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Na falésia sobranceira à margem direita da Ribeira do Porto Novo, mal se distingue o antigo forte. Votado ao abandono, ainda lá se encontra a vigiar o mar e o vale. A vista, que dali se desfruta sobre o Atlântico, é magnífica. Já o que se observa no vale é desolador, diria mesmo horroroso em termos paisagísticos.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Sobre o estado desta antiga edificação militar, já o Funchal Notícias publicou em 14 de Junho de 2015 um artigo de Emanuel Silva. Como é habitual nestes casos de denúncia pública, fingiram que não leram, continuaram a não se importar e nada fizeram. Hoje escrevo sobre o forte, exactamente, pelos mesmos motivos de há cinco anos: o seu abandono e a falta de sensibilidade para, no mínimo, limpar, requalificar e enquadrar este imóvel nos miradouros de Santa Cruz.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

Na verdade, todas as edificações militares alienadas em favor da Região Autónoma têm sido pouco valorizadas como Património Cultural. O Fortim da Ribeira Brava, transformado em posto de informação turística, apresenta um aspecto pindérico e desmotivador. A Fortaleza de São Tiago é, praticamente, um restaurante, depois da saída do Museu de Arte Contemporânea e apesar do previsto Museu de Arqueologia da Madeira. Entregue à restauração está também o Forte de Nossa Senhora da Conceição ou do Ilhéu, completamente adulterado. Até um famoso guindaste que ali existia, tantas vezes desenhado ou fotografado, foi furtado, ou, como agora se diz, transportado para outro lugar (desconhecido, esclareça-se!). A Fortaleza do Pico ou de São João, depois de transferida para a Região Autónoma da Madeira, esteve cerca de três anos abandonada e à mercê de actos de vandalismo. Depois de requalificada e recuperada, abriu ao público em Junho de 2018. É, essencialmente, uma cafetaria com vista privilegiada sobre o Funchal.

Não conheço o projecto, noticiado recentemente, para o Forte de São José, à entrada do molhe, o Principado da Pontinha de Renato Barros, que agitou as águas do período final do jardinismo. Mas nada do que veio a público sobre o planeado restaurante com esplanada, dos investidores luso-venezuelanos, augura intervenção adequada, em termos de salvaguarda do Património Histórico.

Perante tão elucidativas evidências, não foi com surpresa que, numa tarde deste mês, visitei e fotografei o arruinado Forte do Porto Novo, quase vinte anos depois de lá ter estado.

Trata-se de mais um exemplo do desinteresse, da incúria e da falta de visão dos nossos governantes. Um sítio com história localizado num caminho bastante inclinado e com o piso maltratado, sem saída para o trânsito automóvel, com passagem pedonal, estreita e com degraus, para a antiga estrada, que serve uma urbanização relativamente recente. Um forte oitocentista desprezado, que acumula lixo e vegetação infestante, de onde se avista a soberba imensidão do mar.

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro 2020

O Forte do Porto Novo foi construído no início do século XIX e veio complementar a defesa deste lugar, onde se podia entrar, sem dificuldades, pelo litoral e chegar facilmente ao Funchal, então em pouco mais de duas horas de jornada pela estrada. Nessa época, como de resto já no século XVI, o Porto Novo era considerado lugar estratégico para a segurança dos madeirenses, em especial, da cidade. Junto ao calhau existia o reduto de São Marcos, construído no século XVIII.

O governador e capitão-general da Madeira tratou de guarnecer o Forte do Porto Novo, para oferecer resistência às forças absolutistas que, em 1828, se deslocaram para a ilha, a fim de subjugar os liberais, empenhados na oposição ao rei D. Miguel, usurpador da Coroa de Portugal. Apesar, de início, as forças do Porto Novo terem obstado uma tentativa de desembarque ali, a resistência à expedição miguelista fracassará alguns dias depois.

Após o desembarque em Machico, quando, por terra e mar, se movimentavam os militares miguelistas com destino ao Funchal, as defesas do Porto Novo foram atacadas, tendo muitos soldados debandado. A explosão do paiol, por um tiro de canhão da esquadra miguelista, e a impreparação militar contribuíram para o insucesso dos liberais na denominada Batalha das Voltas do Porto Novo.

A explosão danificou o forte, tendo vindo a ser reconstruído no início dos anos 30 do século XIX. Até hoje vai resistindo, sem que autoridade alguma se interesse na sua reabilitação ou, pelo menos, na limpeza daquele sítio com História.

Funchal Notícias. 28 Outubro 2020

Numa tentativa de dar aplicação a uma, no mínimo, surpreendente e insólita interpretação, recentemente divulgada, a propósito de declarações falsas num currículo, que, pasme-se, constituem procedimento de somenos importância, não considerado crime, e a pedido de quem prepara candidaturas para concursos da carreira docente, elaborei breve guia de conselhos úteis, como se se tratasse de receita culinária, desvendando logo, e contra a tradição, o segredo do pitéu, indicando depois ingredientes e o modo de fazer, para finalmente mencionar a degustação no banquete. 

Segredo:

Ponha a máxima atenção na escrita do seu nome, copiando-o devagar e fielmente do Cartão do Cidadão. O mesmo procedimento deverá ter para com a filiação e a data de nascimento. Procure o recibo da electricidade e copie o endereço da sua residência. De seguida, consulte o recibo do vencimento e escreva a profissão, a categoria e o local de trabalho. Registe o endereço de correio electrónico, com este aberto, e o número do telemóvel, depois de o ligar. Nestes itens, não pode falhar. Deve mesmo ler várias vezes, para verificar se tudo é verdadeiro.

Ingredientes:

Para a confecção do currículo, utilize produtos de elevada qualidade. Aqui não conta a veracidade dos factos. Permaneça tranquilo e relaxado, para que o devaneio flua livremente. Há que aprimorar. Adicione, com frequência, abundante delírio. Boas pitadas fazem crescer laços e abraços.

Escolha uma das melhores universidades mundiais para o seu título académico. Não seja modesto na classificação a indicar. Oxford, Stanford, Harvard, MIT, München, Heidelberg, Aachen, Konstanz, Université PSL (Paris Sciences & Lettres) ou a Sorbonne são boas opções. Se não pretende privilegiar instituições estrangeiras, opte por Coimbra, Lisboa ou o Porto. Aquela sua universidade, onde fez mestrado, doutoramento e agregação no meio do Atlântico, não é para si.

Quanto à docência, orientações de mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos e conferências, dê asas à sua imaginação. Mas voe alto e para longe. Não se coíba de mencionar regências, seminários e aulas até nos anos em que, por acaso, não esteve ao serviço. Não deixe também de furtar regências e leccionação de alguns colegas, delas se servindo como suas, de facto. Eles depois confirmarão ter sido erro informático.

Pode sempre dizer que publicou em revistas indexadas, mesmo que o tenha feito somente na da paróquia. Fale ainda dos livros que tenciona publicar, mas como se já estivessem editados.

Relativamente a congressos ou colóquios, considere-se da Comissão Organizadora ou da Comissão Científica de qualquer um, mesmo daqueles em que o seu nome não figurou nos documentos oficiais distribuídos aos participantes, em especial livros de resumos das comunicações ou de actas.

Para prémios, tudo vale, com excepção do Nobel, pois este é largamente difundido em cerimónia pública. Seja ambicioso. Recomendo o Pulitzer ou o Man Booker. Tenha em atenção com os Grammy Awards, BAFTA Awards ou do Festival de Cannes. Podem não ser da sua especialidade.

No que diz respeito a patentes, não aponte coisas de pouco ou nenhum valor. Sirva-se de um reputado registo internacional e copie um número qualquer. Confie. Ninguém irá verificar.

Convém exercitar permanentemente a criatividade. Escreva o que realizou e o que ainda não fez, pois o que já está, na sua cabeça, é fruta pronta a servir, mesmo sem aquelas fases da necessária maturação. Atrás da mentira, mentira vem. (Provérbio popular). Proceda exactamente como noutras ocasiões da sua vida. Um cálice de brandy Constantino, o da fama que vem de longe, inspira o seu retorno ao passado. O sucesso carrega coerências dessa natureza.

Leia tudo umas quatro vezes. Se, entretanto, lhe ocorrer mais uma fantasia, não tenha pudor em acrescentar. Polvilhe tudo com um pouco de Ética, cultivada num jardim sombrio e empestado. Sempre atenua amargos de boca. Interiorize tudo ser verdade. A mente fará o resto. Os seus amigos constantemente dirão como a mulher de Pantaleão, personagem criada por Chico Anysio, que, após cada mentira espalhafatosa, perguntava: «– É mentira, Terta?» e ela sempre lhe respondia «– Verdade!». Tudo aparece encoberto no reino da vaidade e da indigência cultural.

Modo de fazer:

Aqui não há mistérios nem canseiras. Tudo já foi disposto de forma convincente. O conluio há muito foi preparado. É só uma questão de tempo em forno vigiado.

Banquete:

No banquete, as sumidades convidadas, com uma folha de cálculo à mão, não têm paciência nem tempo para apreciar ou verificar, com rigor, currículos. Um braço comprido já lhes apontou o melhor, qual o que devem saborear. Na sua indicação confiam, como sempre. Um dia também eles estenderão o seu braço, e a lei da corporação imperará. O contraditório traz dores de cabeça e muitas preocupações. É de evitar problemas com os iluminados, antes inimigos e agora ternos confrades.

Témis foi escorraçada e Astreu fugiu para o céu. A Justiça jamais habita no Casarão. Nem no esconso de velho armário.

Resultado:

O preparado e esperado.

Conclusão:

Quanto à identidade e estado, pela infalibilidade do processo de fabrico, jamais poderá haver declarações falsas.

As restantes mentiras enquadram-se dentro dos factos relevantes de outra qualidade, que a lei atribui efeitos jurídicos, próprios ou alheios. Mas ninguém quer saber disso. Mentir num currículo não faz parte do conceito de ‘declarar falsamente’ – dizem. Nesta engenhosa premissa, reside a inovação bombástica, a porta do futuro, o cerne deste guia, a esperança da juventude desempregada e dos professores que patinam há anos na mesma categoria.

Como diz o povo, são mentiras para arremedeio da nossa vida. Logo, não haverá problemas, mesmo quando premeditadas. Fique descansado quanto àquele documento que o obrigam a assinar na admissão ao concurso, no qual declara serem verdadeiros os elementos e factos constantes da sua candidatura, tendo pleno conhecimento de que a prestação de falsas declarações implicará a exclusão do concurso, porque, se a conveniência assim o exigir, será completamente esquecido, impiedosamente queimado ou levará sumiço. Ninguém se lembrará de que se trata de contra-ordenação muito grave.

Candidatos, dai largas à imaginação e, no vosso currículo, menti com quantos dentes tendes na boca. Arrogai-vos sempre de experiências que não tendes. A mentira corre mais que a verdade. (Provérbio popular).

Apelo (in)útil:

Tomai em atenção o provérbio popular: Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

Parafraseando os últimos versos do soneto «Já Bocage não sou!»: Oh se me creste gente ímpia / Rasga estes conselhos, crê na honestidade.

P. S. O meu currículo está online desde 2007, tendo vindo a ser actualizado com frequência. Quem nada tem a esconder, publica-o com livre acesso. O meu está aqui:

https://passosnacalcada.wordpress.com/curriculo-2/

Funchal Notícias. 21 Outubro 2020

Sempre a conheci em ruínas. Sempre a imaginei grandiosa.

Com o tempo, novas pedras se deslocam, desabam paredes e o matagal cerca-a.

Casa do Agrela. Caniço, Santa Cruz, Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Tem resistido a sismos e tempestades. Parece milagre a sua longevidade. De pé há-de cair

Propriedade privada. Delimitada. Mal-amada. Assemelha-se a doente terminal e rico, observado por herdeiros ávidos e impacientes. Quando tudo desmoronar, mais fácil e rendível será o investimento imobiliário. O poder regional e autárquico descarta-se da memória e do património cultural.

Quem passeia pelos Reis Magos, observa, com carinho, a altivez da casa arruinada. Faz parte da paisagem. Sempre esteve ali. Imagine-se: limpa do lixo e de matos e bem iluminada. Que beleza de sítio! “Não! Retorna à realidade: tem dono! Nada se pode fazer!” “Não é bem assim…” “Esquece. Não há interesse, nem dinheiro…!” “Nem para limpar? Nem vontade da Câmara para obrigar o proprietário a limpar o terreno! Gestão de combustível é assunto ignorado por estas bandas?” “Ninguém quer saber de ruínas.” “Ninguém, quem?” “Eu, eu gosto destas ruínas. Há anos que as admiro.”

Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020
Foto: © Nelson Veríssimo, Outubro, 2020

Ruínas! Ninguém assoma à janela. Não há uma luneta na torre. Não se ouve a música do salão. Não se sente o cheiro a tabaco. Não se ouvem gemidos nem o ranger das camas pela noite. Não há fogo na cozinha. Nem gritos de um tresloucado.

Pelos escombros inçam ratos e lagartixas. Vagueiam gatos atentos. Descansam pombos e gaivotas no cimo dos muros. Riem-se fantasmas adejantes, porque ninguém os escuta.

Ninguém se lembra de quem construiu esta casa nobre. No século XVIII, seria. Requintado gosto e dinheiro não faltariam, por certo, ao seu proprietário, que encomendou magníficas pedras de cantaria para portas e janelas. Da mesma época, não se conhece na ilha outra assim, tão majestosa. Ninguém a estudou ou procurou delinear a sua história.

A cartografia do século XIX identifica-a como a Casa do Agrela, ali bem próximo do Reduto de São Sebastião ou Fortim dos Reis Magos, também descaracterizado, maltratado e apoucado. Agrelas que se fixaram no Caniço de Baixo, junto ao mar, no início do século XVI, tendo Francisco de Agrela Ferreira sido nomeado capitão de ordenanças deste lugar em 1643.

Sítio com história do município de Santa Cruz a merecer cuidadosa intervenção.

Funchal Notícias. 14 Outubro 2020

Faleceu, no passado dia 17, o historiador e professor João José Abreu de Sousa.

Com excepção do Funchal Notícias, a sua morte foi praticamente ignorada pela comunicação social. Estava há anos impedido de participar do bulício do quotidiano – é certo. Mas deixou obra, e grande! Quem o leu? A mediocridade tem dificuldades em distinguir os verdadeiros valores. Mais depressa reconhece cores.

João José tinha plena consciência da efemeridade da vida e das coisas. Quando em Junho de 1995 lhe pedi um autógrafo no livro acabado de editar, História rural da Madeira: a colonia, escreveu em latim uma frase de Lucrécio: Iam fuerit, nec post, unquam revocare licebit (em breve, o nosso tempo não será e não o poderemos recordar).

João José Abreu de Sousa, 1937-2020. Foto: Arquivo de Família.

Era o decano dos historiadores madeirenses. Estudioso de várias matérias, a História foi a área disciplinar da sua formação e da sua predilecção.

Não cultivou o mediatismo. Era presença rara e discreta em conferências, apresentações de livros, exposições ou outros eventos culturais. Habitualmente não frequentava colóquios ou congressos. Contudo, em 1986 participou no I Colóquio Internacional de História da Madeira com a comunicação «O Senhorio das Ilhas Desertas». Reservava as conversas para os amigos. Com estes, muitas vezes falava mais do que ouvia, mas a sua voz era escutada com gosto.

O seu labor historiográfico manifesta-se em vários livros e artigos em publicações periódicas. Historiador que privilegiava as fontes documentais, à sua leitura e interpretação dedicou grande parte da sua vida. Abriu caminhos inovadores em campos nunca trabalhados na História da Madeira, como, por exemplo, o porto do Funchal e o hinterland ou a faceta empresarial, no domínio da agro-pecuária, do Convento de Santa Clara. Deixou-nos numerosas transcrições de fontes primárias nas monografias publicadas, para comprovar as suas conclusões e simultaneamente possibilitar outras e renovadas leituras.

Em muitos estudos, Abreu de Sousa preocupou-se em entender a apropriação do espaço, a relação do madeirense com a propriedade fundiária, a acumulação de riquezas e as relações sociais que o sistema económico suscitava, em especial a colonia, tema que, no seu entender, «mais do que ser julgado deve ser compreendido». Se é certo que na documentação histórica colhia os elementos mais consistentes para as suas análises, também é verdade que não menosprezava o trabalho de campo, anotando metodicamente o que ouvia e observava.

Na sua formação como historiador, denota-se a influência de Virgínia Rau (1907-1973), sua professora. Nutria particular admiração pela sua obra.

O seu contributo para a História da Madeira é amplamente reconhecido pelos historiadores. A Região deveria também estar-lhe grata por tantos anos de trabalho em prol do conhecimento do arquipélago e da construção e afirmação da identidade cultural insular.

Natural da freguesia de São Pedro do concelho do Funchal, nasceu em 6 de Abril de 1937, sendo filho de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de Abreu e Sousa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1999, sendo já um reconhecido e probo investigador, defendeu a sua dissertação de mestrado em História na Universidade da Madeira, intitulada A Revolução Liberal na Madeira. Foi a primeira prova de mestrado da nossa Universidade.

Exerceu a docência no Continente e nesta Região Autónoma, chegando a ser professor metodólogo no então denominado ciclo preparatório. Nos últimos anos da sua actividade profissional, foi professor da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal.

A morte é inexorável, mas a obra perdura.

Bibliografia:

Documentos da História e Geografia de Portugal. Lisboa, 1975.

O movimento do porto do Funchal e a conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: alguns aspectos. Funchal, 1989.

O Convento de Santa Clara do Funchal. Funchal, 1991.

História rural da Madeira: a colonia. Funchal, 1994.

História da freguesia de São Pedro. Funchal, 1999.

A baba de mar: romance. Funchal, 2002. Escrito sob o pseudónimo: José Lino.

A essência do Poder: a ‘De Re publica’ de Cícero: ensaio. Funchal, 2006.

Os capitães do Porto Santo: uma árvore de costados dos Perestrelos portugueses. Funchal, 2007.

O bolo de mel: ex-libris da doçaria madeirense. Funchal, 2008.

Colaborou nas publicações periódicas Das Artes e da História da Madeira (1966-1967), Atlântico (1985-1989), Islenha (1987-2007), Girão (1989-1993) e no Diário de Notícias do Funchal, na década de 80 do século passado.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2020

Em memória do historiador João José Abreu de Sousa

Ao passar pela Capela de São Paulo, não consigo ficar indiferente à ruína, ainda que a trepadeira infestante a vá ocultando e simultaneamente denunciando. De rajada, várias perguntas fustigam a minha mente:

O que pensará o Senhor Bispo, vizinho da Capela, vendo assim destroçada a casa do autor das epístolas que sustentam o Cristianismo? Templo inicialmente dedicado a São Pedro e primeira sede da freguesia funchalense com o nome deste apóstolo, está encerrado desde 2014.

Tratando-se de um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, por que razão o Governo ainda nada fez?

Por falta de dinheiro? Não! Isso não pode ser verdade. Então se há dinheiro para esventrar a Laurissilva com uma estrada de milhões de euros, e outras extravagâncias pandémicas, não possui o Governo Regional uns milhares para recuperar a capela mandada edificar por João Gonçalves Zarco e o edifício adossado do lado nascente, onde funcionou o primeiro hospital da Madeira, como memória dos 600 anos do povoamento do Porto Santo e da Madeira?

Trata-se de obra não prevista no programa do Governo Regional? Não! Isso não é verdade. A recuperação da Capela de São Paulo é projecto inscrito no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira (PIDDAR) de 2019 (p. 403) e no de 2020 (p. 253). Tem programação financeira plurianual, 2019-2021, sendo o financiamento comunitário no valor de 330 774,00 euros. Qual foi a execução de 2019? E até hoje, qual foi a execução de 2020, quando para este ano está prevista uma verba de 159 496,00 euros? Segundo o vice-presidente do Governo, «quem não executar os projectos financiados pelos fundos comunitários pode vir a perder as verbas.» (JM, Funchal, 22-09-2020, p. 3)

Será que as reduzidas verbas para a Cultura são rapadas para outros investimentos de vulto, as denominadas grandes obras que dizem não poder parar? Ou, como dizia um antigo presidente de um município vizinho do Funchal, há verbas feitiças? Ele queria dizer fictícias, mas o termo não fazia parte do seu vocabulário. Contudo, o seu arcaísmo, motivo de troça por parte de alguns, inclusive companheiros do seu partido, não estava errado. Feitiça, no caso em apreço, qualifica a verba orçamentada como artifício, fingida ou simulada.

Mas, então, mesmo antes de 2019, o PSD já não se tinha comprometido com a recuperação da Capela de São Paulo? Claro que sim, e por diversas vezes. Em Abril de 1996, não foi anunciada a recuperação deste bem cultural? Sim, mas, por decisão política, nunca se iniciou a obra. Não foi Miguel Albuquerque, então presidente da Câmara Municipal do Funchal, quem afirmou que as pedras do imóvel histórico, destruído pela cota 40, haviam sido numeradas, prometendo a sua reconstrução integral (Diário de Notícias, Funchal, 4-04-1996, p. 5)?

E o CDS, actual parceiro da coligação governamental, através dos seus deputados, não dirigiu, em 3 de Setembro de 2015, um ofício, à secretária regional da Cultura, Turismo e Transportes, sobre o estado da Capela de São Paulo, solicitando uma intervenção urgente? Ficou por aí o seu interesse por este imóvel histórico ou o casamento de conveniência obriga-o a esquecer o assunto em nome da felicidade e da paz no lar?

Desde 1996 até hoje, nada! Muitos alertas de vários quadrantes surgiram entretanto na opinião pública. Todavia quem tinha o dever político de intervir ignorou-os ou justificou-se com a crónica falta de dinheiro ou a contenção financeira. E a ruína acentuou-se. Até quando?

Porque repetem as autoridades com responsabilidade na salvaguarda do Património Cultural visitas a empreitadas que decorrem com normalidade, espalhando depois notícias cozinhadas pelos assessores governamentais, e nunca se dignam passar pela Capela de São Paulo? Ali não há peste, nem lepra. Coronavírus, não sei.

O projecto de concepção da Sala do Tesouro da Igreja da Ponta do Sol é importante, a remodelação da Sala do Tesouro da matriz da Ribeira Brava também, mas a Capela de São Paulo, que história carrega para dela não se falar nem lançar a obra inscrita no PIDDAR?

Recorde-se, a propósito, que, para a Ponta do Sol, quanto ao Património Cultural, está inscrito no PIDDAR de 2020 um projecto de recuperação de fontanários e lavadouros. Já foi concluído?

Depois de tantas e inquietantes interrogações, reparo na casa onde nasceu Herberto Helder, ali ao lado da capela arruinada, e lembro-me de uns versos do poeta:

– Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,

as casas encontram seu inocente jeito de durar contra

a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

A colher na boca, Lisboa, 1961, p. 11

À cabeça, vieram-me também as palavras de Paulo:

Se nas línguas dos humanos e dos anjos eu falar, mas amor não tenho, bronze ecoante ou címbalo ruidoso me tornei.

I Cor 13,1

Voltei a escrever sobre a Capela de São Paulo, porque dói assistir à morte lenta da memória de um dos locais mais antigos do Funchal.

Funchal Notícias. 23 Setembro 2020

Capela de São Paulo: até à ruína total?

ROCHA, Luís – Dois docentes da UMa acusam Liliana Rodrigues de incluir dados falsos num currículo. Funchal Notícias. Funchal. (14 Set. 2020).

ROCHA, Luís – Reitor da UMa não comenta queixa em tribunal contra Liliana Rodrigues . Funchal Notícias. Funchal. (15 Set. 2020).

ROCHA, Luís – Caso Liliana Rodrigues: MP manda arquivar e diz que “a mentira, por si só, ainda não é criminalizada (…)”. Funchal Notícias. Funchal. (17 Out. 2020).

Dois docentes da UMa acusam Liliana Rodrigues de incluir dados falsos num currículo

Reitor da UMa não comenta queixa em tribunal contra Liliana Rodrigues

Caso Liliana Rodrigues: MP manda arquivar e diz que “a mentira, por si só, ainda não é criminalizada (…)”

SILVA, Agostinho – Mal-estar na Universidade com “cheiro” a eleição interna. JM. Funchal. III: 1873 (21 Out. 2020) 6.

NUNES, Pedro – Quem mente a UMa leva. JM. Funchal. III: 1877 (25 Out. 2020) 15.

https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/4348/Quem_mente_a_UMa_leva

ABREU, Paula – Há uma providência cautelar contra concursos de professores na UMa. JM. Funchal. III: 1880 (28 Out. 2020) 3.

PARA A HISTÓRIA: UM DOUTORAMENTO QUE GEROU POLÉMICA PÚBLICA

Tese de doutoramento:

A integração escolar dos alunos do ensino técnico-profissional nível III nas escolas públicas da RAM / Liliana Maria Gonçalves Rodrigues de Góis ; orient. Jesus Maria Sousa. Funchal : Liliana Maria Gonçalves Rodrigues Góis, 2008.

Notícias na imprensa:

ORNELAS, Sílvia – 71% sem ensino secundário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 056 (14 Jul. 2008) 8.

CAIRES, Marta – Contra-ataque da SREC diz que estudo é “infantil”: “Crianças do pré-escolar” fariam melhor análise aos números do Secundário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 057 (15 Jul. 2008) 2.

ORNELAS, Sílvia – Docente da UMa lamenta ligeireza da SREC: autora do estudo sobre o ensino secundário responde ao secretário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 058 (16 Jul. 2008) 2.

SOUSA, Jorge Freitas – PS e Bloco querem ouvir secretário e reitor. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 058 (16 Jul. 2008) 2.

CAIRES, Marta – Doutoramento não é para todos. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 059 (17 Jul. 2008) 8.

Para saber mais:

http://www02.madeira-edu.pt/Main/Pesquisar/tabid/84/ctl/ReadInformcao/mid/432/InformacaoId/186/UnidadeOrganicaId/1/Default.aspx?fbclid=IwAR1G7XVkRGeodcx5kSrrkh6r-KFt53Y2hzXC76RYEGb1ZGfNlZeCx3IgCBc

Todos os anos, devoção e diversão juntam-se no Monte, freguesia instituída em 7 de Novembro de 1564. No dia 15 de Agosto, a ilha honra a sua padroeira.

Actualmente, os milagres da Senhora do Monte pertencem à vida particular dos crentes. Agradecem-se êxitos e curas. Pagam-se promessas urdidas no silêncio das aflições. Todavia, no passado, Nossa Senhora do Monte participava dos confrontos quotidianos do madeirense. Governantes e governados suplicavam publicamente, à Senhora, a resolução de situações adversas. Solenemente, reconhecia-se a generosa intercessão da Milagrosa.

Por altura do saque dos franceses ao Funchal, em 1566, um corsário pretendeu destruir a escultura de madeira, em vulto, de Nossa Senhora do Monte, arremessando-a, por diversas vezes, contra os degraus da igreja. Contudo, conta Gaspar Frutuoso, quebrou-se a cantaria, mas a imagem manteve-se intacta. Na tradição oral, ficou o registo deste acontecimento:

         Os corsários hereges

         são diabos, homens não.

         Lá vem um por í arriba

         e lá se vai ao altar.

         Minha Senhora do Monte,

         de lá Vos vai arrancar

         e na pedra dos degraus 

         Vos joga para vos quebrar!

         Vossa Igreja tremeu

         desse tamanho pecado,

         os sinos dela dobraram,

         tocando desentoado,

         água benta secou, 

         apagou lume sagrado

         E Vós, Senhora do Monte,

         a rir no Céu, sem cuidado!

         Vossa Imagem inteira,

         O degrau esmigalhado.

No século XVII e provavelmente já antes, existiam duas imagens da Senhora do Monte: a Nossa Senhora «pequenina», no nicho da Fontinha, e a Nossa Senhora «em vulto», no altar da igreja da freguesia.

A milagrosa Senhora era frequentemente solicitada para acudir às necessidades dos madeirenses, sobretudo dos moradores da cidade. Por ocasião de falta de chuvas, fomes e epidemias, a municipalidade funchalense requeria uma das imagens miraculosas da Senhora e organizava procissões e deprecações. A Senhora do Monte percorria a cidade, para observar a realidade, que motivava as preces dos funchalenses, e aplacar a ira divina. Até ser alcançada misericórdia, prolongavam-se as rogativas e a imagem permanecia na Sé. Depois, conduziam-na em procissão até a sua «casa», no Monte.

Em 6 de Março de 1627, a imagem de Nossa Senhora do Monte foi trazida para a cidade, porque não chovia. Dias depois, choveu e nevou. No dia 27 desse mês, a imagem regressou solenemente ao seu lugar. Igualmente por falta de chuvas, andou a veneranda Nossa Senhora do Monte pelo Funchal em Março de 1676, Maio de 1678, Março de 1689, Abril de 1694, Maio de 1695, Maio de 1698 e Abril de 1699. Das duas primeiras vezes, sabemos ter descido à cidade a imagem da Fontinha. Como anteriormente, a Milagrosa correspondeu às rogativas e abriram-se as fontes do céu para regar searas e vinhedos.

Um surto de doenças levou o povo «a buscar o principal remédio em Nossa Senhora do Monte» no mês de Maio de 1686. Por ordem do bispo, foi então a sua imagem transferida para a Sé, onde se efectuou solene novena. Menos de um mês depois, a Senhora regressou à igreja do Monte, pois, desde que chegara à catedral, tinham-se acabado as enfermidades.

Atribuiu-se à mediação da Virgem do Monte a entrada, no porto do Funchal, de navios carregados de trigo, pelo ano de 1695, quando a ilha enfrentava uma crise de abastecimento de cereais.

A Câmara do Funchal, normalmente, assumia a iniciativa de trazer a imagem para a cidade e de organizar as deprecações. A Câmara não enjeitava as suas responsabilidades no culto da Senhora Milagrosa, nem tão-pouco deixava de corresponder às solicitações dos munícipes que, nos apuros, recorriam aos favores da Virgem. Já em 1489, a ermida de Nossa Senhora do Monte era administrada pela municipalidade. Verificando-se abusos na abertura do nicho da Senhora, tantas eram as solicitações da imagem, a vereação funchalense, em 28 de Novembro de 1676, acordou que uma das chaves estaria nas mãos do vereador mais velho, a segunda seria da responsabilidade do bispo e a terceira caberia ao vigário da freguesia

A ilha confrontou-se com outra grande carência de chuvas no ano de 1719. Nos campos, as culturas definhavam. Rezava-se para que chovesse. À Câmara, solicitaram a vinda da Senhora do Monte para a Sé. Mas entenderam as freguesias circunvizinhas primeiro se comprometerem com uma novena. Os paroquianos do Monte, Santa Luzia, São Gonçalo, São Martinho, São Roque, Santo António, São Pedro e Santa Maria do Calhau deslocaram-se à igreja do Monte em procissão de ladainhas e fizeram penitências e súplicas. Contudo, depois de oito peregrinações não choveu. O último dia da novena coube à Sé. O bispo, o cabido, o senado, a nobreza, clero, povo e as confrarias subiram até ao santuário mariano. Depois da missa e do sermão, retiraram a imagem da milagrosa Senhora do seu nicho e formaram a procissão que a haveria de conduzir até à Sé. Pararam no Mosteiro da Encarnação, para que as freiras venerassem a Senhora do Monte. Começou então a chover. Conta ainda Henriques de Noronha, que, mal estiou, a procissão se encaminhou para a catedral «com lágrimas de alegria e total confusão dos hereges».

Em Julho de 1735, verificavam-se muitas enfermidades na Madeira, tendo sido requerida a mediação da Senhora do Monte e de São Tiago Menor, padroeiro da cidade.

A Câmara do Funchal determinou trazer a Virgem para a capela do Santíssimo na catedral, pelos finais de 1740. Durante três noites se acenderiam luminárias e fogueiras no terreiro da Sé. Acordou ainda o senado que se disparassem três salvas de artilharia e as fortalezas da cidade se ornassem com luzes.

Em Abril de 1741, a municipalidade funchalense mandou rezar uma novena de preces para que, por intermédio da Senhora do Monte, se alcançasse o «remédio da fome».

Já na primeira metade do século XVIII, Nossa Senhora do Monte era chamada de padroeira pelos vereadores da Câmara do Funchal. No entanto, somente em 1803, na sequência da terrível aluvião de 9 de Outubro, se instituiu a festividade do Patrocínio da Senhora do Monte. Na verdade, a Câmara do Funchal promoveu em 16 desse fatídico mês, uma procissão pelas ruas da cidade «para que a mesma Senhora queira interceder com o seu amado Filho ao Senhor na presente calamidade». Dias depois, o bispo colocou a cidade sob a especial protecção da «Santíssima Virgem».

Nossa Senhora do Monte. Foto: © Nelson Veríssimo, 15 Agosto 2020

Os prodígios da Senhora do Monte ficaram também registados nos livros dos viajantes estrangeiros. Numa obra inglesa sobre a ilha da Madeira, editada em Londres por F. S. Hopkins no ano de 1819, refere-se um milagre da Senhora do Monte. Por altura da independência dos Estados Unidos da América, o abastecimento de cereais à Madeira foi dificultado devido à severa vigilância do Atlântico pelos navios ingleses. Como pairava a ameaça de fome, muitas súplicas e procissões se realizaram no Funchal, implorando-se o socorro da Milagrosa Senhora. Logo depois, surgiu um navio carregado de trigo. Na igreja do Monte, das vestes da imagem da padroeira escorriam gotas de água salgada. Os pescadores afirmaram então ter visto um vulto branco que ascendia do mar para as nuvens. Acreditou-se ter a Virgem providenciado o desejado carregamento de trigo.

Registou, igualmente, o autor desta obra, o costume tradicional dos homens do mar se deslocarem em peregrinação até ao Monte, para agradecerem o regresso em segurança à «Estrela do Mar». Conta ainda que, frequentemente, tripulações descalças subiam ao santuário, carregando as velas do navio, com o seu capitão na frente. Ao vigário da igreja entregavam uma contribuição, fixada por um avaliador ajuramentado, para as despesas do culto da Milagrosa.

Muitos outros exemplos se poderiam referir para demonstrar como, ao longo de séculos, os madeirenses tomaram a Senhora do Monte por sua advogada nas adversidades climáticas, na fome e na doença, transferindo frequentemente a imagem milagrosa para a Sé, com a inabalável certeza da sua assistência em ocasiões de infortúnio.

 

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 17 Agosto 1997

 

Não são muitas as especialidades da doçaria madeirense. A par com os bolos de mel, as queijadas sempre mereceram particular referência na pastelaria. Ficaram célebres as queijadas da Confeitaria Felisberta, da Mimo ou da antiga Penha d’Águia.

Hoje é difícil encontrar uma boa queijada no mercado regional. A industrialização do produto e a sua adulteração retiraram-lhe o sabor e também a forma tradicional. Agora até são congeladas e descongeladas conforme a procura.

É claro que ainda há dois ou três lugares onde se pode adquirir uma boa queijada. Boa, mas não a verdadeira! Infelizmente, na generalidade não se recomendam. As das máquinas de venda automática são de péssima qualidade. E é pena, porque um destino turístico também vive de produtos tradicionais, genuinamente preparados.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Julho 2020

Em 2019, no certame as Sete Maravilhas Doces de Portugal, as queijadas da Madeira foram amplamente divulgadas e elogiadas, apresentando-se as melhores que se produziam na ilha, as da pastelaria Miminho, sendo esta especialidade escolhida como representante da Região Autónoma da Madeira.

Provavelmente, a queijada tem origem conventual, como, de resto, muitos outros doces. Nos registos de despesas do Convento de Nossa Senhora da Encarnação, do Funchal, encontramos referências à aquisição de ingredientes para a confecção de queijadas, no século XVIII. Contudo, não se conhece a receita das monjas clarissas.

O que distingue uma boa de uma má queijada é a farinha que se acrescenta ao requeijão, no recheio.

Num episódio do programa da RTP-Madeira Esquina dos Doces, em Setembro de 2019, vi, com estupefacção, um pasteleiro misturar excessivas quantidades de farinha e açúcar com requeijão, na produção em massa de queijadas. Evidentemente, que o resultado não pode ser bom, mas, quem não conhece, come e não reclama. Contenta-se com o docinho. Outros, mais esclarecidos, não voltarão a gastar dinheiro com queijadas daquele tipo.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Agosto 2020

Antigamente, não se adicionava farinha ao requeijão. Entre outros, o Tratado Completo de Cozinha e de Copa, de Carlos Bento da Maia (Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1904), apresenta uma receita de queijadas da Madeira, na qual os ingredientes do recheio são o requeijão, açúcar pilado, gemas e claras de ovos. Para a massa, farinha de trigo, manteiga e açúcar q. b. para adoçar levemente. Já confeccionei queijadas, seguindo esta receita, e o resultado é sempre muito bom. Não tem mesmo nada a ver com o que por aí se apresenta e vende.

Idêntica receita foi também publicada em Aprender: Cozinha Madeirense (1988) e no Almanaque PEF (2000). Com ironia, posso concluir que o segredo das verdadeiras queijadas da Madeira é não adicionar farinha ao requeijão. Os outros ditos segredos, que os pasteleiros gostam de insinuar com ar enigmático, são perfeitamente dispensáveis. Fazem parte da fantasia da cozinha. Dir-me-ão que, não acrescentar farinha, encarece o produto, reduz as vendas e baixa o lucro. Acredito que sim! A qualidade, porém, tem custos.

A queijada da Madeira, a que merece este título, tem de ser autêntica. Deveria ser certificada. São as coisas diferentes que marcam a diferença. Num mercado competitivo, a qualidade, a diferença e a inovação são vectores essenciais.

Funchal Notícias. 5 Agosto 2020

Queijadas da Madeira

 

O edifício adquirido, há anos, para sede da Associação Recreio Musical União da Mocidade, situado no Caminho do Lombo Segundo, em São Roque, encontra-se em adiantado estado de degradação. Sem portas, é fácil entrar na antiga moradia da família Lopes. Já algumas pessoas receiam a sua destruição por um incêndio, como tem acontecido com outros imóveis desocupados e vandalizados do Funchal. Recordam-se do fogo que destruiu imponente edifício da vizinhança, a Casa do Xavier, no Encontro, entretanto demolido.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2020

A nova sede era um sonho de João Eurico Martins (1954-2014), que durante vários anos dirigiu a Orquestra de Bandolins e tinha em mente a criação de uma escola de música especializada na área dos bandolins. Igualmente, o presidente desta Associação, Gil Caroto, tem várias vezes apelado ao Governo Regional apoios para a construção da sede, em especial nas comemorações do aniversário do Grupo.

Recorde-se que pela Resolução n.º 16/2014, o Governo Regional autorizou a celebração de um contrato-programa com a Associação Recreio Musical União da Mocidade, tendo em vista a comparticipação nos encargos bancários, para aquisição do terreno onde seria construída a futura sede. Previa-se então a ajuda financeira de 30 939 euros.

Nessa altura, considerou-se, para o efeito, ser «de manifesto interesse público que a Região Autónoma da Madeira contribua para a concretização de atividades culturais que se revelem estruturantes e imprescindíveis para a promoção e divulgação da Região também enquanto destino de cultura.»

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2020

Hoje o edifício caminha para a ruína. De porta escancarada para quem lá quiser entrar, constitui um foco de risco para o centro da freguesia de São Roque.

Fundado em 18 de Fevereiro de 1913, o Grupo Recreio Musical União da Mocidade distingue-se actualmente pela sua Orquestra de Bandolins. Durante muitas décadas, a música e o teatro foram as principais actividades da ‘União da Mocidade’. Para muitos jovens desta freguesia, foi o Grupo que lhes possibilitou formação musical.

Nelson Veríssimo

30-07-2020

O Gorgulho

A Câmara Municipal do Funchal reconstruiu o solário do Gorgulho. Uma intervenção há muito esperada e, por diversas vezes, reclamada. Escrevemos aqui sobre a necessidade de recuperar esta zona balnear em 12 de Setembro de 2018. A obra concretizou-se na segunda quinzena de Junho e primeiros dias deste mês, tendo ficado acessível ao público no passado dia 7.

Um investimento de 40 mil euros permitiu a reposição do solário, limpeza da escarpa e ‘renaturalização’ de uma pequena área. Limpou-se a imagem de degradação. Devolveu-se aos cidadãos o direito de usufruto de um espaço à beira-mar, sobretudo para apanhar sol, pois a qualidade da água do mar não se recomenda.

Praia do Gorgulho. Foto: © NV, Julho 2020.

A situação, por agora, ficou remediada. É fácil prever que uma nova tempestade poderá causar estragos idênticos ou superiores aos de 2018. Talvez, por isso, não seja má ideia pensar pôr a descoberto o calhau, quando a esplanada de betão vier de novo a ser destruída pela forte ondulação. Será menos cómodo, até menos atractivo. Mas a Madeira não pode continuar a atirar dinheiro ao mar. Bastou o que foi engolido pela malfadada Marina do Lugar de Baixo. O mar, impiedosamente, voltará a fustigar o Gorgulho.

No meio da propaganda acerca do início e da conclusão desta obra, a Câmara Municipal do Funchal sempre a ela se referiu como o Solário da Praia dos Gavinas ou Solário do Gavinas.

De um momento para outro, parece ter a Câmara esquecido o verdadeiro nome desta pequena enseada: Gorgulho. Porque compete ao poder municipal zelar pela preservação e valorização da toponímia do concelho, convém lembrar que Gorgulho é topónimo antigo e documentado, pelo menos, desde os finais do século XVI.

Alterar sem razão a toponímia tradicional é, quase sempre, tornar ilegível o nome de um sítio. É matar o espírito do lugar!

Quando se denomina esta pequena praia de Gavinas, recorda-se a alcunha de quem ali instalou um bar e depois um restaurante, onde eram servidos bons pratos de peixe fresco e lapas grelhadas.

Como me explicou o Doutor Raimundo Quintal, a quem agradeço, no Calhau do Gorgulho «existiram dois bares /restaurantes especializados em peixe. Um foi criado pelo velho ‘Gavina’ na década de 60. Posteriormente passou para a posse do filho Agostinho, que vendeu ao Dr. Nélio [Mendonça] para ser explorado pelo filho Zé, que faliu. […]. O outro estabelecimento mais pequeno também nasceu na década de 60 e pertencia ao António, mais conhecido pelo ‘Belhuga’. […] ‘Gavina’ e ‘Belhuga’ eram as alcunhas dos dois homens que construíram os dois estabelecimentos a título precário, porque se localizavam numa área de domínio público marítimo.»

No início dos anos 80 do século passado, ainda ali funcionavam o ‘Gavina’s Restaurante’ e a ‘Toca do Polvo’.

Ao conferir importância à nova ou recentemente inventada denominação Solário do Gavinas, preterindo o topónimo antigo, a Câmara do Funchal está a apagar – admito que involuntariamente e por desconhecimento – toda a História deste pedaço do litoral da freguesia de São Martinho.

O topónimo Gorgulho, que genericamente designava a faixa costeira entre o Ilhéu da Forja e a Ponta Gorda, tem a ver com a pedra da praia. Gorgulho, neste contexto, significa pedra miúda. Trata-se de um geotopónimo.

Este nome surge na documentação oficial depois do ataque dos corsários franceses ao Funchal, em 1566. Como os corsários desembarcaram na Praia Formosa para atacar a cidade, as autoridades começaram a olhar com redobrada atenção a zona poente do Funchal.

Vulnerável quanto à defesa, esta área do litoral permitia desembarque fácil aos piratas e corsários. Em Maio de 1618, trabalhava-se, por conseguinte, na construção de muros e baluarte no Calhau do Gorgulho. Criou-se também a Companhia de Ordenanças do Gorgulho, sendo conhecidos alguns dos seus capitães no século XVII: Fernão Favila de Vasconcelos, Pedro da Silva Favila, Francisco de Noronha Henriques, Pedro da Silva Favila de Vasconcelos e António da Silva Favila.

No primeiro quartel do século XIX, já o Forte do Gorgulho se encontrava bastante arruinado. Paulo Dias de Almeida escreveu que dele «só existe o nome, porque apenas existem restos de paredes sem cal, sem casa de guarnição e com duas peças reprovadas no chão.»

Igualmente bastante destruída estava a muralha do Caminho da Trincheira, que ligava o Forte à Quinta do Calaça.

Uma réplica do Forte do Gorgulho, desenhada segundo uma planta setecentista, veio a ser construída nos anos 80 do século passado. Integrada no Complexo Balnear do Lido, foi inaugurada em 21 de Agosto de 1987.

Conservar e compreender a toponímia é um exercício de cidadania. Ilhéu do Gorgulho, Rua do Gorgulho (onde se situava o Hotel Gorgulho, depois denominado “Tiles” e actualmente “Allegro Madeira”) e Praia do Gorgulho são designações que perpetuam a memória deste lugar.

Com o nome “Gorgulho” navegaram também dois navios, com presença assídua nos mares da Madeira e Porto Santo: um propriedade da Parceria Geral de Pescarias, conhecido por, na Segunda Guerra Mundial, ter  recolhido 19 sobreviventes do navio britânico “Aurillac”, torpedeado pelo submarino italiano Enrico Tazzoli em 15 de Abril de 1941, a 350 milhas ao norte do Porto Santo; o outro, da Empresa Insulana de Navegação, um navio-fruteiro, mas também de passageiros, precursor na carreira Funchal-Porto Santo, foi construído na sequência do famoso Despacho 100, de 10 de Agosto de 1945, que reorganizou a marinha mercante portuguesa e possibilitou a renovação da frota da empresa liderada por Vasco Bensaúde. Mas isto é outra história.

 

Funchal Notícias. 22 Julho 2020

P. S.

Rectificação: Gavina não é alcunha dos primeiros proprietários do bar e restaurante do Gorgulho, João Pinto Gavina e seu filho, Agostinho Pinto Gavina. Trata-se, sim, de um sobrenome. Agradeço esta informação à Senhora D. Lurdes Barros.

O Gorgulho