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Archive for the ‘Contos’ Category

Natal de bronze


Por fim, o descobridor juntou-se aos demais. São Francisco, o Infante e o Semeador já esperavam.

A ideia partira do Santo. No jardim, onde antigamente tinham casa os seus irmãos, ouvia, inquieto, vozes e cânticos franciscanos. Sentia rumor de procissões todo o ano. Cheirava-lhe ainda a incenso. Lembrava-se da noite em que construiu um presépio espectacular no bosque de  Greccio.

Todos os dias vinha ao jardim um homem vestido de negro, bastante sujo. O seu cabelo parecia lã antes do mês das tosquias, em dias lamacentos. Debaixo do braço, transportava sempre um maço de papel. Sentava-se na relva e escrevia ou fingia escrever. Ninguém decifrava os seus manuscritos. Grafismos esquisitos e enormes gatafunhos enchiam folhas e folhas de papel enegrecido.

O Santo olhava-o e comovia-se. Parecia um leproso que por ali passava, tal a relutância com que muitos se desviavam dele, agastados com o incómodo. Tanto pensou e cismou o Santo, que levou o seu plano por diante.

Pela calada, um dia chamou o cabeludo. Quase atraído magneticamente, o homem foi-se aproximando da estátua. Vagarosamente e a custo, o Santo estendeu o braço e esticou a mão que abençoava. Pediu-lhe uma folha de papel e redigiu breve mensagem. Ao cabeludo, encarregou ser portador daquelas palavras. Que se reunissem os bronzes da cidade, pois haveria Natal.

O Semeador e o Infante partiram cedo, temendo o trânsito mais intenso ao fim da tarde. São Francisco arrastando as sandálias lá foi caminhando e chegou antes de Zarco se decidir. O navegador e descobridor, nascido do cinzel de Franco, apeou-se finalmente do pedestal.

O Santo conduzi-os pela cidade até ao alto de Santa Catarina, onde a capitoa D. Constança tinha mandado erguer, piedosamente, uma capela à mártir da fé cristã.

S. Francisco sentou o Infante à direita e pediu que Zarco se prostrasse à ilharga, tal como um pastor em longas noites de lua cheia para vigilância do gado.

Depois, ajudado pelo cabeludo, com algumas madeiras fez uma manjedoura.

Sem que ninguém desse por isso, apareceram ovelhas, uma vaca e um jumento. Zarco cuidava agora do rebanho.

Faltava a mãe. Então Santa Catarina de Alexandria, padroeira dos filósofos, desceu do altar e aproximou-se. Se tinha conseguido enfrentar o Imperador Maximino, que com ela queria casar, e manter-se firme diante da roda da tortura, bem poderia colocar-se ao lado do Infante, de quem se diz nunca ter conhecido mulher.

O luar recortava sombras no parque. A luz escoava entre ramos de árvores e descobria quem se encontrasse ao seu alcance. O Santo, afanosamente, procurava compor o quadro. Colombo não quis participar do cenário de Belém, mas indicou um menino que dormia à sombra de um arbusto, na sua vizinhança. Francisco levantou-o da noite e da moita e maternalmente estendeu-o sobre a manjedoura. Por baixo, arrumou a caixa de cartão que o garoto parecia querer sempre agarrar, ainda que a dormir.

De repente, acenderam-se velas no altar e despertaram os pássaros nas copas das árvores, como se fosse o amanhecer. Quem dormia no parque, também acordou. Todos se dirigiram à porta da velha ermida. Zarco, o Infante, São Francisco e o Semeador, Santa Catarina, a meio da noite, mas parecia manhã. Havia tanta luz, mas faltava o sol, ainda pequenino a romper o Garajau.

O cabeludo escrevia, mas a crónica do acontecimento não ficaria nas suas páginas. Enquanto o lápis continuava a deslizar estonteante nas folhas da sua história, ele ria cada vez mais alto. Até que o santo se levantou e cantou. O sino da capela começou depois a tocar. As badaladas sucediam-se com cadência.

Os do parque trouxeram flores. Pela escada, ruidosamente, subia o trabalhador. Encostara a picareta que há tantos anos segurava. Rompera montanhas, desenhara poios e levadas da sua desventura.

Dos olhos do Santo saía luz, como se pela primeira vez chegasse à ilha e repetisse o gesto dos padres que benzeram a terra. Zarco ainda se recordava desse ano e do primeiro Natal. Choviam lágrimas de lembranças.

O Semeador lançou sementes. A criança acordou e logo se lembrou da caixinha. E atirou moedas. Flores, sementes e dinheiro. Novas espigas cresceriam no chão fértil se o bronze não abafasse a seara tenra, disse o Santo. O cabeludo sorria e continuava a riscar vivamente, sem nunca parar. Traços de luz enchiam agora as quadrículas das páginas do seu desventrado bloco.

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 17 de Dezembro de 1995

 

 

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Chegava-se até lá facilmente, apesar de o sítio quase não se avistar do caminho. Qualquer pessoa das redondezas apontava a casa, indicava as melhores horas e o tempo provável de espera. Antes da vereda circundar alguns poios de terra cultivada, desciam-se cinquenta e sete degraus irregulares. Um alpendre, envolvido por uma vinha, acolhia-nos com frescura. Depois de um cumprimento quase a medo, correndo os olhos pelos que ali também esperavam, na ânsia de descobrir um conhecido, dizer «que fresquinho bom!» era a introdução habitual, em tempos de calor, para indagar se todos seriam recebidos ou até abrir caminho para confidenciar os motivos da ida àquele lugar, ainda que a justificação apresentada nem sempre coincidisse com a real.

A casa era antiga, modesta, de pedra aparelhada e coberta com telha de canudo. As paredes estavam caiadas de ocre, com uma barra cor de cinza. Os calhaus pequenos e redondos davam a volta à casa, formando aqui e ali irregulares desenhos geométricos. Esperava-se no alpendre, junto à porta da casa. Havia cadeiras e bancos de madeira encostados às paredes.

Para a porta convergiam os olhares, mal o trinco se desprendia. Levantava-se, de imediato, alguém, porque entendia ser chegada a sua vez. Nesse vaivém, agitava-se o ar e ouvia-se sempre uma voz rouca, bem forte, num alerta obsessivo, quase ritual, «O Santo e a Vizinha não se hão-de afundar». As pessoas calavam-se. Havia quem fechasse os olhos como a não querer ver a direcção da frase constantemente atirada para fora da porta, não sei se a empurrar os que tinham estado no interior da casa ou a saudar os que agora lá chegavam. Ninguém conhecia o significado exacto da profecia. Apesar de já se ter aventado estranha relação com as ilhas, todos temiam discussão lúcida sobre as repetidas palavras de Felismina.  

A sua fama corria a ilha e era muito consultada, até pelas autoridades, dizia-se. Todo o ofício tem a sua designação, mas o que esta mulher fazia não era, segundo ela própria, uma profissão. «É um serviço, e não importa o nome!», assim respondia quando lhe perguntavam. Insinuava-se que trabalhava com os anjos, seus filhos, e Felismina sorria levemente sem estranhar a curiosidade que despertava.

Não fosse um artigo publicado na imprensa, e poucos conheceriam o seu passado. Agora sabia-se que tivera sete filhos e todos haviam morrido com poucos anos de vida. Por esta razão, o marido partira, acusando-a de ter nascido para parir e não para criar. Embarcara para Angola. Mudara-se depois para a África do Sul, e nunca mais dele se soubera. A reportagem dava grande relevância aos «poderes» de Felismina, mas a jornalista não fora autorizada a publicar a sua fotografia.

Felismina não consentira, lembrando que há alguns anos fora levada à PIDE, na Rua da Carreira, para interrogatório. Estivera em apuros, um ror de suspeitas e questões que respondera com dificuldade, não só pelo seu teor, mas também por não estar habituada a que lhe fizessem perguntas com tão desmesurada insistência. Repetidas vezes invocara o facto de não saber ler nem escrever, para se esquivar ao interrogatório. Porém, os agentes não desistiam. Pretendiam saber por que razão Felismina havia afirmado a um militar, mobilizado para a Guiné, que a guerra estava quase a terminar e que, se ele tivesse juízo, não deveria partir. O cabo partilhou esta novidade com alguns amigos, e passado algum tempo todo o seu batalhão ficou a saber. A PIDE também foi informada e logo tratou de interrogá-la. O caso acabou arquivado com a ajuda de pessoa influente. Todavia, recebera algumas ameaças e até à Revolução praticou muito discretamente o seu serviço.

A jornalista tratou-a quase como uma heroína e a curiosidade sobre Felismina aumentou após a publicação da reportagem.

A ilha abrigava medos e ansiedades ancestrais, num diálogo surdo entre as montanhas e o mar. Lendas, superstições e rituais estranhos não eram somente cultivados entre o povo. Havia outras Felisminas, mas esta conquistara a cidade. Ela raramente saía de casa, mas quem governava pedia-lhe conselho.

 Para Felismina havia dois tipos de pessoas, os que vinham pelo dia e esperavam horas no seu alpendre e os outros, em hora marcada, quase sempre à noite. Só muito excepcionalmente aceitava deslocar-se a casa de quem pretendia consultá-la. A todos atendia de igual forma, até na confidencialidade, apesar de os da noite insistirem muito no sigilo, e para reforçarem esse pedido deixavam lembrança maior na caixa da sua sobrevivência.

Foi à noite que conheceu a mulher do governador. Não lhe tinha ainda perguntado o nome e a data do nascimento, como era habitual, e já se apercebera da condição de quem estava à sua frente. Não era pelo perfume. Na sua sala reinava o cheiro do seu ofício, sete velas a arder serenamente e, numa concha de latão sobre brasas incandescentes, incenso bastante, mirra, alecrim e outras ervas recolhidas em noites bentas. A senhora elegante, sentada num banco de madeira, com olhar temeroso percorria a sala, fixando-se nas estampas emolduradas que cobriam as paredes. Naquele ambiente de fraca luz, apenas conseguira ler «D. Sebastião» numa das gravuras. No entanto, não podia confirmar com a amiga que consigo viera, por ela ter sido impedida de entrar. Felismina revelou-lhe algumas verdades e aconselhou-a com sabedoria. Foi esta senhora quem a livrou da PIDE, conforme confessara à jornalista, sem mais nada revelar. Felismina fizera-lhe chegar a informação do que estava passando e, logo no dia seguinte, acabou-se o interrogatório.

 

O encanto da cidade estava na vizinhança com o mar. O cais era lugar privilegiado do entardecer soalheiro. Passeava-se ali, deixando a ilha para trás. Retornava-se a ela depois, sem nunca dela se sair. Parecia que entrávamos pelo mar, com os pés em terra.

Em meados de Novembro de 1975, o ambiente do cais tinha-se alterado. As conversas, junto das varandas, eram também diferentes. Algumas traineiras vindas de Benguela estavam ancoradas do lado esquerdo do cais. Traziam mazelas da viagem. As cores das listras do casco mal se distinguiam, assim cobertas por borrões de manchas ferruginosas. Ainda se distinguiam os seus nomes, Rainha Santa, Sãozinha, Santíssima Trindade, Caniçal e outros mais, nomes de devoção, de namoradas, da terra natal, e até do proprietário, Calafatinho, que embora parecesse alcunha, não o era. A bordo, algumas mulheres, crianças, poucos homens e um macaco travesso, amarrado por uma corda ao mastro principal.

Das traineiras olhava-se o cais e interrogava-se a ilha. Do varandim sentia-se o desmoronar do Império, perante o angustiado regresso. Deixaram casas, automóveis e tantos outros bens. Contudo, poderiam voltar à faina.

No cais também estavam muitos dos que haviam regressado de avião. Descobriam-se amigos, contavam-se amarguras, antecipava-se o futuro. Não se escutava resignação. A cidade tornara-se mais pequena, com mais gente, rostos queimados pelo sol, deambulando pelas ruas…

Edifícios degradados e com demolição anunciada e casas há anos desocupadas enchiam-se agora de refugiados. As autoridades municipais fechavam os olhos diante das ocupações. As pensões do centro da cidade estavam cheias. Nas varandas estendia-se roupa, e ao fim da tarde viam-se caras estranhas que gostavam de fixar o horizonte.

No cais também se falava do horizonte, enquanto as lagartixas corriam sobre os calhaus mais afastados das arremetidas da maré. Retornava-se a casas e fazendas distantes, entre aventuras e muito trabalho. Cada um fazia por contar proezas invulgares, como se tal lhes conferisse valor, riqueza ou admiração numa atmosfera onde as hierarquias de anos se tinham transformado em destino comum ante a incerteza do regresso.

Ao fim da tarde, o cais concitava novas atenções. Dali transmitia em directo uma estação de rádio, num programa conduzido por uma jornalista recém-regressada de Moçambique. Era o «Entardecer», quase, na totalidade, preenchido com intervenções do exterior. Em tempo mais propício à difusão da palavra do que de música, este programa alcançava considerável nível de audiência. Tratava-se de uma crónica da cidade, com imagens vivas do quotidiano.

A 22 de Novembro, o «Entardecer» foi dedicado às traineiras vindas de Benguela. A jornalista conhecia bem a temática dos refugiados. Durante quase uma hora sucederam-se entrevistas sobre a problemática viagem.

Felismina ligava sempre o seu aparelho de telefonia na sua hora de repouso, antes da preparação do jantar. Atirava-se para uma cadeira junto da janela, e ficava-se a olhar as serras do Estreito e o Cabo Girão. Bebia aos goles a sua infusão de hortelã-pimenta e, por vezes, deliciava-se com duas ou três bolachas Maria, retiradas pausadamente de uma antiga caixa de chocolates. De vez em quando, molhava a bolacha no chá, saboreando-a, enquanto parecia descortinar alguém distante através da vidraça.

O regresso daquela gente de Angola, em barcos de pesca, deixou-a pensativa. Veio-lhe depois uma enorme angústia. Já não conseguiu jantar. Também não atendeu ninguém nessa noite. Nem conseguiu dormir, tão perturbada se mostrava.

Manhã cedo, espreitou pelo tapa-sol a passagem, pela sua porta, do Remígio, motorista de táxi que habitualmente àquela hora se dirigia para a estrada, onde, resguardado pelo lampião, costumava deixar o seu Mercedes.

Felismina decidira ir ver o que se passava na cidade. Nada como se certificar do que ouvira pela rádio. Se o regresso das traineiras fosse real, então aproximava-se o fim, e entregue a estes pensamentos entrou no automóvel.

Remígio estranhou o procedimento de Felismina e, apesar da sua prática em meter conversa com os passageiros, nada conseguia arrancar da sua vizinha. Acabou por se calar, julgando que ela já lhe adivinhava os segredos muito bem guardados na sua viatura. Mas qual nada, ela apenas ia remoendo as histórias do último «Entardecer», enquanto o percurso parecia maior do que habitualmente.

Até ao centro do Funchal foram só quinze minutos. Eram agora 6:15 h na torre da Sé. Com a lua cheia, as Desertas, entre a escuridão, pareciam mais próximas. O luar abatia-se pela baía e as traineiras mal iluminadas recortavam o amanhecer.

Felismina aproximou-se da varanda do cais com um olhar penetrante e misterioso. Fixava os barcos de pesca, mas parecia não estar ali. Depois foi esquadrinhando o mar raiado pela lua e já via no espelho de água outros regressos. D. Sebastião voltaria numa manhã de nevoeiro e, acercando-se da ilha, logo desenterraria a sua espada, há muitos anos guardada no Ilhéu da Cruz.

Naquela manhã não havia neblina, e os regressos que sobre a água se desenhavam eram de gente simples. Mas ela temia pela ilha que, tendo emergido das profundezas do oceano, ao fundo não poderia regressar. A não ser que tudo fosse mentira e a espada do malogrado rei lá não estivesse.

Pela proa do Santo António já algumas pessoas se movimentavam. Felismina avistava-as, pensando na mãe e na espada que desferira golpes violentos em Alcácer-Quibir. A mãe, a avó e outros vultos, que não conseguia identificar, segredavam-lhe insistentemente que, se a espada fosse retirada da rocha, onde havia sido escondida, as águas subiriam até às escadas da Senhora do Monte, antes da ilha regressar às entranhas da terra.

Felismina calcorreava agora por sítios que parecia mal conhecer e, entre o repetido «santo e a vizinha», balbuciava palavras aparentemente sem sentido. A sua perturbada pressa despertava a curiosidade dos transeuntes. Depois de cerca duas horas de tão estranha caminhada, sentava-se finalmente no miradouro, mas parecia não ver a cidade nem o porto. O mar visto daquela altura parecia calmo. Ela continuava a falar do «santo e da vizinha», da espada de D. Sebastião e da água a beijar os pés da Senhora do Monte.

Até o dia de ontem, sempre se convencera de que a lenda, que da sua mãe vezes sem conta havia escutado, era mesmo lenda. Para reforçar essa ideia apregoava aos que a visitavam que «O Santo e a Vizinha nunca se haveriam de afundar». No entanto, depois de ter observado as traineiras e de saber do regresso de tanta gente, a confusão hospedara-se na sua mente. Ouvia aproximarem-se os exércitos reais, escutava os passos dos soldados e o galope dos cavalos. Ergueu-se, então, e, com dificuldade, trepou para o varandim do miradouro. Lá em baixo, o mar parecia chamá-la. Sentia o choro dos filhos junto ao calhau. Queria juntar-se a eles. Mas as proeminências rochosas assustavam-na.

Nesses momentos de hesitação, sentiu uma mão forte, segurando-a. Remígio, entre perguntas e alertas, logo a fez descer. Felismina explicou-lhe que os exércitos e o rei estavam a chegar. Remígio cortou-lhe a palavra, lembrando-lhe de que, nesse dia, não havia nevoeiro. Com determinação, levou-a para o carro. Depois de se certificar de que as portas estavam bem fechadas, pediu desculpas ao casal, que ali conduzira para observar a paisagem, por ter de interromper o percurso. Num inglês aceitável, disse-lhes que observassem tranquilamente a paisagem, porque dentro de meia hora lá estaria para continuar a excursão.

     

Revista Girão, Câmara de Lobos – Madeira, vol. II, n.º 1, 2005, pp. 29-32; traduzido para italiano e publicado com o título «Il santo e la vicina», in FOURNIER, António (a cura di), Nostalgia dei Giorni Atlantici, Asti: Scritturapura Editore, 2005, pp. 207-213.

 

 

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Agosto

 

Agosto só motiva quem muda de terra. Voltar à ilha, ficar pelo Funchal com um trabalho da Faculdade para fazer, destinado a uma cadeira irremediavelmente remetida para a segunda época de exames, arrasava o mês de supostas férias, ora soalheiro ora sombrio. Os meus amigos estavam no Porto Santo ou nas Canárias. O bar do Teatro, para mim, estava mesmo vazio. Andava com aquele caderno de notas, aconselhado no curso, à procura da história que não aparecia.

 

Se a história recomendada fosse de livre escolha, estaria safo. Havia mulheres despertas para amores secretos que nem a pura ficção suplantaria. Mas o tema proposto não se compadecia com encontros estivais. O professor solicitara episódio insólito da emigração madeirense. Faltava-me paciência para procurar velhos emigrantes e descobrir aventuras singulares em arraiais de Verão, por essa ilha de festas em continuados fins-de-semana.

 

Havia uma jovem de cabelos negros que falava entusiasticamente das festas em São Vicente, numa dessas tardes de café. Não conseguia entender aquele seu arrebatamento, e ela desafiava-me a lá ir. Talvez por ser mais velho e estar pouco habituado a essas festas que agora atraíam a juventude para os velhos arraiais. Pormenorizadamente, ela descrevia-me, com particular afecto, a discoteca ao ar livre e as muitas barraquinhas. Vinha-me, porém, à memória imagem diversa. Era a banda de música no coreto, brincos e despiques esganiçados, a procissão, a espetada nos braseiros e muitas pessoas que, apinhadas, subiam e desciam ruas estreitas, umas alegres, outras a cumprir o ritual.

 

A moça de cabelos de azeviche não parava de falar da festa dos Lameiros e da animação que por lá costumava existir. Eu necessitava de uma história, uma boa história, relacionada com a emigração madeirense, e que me poderia render uma nota elevada na disciplina final da licenciatura em Jornalismo. O Funchal parecia esgotado. Pelo dia, contava o bronzear. As noites tinham pouco interesse. Uma monotonia. Nem a música conseguia arrancar das cadeiras imperturbáveis bebedores. Havia casais de turistas mais folgazões, umas moças estrangeiras interessantes e as habituais da terra nas esplanadas e bares. São Vicente pareceu-me hipótese interessante. Pelo menos, ficaria a saber o que tanto entusiasmava aquelas meninas, com casa arrendada para o fim-de-semana glorioso nos Lameiros.

 

Com automóvel emprestado, lá me decidi a conhecer o arraial predilecto da juventude. Nada de especial, em princípio, pude constatar. Boa música. Muita cerveja. Grande movimento. Diversão com muitos copos, e pouco mais. De modo que decidi espreitar as mercearias e bares das redondezas. Gente mais velha. Aqui poderia estar a chave. O segredo era ouvir. Descobrir os embarcados, acercar-me deles e desencantar a cobiçada história.

 

Havia conversas exaltadas sobre a Venezuela, sem qualquer proveito. Assaltos a supermercados e fazendas, sequestros e pouco mais. Sem pronúncia castelhana, um homem já idoso, de vez em quando, lembrava que, na África do Sul, tudo era diferente. E nada mais adiantava. Fixei-me nos seus gestos e palavras. Parecia esconder qualquer coisa. O chapéu de palhinha não lhe cobria só a cabeça. Por muito que lhe perguntassem as razões da diferença, ele agarrava-se ao copo e sorvia largo gole de cerveja, sem deixar escapar qualquer explicação. Eu também bebia cerveja no canto do balcão, indiferente às conversas do grupo que me rodeava. A jovem de cabelos negros bem se esforçava por me desviar daquele posto de observação, mas, dizia-lhe baixinho, que me parecia divisar ali a ponta de uma boa história, o que ainda mais a aborrecia.

 

Fora para Jornalismo por gosto, apesar de não receber apoio consensual de familiares e amigos mais próximos. A média do 12.º ano permitia-me escolher outro curso. Prevaleceu, todavia, a primeira opção e, já quase no final da licenciatura, podia afirmar que fora correcta. Não estava, porém, habituado a trabalhar em Agosto. Aquela malfadada disciplina a isso obrigava. Julgo que o objectivo era incutir nos futuros jornalistas a ideia de que em qualquer mês se poderia fazer uma reportagem, ou, melhor, de que haveria que inventar notícias para um mês de agenda política menor. O homem, que sempre lembrava as diferenças da África do Sul, apercebeu-se da minha insistente atenção às suas enigmáticas frases soltas. De repente, deixou o grupo e dirigiu-se para o larguinho em frente da mercearia.

 

Aproveitei o momento e acerquei-me. Desconfiado, perguntou-me se era da polícia. Expliquei-lhe que estava ali por causa das amigas que me acompanhavam. Elas tinham-me convencido a conhecer a festa dos Lameiros. Verdadeiramente, o que pretendia era uma boa história sobre emigrantes, por causa do curso que frequentava, e aproveitava o tempo para ver se conseguia ouvir alguma coisa interessante. Apesar destas explicações, o homem não parava de me fazer perguntas, sendo a última sobre a minha intenção ou não de publicar essa história em algum jornal. «Não. Ainda não sou jornalista. É só um trabalho para o curso e com nomes fictícios.» Voltou a entrar na mercearia e pediu mais uma cerveja, colocando-se no mesmo lugar. Defronte, imitei-o na bebida.

 

Passado algum tempo, saí convencido de que ali nada conseguiria obter. E deambulei pelo espaço da festa até às sete, hora em que habitualmente terminava. Numa das minhas fugas ao grupo, cansado com a estridência da música, encontrei o homem das diferenças, e perguntei-lhe se ia ou não explicar-me as suas razões. Confessou, então, que não era dali. Nascera e vivia também no Funchal. Só estava nos Lameiros pelos amigos e por uma mulher, já bem velha, que nos últimos anos habitava naquele sítio, na companhia de uma filha viúva. Naquela maior aproximação, convidei-o para um encontro tranquilo no Funchal. Ele concordou: na terça-feira seguinte no bar junto à porta principal do mercado, por volta das 10 h.

 

Esperei-o pontualmente no dia aprazado. Quando chegou, já eu tomava um café na esplanada. Sentou-se e pediu também um café com leite. Foi difícil o retomar da conversa. O ambiente também não ajudava. Pessoas que entravam e saíam do mercado. O trânsito nas ruas circundantes. Turistas que fotografavam a fachada. Depois de muitos rodeios, haveria de brotar a história que me fez passar na famosa disciplina e deixou-me o resto de Agosto livre para outros devaneios:

 

«Eu fui para o Cabo ainda nem tinha 15 anos, com uns primos meus mais velhos. A gente arranjou trabalho na pesca num navio duns rapazes duma freguesia da costa de baixo. Eu não sabia pescar, nem nadar. Mas tudo se aprende. O pior é que um dos pescadores da embarcação resolveu tomar conta de mim, sem eu pedir. De tudo o que eu ganhava tinha que lhe dar metade. Às vezes, escondia o que recebia a mais, mas ele ameaçava-me e batia-me. Cada um deles tomava conta de um novato, dizia-se, e a todos iam exigindo metade dos salários. Assim, eu não conseguia amealhar nem mandar nada para a Madeira, para a minha mãe se sustentar e depositar no banco. Falavam que noutros barcos também era igual. Passaram-se cinco anos e não conseguia levantar cabeça. Ele dizia que se eu não entregasse o dinheiro ia ser perseguido, e até podiam matar-me. Um meu primo, mais chegado, tinha vivido o mesmo, mas conseguiu livrar-se do seu protector depois de uma violenta rixa. Então, enchi-me de coragem e, quando a gente estava a pescar em mar alto, dei-lhe um empurrão, abiquei-o, e até hoje ninguém mais soube dele. Foi dado por desaparecido, em acidente de trabalho. Depois mudei de embarcação, e nunca mais me fizeram uma daquelas. Carrego com isto para a cova, mas olhe que só assim consegui fazer a minha vida. E à mãe desse malvado, nos últimos anos, mando sempre entregar algum dinheiro, quando vou à festa dos Lameiros, só porque sei que ela precisa.»

 

In 12 meses no Funchal, Funchal: Funchal 500 anos, 2008, pp. 50-53.

 

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Um pé de alegra-campo

O alegra-campo enroscava-se preguiçosamente nas estacas da latada, encobrindo alguns ramos da videira de americano.

 

Ao aproximar-se da Festa, o arbusto sabia que a podoa lhe seria apontada sem piedade. Ia para a lapinha, deixando campo aberto para as cepas que, depois de acordadas pelo podão, voltariam a se estender sobre as varas de pinheiro.

 

A casa era grande, mas nela vivia apenas uma mulher com mais de oitenta anos. O filho estava na África do Sul, desde os dezasseis de idade. O marido morrera, há mais de vinte, depois de tantos anos emigrado naquele Cabo da sua desventura. Quase toda a vida estivera só.

 

Governava a fazenda com mão de ferro. Desconfiada, deitava-se e levantava-se a fazer contas, com receio de vir a ser enganada, por não saber ler. Mas o seu nome, os meses do ano e alguns números conseguia pôr no papel. Costumava ter o modelo no verso de uma gravura de calendário, sempre à mão, na gaveta do armário da cozinha. Quando precisava de passar o recibo da renda, fazia uma cópia demorada.

 

No ano em que lhe morreu o marido, não deixou de armar a lapinha. Dizia que dava azar não fazê-la. Só que não a construiu na sala, mas numa arrecadação do rés-do-chão. Dessa vez, parece que foi maior do que nos anos anteriores. A rochinha enchia por completo o quarto. Abria-se a porta, que dava para o terreiro, e de fora admirava-se o seu presépio. Eram montanhas altas cheias de musgo e de algodão branco, deslizando pelas encostas abruptas. Na planície, dezenas de pastores, rebanhos de ovelhas e lagos de fragmentos de espelhos com muitos patos. Na gruta, a cena de Belém, rodeada de passarinhos da lapinha e jarras de vidro com junquilhos e sapatinhos do seu jardim.

 

No ano seguinte, o presépio voltou à sala de visitas, que quase sempre permanecia fechada. Era grande, com uma mesa ao centro, sobre um tapete bastante colorido, e uma dúzia de cadeiras desconfortáveis a toda a volta. Nas paredes, a Ceia do Senhor e o Imaculado Coração de Maria, em molduras douradas.

 

Preferia receber amigos e familiares na cozinha, à volta da mesa, quase sempre coberta com uma toalha de quadrados vermelhos, sentados em bancos pintados de azul. Lembro-me do seu sorriso, ao retirar o cântaro de avenca do centro da mesa, dobrar a toalha, abrir a gaveta e atirar as cartas para o jogo da bisca. Eram horas de partidas renhidas.

 

Depois começou a perder a paciência, deixou de sair, incompatibilizou-se com velhos conhecidos, e cada vez estava mais só.

 

A erva crescia com abundância entre as bananeiras. Algumas latadas estavam caídas. O fundo das levadas tinha muitas camadas de terra. O alegra-campo estava maior. No Natal, já não lhe cortava um ramo tão grande. Minguava a sua presença na lapinha. Ela já não podia subir o escadote, para dependurar a verdura nos pregos da parede, sobre as montanhas de papel pintado.

 

Há cinco anos, depois do Santo Amaro, não desarmou o presépio. Retirou as searas, as cabrinhas, os sapatinhos, os junquilhos e outros enfeites verdes do seu quintal, e depois estendeu um plástico sobre a rochinha. “Para a Festa, já não tenho trabalho”, disse-me.

 

E, nos últimos quatro natais, plantou o milho e o trigo em pequenos vasos, mandou cortar um galho do seu alegra-campo e acendeu a lamparina ao Menino Jesus. Mas já não rezava o terço junto da lapinha, como era seu hábito. Sentia muito frio e o sono abeirava-se dela, a meio do segundo mistério. Metia-se cedo na cama e pedia perdão a Deus, Nosso Senhor, por já não conseguir desfiar as contas do seu rosário.

 

Morreu só, há alguns meses.

 

O filho voltou depois do enterro. Desmanchou a lapinha, vendeu os móveis. Fez obras e pintou a casa. Comprou outras mobílias e cortinados, decorou tudo ao gosto da mulher. E cortou o alegra-campo, pela raiz, porque dizia que aquele matagal matava a vinha.

Diário de Notícias, Funchal, 25 de Dezembro de 1993; Passos na Calçada, Funchal, 1998, pp. 27-29. 

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