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Celebrar uma efeméride histórica com a História é princípio elementar e consensual. Diferente tem sido, todavia, o entendimento da Comissão Executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira, que se guia por aquilo que diz ser a tradição e pela historiografia do século XIX, lida indirecta e enviesadamente no velho Elucidário Madeirense, editado, pela primeira vez, em 1921 e acrescentado em 1940.

Trata-se de uma comissão presidida por um conhecido advogado e composta por cinco vogais sem formação em História, sendo quatro deles ligados à Secretaria Regional do Turismo e Cultura e um à Associação de Promoção da Região Autónoma da Madeira, que, por sua vez, está relacionada com a Direcção Regional de Turismo.

Também na Comissão de Honra não está nenhum historiador madeirense. Nem tão-pouco o Arquivo Regional da Madeira e o Centro de Estudos de História do Atlântico mereceram representação institucional.

Apesar de publicamente sugerida, nunca fizeram uma reflexão sobre a data mais adequada para assinalar o Sexto Centenário. Inventaram a desculpa de que os historiadores não chegariam a uma opinião consensual e logo, animados com o espírito do arraial madeirense, decidiram os governantes regionais celebrar de véspera, projectando para 2018 uma efeméride engendrada na fantasia, na senda do velho ditado: Da Festa, as vésperas.

Não se conhece o Programa Oficial das Comemorações. Apenas tive notícia, no Conselho Consultivo, de um rol mal-amanhado de algumas intenções e eventos, numa folha Excel. Pesquisando no sítio oficial dos 600 anos: Madeira, Porto Santo não se encontra tal Programa, mas sim uma agenda de eventos ocorridos e a realizar, sendo os próximos da pouco imaginativa série Madeira a cantar, concurso mais adequado a uma empresa de animação ou a uma estação de rádio ou televisão do que a uma Direcção Regional de Cultura ou uma Secretaria Regional do Turismo e Cultura, mas que integra as comemorações e já rendeu contratos no valor de cerca de 164 300,00 euros (IVA incluído) para a respectiva logística.

Esta Comissão, que desdenha o saber da História, andou no Porto Santo a celebrar presunçosamente uma data sem significado histórico e colocou nesta ilha uma estátua do Infante D. Henrique, concebida há quase 90 anos para uma exposição internacional de exaltação do colonialismo. Em vez da assunção da contemporaneidade artística, preferiram uma peça escultórica com significado diminuto na obra do grande Francisco Franco; em vez de aproveitarem a ocasião para homenagear o porto-santense que, durante séculos, resistiu estoicamente a fomes, secas, epidemias, ataques de piratas e corsários, cativeiros e outras pragas e misérias, optaram por dar relevo ao Senhor da Ilha – o duque de Viseu – que lhes cobrava tributos, apesar dos escassos rendimentos então alcançados; em vez de uma escultura desinteressante e anacrónica, péssima e indignamente colocada no espaço público, os porto-santenses desejariam, por certo, o transporte marítimo todos os meses do ano.

Outro exemplo de desprezo pela História: do livro do historiador Alberto Vieira O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões foram impressos 300 exemplares. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícias, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000. O primeiro é um livro de História, de quem muito se tem dedicado à investigação. O segundo é um folheto de propaganda, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem pré-cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados. O livro perdurará, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada acabará fatalmente no lixo ou na fogueira. Mas custou 88 450,00 (IVA incluído). Assim se gasta o dinheiro público na instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

Em jeito de balanço, como é comum neste tempo, concluo que o trabalho da Comissão Executiva dos 600 anos pouco interesse teve para os madeirenses e porto-santenses, sobretudo no âmbito da educação, cultura e promoção da identidade insular. Recorde-se aquele bem dispendioso Congresso Internacional – Contributo da Expansão Portuguesa para a Economia Mundial –, realizado em Novembro passado no Centro de Congressos do Casino da Madeira, sem ninguém a assistir para além dos oradores participantes, mas com certificado de presença à discrição para quem assomasse à porta.

Convém também referir a exposição, que custou mais de 1 milhão de euros, As ilhas do ouro branco – arquipélago da Madeira: do século XV ao século XVI, com cerca de 13 000 visitantes, número muito aquém do esperado e bastante baixo para um projecto do Museu Nacional de Arte Antiga, conforme afirmou o seu director no programa Casa das Artes, episódio n.º 11, de 8-03-2018. Anunciou-se provável deslocação desta exposição ao Porto, mas afinal o acervo regressou silenciosamente à Região, após o seu encerramento na capital, sem que a maioria dos madeirenses ou porto-santenses a pudesse visitar. No Funchal teria, por certo, maior número de visitas.

Não fosse a programação alusiva da RDP e da RTP-M e o cidadão comum não daria conta das comemorações do descobrimento.

Tudo tem servido para associar aos 600 anos: Carnaval, provas desportivas, desfiles de moda, festas da flor, do vinho e do fim do ano… Até o fogo-de-artifício era dos 600 anos, mas afinal nada se viu de diferente! Quando se cola às comemorações tudo o que há anos habitualmente acontece no calendário de eventos festivos, é sinal de que nada de novo se tem para oferecer.

Funchal Notícias. 9 Janeiro 2019

https://funchalnoticias.net/2019/01/09/celebrar-a-efemeride-historica-sem-a-historia/

 

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A Lamparina

As denominadas lojas dos chineses vieram disponibilizar, a preços módicos, muitos e diversos enfeites natalícios. Entre outros, vulgarizou-se o uso de velas artificiais na lapinha e gambiarras led por toda a casa.

Há anos as pirosas searinhas de plástico arredaram as naturais. Mais recentemente, a vela a pilhas, com ou sem oscilador de chama, tem vindo a substituir a tradicional lamparina que alumiava o Menino Jesus.

O azeite está caro. Dá trabalho substituir o pavio, limpar a rodela de cortiça e repor o azeite. Mais prático é ligar o interruptor da vela. Consome pouco, produz luz duradoura e garante segurança. Simula uma lamparina.

São, sem dúvida, argumentos aceitáveis. Contudo, a luz do azeite confere magia à lapinha. Com a lamparina aprendi a compreender o significado do presépio.

Escadinha, Sítio das Carreiras – Madeira. Foto: © Rui Camacho, 2006.

O poeta madeirense Florival de Passos (1914-1989) invocou, com sentimento, a lamparina do Menino Jesus:

Tão pequenina a luz! A luz de azeite

Que alumia Jesus. Tão pequenina!

E tudo tão modesto… A lamparina

De linda cor, mas sem nenhum enfeite.

 

Quadro perdido já da minha infância…

E tanta luz na minha vida toda…

E só aquela é que anda à minha roda…

Luz de azeite perdida na distância…

Lembro-me de lamparinas com pavios naturais. Vizinhos que usavam cálices da erva-das-lamparinas, planta comum nos quintais e hortas, que servia também para infusões com fins medicinais.

Segundo Raimundo Quintal, trata-se da Ballota nigra subsp. ruderalis (Sw.) Briq., conhecida por marroio negro, erva-das-lamparinas ou erva-dos-pavios. Após a queda das corolas, as plantas mantêm os cálices. Depois de secos, eram utilizados como pavios nas lamparinas do Santíssimo e das lapinhas.

Na Madeira, o presépio é tradicionalmente denominado de lapinha, diminutivo de lapa com o significado de gruta. Apresenta duas variantes distintas: a escadinha e a rochinha. Pelo dia de Nossa Senhora da Conceição ou na primeira Missa do Parto, a lapinha costuma estar pronta.

A escadinha ostenta três lanços. Antigamente, utilizavam-se, para o efeito, as medidas de cereais: alqueire, meio e quarta. Com o fundo para cima, o alqueire servia de base. Sobrepunha-se-lhe o meio alqueire e, de seguida, a quarta. Estava, assim, montada a escadinha.

Normalmente, é forrada com papel – «papel de ramagens», conforme Horácio Bento de Gouveia – e disposta sobre uma cómoda ou uma mesa, coberta com uma toalha de linho bordada. No topo da escada (ou trono), coloca-se a imagem do Menino Jesus, rodeada por um arco de flores de papel e ladeada por duas jarras com junquilhos ou sapatinhos. Nos outros degraus, apresentam-se pastores (figuras de presépio), frutos (laranjas, tangerinas, peros, castanhas ainda nos ouriços, nozes…) e as searinhas. É habitual também colocar um pão (brindeiro) e uma lamparina de azeite. Na parede, afixa-se um galho de alegra-campo e sobre a cómoda ou mesa não faltam as tradicionais cabrinhas e uma jarra com ensaião.

A rochinha é feita com papel pardo, pintado com viochene. Molda-se o papel em consonância com os volumes que esconde. Procura-se imitar montanhas, vales, fajãs e uma gruta. Recria-se a paisagem da Ilha. Gambiarras iluminam serras, chãos e caminhos.

Em tempos passados, as socas de canavieira serviam para moldar o papel pintado e salpicado de pós, coloridos e reluzentes, das rochinhas miniaturais, que se punham sobre mesas, arcas ou cómodas. Mas hoje estão a cair em desuso.

Armada a rochinha, dispõem-se as figuras de presépio, casas, igrejas e, por vezes, um coreto para a filarmónica; fazem-se caminhos, lagos, riachos, cascatas e levadas; dependura-se o alegra-campo na parede; distribuem-se as searinhas, o azevinho, as mimosas, o ensaião, os sapatinhos, as cabrinhas e outras verduras. Na gruta, recria-se o cenário da natividade. Por fim, colocam-se os frutos da época e acende-se a lamparina junto do Menino na manjedoura.

Presépio, Funchal. Foto: © Nelson Veríssimo, 2018.

A luz tremeluzente e ténue envolve o crente e dá especial encanto à Festa. Há quem reze, quem aconchegue a memória, se reconcilie ou se despeça. Estado de espírito que a lamparina de azeite favorece e dificilmente a vela artificial sugere.

Funchal Notícias. 19 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/19/a-lamparina/

 

MISSAS DO PARTO

«É este o período das Missas do Parto, antemanhã, que são anunciadas pelo toque cadenciado do sino da igreja e pelo estoirar de alguns morteiros. A garotada, quando ainda não são 4 horas, já vagabundeia pelas azinhagas, retoiçando e modulando as modinhas mais em voga e outras regionais, em pifes de cana-vieira e harmónios.»

Horácio Bento de Gouveia, 1901-1983 – Páginas de Jornalismo. Alcobaça: Minerva, 1933.

Pife. Fotografia: ©Rui Camacho.

Harmónica. Fotografia: © Rui Camacho.

NOITE DE NATAL

Contar mais não podia, em meu desejo
De chegar mais depressa ao grande dia!
Quanto mais próximo estava, mais sofria
Cada hora era um século em meu anseio.

Outra ambição maior, haver, não creio
Nem maior fogo o que em mim se acendia,
E já até os segundos eu media
Na distância a aumentar o meu enleio.

Veio do porco a festa da matança
E das manhãs em glória de cantigas
As missas que do Parto se chamaram.

E à noite que chegou, plena de esperança
Na certeza dourada das espigas
Meus olhos, de sorrir, até choraram.

Henrique Pereira, 1929-1990 – Noite de Natal. Diário de Notícias. Funchal. 108: 35 466 (25-12-1983).

 

MISSA DO PARTO

«Rebentam os primeiros foguetes acendendo no ar estrelas candentes. E o eco dos passos vai desaguar no adro da Igreja, aquecida, luminosa, resplandecente de círios e de flores.

Enchem-se as bancadas de rezas e cânticos. Um Menino Jesus rosado, boquita de promessas sorridentes e amplos perdões, acorda entre palhas. E irrompem os cânticos em vozes crentes e cristalinas.

Os homens acotovelam-se na entrada.

Um cheiro intenso a suor e velas queimadas enche a nave central.

As rezas partilhadas sobem de tom e de fé enquanto o sol varre os cimos da montanha entre franjas de nuvens esparsas, a descerem rápidas sobre os pequenos poios, arduamente ajardinados descaindo em precipícios para a costa.

A Festa está prenhe de cheiros, de sabores e de crenças.»

Maria Aurora Carvalho Homem, 1937-2010 – Um postal da Festa. Correio da Madeira. Funchal. (31-01-1991).

 

MISSAS DO PARTO

         «As campainhas lembram-me a Festa, nome por que é conhecida a quadra do Natal na Madeira. Porque na ilha da minha infância, tudo começava com as missas do parto, celebradas alta madrugada, a partir da segunda semana de Dezembro. Nunca assisti a nenhuma, pois quando tinha desejos de participar, faltava-me idade e quando sobrevieram os anos, abalara-se-me a fé. Mas recordo-me dos romeiros descendo os caminhos em direcção às igrejas, a tocar as campainhas, num chinfrim, com cantares acompanhados à harmónica, por vezes organizados em brinquinhos com sanfona, machete e rajão.

         Devo confessar que os meus sentimentos perante tamanha religiosidade sofreram profundas alterações. A princípio adorava. Era prenúncio de um tempo mágico, com imagens, sons e odores simpáticos. Vinham aí as broas, rosquilhas, bolos de mel, licor tim-tam-tum, cuscuz, carne de vinho e alhos, torresmos e gaiado seco no ritual da matança do porco. Seguiam-se os presépios em lapinha, com todo aquele estendal de bonecada, searas e cabrinhas. Depois era a Festa propriamente dita, o Natal e as oitavas, até à Noite de São Silvestre, com folguedos e petiscadas que, bem esticadas, chegavam ao dia de Santo Amaro, em Janeiro. Porém, quando comecei a criar buço, naquela idade em que tudo sabemos e nos zangamos com Deus, considerava uma alarvidade importunar os descrentes com missas fora de horas.»

Ricardo França Jardim, 1946-

O Céu pode esperar: a Missa do Galo. Arsénico e rendas velhas: 37 crónicas do ‘Público’, seguidas de uma admoestação e dois epitáfios. Matosinhos: Contemporânea, 1996.

 

FIO DE FRIO

Os dias de dezembro

não são sempre os dias de dezembro

e a certeza do olhar

não está no sol em ausência

ou no fio de frio que se estende

entre rosas e pomares

dum lado a outro dum inverno tardio,

às vezes a chuva vem cedo e o fogo do céu

rasga as árvores, às vezes perde-se

o termo das estradas no nevoeiro

e o fim das tardes arrepia-se escuro

nos pés dos vagabundos.

não está no hábito com que à boca

chega a vontade duma palavra útil

ou apenas dum bocejo, digo azul essa

não é a cor destas horas,

não está aqui nem se torna visível a sombra

ou o passo que imprime a diferença, o som

ou a janela equivalente à luz que falta

a música que acende uma memória doce

às formas que dão ao coração

o ensejo dos astros e distantes amores.

nada está aqui que me diga dezembro

porque dezembro é um hálito sagrado

e o prodígio aponta o indizível.

 

porque dezembro é também coisa tão simples

como os galos, o sótão

o altar da infância aconchegado

de ensaião e acácias

porque em dezembro se trazia

estrelas na algibeira

e um fruto no céu a dispersar o medo.

Irene Lucília Andrade, 1938-

Fio de dezembro. Margem 2. Funchal. N.º 10 (Dez. 1998).

Escadinha. Casa-Museu Frederico de Freitas, Funchal.

 

A ESCADINHA

«Em um ângulo da casa lá se erguia a escadinha sobre velha mesa; do alto, o Menino Jesus domina o mundo de pastores colocados nos vários degraus da escada da lapinha. Em torno do altar e a cobrir quase todo o tecto há ramos de loiro, o trepador alegra-campo da serra, as cabrinhas, o esparto, o saião das paredes e pequenos galhos de cedro que formam diademas. Na beira dos degraus da escadinha e da mesa destaca-se, à maneira de colar, um renque de laranjas entremeadas de peros e tigelas com trigo espigante.»

Horácio Bento de Gouveia, 1901-1983 – Canga. Coimbra: Coimbra Editora, 1975. (3.ª ed. de Ilhéus; 1.ª ed. Coimbra, 1949).

 

NOITE DE NATAL

«Eu seguia com os olhos felinos o lidar das mãos de minha mãe, que à vista em breve me haviam de provocar um céu cheio de delícias pela revelação de Jesus, na magia dum movimento subtil. Estava já realizada sobre a toalha de linho, a simetria do trigo verde, dos frutos colhidos quando Verão, dos raminhos de murta e laranjeira, e das rosas de Inverno do jardim. Depois, sentando-se em frente da lapinha, minha mãe tomou-me entre os seus braços. Eu olhava a mesa com a curiosidade de criança impaciente, no desejo sempre vivo de ver nascer o Menino; minha mãe olhava para mim na consolação tranquilizante de quem já possuía um menino cingido às palpitações do seu peito. E, cansado já de olhar a mesa, quando os meus olhos se encontraram com o seu olhar de deleite, perguntei à minha mãe se não nascia Jesus.

Ela foi então buscar a lâmpada. E, quando lá fora, sob a chuva e sob o frio, a meia noite enfim se anunciava pelo cântico dos galos, minha mãe acendeu lume no azeite de oliveira.»

Albino de Meneses, 1889-1949 – Uma vez, um Natal, em pequenino… Diário de Notícias. Funchal. (25-12-1925).

Foto: © Nelson Veríssimo, 2018.

NATAL… NATAIS…

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E em cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento, 1897-1978 – Natal… Natais… Cancioneiro. Lisboa: Portugália, 1963.

 

UM PRESÉPIO AO FUNDO DA RUA

«Na linha dos olhos, sobre o tampo da cómoda, tudo descansa em morno sossego, um pastor encosta-se sonolento à parede porosa de uma laranja gigantesca, a nuvem de algodão de uma ovelha repousa ao lado de uma cascata azul que desce ao longo da lapinha. A banda, de farda azul com dobras vermelhas e galões dourados, avança com pezinhos de lã e suspende os instrumentos, enquanto as suas sombras se agigantam tremulantes e tocam em silêncio. Dois reis sábios montados em seus camelos saem por detrás do biombo verde do bosque misterioso e rescendente. Na clareira, para além da cortina espessa de searas viçosas, o líquido vítreo e oleoso alimenta uma fonte de luz que crepita baixinho, iluminando o quarto na penumbra, todo ele suspenso naquela luz, como num teatro de sombras chinesas. Ao fundo, por debaixo das enormes cabrinhas que parecem palmeiras, uma gruta. As paredes arroxeadas cobrem-se de pó das estrelas. Lá dentro, aconchegado entre os pais, um menino nas palhinhas.»

António Fournier, 1966-

Um presépio ao fundo da rua. Margem 4. Funchal. N.º 1 (Dez. 2007).

 

O Descanso

No tempo em que muito do que entrava em casa era transportado aos ombros, havia a necessidade de, ao longo do percurso, arriar, de vez em quando, a carga por alguns minutos, para recuperar energia e prosseguir a marcha.

Surgiram assim, em locais estratégicos, os descansos. Numa parede, rompia-se uma abertura em forma de meia-lua, a uma altura ideal para descarregar um cesto, fardo ou outro qualquer volume.

Descanso. Caminho das Romeiras, Santo António, Funchal. Foto: © Nelson Veríssimo

No Caminho das Romeiras, nas imediações da Igreja de Santo António, encontra-se, em bom estado de conservação, um dos poucos descansos que escaparam à implacável demolição. Um outro resiste, mas parcialmente adulterado, no Caminho do Lazareto.

De muitos não ficou qualquer registo. Foram demolidos, quando se construíram novos edifícios, sem sequer se ter a preocupação de tirar simples fotografia para memória.

O descanso de Santo António é um exemplar bem preservado desses úteis e ansiados lugares para quem, por caminhos e ladeiras, transportava aos ombros pesadas mercadorias.

Lembro-me de ver o distribuidor de pão, popularmente também chamado de padeiro, a arriar o cesto coberto com o pano branco num outro descanso, já desaparecido. Havia quem o esperasse ali para comprar o pão fresco.

O descanso era, inevitavelmente, um lugar de sociabilidade, propício para uma conversa acerca de novidades presenciadas ou conhecidas em outros caminhos ou uma bebida revigorante na mercearia ou taberna das redondezas.

Em frente da Igreja Velha de São Martinho havia um descanso num muro ocre, de superfície rugosa. Aqui aconteceu uma cena miraculosa, segundo minha tia Matilde (a Matildinha), que nasceu e, por muitos anos, morou neste sítio. Contou-me que dois carregadores, que levavam para o Estreito, uma caixa de madeira com uma escultura de Nossa Senhora, pousaram, ao fim da tarde, o volume no descanso e dirigiram-se, de imediato, para a taberna.

Quando pretenderam retomar o percurso, a caixa pesava tanto que nenhum conseguiu levantá-la. Decidiram então ali pernoitar, mas logo um se lembrou de tentar colocar a carga em segurança, no interior da Igreja de São Martinho. Com este propósito, deitaram mãos à caixa e, para sua surpresa, conseguiram com facilidade deslocá-la, pois tinha o peso normal.

No outro dia, aprontaram-se, bem cedo, para se porem a caminho. Mas, quando um deles experimentou colocar a caixa sobre os ombros, não conseguiu levantá-la, devido ao peso excessivo. Várias tentativas foram feitas, mas sempre sem sucesso. A caixa parecia grudada no pavimento da Igreja. Interpretando esta situação como sinal divino anunciador de que a escultura de Maria pretendia ficar naquele templo, logo os dois homens deixaram ali a encomenda que transportavam, tendo um deles dito, com satisfação, que a falta de força, no dia anterior, para transportar caixa tão pesada, não fora dos muitos copos de vinho que havia tomado. Convicto, afirmava que o ocorrido tinha a mão de Deus.

Verificou-se depois que, no interior da caixa, estava uma estátua de roca, daquelas que são vestidas com trajes de tecido, para serem colocadas nos altares ou saírem nas procissões, de modo que a carga era leve.

Esta história irreal, há muito ouvida, é aqui lembrada para, afinal, documentar que estes descansos encerram vivências e vozes de um passado já distante, quando o transporte de mercadorias se fazia aos ombros em longas e difíceis jornadas, por caminhos íngremes e veredas tortuosas.

O descanso do Caminho das Romeiras é um exemplar raro desse mobiliário urbano com carácter utilitário, que existiu em muitas localidades da ilha da Madeira. Apesar de, na actualidade, não ter o préstimo para que foi construído, deve, todavia, ser preservado como Património Cultural da freguesia de Santo António. Constitui memória singular de um tempo, uma actividade e um sítio.

 

Funchal Notícias. 12 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/12/o-descanso/

 

A salvaguarda do património passa, por vezes, por pequenos gestos e capacidade de resposta em tempo útil. Património engloba também bens singelos, mas com particular significado para a comunidade.

Num prédio urbano devoluto da freguesia de São Roque, parcialmente atingido pelo incêndio de 9 de Agosto de 2016, existia um registo de azulejos embutido na parede da edificação, paralela à via pública.

Em muitas casas, era habitual, no século passado, colocar-se um painel de azulejos alusivo a Maria, ao orago da freguesia ou ao santo ou santa da devoção dos proprietários. Ultimamente é mais comum o registo em honra de Nossa Senhora de Fátima.

Na canção “Uma casa portuguesa”, celebrizada mundialmente por Amália Rodrigues (1920-1999), Reinaldo Ferreira (1922-1959) e Vasco Matos Sequeira (1903-1973), autores da respectiva letra, que veio a ser musicada por Artur Fonseca, associaram à arquitectura vernácula o registo azulejar, no caso com a representação de São José.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Na casa devoluta de São Roque, o registo hagiográfico estava em bom estado. Por falta de segurança, temia-se que viesse a ser furtado ou vandalizado.

Informado da situação, logo o padre José Luís Rodrigues tratou de obter autorização dos proprietários para salvaguardar o painel de azulejos, tendo sido colocado, em Maio deste ano, no alçado lateral poente (torre) da Igreja de São Roque. Com boa vontade, preservou-se, assim, um registo característico da arquitectura portuguesa.

Registo: Nossa Senhora da Conceição. Aleluia, Aveiro, séc. XX. Torre da Igreja de São Roque, Funchal.

Trata-se de um registo hagiográfico em formato oval recortado, com moldura policroma e figuração azul e branco, representando Nossa Senhora da Conceição. Na base, a moldura exterior é interrompida por cartela com a inscrição: N.A S.A / DA / CONCEIÇÃO. Executado pela Fábrica Aleluia de Aveiro, no século XX, é, por certo, posterior a 1946, ano da comemoração do 3.º centenário do decreto do rei D. João IV, que declarou Nossa Senhora da Conceição como Padroeira do Reino de Portugal. Nesse ano, a Fábrica Aleluia produziu registos invocativos desta efeméride com a inscrição: 1646 / 25 DE MARÇO / 1946.

A Fábrica Aleluia, Louças e Azulejos foi fundada em 1917 por João Aleluia, ceramista, pintor e músico, e sucedeu à sua Fábrica de Louça dos Santos Mártires, Ld.ª.

Na freguesia de São Roque, a devoção à Senhora da Conceição está também presente numa capela situada a pouca distância da referida casa devoluta. De facto, em 1700, o cónego António Lopes de Andrade mandou erguer, na sua propriedade, do Caminho de São Roque, uma ermida com essa invocação. Ainda hoje, os moradores do Chão do Carlinhos promovem a festa da padroeira de Portugal no seu dia.

Funchal Notícias. 5 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/05/um-registo-de-nossa-senhora-da-conceicao/

 

Do livro do historiador Alberto Vieira, O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões, foram impressos 300 exemplares de uma edição modestíssima, em papel de má qualidade e todas as ilustrações a preto e branco. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícas, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000, a cores e em bom papel.

O primeiro é um livro de História. O segundo é um folheto de propaganda do PSD, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados.

O livro ficará na estante, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada, fatalmente, acabará no lixo ou na fogueira. Assim se gasta o dinheiro público. O DN ganha o seu, e sobre esta empresa só podemos dizer: bom proveito. Quanto à Comissão Executiva dos 600 anos, lamentamos a instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

VIEIRA, Alberto – O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões. Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico, 2018.

600 anos: Madeira, Porto Santo. Folheto distribuído com a edição do Diário de Notícias, Funchal, 30-11-2018.

A Imprensa Académica deu à estampa Os Mistérios do Funchal, na colecção Ilustres Desconhecidos. O romance veio a lume em 1881, mas esta edição é muito rara. A reedição, agora disponível, foi elaborada a partir do exemplar da Biblioteca Municipal do Funchal.

A primeira edição não revelava o autor. Na introdução, intitulada «Duas palavras», esclarecia-se que se tratava de uma obra que beneficiara da escrita de três mãos: «Três homens unidos pelo mesmo pensamento e compenetrados do mesmo fim colaboraram neste romance.»

No entanto, a leitura do romance não sugeria escrita partilhada. Aquela afirmação tentava, por certo, dissimular a verdadeira autoria e enquadrava-se numa estratégia de adensar a natureza «misteriosa» da obra.

Uma recensão literária ao primeiro volume de Os Mistérios do Funchal, publicada no Diário de Notícias, do Funchal, em 28 de Agosto de 1881, provavelmente escrita por Alfredo César de Oliveira (1840-1908), revelou que Ciríaco de Brito Nóbrega era o autor do romance recém-editado.

A preocupação do fundador do Diário de Notícias pode explicar-se pelo facto de este jornal ter também publicado um folhetim intitulado Mistérios do Funchal, de Março de 1877 até Abril do ano seguinte, que não chegou a ficar concluído, mas cuja edição em livro havia sido anunciada. Acrescente-se que, de acordo com os autores do Elucidário Madeirense, esse folhetim era da autoria do cónego Alfredo César de Oliveira.

Não se absteve o articulista do Diário de Notícias de tecer alguns juízos críticos sobre a obra em apreço, revelando ter sido escrita em oito dias.

Por sua vez, O independente: semanário democrático, dirigido por F. Pinto Coelho (1850-1916), criticou a publicação de Os Mistérios do Funchal:

«Mas, segundo nos parece, o referido livro refere-se a factos, que segundo a nossa humilde opinião, só deveriam ser publicados um século depois de terem sido praticados.

Nem todas as verdades se dizem e muito menos quando elas desacatam a memória dos que já não existem, e podem ainda ofender as famílias dos que lhe sobrevivem.» (6-08-1881, p. 3)

Os mysterios do Funchal: primeira parte: A herança maldicta. Funchal: Typ. do Diário da Madeira, 1881.

Nas «Duas palavras», que antecedem o romance, o autor fez questão de sugerir que se baseara em factos reais, que havia observado ou deles tivera informação em apontamentos facultados por amigos. No entanto, as raras pistas da intriga, que conduziram a uma investigação histórica, revelaram-se infrutíferas. Tudo leva a crer, portanto, que não se trata de factos reais, pelo menos na sua totalidade.

Haverá, por certo, personagens inspiradas no quotidiano funchalense, como o temido Castanheta, que parecia «o demónio em carne e osso» (Os Réprobos, cap. II). Uma alusão a este famigerado marginal surge no folhetim de Faustino Brazão, publicado no Diário de Notícias, de 1 de Março de 1877, sob a epígrafe «Respostas a pertinaz curioso: o Filho da Velha». O «Filho da Velha», além de contrabandista, famoso na pancada e na pinga, era, para o folhetinista, «um digno émulo de Castanheta e outros quejandos».

Os Mistérios do Funchal, romance não publicado previamente sob a forma de folhetim na imprensa periódica, como era habitual em narrativas literárias desta categoria, desenvolve-se à volta de Margarida, uma jovem de humilde condição, que se enamorou de um padre católico, mas não consumou esse amor. Forçada, pela adversidade, a casar-se com um abastado proprietário, vem a ser vítima do cunhado que tudo fez para impedir Margarida de herdar a fortuna do seu marido. Depois de uma estada no estrangeiro e diversas contrariedades, como a doença do filho e a traição da sua companheira, o cunhado pretendeu redimir-se do mal que fizera a Margarida, planeando a devolução da herança a que ela tinha direito. Neste seu intento, contou com a oposição desesperada do seu filho.

O romance revela uma estrutura narrativa da denominada «literatura de Mistérios», que proliferou na segunda metade do século XIX e obteve grande popularidade.

Abordando Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue (1804-1857), Umberto Eco (1932-2016), salienta que «estão cheios de pequenos dramas iniciados, parcialmente resolvidos, abandonados para seguir desvios do arco narrativo maior, como se a história fosse uma grande árvore» (O Super-Homem das Massas, 2016, p. 59). Ainda que menos sensacional do que a obra de Sue, vislumbram-se estas características em Os Mistérios do Funchal.

Ciríaco de Brito Nóbrega (1856-1928). Photographia Vicente, 17 Dezembro 1912. Col. ABM – Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira.

Ciríaco de Brito Nóbrega

Filho de Roberto Constantino de Nóbrega e Matilde Leocádia de Brito Nóbrega, nasceu na freguesia de São Pedro, Funchal, em 15 de Março de 1856. Faleceu na sua residência, na Rua do Favila, da cidade do Funchal, em 1 de Abril de 1928.

Ao noticiar a sua morte, o Diário de Notícias delineou o seu retrato:

«A figura de Brito Nóbrega era inconfundível: baixo, magro, impressionantemente magro, dependurado, quase incessantemente, num charuto, com um andar em baloiço, conhecia-se a distância.» (3-04-1928)

Exerceu funções profissionais na Repartição de Finanças do distrito do Funchal, como primeiro-oficial, mas foi o jornalismo a sua atividade predilecta.

Segundo O Jornal, Ciríaco de Brito Nóbrega «foi um cidadão a quem a defesa dos interesses desta ilha muito deve. Jornalista de largos recursos, a sua acção manifestou-se em artigos de propaganda, possuindo, além duma clara noção dos vários assuntos que versou com inteligência, uma memória apreciável que lhe permitia reproduzir os acontecimentos com uma precisão digna de registo.» (3-04-1928)

Os seus primeiros artigos na imprensa madeirense surgiram n’ A Aurora Liberal em 1875-76. Em Setembro de 1881, era proprietário do Diário da Madeira, conjuntamente com José A. P. Ramalho. Colaborou em diversos jornais, sendo redactor principal do Diário de Notícias, da Madeira, entre 28 de Abril de 1907 e 25 de Março de 1927. Já na penúltima década do século anterior havia sido redactor deste periódico durante quase três meses, mas saiu por divergências editoriais, tendo fundado, em 1884, o Correio da Manhã, do qual saiu o primeiro número em 31 de Agosto e o último em 14 de Março de 1886.

Para além de Os Mistérios do Funchal, publicou, sob o pseudónimo Alberto Didot, Um crime célebre (Funchal: Tip. Popular, 1883), que saíra como folhetim no Diário da Madeira, em 1881. Com Óscar Leal é co-autor de Um marinheiro do século XV: romance histórico sobre a descoberta da Índia (Funchal: Tip. Esperança, 1898), por ocasião das celebrações do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. No ano de 1901, veio a lume o seu romance, O perdão do marido: Primeira parte: Um drama íntimo (Funchal: Tip. Esperança), publicado como folhetim do Diário de Notícias do Funchal, a partir de 26 de Outubro de 1900. Editou ainda uma reportagem sobre A visita de Suas Magestades os Reis de Portugal ao Arquipélago Madeirense (Funchal: Tip. Esperança, 1901).

Ciríaco de Brito Nóbrega é um escritor pioneiro das narrativas ficcionais de crime, da literatura madeirense.

A herança

No romance Os Mistérios do Funchal, a disputa de uma herança constitui tema recorrente ou leitmotiv da narrativa. Com base neste topos, a apresentação do livro, que se realizará no dia 29 de Novembro, pelas 18:00, no auditório da Universidade da Madeira, no antigo Colégio dos Jesuítas, será pretexto para uma tertúlia à volta do tema: O valor da herança: (re)pensar a sociedade à luz da dinâmica da nova ordem mundial. Serão convidados o padre José Luís Rodrigues, o arquitecto Rui Campos Matos, o advogado Brício Martins Araújo, o médico João Pedro Vieira e o professor da UMa, Thierry Proença dos Santos, autor do posfácio da reedição de Os Mistérios do Funchal.

NÓBREGA, Ciríaco de Brito – Os mistérios do Funchal. Nelson Veríssimo, edição literária e nota de apresentação. Thierry Proença dos Santos, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2018. ISBN 978-989-54002-7-0. PVP: 15,70€.

 

Funchal Notícias. 28 Novembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/11/28/os-misterios-do-funchal/