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CAPELA DE SÃO PAULO: VER PARA CRER (E A RUÍNA ACENTUA-SE)

Foto: © Rui Marote, Setembro 2020.

O secretário regional do Turismo e Cultura disse ontem, na Assembleia Regional, que as obras de recuperação da Capela de São Paulo devem começar em 2021 (DN-Madeira, 17-12-2020, p. 7). Referindo-se a este assunto, o JM apresenta um título enganador – «Capela de S. Paulo recuperada» – para depois precisar: «A Capela de S. Paulo vai começar a ser recuperada no próximo ano, avançou Eduardo Jesus» (JM, 17-12-2020, p. 9).

Paula Cabaço, a anterior secretária regional, afirmou, em Setembro de 2018, que esperava realizar esta obra em 2019 e 2020 (DN-Madeira, 27-09-2018, p. 2).

A recuperação da Capela de São Paulo é projecto inscrito no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira (PIDDAR) de 2019 (p. 403) e no de 2020 (p. 253).

Em Abril de 1996, Miguel Albuquerque, então presidente da Câmara Municipal do Funchal, afirmou que as pedras do imóvel histórico, destruído pela cota 40, haviam sido numeradas, e prometeu a sua reconstrução integral (DN-Madeira, 04-04-1996, p. 5).

Depois de tudo isto, mesmo que o JM apresente hoje o título «Capela de S. Paulo recuperada», ignorando (ou fingindo ignorar) que o particípio exprime uma acção acabada, fico como São Tomé: preciso ver para crer.

17-12-2020

Eleições na UMa

A Academia elegerá o Conselho Geral da Universidade da Madeira no próximo dia 23. Serão escolhidos, por eleição directa, onze representantes dos professores e investigadores, três representantes dos estudantes e um representante dos trabalhadores não docentes e não investigadores.

O mandato dos membros eleitos ou designados é de quatro anos, excepto no caso dos estudantes, que é de dois. Mostra-se, pois, relevante, ainda que não constitua impedimento, a idade dos candidatos, em especial dos professores e investigadores que estão a concorrer, mas que, por imperativo legal, terão aposentação obrigatória dentro de alguns meses, não podendo, por conseguinte, cumprir o mandato na íntegra.

Do Conselho Geral, fazem ainda parte seis «personalidades externas de reconhecido mérito, não pertencentes à Instituição, com conhecimentos e experiência relevantes para esta», que serão cooptados, por maioria absoluta, pelo conjunto dos membros eleitos, com base em propostas subscritas por, pelo menos, um terço daqueles membros.

De acordo com os Estatutos, «a organização da Universidade da Madeira emana do Conselho Geral que define a política estratégica de modo a explorar os pontos fortes e as capacidades da Instituição, na utilização dos recursos, das parcerias preferenciais e da avaliação eficaz do desempenho e dos resultados.»

Trata-se, pois, de um acto eleitoral de grande importância e que envolve toda a Universidade. Todavia, tornou-se prática associar a eleição do Conselho Geral à Reitoria, assumindo-se o cabeça de cada uma das listas concorrentes como candidato a Reitor. Este entendimento assemelha-se com o que habitualmente acontece, por exemplo, nas eleições da Assembleia da República ou das Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas, nas quais se fala de futuros governos e governantes, em vez dos representantes dos eleitores, os deputados, estes sim, o objecto do sufrágio.

Assim se compreende que os proponentes das diferentes listas surjam publicamente como candidatos a reitores da UMa, quando, na verdade e por agora, estão apenas a concorrer ao Conselho Geral.

O Reitor é eleito pelo Conselho Geral, depois deste órgão aprovar o respectivo regulamento «com os procedimentos para o concurso, nomeadamente os prazos a observar no processo de candidatura e documentação a apresentar.» O processo de eleição inclui o anúncio público da abertura de candidaturas, a apresentação de candidaturas e respectivos programas, a audição pública dos candidatos, com apresentação e discussão do seu programa de acção. Só depois destas etapas, o Conselho Geral procederá à votação, por voto secreto, ganhando o candidato que obtiver a maioria.

A eleição do Reitor da Universidade da Madeira deverá realizar-se no primeiro trimestre de 2021. O que neste momento movimenta a Academia é a eleição do Conselho Geral, que ocorrerá no dia 23.

A lista com maior número de representantes no Conselho Geral terá, logicamente, papel determinante na eleição do Reitor. Cenário também possível é a formação de uma aliança estratégica entre membros daquele órgão, oriundos de diferentes listas. Mas tudo terá lugar em 2021.

As eleições para um órgão de governo da UMa deveriam, em princípio, dizer somente respeito à Academia. Contudo, nunca foi assim, e estas não escapam à prática. Prova disso é uma rádio local, associada a um periódico, promover hoje um debate com os cabeças-de-lista, o qual merecerá anunciado realce na edição de amanhã do mesmo jornal. Ouvintes e leitores desses órgãos de informação estão, por certo, muito interessados nas eleições do Conselho Geral da UMa.

Associações mais ou menos discretas, como a Maçonaria e a Opus Dei, e partidos políticos sempre trataram de colocar os seus no governo das universidades.

Lembro-me de um professor catedrático de Coimbra contar que, após ter manifestado a sua intenção de se candidatar a Reitor, alguém influente no meio académico e na política local lhe sugeriu que, antes de publicamente anunciar o seu projecto, deveria falar com a distrital do PS, pois daí dependeria o seu sucesso. Claro que este famoso professor e investigador recusou, considerando tal interferência humilhante para a Universidade. Mas certo é que não chegou a Reitor.

Na Madeira, não serão diferentes os caminhos do poder universitário, embora com muita discrição. Por aqui, há solidariedades visíveis e invisíveis. Mas pressente-se, e as redes sociais podem dar algumas indicações, no meio de uns tantos ditos independentes, uma lista A próxima do PS e a C do PSD. A lista B aparenta estar um pouco à margem das estruturas locais dos partidos e confinada às naturais aspirações de um grupo de professores não madeirenses.

Na verdade, sendo assunto interno da UMa, a eleição do Conselho Geral parece despertar e movimentar solidariedades da sociedade madeirense.

Se no século XVII, a eleição da abadessa das monjas reclusas de Santa Clara agitava os homens da governança da cidade, que, na direcção do Mosteiro, pretendiam colocar uma freira da sua família ou da sua confiança, não é de estranhar que, nos dias de hoje, alguns fora da UMa manifestem preferências e tentem usar da sua influência.

Funchal Notícias. 18 Novembro 2020

O “Problema”

Na falésia sobranceira à margem direita da Ribeira do Porto Novo, mal se distingue o antigo forte. Votado ao abandono, ainda lá se encontra a vigiar o mar e o vale. A vista, que dali se desfruta sobre o Atlântico, é magnífica. Já o que se observa no vale é desolador, diria mesmo horroroso em termos paisagísticos.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Sobre o estado desta antiga edificação militar, já o Funchal Notícias publicou em 14 de Junho de 2015 um artigo de Emanuel Silva. Como é habitual nestes casos de denúncia pública, fingiram que não leram, continuaram a não se importar e nada fizeram. Hoje escrevo sobre o forte, exactamente, pelos mesmos motivos de há cinco anos: o seu abandono e a falta de sensibilidade para, no mínimo, limpar, requalificar e enquadrar este imóvel nos miradouros de Santa Cruz.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Na verdade, todas as edificações militares alienadas em favor da Região Autónoma têm sido pouco valorizadas como Património Cultural. O Fortim da Ribeira Brava, transformado em posto de informação turística, apresenta um aspecto pindérico e desmotivador. A Fortaleza de São Tiago é, praticamente, um restaurante, depois da saída do Museu de Arte Contemporânea e apesar do previsto Museu de Arqueologia da Madeira. Entregue à restauração está também o Forte de Nossa Senhora da Conceição ou do Ilhéu, completamente adulterado. Até um famoso guindaste que ali existia, tantas vezes desenhado ou fotografado, foi furtado, ou, como agora se diz, transportado para outro lugar (desconhecido, esclareça-se!). A Fortaleza do Pico ou de São João, depois de transferida para a Região Autónoma da Madeira, esteve cerca de três anos abandonada e à mercê de actos de vandalismo. Depois de requalificada e recuperada, abriu ao público em Junho de 2018. É, essencialmente, uma cafetaria com vista privilegiada sobre o Funchal.

Não conheço o projecto, noticiado recentemente, para o Forte de São José, à entrada do molhe, o Principado da Pontinha de Renato Barros, que agitou as águas do período final do jardinismo. Mas nada do que veio a público sobre o planeado restaurante com esplanada, dos investidores luso-venezuelanos, augura intervenção adequada, em termos de salvaguarda do Património Histórico.

Perante tão elucidativas evidências, não foi com surpresa que, numa tarde deste mês, visitei e fotografei o arruinado Forte do Porto Novo, quase vinte anos depois de lá ter estado.

Trata-se de mais um exemplo do desinteresse, da incúria e da falta de visão dos nossos governantes. Um sítio com história localizado num caminho bastante inclinado e com o piso maltratado, sem saída para o trânsito automóvel, com passagem pedonal, estreita e com degraus, para a antiga estrada, que serve uma urbanização relativamente recente. Um forte oitocentista desprezado, que acumula lixo e vegetação infestante, de onde se avista a soberba imensidão do mar.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

O Forte do Porto Novo foi construído no início do século XIX e veio complementar a defesa deste lugar, onde se podia entrar, sem dificuldades, pelo litoral e chegar facilmente ao Funchal, então em pouco mais de duas horas de jornada pela estrada. Nessa época, como de resto já no século XVI, o Porto Novo era considerado lugar estratégico para a segurança dos madeirenses, em especial, da cidade. Junto ao calhau existia o reduto de São Marcos, construído no século XVIII.

O governador e capitão-general da Madeira tratou de guarnecer o Forte do Porto Novo, para oferecer resistência às forças absolutistas que, em 1828, se deslocaram para a ilha, a fim de subjugar os liberais, empenhados na oposição ao rei D. Miguel, usurpador da Coroa de Portugal. Apesar, de início, as forças do Porto Novo terem obstado uma tentativa de desembarque ali, a resistência à expedição miguelista fracassará alguns dias depois.

Após o desembarque em Machico, quando, por terra e mar, se movimentavam os militares miguelistas com destino ao Funchal, as defesas do Porto Novo foram atacadas, tendo muitos soldados debandado. A explosão do paiol, por um tiro de canhão da esquadra miguelista, e a impreparação militar contribuíram para o insucesso dos liberais na denominada Batalha das Voltas do Porto Novo.

A explosão danificou o forte, tendo vindo a ser reconstruído no início dos anos 30 do século XIX. Até hoje vai resistindo, sem que autoridade alguma se interesse na sua reabilitação ou, pelo menos, na limpeza daquele sítio com História.

Funchal Notícias. 28 Outubro 2020

Numa tentativa de dar aplicação a uma, no mínimo, surpreendente e insólita interpretação, recentemente divulgada, a propósito de declarações falsas num currículo, que, pasme-se, constituem procedimento de somenos importância, não considerado crime, e a pedido de quem prepara candidaturas para concursos da carreira docente, elaborei breve guia de conselhos úteis, como se se tratasse de receita culinária, desvendando logo, e contra a tradição, o segredo do pitéu, indicando depois ingredientes e o modo de fazer, para finalmente mencionar a degustação no banquete. 

Segredo:

Ponha a máxima atenção na escrita do seu nome, copiando-o devagar e fielmente do Cartão do Cidadão. O mesmo procedimento deverá ter para com a filiação e a data de nascimento. Procure o recibo da electricidade e copie o endereço da sua residência. De seguida, consulte o recibo do vencimento e escreva a profissão, a categoria e o local de trabalho. Registe o endereço de correio electrónico, com este aberto, e o número do telemóvel, depois de o ligar. Nestes itens, não pode falhar. Deve mesmo ler várias vezes, para verificar se tudo é verdadeiro.

Ingredientes:

Para a confecção do currículo, utilize produtos de elevada qualidade. Aqui não conta a veracidade dos factos. Permaneça tranquilo e relaxado, para que o devaneio flua livremente. Há que aprimorar. Adicione, com frequência, abundante delírio. Boas pitadas fazem crescer laços e abraços.

Escolha uma das melhores universidades mundiais para o seu título académico. Não seja modesto na classificação a indicar. Oxford, Stanford, Harvard, MIT, München, Heidelberg, Aachen, Konstanz, Université PSL (Paris Sciences & Lettres) ou a Sorbonne são boas opções. Se não pretende privilegiar instituições estrangeiras, opte por Coimbra, Lisboa ou o Porto. Aquela sua universidade, onde fez mestrado, doutoramento e agregação no meio do Atlântico, não é para si.

Quanto à docência, orientações de mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos e conferências, dê asas à sua imaginação. Mas voe alto e para longe. Não se coíba de mencionar regências, seminários e aulas até nos anos em que, por acaso, não esteve ao serviço. Não deixe também de furtar regências e leccionação de alguns colegas, delas se servindo como suas, de facto. Eles depois confirmarão ter sido erro informático.

Pode sempre dizer que publicou em revistas indexadas, mesmo que o tenha feito somente na da paróquia. Fale ainda dos livros que tenciona publicar, mas como se já estivessem editados.

Relativamente a congressos ou colóquios, considere-se da Comissão Organizadora ou da Comissão Científica de qualquer um, mesmo daqueles em que o seu nome não figurou nos documentos oficiais distribuídos aos participantes, em especial livros de resumos das comunicações ou de actas.

Para prémios, tudo vale, com excepção do Nobel, pois este é largamente difundido em cerimónia pública. Seja ambicioso. Recomendo o Pulitzer ou o Man Booker. Tenha em atenção com os Grammy Awards, BAFTA Awards ou do Festival de Cannes. Podem não ser da sua especialidade.

No que diz respeito a patentes, não aponte coisas de pouco ou nenhum valor. Sirva-se de um reputado registo internacional e copie um número qualquer. Confie. Ninguém irá verificar.

Convém exercitar permanentemente a criatividade. Escreva o que realizou e o que ainda não fez, pois o que já está, na sua cabeça, é fruta pronta a servir, mesmo sem aquelas fases da necessária maturação. Atrás da mentira, mentira vem. (Provérbio popular). Proceda exactamente como noutras ocasiões da sua vida. Um cálice de brandy Constantino, o da fama que vem de longe, inspira o seu retorno ao passado. O sucesso carrega coerências dessa natureza.

Leia tudo umas quatro vezes. Se, entretanto, lhe ocorrer mais uma fantasia, não tenha pudor em acrescentar. Polvilhe tudo com um pouco de Ética, cultivada num jardim sombrio e empestado. Sempre atenua amargos de boca. Interiorize tudo ser verdade. A mente fará o resto. Os seus amigos constantemente dirão como a mulher de Pantaleão, personagem criada por Chico Anysio, que, após cada mentira espalhafatosa, perguntava: «– É mentira, Terta?» e ela sempre lhe respondia «– Verdade!». Tudo aparece encoberto no reino da vaidade e da indigência cultural.

Modo de fazer:

Aqui não há mistérios nem canseiras. Tudo já foi disposto de forma convincente. O conluio há muito foi preparado. É só uma questão de tempo em forno vigiado.

Banquete:

No banquete, as sumidades convidadas, com uma folha de cálculo à mão, não têm paciência nem tempo para apreciar ou verificar, com rigor, currículos. Um braço comprido já lhes apontou o melhor, qual o que devem saborear. Na sua indicação confiam, como sempre. Um dia também eles estenderão o seu braço, e a lei da corporação imperará. O contraditório traz dores de cabeça e muitas preocupações. É de evitar problemas com os iluminados, antes inimigos e agora ternos confrades.

Témis foi escorraçada e Astreu fugiu para o céu. A Justiça jamais habita no Casarão. Nem no esconso de velho armário.

Resultado:

O preparado e esperado.

Conclusão:

Quanto à identidade e estado, pela infalibilidade do processo de fabrico, jamais poderá haver declarações falsas.

As restantes mentiras enquadram-se dentro dos factos relevantes de outra qualidade, que a lei atribui efeitos jurídicos, próprios ou alheios. Mas ninguém quer saber disso. Mentir num currículo não faz parte do conceito de ‘declarar falsamente’ – dizem. Nesta engenhosa premissa, reside a inovação bombástica, a porta do futuro, o cerne deste guia, a esperança da juventude desempregada e dos professores que patinam há anos na mesma categoria.

Como diz o povo, são mentiras para arremedeio da nossa vida. Logo, não haverá problemas, mesmo quando premeditadas. Fique descansado quanto àquele documento que o obrigam a assinar na admissão ao concurso, no qual declara serem verdadeiros os elementos e factos constantes da sua candidatura, tendo pleno conhecimento de que a prestação de falsas declarações implicará a exclusão do concurso, porque, se a conveniência assim o exigir, será completamente esquecido, impiedosamente queimado ou levará sumiço. Ninguém se lembrará de que se trata de contra-ordenação muito grave.

Candidatos, dai largas à imaginação e, no vosso currículo, menti com quantos dentes tendes na boca. Arrogai-vos sempre de experiências que não tendes. A mentira corre mais que a verdade. (Provérbio popular).

Apelo (in)útil:

Tomai em atenção o provérbio popular: Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

Parafraseando os últimos versos do soneto «Já Bocage não sou!»: Oh se me creste gente ímpia / Rasga estes conselhos, crê na honestidade.

P. S. O meu currículo está online desde 2007, tendo vindo a ser actualizado com frequência. Quem nada tem a esconder, publica-o com livre acesso. O meu está aqui:

https://passosnacalcada.wordpress.com/curriculo-2/

Funchal Notícias. 21 Outubro 2020

Sempre a conheci em ruínas. Sempre a imaginei grandiosa.

Com o tempo, novas pedras se deslocam, desabam paredes e o matagal cerca-a.

Casa do Agrela. Caniço, Santa Cruz, Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Tem resistido a sismos e tempestades. Parece milagre a sua longevidade. De pé há-de cair

Propriedade privada. Delimitada. Mal-amada. Assemelha-se a doente terminal e rico, observado por herdeiros ávidos e impacientes. Quando tudo desmoronar, mais fácil e rendível será o investimento imobiliário. O poder regional e autárquico descarta-se da memória e do património cultural.

Quem passeia pelos Reis Magos, observa, com carinho, a altivez da casa arruinada. Faz parte da paisagem. Sempre esteve ali. Imagine-se: limpa do lixo e de matos e bem iluminada. Que beleza de sítio! “Não! Retorna à realidade: tem dono! Nada se pode fazer!” “Não é bem assim…” “Esquece. Não há interesse, nem dinheiro…!” “Nem para limpar? Nem vontade da Câmara para obrigar o proprietário a limpar o terreno! Gestão de combustível é assunto ignorado por estas bandas?” “Ninguém quer saber de ruínas.” “Ninguém, quem?” “Eu, eu gosto destas ruínas. Há anos que as admiro.”

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Ruínas! Ninguém assoma à janela. Não há uma luneta na torre. Não se ouve a música do salão. Não se sente o cheiro a tabaco. Não se ouvem gemidos nem o ranger das camas pela noite. Não há fogo na cozinha. Nem gritos de um tresloucado.

Pelos escombros inçam ratos e lagartixas. Vagueiam gatos atentos. Descansam pombos e gaivotas no cimo dos muros. Riem-se fantasmas adejantes, porque ninguém os escuta.

Ninguém se lembra de quem construiu esta casa nobre. No século XVIII, seria. Requintado gosto e dinheiro não faltariam, por certo, ao seu proprietário, que encomendou magníficas pedras de cantaria para portas e janelas. Da mesma época, não se conhece na ilha outra assim, tão majestosa. Ninguém a estudou ou procurou delinear a sua história.

A cartografia do século XIX identifica-a como a Casa do Agrela, ali bem próximo do Reduto de São Sebastião ou Fortim dos Reis Magos, também descaracterizado, maltratado e apoucado. Agrelas que se fixaram no Caniço de Baixo, junto ao mar, no início do século XVI, tendo Francisco de Agrela Ferreira sido nomeado capitão de ordenanças deste lugar em 1643.

Sítio com história do município de Santa Cruz a merecer cuidadosa intervenção.

Funchal Notícias. 14 Outubro 2020

Faleceu, no passado dia 17, o historiador e professor João José Abreu de Sousa.

Com excepção do Funchal Notícias, a sua morte foi praticamente ignorada pela comunicação social. Estava há anos impedido de participar do bulício do quotidiano – é certo. Mas deixou obra, e grande! Quem o leu? A mediocridade tem dificuldades em distinguir os verdadeiros valores. Mais depressa reconhece cores.

João José tinha plena consciência da efemeridade da vida e das coisas. Quando em Junho de 1995 lhe pedi um autógrafo no livro acabado de editar, História rural da Madeira: a colonia, escreveu em latim uma frase de Lucrécio: Iam fuerit, nec post, unquam revocare licebit (em breve, o nosso tempo não será e não o poderemos recordar).

João José Abreu de Sousa, 1937-2020. Foto: Arquivo de Família.

Era o decano dos historiadores madeirenses. Estudioso de várias matérias, a História foi a área disciplinar da sua formação e da sua predilecção.

Não cultivou o mediatismo. Era presença rara e discreta em conferências, apresentações de livros, exposições ou outros eventos culturais. Habitualmente não frequentava colóquios ou congressos. Contudo, em 1986 participou no I Colóquio Internacional de História da Madeira com a comunicação «O Senhorio das Ilhas Desertas». Reservava as conversas para os amigos. Com estes, muitas vezes falava mais do que ouvia, mas a sua voz era escutada com gosto.

O seu labor historiográfico manifesta-se em vários livros e artigos em publicações periódicas. Historiador que privilegiava as fontes documentais, à sua leitura e interpretação dedicou grande parte da sua vida. Abriu caminhos inovadores em campos nunca trabalhados na História da Madeira, como, por exemplo, o porto do Funchal e o hinterland ou a faceta empresarial, no domínio da agro-pecuária, do Convento de Santa Clara. Deixou-nos numerosas transcrições de fontes primárias nas monografias publicadas, para comprovar as suas conclusões e simultaneamente possibilitar outras e renovadas leituras.

Em muitos estudos, Abreu de Sousa preocupou-se em entender a apropriação do espaço, a relação do madeirense com a propriedade fundiária, a acumulação de riquezas e as relações sociais que o sistema económico suscitava, em especial a colonia, tema que, no seu entender, «mais do que ser julgado deve ser compreendido». Se é certo que na documentação histórica colhia os elementos mais consistentes para as suas análises, também é verdade que não menosprezava o trabalho de campo, anotando metodicamente o que ouvia e observava.

Na sua formação como historiador, denota-se a influência de Virgínia Rau (1907-1973), sua professora. Nutria particular admiração pela sua obra.

O seu contributo para a História da Madeira é amplamente reconhecido pelos historiadores. A Região deveria também estar-lhe grata por tantos anos de trabalho em prol do conhecimento do arquipélago e da construção e afirmação da identidade cultural insular.

Natural da freguesia de São Pedro do concelho do Funchal, nasceu em 6 de Abril de 1937, sendo filho de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de Abreu e Sousa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1999, sendo já um reconhecido e probo investigador, defendeu a sua dissertação de mestrado em História na Universidade da Madeira, intitulada A Revolução Liberal na Madeira. Foi a primeira prova de mestrado da nossa Universidade.

Exerceu a docência no Continente e nesta Região Autónoma, chegando a ser professor metodólogo no então denominado ciclo preparatório. Nos últimos anos da sua actividade profissional, foi professor da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal.

A morte é inexorável, mas a obra perdura.

Bibliografia:

Documentos da História e Geografia de Portugal. Lisboa, 1975.

O movimento do porto do Funchal e a conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: alguns aspectos. Funchal, 1989.

O Convento de Santa Clara do Funchal. Funchal, 1991.

História rural da Madeira: a colonia. Funchal, 1994.

História da freguesia de São Pedro. Funchal, 1999.

A baba de mar: romance. Funchal, 2002. Escrito sob o pseudónimo: José Lino.

A essência do Poder: a ‘De Re publica’ de Cícero: ensaio. Funchal, 2006.

Os capitães do Porto Santo: uma árvore de costados dos Perestrelos portugueses. Funchal, 2007.

O bolo de mel: ex-libris da doçaria madeirense. Funchal, 2008.

Colaborou nas publicações periódicas Das Artes e da História da Madeira (1966-1967), Atlântico (1985-1989), Islenha (1987-2007), Girão (1989-1993) e no Diário de Notícias do Funchal, na década de 80 do século passado.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2020

Em memória do historiador João José Abreu de Sousa

Ao passar pela Capela de São Paulo, não consigo ficar indiferente à ruína, ainda que a trepadeira infestante a vá ocultando e simultaneamente denunciando. De rajada, várias perguntas fustigam a minha mente:

O que pensará o Senhor Bispo, vizinho da Capela, vendo assim destroçada a casa do autor das epístolas que sustentam o Cristianismo? Templo inicialmente dedicado a São Pedro e primeira sede da freguesia funchalense com o nome deste apóstolo, está encerrado desde 2014.

Tratando-se de um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, por que razão o Governo ainda nada fez?

Por falta de dinheiro? Não! Isso não pode ser verdade. Então se há dinheiro para esventrar a Laurissilva com uma estrada de milhões de euros, e outras extravagâncias pandémicas, não possui o Governo Regional uns milhares para recuperar a capela mandada edificar por João Gonçalves Zarco e o edifício adossado do lado nascente, onde funcionou o primeiro hospital da Madeira, como memória dos 600 anos do povoamento do Porto Santo e da Madeira?

Trata-se de obra não prevista no programa do Governo Regional? Não! Isso não é verdade. A recuperação da Capela de São Paulo é projecto inscrito no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira (PIDDAR) de 2019 (p. 403) e no de 2020 (p. 253). Tem programação financeira plurianual, 2019-2021, sendo o financiamento comunitário no valor de 330 774,00 euros. Qual foi a execução de 2019? E até hoje, qual foi a execução de 2020, quando para este ano está prevista uma verba de 159 496,00 euros? Segundo o vice-presidente do Governo, «quem não executar os projectos financiados pelos fundos comunitários pode vir a perder as verbas.» (JM, Funchal, 22-09-2020, p. 3)

Será que as reduzidas verbas para a Cultura são rapadas para outros investimentos de vulto, as denominadas grandes obras que dizem não poder parar? Ou, como dizia um antigo presidente de um município vizinho do Funchal, há verbas feitiças? Ele queria dizer fictícias, mas o termo não fazia parte do seu vocabulário. Contudo, o seu arcaísmo, motivo de troça por parte de alguns, inclusive companheiros do seu partido, não estava errado. Feitiça, no caso em apreço, qualifica a verba orçamentada como artifício, fingida ou simulada.

Mas, então, mesmo antes de 2019, o PSD já não se tinha comprometido com a recuperação da Capela de São Paulo? Claro que sim, e por diversas vezes. Em Abril de 1996, não foi anunciada a recuperação deste bem cultural? Sim, mas, por decisão política, nunca se iniciou a obra. Não foi Miguel Albuquerque, então presidente da Câmara Municipal do Funchal, quem afirmou que as pedras do imóvel histórico, destruído pela cota 40, haviam sido numeradas, prometendo a sua reconstrução integral (Diário de Notícias, Funchal, 4-04-1996, p. 5)?

E o CDS, actual parceiro da coligação governamental, através dos seus deputados, não dirigiu, em 3 de Setembro de 2015, um ofício, à secretária regional da Cultura, Turismo e Transportes, sobre o estado da Capela de São Paulo, solicitando uma intervenção urgente? Ficou por aí o seu interesse por este imóvel histórico ou o casamento de conveniência obriga-o a esquecer o assunto em nome da felicidade e da paz no lar?

Desde 1996 até hoje, nada! Muitos alertas de vários quadrantes surgiram entretanto na opinião pública. Todavia quem tinha o dever político de intervir ignorou-os ou justificou-se com a crónica falta de dinheiro ou a contenção financeira. E a ruína acentuou-se. Até quando?

Porque repetem as autoridades com responsabilidade na salvaguarda do Património Cultural visitas a empreitadas que decorrem com normalidade, espalhando depois notícias cozinhadas pelos assessores governamentais, e nunca se dignam passar pela Capela de São Paulo? Ali não há peste, nem lepra. Coronavírus, não sei.

O projecto de concepção da Sala do Tesouro da Igreja da Ponta do Sol é importante, a remodelação da Sala do Tesouro da matriz da Ribeira Brava também, mas a Capela de São Paulo, que história carrega para dela não se falar nem lançar a obra inscrita no PIDDAR?

Recorde-se, a propósito, que, para a Ponta do Sol, quanto ao Património Cultural, está inscrito no PIDDAR de 2020 um projecto de recuperação de fontanários e lavadouros. Já foi concluído?

Depois de tantas e inquietantes interrogações, reparo na casa onde nasceu Herberto Helder, ali ao lado da capela arruinada, e lembro-me de uns versos do poeta:

– Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,

as casas encontram seu inocente jeito de durar contra

a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

A colher na boca, Lisboa, 1961, p. 11

À cabeça, vieram-me também as palavras de Paulo:

Se nas línguas dos humanos e dos anjos eu falar, mas amor não tenho, bronze ecoante ou címbalo ruidoso me tornei.

I Cor 13,1

Voltei a escrever sobre a Capela de São Paulo, porque dói assistir à morte lenta da memória de um dos locais mais antigos do Funchal.

Funchal Notícias. 23 Setembro 2020

Capela de São Paulo: até à ruína total?