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Logo que se conheceram os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, ficámos a saber que o PSD e o CDS estavam para casar, o que nos leva a supor que o namoro vinha de longe, embora de forma discreta.

O líder do CDS, que acabava de perder mais de 9200 votos e 4 mandatos, mostrou-se bem-disposto, a sorrir, faceta, na verdade, quase desconhecida do público. O outro noivo também cantou vitória, com um ar mefistofélico, depois de ter perdido 3 deputados e, por conseguinte, a maioria absoluta. E festejou na rua, apesar de ter obtido a percentagem mais baixa de sempre em votos no PSD, nas eleições legislativas regionais.

Preparam agora o casamento governamental, que deverá ser oficialmente anunciado depois das eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no próximo domingo. Provavelmente, esperam ainda idêntico matrimónio em Lisboa, o que não deverá acontecer.

O PS, que se mostrou demasiado confiante antes do tempo, obteve excelente votação, mas com o casamento à direita, resta-lhe uma oposição firme na Assembleia Legislativa Regional, um trabalho sem tréguas, pensando no bem comum e no futuro, que se constrói sem desânimos e com muita persistência. Neste resultado, há que distinguir o efeito da popularidade de Paulo Cafôfo na votação dos socialistas. Contudo, Cafôfo precipitou-se, quando, na noite eleitoral, lançou o repto de construção de uma alternativa governativa com diversas forças políticas, uma espécie de salada russa. Deveria ter gerido esse projecto de forma recatada, fora dos holofotes da comunicação social, e só apresentá-lo quando tivesse conquistado a noiva, inicialmente rendida aos encantos do PSD.

O JPP também perdeu 2 mandatos e 5284 votos, o que se pode justificar, entre outras razões, pela inegável bipolarização – PSD / PS, que afectou todos os partidos mais pequenos, e também, por agora, confrontar-se com um contexto bem diverso das eleições de 2015, tempo em que estava mais presente o sentimento de repúdio pelas fórmulas governativas do PSD e do Dr. Jardim.

A CDU perdeu 1 deputado e 4483 votos, enquanto o BE deixou de ter representação parlamentar.

Não fosse a ganância pelo Poder, a política madeirense centrar-se-ia doravante na Assembleia Legislativa, como deveria ser, e nunca aconteceu devido às maiorias absolutas.

Obrigar o PSD a negociar no parlamento, para governar, fortaleceria a nossa democracia. O casamento de conveniência dará ao CDS o prazer de degustar a governação da Região, mas, como em outros matrimónios interesseiros, a excitação da lua de mel cedo poderá transformar-se numa grande desilusão, com prejuízos avultados. O conúbio ficará ainda marcado indelevelmente pela violência e humilhações que uma parte sujeitou a outra durante quatro décadas. Contudo, o noivo deslumbrado com a cadeira, onde aspira vir a se sentar, parece esquecido desses tempos em que era insultado e ridicularizado.

Se o casamento vier a se consumar, mesmo contra a vontade de alguns notáveis da família CDS, que ainda têm memória e dignidade, resta aos deputados, que não se identificam com a governação PSD, a união de forças no sentido de a presidência da Assembleia Legislativa da Madeira ter uma cor diferente, para que assim a Região comece a trilhar o percurso de uma democracia adulta. Negociações discretas, estratégias bem delineadas e o voto secreto podem assegurar este desejável desfecho.

Se assim não acontecer, estão a abrir caminho para que, daqui a 4 anos, o PSD retome a maioria absoluta e o CDS caia do pináculo.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2019

Política no pináculo

No tempo de campanha eleitoral na Região Autónoma da Madeira, vem sempre ao de cima a questão do ser autonomista. Uns dizem sê-lo e acusam os demais de não comungarem do mesmo ideal. Outros assumem, de forma diferente, a autonomia. Uns arrumaram a sua vida e a da sua família à custa da autonomia e proclamam-se de autênticos autonomistas. Alguns continuam a afirmar que lutam por uma verdadeira autonomia. Há ainda quem se ache dono da autonomia.

Mas, afinal, o que é ser autonomista, quando a autonomia está consagrada na Constituição e constitui um dos limites materiais de uma revisão constitucional? O que é ser autonomista, quando ainda há tanto para aprofundar, em benefício dos cidadãos, no actual regime autonómico?

Autonomista será o contínuo e, tantas vezes, inconsequente confronto com o Governo da República?

Autonomista será a recorrente recriação e alimentação do fantasma do inimigo externo?

Autonomista será a atribuição a outrem da incapacidade governativa, por inoperância, falta de massa crítica, meios e verbas ou ainda por desmesuradas expectativas numa região limitada em recursos e riquezas?

Haverá somente uma única via para o autonomista?

Ser autonomista é perseverar no mesmo caminho, que levou ao Plano de Ajustamento Económico e Financeiro da Região Autónoma da Madeira em 2012?

Autonomista é quem esbanjou milhões em obras inúteis, em detrimento, por exemplo, da área da Saúde?

Ser autonomista é contribuir para que esta Região seja sempre vista com desconfiança e, simultaneamente, motivo de chacota?

Ser autonomista é apoderar-se da propriedade privada de gente simples e sem dinheiro para contratar um advogado, através de expropriações a preços miseráveis, numa espécie de comunismo laranja?

Ser autonomista é discriminar os municípios da oposição?

Ser autonomista é parir um subsídio de mobilidade para, sub-repticiamente, injectar capital na TAP, com tarifas aéreas inflacionadas, pagas adiantadamente pelos ilhéus?

Ser autonomista é estabelecer uma apertada rede de poder, com numerosos tentáculos, onde tudo gira à volta dos interesses do clã?

Ser autonomista é impingir aos porto-santenses, como lembrança dos 600 anos do ‘descobrimento’ da sua ilha, uma estátua concebida para exaltar o colonialismo internacional nos anos 30 do século passado?

Na verdade, uma definição ou um conceito não se constrói pela enunciação do que não é ou não deve ser. Sirvam, porém, as questões acima expostas como motivação e reflexão.

Pegando na denominação infeliz – o cubano –, com raiz nos tempos do PREC [Processo Revolucionário em curso decorrente do 25 de Abril] e na definição matreira e cáustica, mais tarde veiculada, de que «cubano era aquele que não tinha a Madeira no coração», poderíamos também dizer que autonomista é quem tem a Madeira no coração, aquele que ama a Região, trabalha e luta pelo melhor para o arquipélago e o seu povo e reage quando estão em causa valores e direitos consagrados ou a consagrar. Do processo autonómico, pela sua dialéctica, não se pode excluir o contencioso.

Partindo destes ideais, de aceitação pacífica, segundo cremos, convém, no nosso tempo, observar o autonomista no seu território, e não, exclusivamente, no confronto entre a periferia e o poder central.

Esse posicionamento crítico obrigaria, por certo, posturas diversas, que conduziriam a um trabalho profícuo com resultados significativos para o progresso e afirmação positiva da Região.

Há temáticas que, com efeito, já nem deviam ser objecto de discussão, depois de 40 anos de autonomia, mas a Região real impõe essa necessidade. Colocando o autonomista como autor e actor no seu próprio espaço, urge a implantação e o desenvolvimento de comportamentos e medidas, nos seguintes domínios, entre outros:

Vivência democrática: um autonomista não ostraciza nem persegue o porto-santense ou madeirense que pensa de forma diferente e tem outro projecto de sociedade, porque a autonomia só pode existir em democracia. Foi a Revolução do 25 de Abril que possibilitou a democracia e a autonomia. São inseparáveis, apesar das resistências à democracia nesta Região.

Emprego e riqueza: O emprego e a distribuição de riqueza não devem apenas contemplar o grupo político dominante, afastando os conotados com a oposição ou condenando, ao silêncio e à demissão da cidadania activa, os menos fervorosos, em troca de trabalho, casa e pão.

Respeito pela Natureza: se o sentimento autonomista nasce do amor à terra natal, como pode o autonomista continuar a destruir a riqueza maior destas ilhas e, sem dúvida, a grande atracção turística? Depois do descarado assalto ao litoral e às ribeiras, prepara-se a invasão da floresta, altivamente (re)anunciada com um «quer queiram, quer não queiram».

Identidade Cultural: o autonomista valoriza a Cultura Regional e contribui para a sua promoção, não discriminando quem não partilha a mesma opção. Promover a Cultura não é subjugá-la ao padrão oficial e aos redutos insulares. O diálogo entre a identidade e a universalidade constitui o caminho da nossa afirmação como Região Autónoma.

Cultura de Clã: o autonomista, que trabalha em favor da sua Região, não pode constantemente promover a exclusão, o privilégio, o favoritismo, o clientelismo e, consequentemente, a corrupção.

Nada do que temos vindo a afirmar constitui novidade. Poderá até ser considerado utopia. Contudo, como cantou o poeta António Gedeão: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança.

Infelizmente, muitos exemplos do quotidiano podem ilustrar como alguns ditos autonomistas actuam, o que sugere mais vandalismo político do que verdadeira afeição à autonomia.

Uma coisa é ser autonomista da boca para Lisboa, outra é a práxis do autonomista no governo da sua própria terra e no dia-a-dia.

Funchal Notícias. 11 Setembro 2019

Ser “autonomista” é…

 

Grande parte da obra poética de José Agostinho Baptista, reunida sob o título Epílogo, deveria ser editada em Outubro do ano passado, numa iniciativa da Comissão dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira e a Porto Editora. Chegou a ser anunciada em dois jornais nacionais, mas não se efectivou.

A imprensa deu conta da insatisfação do Poeta pela não concretização do projecto na data aprazada. Guilherme Silva garantiu então que Epílogo viria a lume e, para tal, desenvolvia esforços no sentido de obter patrocínio da Assembleia da República. Afiançou mesmo que «em momento algum está em causa a edição» (DN-Madeira, 7-10-2018, pp. 36-37).

A verdade é que a XIII legislatura chegou ao fim, como também está a terminar o mandato deste Governo Regional, e nada mais veio a público sobre a prometida edição.

As comemorações dos seiscentos anos estão em curso, é certo. Todavia, não se conhece o seu programa editorial. De vez em quando surgem edições com o logótipo da Comissão, mas ninguém percebe bem quais os objectivos, temáticas seleccionadas e cronograma. Tudo vai acontecendo um tanto ao acaso ou conforme as oportunidades ou a agenda governamental. Vejamos: em 12 deste mês foi apresentado no Porto Santo, Das ilhas, a primeira, de Cláudia Faria e Graça Alves, uma edição de 2018 do Centro de Estudos de História do Atlântico, não comercializada, com uma tiragem de 300 exemplares; no dia 30 ocorreu o lançamento de Ondas de Glória: momentos históricos da Natação na Madeira, da Associação de Natação da Madeira e Arteleia, livro pago quase na totalidade pela Direcção Regional de Cultura e integrado nas celebrações do descobrimento, logo com o respectivo logótipo (DN-Madeira, 27-07-2019, p. 29). Entretanto, foi divulgado que, «no âmbito do ciclo de publicações dos 600 anos, está ainda previsto o lançamento de mais de 20 obras» (Ibidem, 13-07-2019, p. 42). Quais? Edição? Colecção? Quando? Não se sabe…!

Voz poética singular, José Agostinho Baptista nasceu no Funchal em 1948. A sua poesia, marcada pela originalidade, desenvolve-se em muitos títulos:

Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O último romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Autoretrato (1986); O centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Afectos (2002); Anjos caídos (2003), Prémio PEN Clube Português; Esta voz é quase o vento (2004), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT; Quatro luas (2006); Filho pródigo (2008); O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos (2009); Caminharei pelo vale da sombra (2011); Assim na terra como no céu (2014).

Em todos, o Poeta rememora a terra natal, como confessou: «A Madeira no fundo era a poesia que eu andei a escrever, longe dela. Mas sempre com ela no pensamento e no coração.» (DN-Madeira, 7-10-2018, p. 37)

Desse apego à ilha mãe, realço, em particular, Canções da Terra Distante, livro autobiográfico, sem cariz realista, onde o Poeta evoca lugares da geografia dos seus afectos. Narrativa obsessiva de quem, fora da ilha, permanece nela através de paisagens e recordações, que indelevelmente povoam a sua mente.

A sua obra tem merecido vários estudos, sob a forma de dissertações académicas, ensaios, artigos e recensões críticas. Ana Margarida Falcão (1949-2016), na sua tese de doutoramento – Os novos shâmanes: um contributo para o estudo da narratividade na poesia portuguesa mais recente (2003), concluiu de modo lapidar:

«Nostálgica viagem da lembrança ou melancólica peregrinação pelos lugares da memória, a poesia de José Agostinho Baptista conta, em episódios vários e em diversa dimensão narrativa, o exílio de um sujeito em si mesmo, corpo e mente desdobrados em múltiplas variantes que sacralizam o sonho, o devaneio e os vestígios do passado, proporcionando a enunciação de representações essencialmente em função da ausência.» (p. 398)

A obra de José Agostinho Baptista entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

O Poeta não publica há cinco anos. Diz também que deixou a escrita. Contudo, a obra que construiu, desde 1976, atesta da sua grandeza poética.

O Poeta tem dado muito à Madeira e à Literatura Portuguesa. Não constitui, por isso, favor algum a publicação de Epílogo, o que deveria ter acontecido há quase um ano. Razões ou circunstâncias mal-esclarecidas atrasaram a edição. Por falta de dinheiro não foi, de certeza! Convém, por isso, lembrar: Palavra dada deve ser palavra honrada. Por gratidão, com José Agostinho Baptista maior é o compromisso.

Funchal Notícias. 31 Julho 2019

Palavra dada é para ser honrada

A freguesia do Arco da Calheta é agora mais conhecida, porque mais bem estudada. Da autoria de Paulo Ladeira, Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano, editado no mês passado, ultrapassa a dimensão de inventário, nem apresenta tal formato. Trata-se, sim, de uma monografia sobre o património de uma paróquia, fundada em data desconhecida, mas antes de 1518, focando, em particular, o património religioso.

Este é o primeiro volume da Colecção Património Religioso, editado pelo CEDECS – Centro de Estudos e Desenvolvimento, Educação, Cultura e Social, com uma tiragem de 1000 exemplares.

Segundo Eugénio Perregil, presidente do CEDECS, esta colecção constitui uma «homenagem àqueles que construíram a História do concelho, no plano físico e espiritual», pelo que se antevê que outros volumes estão planeados, a fim de contemplarem as demais freguesias do município da Calheta.

O livro conta com um preâmbulo do pároco do Arco da Calheta e Loreto e um prefácio do bispo do Funchal.

O padre João Carlos Homem de Gouveia afirma que «é preciso incentivar a reflexão e atuação da Igreja e das instituições eclesiásticas no domínio do património cultural, numa perspetiva não só de fé, mas também intrinsecamente estética e histórica, com respeito cada vez maior pela sua função pastoral e evangelizadora.»

Já D. Nuno Brás sublinha que o património religioso não pode ser reduzido «a um simples conjunto de igrejas, pinturas, estilos de arte, de música e de arquitetura». Deve, antes, ser entendido como a expressão de valores, expectativas e identidade de uma comunidade, «através de uma determinada atitude religiosa».

Para a elaboração desta monografia sobre o património do Arco da Calheta, Paulo Ladeira serviu-se de vasta bibliografia e fontes documentais, mas também partilhou testemunhos e vivências suas e de pessoas da localidade.

Ladeira, mestre em História e Cultura das Regiões pela Universidade da Madeira, com a dissertação O Rococó na Madeira: a talha e a pintura do último Barroco ao primeiro Neoclássico (2003), é autor de diversos estudos sobre História de Arte da Época Moderna. Em 2016, publicou Calheta & Património: uma abordagem, numa edição da Câmara Municipal da Calheta.

Apesar de a tónica ser o património religioso, o autor dedica mais de vinte páginas a aspectos históricos da freguesia, alguns dos quais são também património cultural, como, por exemplo, a toponímia, a habitação, os utensílios domésticos, o vestuário, os adereços e os ofícios. Nesta caracterização das vivências do quotidiano de outrora, caberia ainda o património imaterial. Para esta matéria, haveria que recorrer à tradição oral. Contudo, Paulo Ladeira privilegiou as fontes documentais escritas, quase sempre parcas neste domínio. Ainda assim, a imprensa poderia veicular alguma informação.

O quotidiano religioso merece também capítulo próprio, sendo dada particular atenção aos ritos dos sacramentos católicos.

A parte principal do livro diz respeito ao património religioso, imóvel e móvel, da freguesia. À matriz, Igreja de São Brás, pela importância do seu acervo, é dado maior relevo.

Importa aqui salientar o conjunto de seis pinturas maneiristas, de meados do século XVI, restauradas por ocasião do Quinto Centenário da Diocese do Funchal e provenientes, pelo menos algumas delas, da ermida de São Brás. Aliás, a capa do livro ostenta o óleo sobre madeira São Brás e os doadores (Brás Ferreira e Mecia Vaz), pintura atribuída ao Mestre de Abrantes, numa fotografia de Paulo Sardinha.

As capelas da freguesia, mesmo as mais recentes, foram objecto de análise, com descrições e imagens do seu património mais significativo.

A obra inclui no final uma memória de Manuel da Silva Leça sobre costumes religiosos e sociais da freguesia, nos anos de 1930 a 1950.

Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano mostra-se fundamental para o conhecimento do património da Região e constitui iniciativa que merece ser aplaudida, não só por dar a conhecer a história local, mas sobretudo porque esse saber está alicerçado nas fontes existentes nos arquivos. Por outro lado, é também de louvar a atitude da Igreja Católica. Neste caso, não fechou as portas à divulgação do seu património, mas revelou consciência de que o estudo, a fotografia e a divulgação dos bens culturais contribuem para a sua preservação e salvaguarda.

Como bem referiu José Eduardo Franco, no posfácio, o remédio para a ameaça do esquecimento das culturas locais «passa, em grande medida, pelo investimento na investigação e na produção de conhecimento esclarecido e bem fundamentado em torno da herança cultural». Propósito, quanto a nós, alcançado com esta edição, apoiada pela Câmara Municipal da Calheta. Esperamos que mereça leitura e atenção.

LADEIRA, Paulo – Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano. Calheta: CEDECS, 2019. ISBN 978-989-20-9589-9. 336 p.

Funchal Notícias. 24 Julho 2019

Património do Arco da Calheta

A Câmara Municipal de Machico deliberou encomendar e instalar uma escultura alusiva ao desembarque dos navegadores portugueses na ilha da Madeira, nos finais da segunda década do século XV. Para o Funchal, está também prevista uma obra para assinalar os 600 anos do descobrimento, conforme contrato celebrado em 11 de Dezembro de 2018 entre a Secretaria Regional do Turismo e Cultura e o escultor Amândio de Sousa.

Em ambos os casos, optaram as entidades adjudicantes por ajustes directos em detrimento do concurso público, que permitiria selecção criteriosa do objecto artístico a adquirir.

É frequente associar esculturas públicas a celebrações de momentos históricos. Nestes casos, recomenda-se uma obra plástica original com interesse estético, cultural e social, que tenha em conta o lugar, onde será implantada, e o público.

A Câmara de Machico optou por contratar um escultor nascido no concelho, Luís Paixão, já com obras no espaço urbano, encomendadas pela edilidade. Uma delas, intitulada «Na rosa dos ventos: Machico à proa», cuja concepção custou ao município 18 670,00 €, conforme contrato por ajuste directo celebrado em 30 de Abril de 2015, representa um navegador a colocar um padrão na terra descoberta, o que, na verdade, não aconteceu, pois o assentamento de padrões em pedra, como forma de marcar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão na margem sul da foz do Zaire, em 1482.

O baixo-relevo, inaugurado no passado dia 2, representa o desembarque de Zarco, Tristão e os seus companheiros em Machico. O escultor optou por uma composição figurativa, aplicando elementos que, no seu entender, retratam o descobrimento: navegadores, barca, batel, astrolábio, rosa dos ventos, ave marinha (gaivota?) e a linha de costa.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Neste baixo-relevo realista, o astrolábio não tem justificação histórica. Mais correcto seria uma agulha de marear e uma carta-portulano. A navegação astronómica é posterior ao descobrimento do arquipélago da Madeira. E, de início, no cálculo da altura meridiana da Estrela Polar utilizava-se o quadrante e não o astrolábio. (Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1985, p. 80)

Como ensinou Damião Peres:

«Anteriormente ao começo das navegações atlânticas promovidas pelo Infante D. Henrique, e mesmo durante os primeiros tempos destas, o sistema de navegação usado em navios portugueses foi sem dúvida igual ao seguido pelos Italianos e outros povos: navegar recorrendo às cartas de marear, que mostravam repetidamente as direcções dos rumos, e seguindo, com o auxílio da agulha magnética e do cálculo da distância percorrida, o adequado rumo.» (História dos Descobrimentos Portugueses, 3.ª ed., Porto, 1983, p. 187)

Este baixo-relevo assemelha-se a um trabalho escolar no qual se dispõe, sobre papel ou cartolina, um conjunto de signos tradicionalmente conotados com os descobrimentos portugueses. Se, no momento de avaliação de uma unidade didáctica dedicada à expansão portuguesa, eu propusesse aos alunos a elaboração de um cartaz alusivo ao descobrimento da Madeira, certamente lá apareceriam os mesmos elementos que Luís Paixão se serviu. Numa turma do ensino básico isso até mereceria boa classificação. Já o mesmo não é admissível numa escultura pública para perpetuar tão importante efeméride.

O baixo-relevo, Machico 600 anos, caracteriza-se por uma linguagem estética do passado. Sem criatividade. Démodé. Passadista até na inscrição «1419», ano do descobrimento, segundo a historiografia do século XIX e a corrente tradicionalista. Além disso, com tónica naïf ou erro de perspectiva: na posição em que se encontra o batel, nunca os homens que o empurram poderiam ter pé.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Esperava-se uma criação artística do século XXI, um legado dos 600 anos para as gerações vindouras. A Câmara de Machico gastou nesta obra 103 121,22 €. Contudo, no domínio da intervenção artística no espaço público, nada de novo e significativo acrescentou à cidade. Tão-pouco diversificou a linguagem estética da escultura pública no contexto urbano machiquense.

Para que não restem dúvidas, aqui fica a descrição da despesa, conforme o Portal Base (Contratos Públicos Online):

– Prestação de serviços para a idealização e concepção da obra escultórica Machico 600 anos, José Luís Alves Paixão, 13 500, 00 € (29-05-2019).

– Prestação de serviços para formação/execução da escultura Machico 600 anos, António Guedes Lopes, 17 700,00 € (21-06-2019).

– Fundição da escultura Machico 600 anos em bronze, Fundição de Bronze de Arte Lage, Ld.ª, 27 000,00 € (24-06-2019).

– Trabalhos acessórios para implementação de escultura em baixo-relevo, alusiva aos 600 anos – Machico, BC Construções, Unipessoal, 44 921,22 € (28-06-2019).

Discutível é também a localização do baixo-relevo. No meu entender, faria sentido na beira-mar. Escolheram um sítio próximo dos Paços do Concelho – com dignidade, é certo –, talvez para ficar sob o olhar vigilante dos autarcas.

Creio que Machico teria beneficiado com uma encomenda de uma escultura sujeita a concurso público e apreciação de propostas por um júri idóneo. Aliás, esta é a prática recomendável, pois o dinheiro dos contribuintes não deveria servir para custear gostos e padrões estéticos de autarcas ou governantes.

Funchal Notícias. 17 Julho 2019

O baixo-relevo alusivo ao desembarque em Machico

João França (1908-1996) escreveu Uma família madeirense no início da década de 80 do século XX. Contudo, só em 2005 foi este romance editado pela Câmara Municipal de Santa Cruz, com um Preâmbulo de Irene Lucília Andrade.

No mês passado, veio a lume a reedição de Uma família madeirense através do original dactilografado, com a chancela da Imprensa Académica e edição literária de Thierry Proença dos Santos, que assina também uma esclarecedora Nota de Apresentação. Este é o n.º 4 da Colecção Ilustres Desconhecidos, planeada com o objectivo de relembrar autores e obras do corpus literário madeirense.

A nova edição justifica-se não somente pelo interesse literário da obra, mas também por fixar o texto de acordo com o dactiloscrito depositado no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira. Com efeito, conforme verificou e demonstrou Thierry Proença dos Santos, a edição de 2005 não respeitou o original. Pode-se, por conseguinte, dizer que só agora veio verdadeiramente a público este romance de João França, porquanto está conforme a vontade do autor.

A narrativa desenrola-se entre 1936 e 1975, no Caniço, freguesia então predominantemente agrícola e onde também se veraneava nas casas das fazendas.

Vestido de amor ao chão caniceiro, regalo sempre fora a vilegiatura da família Oliveira na sua casa de campo, isso após dez ou onze meses de canseiras, em cada ano, no lar e nos escritórios no Funchal. (p. 34)

Bonifácio Vaz de Oliveira é a personagem central. Representa o madeirense apegado aos pergaminhos da sua linhagem e aos valores tradicionais (por companhia tinha sempre a Bíblia e o livro da família Oliveira), salazarista, defensor ferrenho do «Estado Novo», autoritário e guardião da moral conservadora. Nada receptivo às mudanças políticas e sociais, repudiava os ideais da Revolução do 25 de Abril, que o surpreendeu aos 80 anos. Tão-pouco compreendia as manifestações de um povo que conquistara a Liberdade, como também não aceitara a implantação da República, a Revolta da Madeira (1931) nem a denominada Revolta do Leite (1936).

Quando daquela arruaça por causa dos lacticínios, lembra-se ele de ter dito estarem os homens de bem perante o desabar da instituição cristã do respeito humano. Afinal, via-o agora, era aquilo um quase nada comparado com tudo quanto para aí vai. Então, o sossego voltara ao seu lugar normal. E agora? Como iria ser? Que fariam os bolchevistas, com os seus gritos de liberdade? (p. 142)

No final da vida, o patriarca da família Oliveira era tolerado e respeitado, mas quase todos os seus parentes próximos discordavam das suas obstinadas decisões e rígidas atitudes.

Até Lúcia, a filha submissa, a quem o pai impusera um marido, tinha plena consciência do mal que o seu pai lhe fizera. Ainda que admitisse ter ele agido na «melhor das intenções», não deixava de considerar que «o pai ignorava a firmeza indestrutível de certos sentimentos do coração de uma mulher». Suscitava-lhe, por isso, inveja a liberdade dos sobrinhos.

A morte da personagem principal determina o termo da narrativa. Representa também o fim do poder patriarcal e de uma sociedade arcaica.

O procedimento de Marta, a sua neta, ao colocar o livro de família, embrulhado numa toalha de linho, debaixo da cabeça do avô defunto, para melhorar a postura do corpo dentro da urna, detém grande significado no contexto da narrativa. Doravante, a nova geração dos Oliveiras não se guiaria pelos padrões dos antepassados. Como sublinhou Irene Lucília Andrade, «todo o peso do passado responsável pela tragédia da família é destruído num acto simbólico» (p. 26).

Sem assumir a dimensão de romance histórico, Uma família madeirense contempla e analisa factos significativos do passado desta ilha no século XX, através da descrição de comportamentos e da construção de diálogos. Todavia, não se pode concluir que o escritor se identificava com as personagens que concebeu. Apenas pretendeu recriar situações cronologicamente verosímeis.

Do que conheço de João França, posso afirmar que, politicamente, o autor do romance não tinha quaisquer afinidades com o comendador Bonifácio Vaz de Oliveira. Mas, por certo, conhecera personalidades, que assim pensavam e agiam no «Estado Novo» e nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso) e se tornaram fontes para o desenho da personagem principal deste romance.

Secundando o editor literário de Uma família madeirense, considero que este romance tem lugar de mérito no âmbito da ficção ambientada na Madeira.

FRANÇA, João – Uma família madeirense. Thierry Proença dos Santos, edição literária e nota de apresentação. Irene Lucília Andrade, preâmbulo. Funchal: Imprensa Académica, 2019. ISBN 978-989-54361-3-2.

Funchal Notícias. 10 Julho 2019

Uma família madeirense

No passado dia 6 de Junho, o Banco de Portugal colocou em circulação uma moeda de 2 euros, comemorativa dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

Foi anunciada nos media no passado mês de Janeiro, após a publicação da Portaria n.º 16/2019 (Diário da República, I Série, n.º 10, 15-01-2019), que, no âmbito do Plano de Emissões de Moedas Comemorativas para 2019, tradicionalmente designado por Plano Numismático, autorizou a Imprensa Nacional-Casa da Moeda a cunhar a moeda de 2 euros, designada «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo».

De acordo com esta Portaria, a moeda teria as seguintes características: na face comum, o desenho europeu das moedas de euro em circulação; na face nacional, ocupando todo o campo central, a representação da silhueta das ilhas, onde se destacam linhas de rumo dos portulanos. A circundar a imagem do arquipélago, as legendas: «600 anos do Descobrimento da Madeira e de Porto Santo»; «Portugal 2019»; «INCM» e a indicação do autor. Envolvendo todo o desenho, as 12 estrelas, dispostas em forma circular, que representam a União Europeia.

O desenho da face nacional desta moeda constava no anexo da referida Portaria, e a imprensa regional divulgou-o.

De imediato, em 15 de Janeiro, na rede social Facebook, foram apontadas três importantes críticas acerca da representação do território da Região Autónoma da Madeira e da legenda: a) Omissão do subarquipélago das Selvagens; b) Uso incorrecto da preposição «de» («de Porto Santo», em vez «do Porto Santo»); c) Colocação, em primeiro lugar, do descobrimento da Madeira, quando, por respeito da cronologia histórica, deveria ser «600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira».

Entregues estas críticas, logo a Comissão Executiva dos 600 anos tratou de corrigir os erros, mas somente dois mereceram a sua atenção. Surgiu, por conseguinte, a Declaração de Rectificação n.º 5/2019 (Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019), que alterou a Portaria anterior. Em concreto, emendou a legenda para «600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo» e, no desenho, procedeu à inclusão das Ilhas Selvagens.

Declaração de Rectificação n.º 5/2019, Diário da República, I Série, n.º 31, 13-02-2019

Se Júlio Pomar executou o desenho da primeira versão, a inserção posterior do subarquipélago das Selvagens e outras alterações, inclusive na posição da assinatura, não podem ser da sua autoria, porque o famoso artista plástico faleceu em 22 de Maio de 2018.

Por ignorância ou caturrice, mas na linha daquela malformação congénita – Resolução n.º 243/2017, do Governo Regional da Madeira, que criou a Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos – manteve-se, na legenda, a precedência do descobrimento da Madeira sobre o da ilha do Porto Santo, o que está errado. Aliás, tudo o que é oficialmente publicado e dito pela Comissão dos 600 anos padece do mesmo vírus, o qual, por anormal resistência, parece ser incurável e ter o potencial de causar uma pandemia anti-histórica.

Para a posteridade, ficará uma moeda comemorativa com um percurso atribulado, e que não honra a História. Mas, sem dúvida, testemunhará como, até numa simples moeda, a Comissão Executiva dos 600 anos desconsidera o descobrimento do Porto Santo.

Maior atenção merecerá, com certeza, a leitura do valor inscrito na face comum, do que a infeliz legenda da face nacional da moeda comemorativa dos 600 anos do Porto Santo e da Madeira.

Funchal Notícias. 3 Julho 2019

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