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Por ocasião das celebrações do Dia da Região Autónoma da Madeira, o presidente do Governo Regional anunciou, como quase certa, a deslocação do presidente da República à ilha do Porto Santo no 1.º de Novembro próximo, porque nesse dia irão «assinalar os 600 anos da descoberta e colonização do Porto Santo».

Deixemos a segunda questão, mas não secundária: a colonização do Porto Santo. Não sendo uma ilha habitada, por altura da ocupação portuguesa, devemos sempre falar em povoamento e não em colonização.

Mais importante é, contudo, tentar compreender a obsessão de alguns porto-santenses pelo 1.º de Novembro. Parece que foram os rotários locais que fizeram dessa data o Dia do achamento do Porto Santo, no que foram secundados pela Câmara Municipal, não há muitos anos.

Em que se fundamenta esta efeméride? Por diversas vezes, tenho feito esta pergunta publicamente, mas nunca me chegou resposta.

Qualquer pessoa tem o direito de festejar uma data da sua vida quando quiser, sem ter que apresentar o cartão do cidadão ou qualquer certificado. Mas uma data histórica, que envolve uma comunidade e tem objectivos cívicos e pedagógicos, requer documentação.

Com efeito, não se sabe, com certeza, a data da chegada dos navegadores portugueses ao arquipélago da Madeira, já conhecido e representado na cartografia da segunda metade do século XIV.

A historiografia, cruzando diversas fontes documentais, aponta os anos de 1419 ou, ainda melhor, 1420, como os mais próximos do acontecimento.

Jerónimo Dias Leite, seguindo uma fonte do século anterior, escreveu em 1579: «Partidos de Lisboa com vento próspero no mês de Junho, vieram demandar o Porto Santo, ao qual chegaram em poucos dias…»

Logo, para o primeiro cronista madeirense, o dito «achamento» ocorreu em Junho. Sublinhe-se que, pelos finais do século XV, Francisco Alcoforado indicara o mesmo mês.

Então, por que razão optaram os rotários porto-santenses pelo 1.º de Novembro?

Como, apesar da minha insistência nos últimos anos, nunca me responderam, vou tentar perceber a pretensa razão da escolha do Dia do achamento.

Parece que se socorreram, directa ou indirectamente, do relato de Alvise de Cá da Mosto [Luís de Cadamosto]. Este navegador veneziano visitou e descreveu o arquipélago da Madeira em 1455. Acerca do Porto Santo, afirmou: «Esta ilha é chamada Porto Santo, porque foi descoberta pelos portugueses no dia de Todos os Santos…»

Como ficou claro, Cadamosto, para explicar o significado do topónimo Porto Santo, associou-o a uma solenidade do calendário católico, o Dia de Todos os Santos, comemorado anualmente em 1 de Novembro.

O devaneio do veneziano nunca foi valorizado pelos historiadores, porque, muito simplesmente, a ilha já era denominada de Porto Santo, pelo menos cinquenta anos antes da viagem de Zarco e Tristão. Na realidade, o topónimo consta de mapas e crónicas desde a década de 1370. Cai, assim, por terra a fantasia de Cadamosto e também a de quem o quis seguir na actualidade.

Na História do Porto Santo há, porém, uma outra importante efeméride em 1 de Novembro. De facto, em 1446, nesse dia, foi assinada a carta de doação da capitania do Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo. Todavia, a instituição da capitania corresponde a uma fase adiantada do povoamento da ilha e não serve para o tal dia do achamento.

Poderão os mais ingénuos invocar ainda a tradição, mas esta também se fabrica, de modo que nunca prevalece, face a uma fonte credível.

Em suma: que eu saiba, não há justificação histórica para a comemoração do Dia do achamento da ilha do Porto Santo em 1 de Novembro. Muito menos para falar em 600 anos em 2018, como, estranhamente, se tem feito, na senda da historiografia do século XIX.

Mais correcto seria festejar em Junho, com base na Relação de Francisco Alcoforado e na crónica de Jerónimo Dias Leite, fontes que, aliás, alicerçaram o Dia da Região Autónoma da Madeira, celebrado em 1 de Julho, desde 1980.

 

Funchal Notícias. 18 de Julho de 2018

https://funchalnoticias.net/2018/07/18/descobrimento-do-porto-santo/

 

 

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«Contencioso da autonomia» foi um conceito gerado no tempo dos governos do Dr. Jardim, e provavelmente da sua autoria, que pretendia traduzir a dialéctica ou as tensões decorrentes de aspirações e reivindicações da Região Autónoma, não aceites nem satisfeitas, pelo menos no imediato, pelo Estado Português. Algumas vezes, o conceito atingiu a conotação máxima – contencioso do aprofundamento da autonomia –, como, por exemplo, em 2014, quando se reivindicava um novo modelo do sistema autonómico (Diário de Notícias, Funchal, 20-09-2014, p. 13).

Nem sempre a Região beneficiou desse clima de permanente confronto, chegando-se mesmo a situações bizarras, mas a verdade é que muito do que se conseguiu, no âmbito da autonomia ou no domínio financeiro, se deve à capacidade de reivindicar com firmeza e de apresentar projectos credíveis.

Neste contexto de afirmação da identidade regional, elevou-se o nível de auto-estima dos porto-santenses e madeirenses, sobretudo pelo melhoramento das suas condições de vida e o reconhecimento nacional e internacional de muitos projectos e eventos regionais.

Continuam hoje muitas questões pendentes entre os Governos Regional e da República, que o «murro na mesa» de Paulo Cafôfo (JM, 12-04-2018) ou a última visita do Primeiro-Ministro ao Funchal (21-05-2018) não conseguiram resolver, com prejuízo dos madeirenses e porto-santenses, porque, na realidade, António Costa, como líder do PS, tem objectivos definidos para as eleições na RAM e um calendário adequado aos seus propósitos.

Depois de uma ardilosa substituição da liderança socialista na RAM, abriu-se uma passadeira rosa para o presidente da Câmara do Funchal, como candidato a presidente do Governo Regional nas próximas eleições legislativas, que, assim, deu o dito por não dito quanto ao cumprimento do mandato autárquico, defraudando a maioria dos funchalenses.

Na qualidade de candidato, falou no último Congresso Nacional do Partido Socialista (26-05-2018), realizado na Batalha, o que tem tanto de curioso como de significativo.

Curioso, porque, na reunião magna de uma organização partidária, abriu-se a tribuna a um não filiado, que se apresenta como candidato do mesmo partido às eleições de uma Região Autónoma, cabendo papel menor ao presidente do PS-Madeira, situação previsível e com natural propensão para acentuar-se.

Dessa intervenção nenhuma ideia interessante para a governação regional ressumou, tendo apenas sobressaído a vontade de inscrever António Costa na História, como o Secretário-Geral do PS que venceu eleições nas duas Regiões Autónomas.

Revela-se também significativo, porque o percurso foi feito ao contrário do habitual. Em vez de ser um líder de uma força partidária da RAM que, pela sua militância e programa, se afirma no Congresso do seu partido, trata-se, sim, de um candidato, dito independente, com popularidade no Funchal e que venceu duas eleições autárquicas liderando coligações, que o Secretário-Geral do PS astutamente catapultou para a disputa das regionais. Compreende-se, assim, a vontade de Paulo Cafôfo em retribuir tal gesto com a inscrição de António Costa na História.

Todavia entre o querer e o ser há um longo caminho, onde a passadeira rosa e a dialéctica periferia/centro terão de se confrontar.

Não acredito em projectos de poder para a periferia, arquitectados no centro, embora preveja que a máquina da propaganda, abrigada na Casa do Concelho, será reforçada com artilharia pesada para convencer ou domar o eleitorado, agitando, até à exaustão, o enganador voto útil.

A nós, madeirenses e porto-santenses, caberá distinguir entre a força da propaganda, aliada aos grupos económicos que emigraram da Rua dos Netos para o Largo do Colégio ou que jogam nos dois tabuleiros, e os verdadeiros interesses desta Região. Convém não alinhar com o artificial. Por vezes, o pechisbeque faz-se passar por metal precioso. Prudente é mesmo não contribuir para maiorias soberbas, de má memória na história.

À própria dinâmica da autonomia está, intrinsecamente, associado o contencioso. Muito do que temos hoje veio a ferros. Sempre foi assim! Não parece, por isso, estar enterrada tal dialéctica, ainda que a passadeira rosa se venha a apresentar com mil e uma promessas de mágica solução de todos os nossos problemas, numa programada colonização, seiscentos anos depois do povoamento deste arquipélago.

Extinguiu-se aquela imagem estereotipada do caseiro de cabeça vergada na porta dos fundos da casa do seu senhorio. Mas diferentes mesuras ou agachamentos foram entretanto sendo cultivados e novos procuram agora implantar, com uma sofisticação nunca antes vista e até uma porçãozinha de filosofia de trazer por casa.

Na verdade, já vão cansando os jogos de poder que penalizam as sociedades insulares, fazendo sempre depender a resolução de determinados assuntos regionais das estratégias e dos calendários partidários definidos em Lisboa.

Funchal Notícias. 5 Junho 2018

O contencioso da autonomia e a passadeira rosa

O subsídio social de mobilidade, em vigor desde Setembro de 2015, tem suscitado várias críticas e abundantes promessas de revisão, com negociações que parecem intermináveis.

Justificado pelo princípio constitucional da continuidade territorial e, em grande parte, decorrente da liberalização dos preços das tarifas aéreas, o actual sistema é criticado, principalmente, por:

  1. exigir o pagamento integral no acto de compra (“adiantamento” por parte do passageiro) e impor o reembolso posterior (60 ou 90 dias);
  2. determinar um tecto máximo (custo elegível igual ou inferior a 400 euros);
  3. estabelecer uma única entidade prestadora do serviço de pagamento do subsídio social de mobilidade (CTT), com demasiada burocracia e, pela natureza da instituição, demora no atendimento.
  4. desencadear a inflação dos preços dos bilhetes (entre 2014 e 2016, cresceu o preço médio por bilhete de 148 para 262 euros, tendo também aumentado o número de passageiros de 120 mil para 148 mil) com pesados encargos para o Estado (33 milhões de euros em 2017 para a RAM, contra 24,8 milhões no ano anterior).

De acordo com António Costa, «esta modalidade implicou um aumento superior a 400% naquilo que o Estado paga, quando só há um aumento de 40% das deslocações por parte dos residentes na Madeira.» Para o Primeiro-Ministro, «este resultado, absolutamente desproporcionado, não beneficia os residentes na Madeira e é altamente prejudicial para todos os contribuintes nacionais.» (Telejornal RTP-Madeira, 21-05-2018). Pode-se, assim, deduzir que o modelo vigente de subsídio social de mobilidade é incomportável e muito favorece as companhias aéreas, que se estão financiando à custa da insularidade e do dinheiro público.

Enquanto se aguarda a alteração do Decreto-Lei n.º 134/2015, de 24 de Julho, que, aliás, já mereceu uma proposta da Assembleia Legislativa da Madeira (Resolução n.º 13/2017/M), vejamos o que os nossos vizinhos das Canárias conseguiram alcançar neste domínio, pelo acordo assinado no passado dia 19 de Maio, entre o presidente do Governo, Mariano Rajoy, e Román Rodriguez, líder da Nueva Canaria, para o apoio nacionalista aos ‘Presupuestos Generales del Estado’.

Depois da aprovação final dos ‘Presupuestos Generales’, que deverá ocorrer no próximo mês de Junho, a subvenção, destinada aos residentes canários para as viagens aéreas ou marítimas, das ilhas ao território nacional, passa de 50% para 75%. A título de exemplo, atente-se: com os preços actuais, uma viagem para Madrid (só ida) custaria, em Julho, 65,40 euros para um residente nas ilhas Canárias. Com o novo acordo, passará a custar metade, 32,70 euros. Mas, para além dos 75% nas tarifas, há ainda descontos para as famílias numerosas, o que incentiva também o gosto de viajar, com extraordinário proveito para o turismo.

Perante esta nova realidade, viajar de avião de Tenerife para Madrid será muito mais barato do que ir de táxi de Santa Cruz de Tenerife ao aeroporto Reina Sofia.

O Governo Central compromete-se igualmente a pagar a totalidade do custo de transporte de mercadorias entre as diversas ilhas daquele arquipélago e com a Península, tornando os produtos canários mais competitivos, porque entram no mercado em igualdade de circunstâncias com os demais do território nacional.

Em suma: a negociação política para a aprovação dos ‘Presupuestos Generales’ possibilitou novos direitos para as Canárias no domínio da mobilidade. Comparativamente, a Região Autónoma da Madeira está, neste âmbito, muito distante da realidade do arquipélago vizinho.

Uma visão estratégica em termos de Macaronésia contribuiria, por certo, para diferente panorama, principalmente no diálogo com as instâncias europeias acerca desta matéria.

Provavelmente, quando o voto dos nossos deputados se revelar determinante na aprovação do Programa de Governo ou no Orçamento do Estado, as negociações com a Região irão trazer importantes benefícios para os madeirenses e porto-santenses.

Entretanto, andamos ao sabor dos humores do Terreiro do Paço, visceralmente afectado pelo centralismo e sempre desconfiado das Regiões Autónomas, com a agravante do Governo Regional, ainda traumatizado com o modelo disforme que ajudou a parir – «trapalhada política», segundo Miguel de Sousa (DN, 31-03-2018) – e durante muito tempo o defendeu com unhas e dentes, nada parecer conseguir na revisão deste modelo, numa acanhada e, porventura, inábil negociação, apesar de muitas vezes ter sido afirmada, por ambas as partes, a necessidade de encontrar uma solução conjunta.

 

Bibliografia:

BERENGUER, Márcio – Apoio do Estado para viagens entre continente e ilhas triplicou no último ano. Público. Lisboa. (30 Maio 2017). Consultado em 22-05-2018: https://www.publico.pt/2017/05/30/economia/noticia/apoio-do-estado-para-viagens-entre-continente-e-ilhas-triplicou-no-ultimo-ano-1773034

CARDOSO, Francisco José – O estado quer dar 15 milhões à Madeira para a mobilidade. Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 593 (31 Março 2018) 4-5.

EUROPA PRESS – El presidente del Gobierno y Román Rodríguez, líder de Nueva Canarias, rubrican en la capital grancanaria el acuerdo para el apoyo nacionalista a las cuestas para 2018. Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 713 (20 mayo 2018) 6-7.

FRESNO, María; GRILLO, Moisés – Transporte: Acuerdo Historico para Canarias: Nueva Canarias consigue un “logro historico” para el Archipiélago al incluir en el REF la bonificación al transporte aéreo y marítimo del 75%, que comienza en verano. Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 709 (16 mayo 2018) 3.

GRILLO, Moisés; FRESNO, María – Transporte: Acuerdo Historico para Canarias: El acuerdo incluye una demanda historica de los sectores de la industria y la agricultura… Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 709 (16 mayo 2018) 4-5.

SOUSA, Miguel de – Subsídio de mobilidade… quo vadis? Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 593 (31 Março 2018) 29.

Funchal Notícias. 23 Maio 2018

Mobilidade: o exemplo das Canárias

Os últimos dias foram pródigos na baixa política. Isto, num tempo, em que a abstenção atinge elevadas percentagens e, por conseguinte, importa concentrar esforços no sentido da credibilização da actividade política.

Há que entender que as redes sociais e o acesso fácil à informação possibilitam, quase a quente, reacções com implicações nos actos de cidadania, em particular, nas eleições. Muitos cidadãos já não precisam de comícios, reuniões ou panfletos para formarem a sua opinião. Vão lendo, aqui e acolá, e tirando as suas conclusões. É o livre-arbítrio a agir. Importa, por isso, seriedade e coerência no cenário político.

Vai o presidente da Câmara do Funchal à capital conversar com o Primeiro-Ministro, anunciando na imprensa que esse encontro será decisivo para a resolução dos problemas da Região. Que os dois conversem como amigos, nada temos a ver com isso. Agora que o edil funchalense se apresente como o porta-voz da RAM, alto lá e pare o baile. O tempo dos procuradores da Câmara do Funchal na Corte terminou há muito. Isso acontecia no Antigo Regime.

Contudo, o prometido soco na mesa, como se assim se resolvessem assuntos sérios, resultou em nada de novo.

Desde o trágico acidente do Monte, no passado Verão, o percurso do presidente da Câmara do Funchal tem sido marcado por intervenções menos felizes, provavelmente pela má influência dos que o aconselham na política. Precisa de ouvir gente mais ajuizada e com consciência autonómica. A continuar neste rumo, poderá desbaratar todo o crédito, que acalentou como alternativa ao poder instituído.

Para acentuar o descrédito, viemos a saber, através do Expresso, que alguns deputados insulares na Assembleia da República receberam reembolsos de viagens, que não foram custeadas com verbas do seu bolso. Logo, uma aberração moral e ética. Quatro deputados da Madeira admitiram a prática do reembolso. Uma deputada afirmou nunca ter recebido. A outra remeteu-se ao silêncio, pensando assim passar imaculada no meio do burburinho, esquecendo que o povo diz que «quem cala, consente». Faltou ainda saber se a deputada que, por determinado período, substituiu Carlos Pereira também tratou dos indevidos reembolsos numa qualquer estação dos CTT.

Perante tão grave denúncia, esperava-se que os deputados explicassem a sua conduta ou pedissem desculpa do seu comportamento imoral. Mas não! Remeteram-se ao silêncio, interrompido por um ou outro comentário de virgem ofendida, na cronologia de amigos e apaniguados no Facebook.

Urge credibilizar a política, para bem de todos nós.

Funchal Notícias. 15 Abril 2018

A credibilização da política e das instituições. Assim, não

O grude

Meu avô era marceneiro. Um bom marceneiro, ouvi dizer. Não o encontrei. Morreu antes de eu ter nascido. Mas conheci móveis por ele construídos. Brinquei com ferramentas e objectos do seu ofício.

Havia um tacho com asa, creio que de cobre, onde, no fundo, persistia espessa camada de uma matéria glutinosa bem escura. Meu pai explicou-me que era o tacho do grude, a cola para as peças de madeira, que seu pai utilizava no dia-a-dia.

Mais tarde, aprendi com o Dicionário de Francisco Solano Constâncio que o grude se fazia com couro, ossos e bucho de quadrúpedes. Estranha fórmula. Contudo, bem resistente.

Hoje já não se usa essa cola feita com gelatina de matérias animais para unir peças de madeira em armários, mesas ou cadeiras.

No entanto, o grude não desapareceu. Metamorfoseou-se. Fez parceria com o mobbing.

Já não une pés ou braços ao assento ou ao espaldar da cadeira. O grude está agora nalgumas cadeiras. Fixa traseiros ao assento.

Em palavras simples: há pessoas em cargos políticos, sindicatos, clubes, associações, escolas e universidades que se agarram aos lugares e tudo fazem para neles permanecerem, criando uma espécie de barricada para firmarem o seu pretenso poder durante muitos anos.

Formam clientelas, arrogam-se de donos de vontades alheias, exigem, pela calada, temerosas fidelidades, argumentam com competências que fora da sua barricada ninguém lhes reconhece, avançam altivos a exigir que os subordinados não os apunhalem pelas costas, alimentam a bajulice e a bisbilhotice, exigem informações sobre os movimentos dos opositores, eu sei lá o que essa gente faz, por via do grude, no reino da carneirada.

O grude já não agarra somente o traseiro. Tornou-se uma espécie de alucinogénio. Tudo em nome do poder. E fazem-se carreiras assim. E destroem-se carreiras assim. E precipitam para o suicídio assim. Mas nada lhes acontece. Nem a consciência lhes pesa. Não a possuem.

A fornecer-lhes grude anda em azáfama um bando de serventes, de cima e de baixo. Para os de baixo, que Deus deles tenha compaixão, como dizia uma bondosa mulher, minha conhecida. Para os de cima, aprendi com velha vizinha que o diabo sempre ajuda os seus.

O grude não pode faltar. Quando a poção parece diminuir, mandam, apressadamente, vir de fora, em mão.

O grude derrama-se e aferra. O que estava na cadeira já não pode mais ali permanecer. Então pega no tacho do grude e desata a construir um pau-mandado, que fará o jogo da velha sombra, enquanto esta se mexer e dele precisar.

Nada disto me surpreende. É a perversão da democracia. O corporativismo salazarista que perdura nas instituições.

* Mobbing – qualquer comportamento abusivo (atitude, gesto, palavra) que atente, por acção ou omissão, contra a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego e prejudicando o clima de trabalho. (Infopédia: Dicionários Porto Editora)

Funchal Notícias. 11 Abril 2018

O grude

1. Na semana passada, as escavações na Rua do Bom Jesus puseram a descoberto vestígios de antigas construções, o que não surpreende, por tratar-se de uma zona antiga da ocupação humana do Funchal. Verdadeiramente surpreendente é o facto de se continuar a intervir no casco urbano e, no caso concreto, na área de protecção de um edifício classificado sem acompanhamento arqueológico e em desrespeito da lei em vigor.

Rua do Bom Jesus, Funchal. Abril 2018. Foto: Funchal Notícias

Mas ainda mais surpreendente é a falta de atenção prestada ao estado do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, apesar de vários alertas na opinião pública (veja-se, por exemplo, o artigo de Rosário Martins no Funchal Notícias, em 13 de Março de 2017). Bem a propósito, escreveu José de Sainz-Trueva no passado dia 5, no Facebook: «Independentemente desta questão concreta, fundamental mesmo é procurar a recuperação do Recolhimento e Igreja do Bom Jesus. Este monumento encontra-se num lastimável estado de degradação e abandono. Uma vergonha para todos os madeirenses e para todas as entidades com responsabilidade na área da defesa do nosso Património Cultural. Aconselho a quem por ali passar, parar cinco minutos e observar a lamentável decadência do imóvel.»

Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, Funchal. Foto: Funchal Notícias.

A verdadeira questão é, sem dúvida, a necessária e urgente intervenção no Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, onde é bem patente a ameaça de ruína de algumas das suas estruturas.

Fundado em meados do século XVII por Simão Gonçalves Cidrão, arcediago da Sé do Funchal, o recolhimento destinava-se a mulheres e moças pobres, desamparadas e em risco. Tinha capacidade para 30 recolhidas. Regia-se pelo Instituto das Terceiras. Nossa Senhora do Monte do Carmo era a padroeira do Recolhimento. Funcionou como Recolhimento até ao século XX.

Conjuntamente com o projecto de restauro deste imóvel, revela-se pertinente o apuramento do direito de propriedade do mesmo, tarefa que os serviços competentes do Governo Regional deveriam levar a cabo.

2. Em artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias (Funchal, 4 de Abril de 2018, p. 26), o Senhor Presidente da Câmara do Funchal afirmou:

«O Funchal foi o primeiro município da RAM a criar uma ARU [Área de Reabilitação Urbana], associada a um programa de amplos apoios e incentivos fiscais, denominado “Cidade ComVida”, que, a caminho dos quatro anos de vigência, possibilitou que 100 edifícios beneficiassem destas medidas. Os edifícios recuperados são, hoje em dia, uma realidade que se comprova facilmente ao circular nas ruas mais antigas da cidade, fruto do extensivo trabalho da CMF, que criou as condições para que a Reabilitação Urbana prosperasse através do investimento privado.»

Passeando pelo Funchal, constato tanta ruína, pelo que, sem, por agora, querer pôr em causa o citado número de edifícios reabilitados, interrogo-me se não seria útil a Câmara mandar publicar a lista dos tais 100 imóveis, para os munícipes ficarem devidamente esclarecidos. Da minha parte, deixo aqui antecipados agradecimentos por esse serviço público.

3. Visitei a Igreja Paroquial da Fajã da Ovelha na semana passada. O edifício apresenta-se bastante degradado. As muitas infiltrações causaram avultados prejuízos no acervo artístico.

O restauro da capela-mor avança com os parcos recursos disponíveis. Os paroquianos, desde 2012, empenham-se na consecução da obra de restauro da Igreja de São João Baptista, promovendo a angariação de verbas.

Segundo o Censos de 2011, residiam 895 pessoas na freguesia, isto é menos de um terço dos habitantes de 1911, o melhor ano em termos demográficos.

A divisão da freguesia em duas paróquias, o despovoamento, o envelhecimento da população, os seus fracos recursos económicos e o diminuto número de fiéis exigem um apoio especial a esta importante obra.

Funchal Notícias. 8 Abril 2018

Três apontamentos sobre Património

Quinta-feira de Endoenças – assim era antigamente denominada a quinta-feira da Semana Santa ou da Paixão, também conhecida por Quinta-feira Maior, primeiro dia do Tríduo Pascal e celebração assinalada do calendário católico em memória da Última Ceia. A palavra endoenças, de raiz latina, pretende, neste contexto, significar um dia de bondade, moderação ou complacência. Nos séculos XVII e XVIII, a Misericórdia do Funchal organizou, nesta cidade, a famosa Procissão das Endoenças. Pelo compromisso da Irmandade funchalense, aprovado por Filipe IV em 22 de Março de 1631, ficamos a conhecer os seus objectivos, composição e organização.

Pretendia-se, em primeiro lugar, a realização de um acto de penitência e de visita a algumas igrejas e sepulcros, onde se procedia à adoração do Santíssimo Sacramento. Constituía obrigação estatutária dos irmãos a presença nesta procissão, que saía da Capela da Misericórdia pelas quatro horas da tarde da Quinta-feira de Endoenças e prolongava-se até à noite. Afirmava-se ainda que esta procissão poderia contribuir para a conversão dos estrangeiros não católicos que se encontravam no Funchal.

A procissão abria com a bandeira da Irmandade, rodeada de seis tocheiros e quatro lanternas, um homem vestido de azul tocando a tabuleta e dois clérigos cantando a ladainha. Seguiam-se as onze bandeiras das insígnias, ladeadas por tocheiros. Atrás da última bandeira, ia a imagem de Cristo em tamanho natural, debaixo de um pálio de oito varas e de veludo negro, acompanhada de vinte e quatro tochas, igual número de lanternas e a mesma quantidade de tocheiros, capelães e demais padres. Logo depois figurava o provedor da Misericórdia, homem nobre e de prestígio no concelho. Entre a primeira e a última bandeira, em filas laterais, colocavam-se todos quantos pretendiam integrar o cortejo, fornecendo-lhes a Irmandade a respectiva cera. Os irmãos sem tarefas especiais na procissão, deviam também participar com as suas vestes e círios, mas sem se misturarem com os demais.

A Misericórdia providenciava ainda alguns mantimentos e vinho para os penitentes, distribuídos durante a procissão. Pela cidade, fazia também acender alguns fogaréus a fim de iluminar o longo trajecto do cortejo processional, que constituía momento grande dos rituais da Paixão, no Funchal.

Na Quinta-feira de Endoenças, levantavam-se, em quase todas as igrejas,  armações ou tabernáculos nos altares secundários ou capelas laterais, para deposição do Santíssimo Sacramento e, por vezes, recriação do cenário da Última Ceia. Improvisavam-se igualmente sepulcros. Para a Sé do Funchal foi construído, nos meados do século XVII, por iniciativa da Confraria do Santíssimo Sacramento, um artístico camarim com uma Ceia do Senhor da autoria do imaginário Manuel Pereira, hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Judas Iscariotes e outro apóstolo. Esculturas da Última Ceia do antigo Camarim da Sé do Funchal. Oficina de Manuel Pereira. Século XVII. Museu de Arte Sacra do Funchal.

Na visitação de 1638 à freguesia de Ponta Delgada, o cónego Francisco de Aguiar recomendou que a adoração do Santíssimo se fizesse sem conversas nem outras perturbações, e que os fiéis não dormissem «debaixo do sepulcro». De facto, já na quinta-feira se armava o «santo sepulcro», onde, no dia seguinte, depois da adoração da Cruz, seria depositado o crucifixo ou o corpo retirado da cruz, envolto num lençol branco. Estas encenações, bem como as respeitantes à Ressurreição, constituíam os denominados «Mistérios» da Páscoa.

De registar, por fim, as flagelações com açoites que ocorriam no interior de algumas igrejas madeirenses, durante as cerimónias litúrgicas da Quinta-feira de Endoenças.

Na freguesia de Ponta Delgada, o visitador proibiu, em finais de Julho de 1631, que os disciplinantes se açoitassem na zona do templo reservada às mulheres, pois o sangue atingia-as. Poderiam, no entanto, fazê-lo «abaixo delas», desde que não virassem as costas ao altar.

Sem o aparato e a solenidade de outrora, as procissões da Quinta e Sexta-feira da Paixão, os camarins e a tradição da adoração continuam nos nossos dias. Contudo, o rito dos açoitamentos, muito comum no século XVII, (felizmente) desapareceu por completo na nossa ilha, apesar de se verificar ainda nalguns países fora do continente europeu, em especial nas Filipinas.

Veríssimo, Nelson – «A Quinta-Feira de Endoenças no século XVII». Diário de Notícias. Funchal. (28 Março 1999).