no âmbito histórico ou cultural» por ter sido vice-presidente de um determinado órgão de soberania. Como se a carreira política conferisse a alguém tais competências e méritos! Assim sendo, estamos conversados. Adiante.

A História não se assemelha a um terreno baldio, onde alguns se dão ao desplante de entrar e defecar. Entre amigos e conhecidos, é mais ou menos aceitável todos opinarem sobre tudo. Já publicamente, a postura deveria ser diferente: que cada um fale do que sabe.

Seria fastidioso enumerar aqui os muitos lapsos destas comemorações dos 600 anos, mas, para memória futura e para que não se diga que falo sem fundamento, ficam aqui alguns.

«Na rosa dos ventos: Machico à proa». Escultura de Luís Paixão. 2015. Machico – Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo.

No dia 2 de Julho de 2015, foi inaugurada uma escultura da autoria de Luís Paixão, promovida pela Câmara Municipal e executada com o apoio de uma cadeia de supermercados, como forma de assinalar o desembarque dos portugueses na baía de Machico. A escultura pretende representar um navegador a colocar um padrão na terra descoberta e intitula-se «Na rosa dos ventos: Machico à proa».

O escultor optou por uma representação realista, com nítida influência da gravura do «Padrão erguido pelos portugueses na foz do rio Zaire», publicada in Quadros da História de Portugal, obra coordenada por Chagas Franco e João Soares, com ilustrações de Roque Gameiro e Alberto de Sousa (Lisboa, 1917).

Não cabe aqui analisar a incrível posição anatómica do navegador, nem sequer as suas estranhas feições ou tão-pouco o traço das mãos. Atente-se, porém, no padrão. Teria sido firmado um padrão em Machico por Tristão ou algum dos seus companheiros de viagem? Elegendo um modelo realista, teria o escultor procurado informação sobre esse pormenor, com elevado relevo na sua obra? O texto, que acompanha a ilustração de Roque Gameiro – fonte provável da sua inspiração –, poderia fornecer-lhe imprescindível esclarecimento.

Na verdade, o assentamento de padrões em pedra, como forma de assinalar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão, na margem sul da foz do Zaire (Padrão de São Jorge), em 1482, por ordem do rei D. João II.

Só na imaginação de Luís Paixão há lugar para um padrão em Machico. Para a História, é uma fantasia do escultor que, no contexto da obra em apreço, constitui um anacronismo. Quando Zarco e Tristão ali desembarcaram, não transportavam padrões.

O Governo Regional criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo» (Resolução n.º 243/2017, JORAM, n.º 71, I Série, de 18 de Abril de 2017).

Esta deliberação governamental é uma malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

No dia de Todos os Santos do ano passado, houve um arraial temporão no Porto Santo à conta do sexto centenário do descobrimento da ilha. Para a festa de Todos os Santos de 2018, a Comissão Executiva das Comemorações tomou como verdadeira uma afirmação absolutamente errada de Cadamosto. Este navegador veneziano escreveu, em 1455, que o dito descobrimento ocorreu no dia 1 de Novembro de 1428 e que, por ser dia de Todos os Santos, chamaram a esta ilha Porto Santo. Ora o topónimo Porto Santo existe, pelo menos, desde os anos 70 do século XIV, isto é cerca de 50 anos antes da chegada dos portugueses. Por outro lado, em 1420 já Bartolomeu Perestrelo tinha iniciado o povoamento da ilha. Ademais, se a dita Comissão valoriza tanto as afirmações de Cadamosto, então deveria celebrar os 600 anos no 1.º de Novembro de 2028 e não em 2018. Incongruências de quem não tem respeito pela História! Para cúmulo desta falta de bom senso, impuseram a  esta ilha uma velha estátua do Infante sobre uma palete, a poluir a alameda com bafos saudosistas de representações artísticas colonialistas.

Espero que, no corrente ano, os porto-santenses celebrem, tranquilamente, o dia de Todos os Santos ou do Pão por Deus e, para sempre, nesta data, se esqueçam do descobrimento, em nome da sua História e, em especial, da sua dignidade. Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico – bem se aplica neste caso o conhecido adágio, que radica num sermão de Santo Agostinho.

Em comemorações de acontecimentos ou factos importantes surgem sempre recriações de História ao vivo. A dramatização de um acontecimento histórico deve ser uma encenação com a proximidade possível da realidade passada. Impõe-se, por conseguinte, trabalho de investigação e precisão histórica. No entanto, dois projectos desta natureza, realizados no âmbito dos 600 anos, revelaram falta de rigor científico sobre os acontecimentos representados.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

No Festival Colombo do Porto Santo do ano passado, uma recriação histórica, executada pela Viv’Arte – Laboratório Nacional de Recriação Histórica e adjudicada pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura por 68 000 euros, inventou o casamento de Cristóvão Colombo e Filipa Moniz na praia, celebrado por um bispo, e fez desfilar freiras pelas ruas da cidade. Duas, entre outras, cenas anacrónicas e ridículas. No século XV, a Igreja não permitia casamentos fora de igrejas, capelas ou oratórios. Quando Colombo casou, ainda não tinha sido criada a diocese do Funchal. As freiras viviam em clausura. No Porto Santo não havia conventos! Por fim, mais provável é Colombo ter casado em Lisboa.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

Recentemente, na Festa da Flor surgiu a baía dos bomboteiros. A ideia foi interessante e o cenário bem conseguido, no contexto do evento. Contudo, a representação dramática destoava. O guião não se adequava à realidade representada. Um bomboteiro não falava como um «vilão». Os rapazes da mergulhança nada tinham a ver com aqueles «actores». Faltou rigor. Bastava ler alguns estudos sobre esta actividade e o texto seria outro. Para começar, aconselharia a leitura de Elisabeth Pestana, Subsídios para o estudo da linguagem dos bamboteiros (Funchal).

«Baía dos bomboteiros». Funchal, Maio 2019. Foto: Joana Sousa, JM, 05-05-2019.

Fico-me por aqui, não por se terem esgotado os exemplos, mas porque o texto vai já longo.

Resta-me a convicção de que estas e outras trapalhadas retiram crédito às comemorações, que deveriam ser encaradas com seriedade e respeito pela História. Também, neste âmbito, se pode aplicar aquele provérbio romano com mais de 2000 anos: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.

 

Funchal Notícias. 22 Maio 2019

 

Nota:

A Câmara Municipal de Machico pagou 18 670,00 € pela concepção da escultura «Na rosa dos ventos: Machico à proa», conforme contrato, por ajuste directo, celebrado em 30 de Abril de 2015.

https://www.racius.com/concecao-da-escultura-na-rosa-dos-ventos-machico-a-proa/

 

Respeitar a História