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Posts Tagged ‘25 de Abril’

Na última Feira do Livro, foi apresentada a História do Povo da Madeira no 25 de Abril, de Raquel Varela e Luísa Barbosa Pereira, obra apoiada pela Câmara Municipal do Funchal.

Esta monografia vem na sequência de A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, de Raquel Varela (Lisboa: Bertrand, 2014), e idêntico projecto está em curso nos concelhos de Loulé, Maia e Sines.

Quando se fala de povo, há que esclarecer qual a realidade social em análise. Na «Nota Prévia», as autoras precisam de que se trata «do povo revolucionário, rebelde e resistente», concretizando:

«Daqueles que desafiaram a ordem estabelecida, questionaram o regime de colonia, fundaram movimentos, partidos e sindicatos. Ocuparam estabelecimentos para fazer creches e escolas ou lutaram por um preço justo pelo peso da cana. Organizaram periódicos. Manifestaram-se contra o desemprego, pelo salário mínimo na Madeira, realizaram eleições populares e cantaram o sonho e o quotidiano daqueles que vivem do trabalho.» (p. 13)

Na esteira de Howard Zinn (1922-2010) e o seu People’s History of the United States (1980), Chris Harman (1942-2009) (A people’s history of the world, 1999) e Eric Hobsbawm (1917-2012) e os seus estudos sobre as classes operárias, Raquel Varela, já em trabalhos anteriores, havia dedicado particular atenção aos que, habitualmente, contam com pouca ou nula representatividade na historiografia, apesar de serem protagonistas de movimentos e iniciativas populares com repercussões significativas.

Partindo deste campo conceptual de raiz marxista, as autoras de História do Povo da Madeira no 25 de Abril não têm a veleidade de uma História do 25 de Abril na Madeira, a qual, sem dúvida, implicaria outra abrangência.

Servindo-se de entrevistas, da imprensa (a pesquisa denota não ter sido exaustiva nos periódicos mencionados) e da bibliografia disponível (embora com algumas falhas notórias, como, por exemplo, a dissertação de mestrado de Lino Bernardo Calaça Martins, O Centro de Informação Popular de Machico: um pólo dinamizador da Revolução do 25 de Abril…, de 2016) vão dar especial relevo aos conflitos sociais, que ocorreram na Madeira desde Maio de 1974 a Novembro do ano seguinte.

Não deixam, porém, de dedicar atenção à situação económica e social da Madeira no período anterior ao «25 de Abril» e à adesão à Revolução. De referir ainda dois capítulos de enquadramento histórico, um sobre o «Estado Novo» e outro relativo à «Revolução dos Cravos», na mesma perspectiva ideológica.

O capítulo «Situação económico-social da Madeira pré-25 de Abril», fundamental para explicar a conflitualidade no tempo da Revolução, mostra-se, todavia, pouco esclarecedor, servindo-se frequentemente de situações que eram comuns no resto do país, anacronismos e vulgaridades, como, por exemplo, relativamente à Revolta do Leite, emigração ou à colonia. No que diz respeito a este sistema de exploração da terra, julgo que as autoras não o entenderam verdadeiramente ou então trata-se de problemas ao nível da linguagem, o que também ocorre várias vezes neste livro. Veja-se, a título de exemplo, esta afirmação, que procura explicitar ou definir o regime de colonia: «Neste modelo, os detentores de terras incultas ou necessitadas de reconversões agrícolas (senhorio) angariavam-nas a outros, não detentores de terras (colonos).» (p. 37). Ou esta: «A colonia é um sistema de exploração de terra dotada de preponderância social sem fácil paralelismo.» (Idem)

Por outro lado, a dedução infundada de que a emigração se apoiava «numa rede de traficantes que atuavam para garantir a emissão de papéis necessários à entrada legal dos madeirenses nos países de destino» (p. 36) é, para não dizer outra coisa, uma generalização inconsciente. No Arquivo Regional da Madeira, há abundante documentação sobre este assunto, para quem o quiser estudar a partir das fontes.

Os conflitos em torno da água de rega e das levadas justificaram a abertura de um subcapítulo no âmbito da situação económica e social madeirense anterior à Revolução. No entanto, a sua leitura nada acrescenta ao artigo de Gabriela Relva sobre a «Revolta das águas na Lombada da Ponta do Sol» (2012) nem a um depoimento inserto em Ecos de memórias: histórias de vida de mulheres (2013), coordenado por Guida Vieira.

Não há espaço para mais exemplos, mas a situação do povo da Madeira antes de 1974 merecia análise mais bem cuidada.

Capítulo de maior fôlego, e principal no contexto da monografia, é o quarto, dedicado ao período revolucionário, o qual se apresenta subdividido em seis subcapítulos. São aqui apresentados numerosos exemplos da conflitualidade colectiva do «25 de Abril»: comícios, manifestações, ocupações e greves. Há erros quanto a datas (por exemplo, na p. 116), mas a descrição é abundante e significativa. Faltou, porém, a análise.

Já na «Introdução» haviam sido enumerados vários acontecimentos dessa natureza, de forma deselegante, numa sequência de parágrafos sempre iniciados pela preposição «em», parecendo uma torrente de dados, na verdade, inadmissível num texto historiográfico: «Em 13 de maio, … »; «Em agosto de 1974, … »; «Em 13 de setembro, … » (p. 22); «Em dezembro, … »; «Em março, … » (p. 23); «Em abril, … »; «Em junho, … »; «Em julho, … »; «Em agosto de 1975, … » (p. 24); «Em setembro, … » (p. 25)

Estranha ou insólita é a conclusão deste livro. Tratando-se da História do Povo da Madeira no 25 de Abril, natural seria que as historiadoras concluíssem sobre o objecto da sua investigação. Mas não! Nem uma referência conclusiva ao tema que se propuseram abordar. Nada sobre a Madeira!

Intitularam, pomposamente, a conclusão de «Revolução e democracia: que democracia?». Contudo, não foi elaborada para esta edição. Trata-se de um texto de Raquel Varela, publicado em 2014, em A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, pp. 473-486, reproduzido sem a devida adaptação (veja-se a nota da p. 172) e sem referência à obra onde surgiu anteriormente.

Em suma, apesar de tudo, o livro vale pela compilação realizada, mas está longe daquele objectivo definido na «Nota prévia»:

«Não pretendemos aqui ocultar as causas explicativas do processo histórico, mas partir de uma teoria para a verificação de se ela na verdade se confirma ou não, procurando explicar essa realidade hierarquizando, numa história em construção, os fatores que contribuíram para um dado acontecimento; neste caso, a Revolução Portuguesa entre abril de 1974 e novembro de 1975 no arquipélago da Madeira.» (p. 14)

VARELA, Raquel; PEREIRA, Luísa Barbosa – História do povo da Madeira no 25 de Abril. Lisboa: Parsifal, 2017. ISBN 978-989-8760-39-5.

Funchal Notícias. 7 Junho 2017

 

https://funchalnoticias.net/2017/06/07/historia-do-povo-da-madeira-no-25-de-abril/

 

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No passado sábado, foi apresentado, na Câmara Municipal de Machico, o livro O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75, de Lino Bernardo Calaça Martins. A edição, em apreço, resultou da dissertação de Mestrado em Estudos Regionais e Locais, defendida pelo autor em Fevereiro de 2016, na Universidade da Madeira.

Com este estudo, resgata-se a memória de uma organização, que foi um pólo dinamizador do 25 de Abril em Machico, e, em particular, a de muitos homens e mulheres, que participaram activamente na Revolução, mas que, até agora, permaneciam no anonimato da História.

O Centro de Informação Popular de Machico (CIPM), fundado dias depois da Revolução, reuniu muitos machiquenses em torno dos ideais de Abril e desenvolveu numerosas iniciativas para satisfação de reivindicações populares, nomeadamente sobre a democratização do poder municipal, a extinção da colonia, a instituição de cooperativas, a alteração de condições laborais e salariais e o alojamento dos refugiados das ex-colónias portuguesas. Desempenhou ainda um papel importante no esclarecimento e politização da população e na promoção de actividades culturais e recreativas. Esta associação revolucionária enfrentou a oposição de autoridades civis, militares e religiosas, bem como de forças políticas moderadas ou conservadoras, num tempo de grandes tensões sociais e conturbadas relações de poder.

As vivências da Revolução de Abril marcaram profundamente os machiquenses e, por certo, influenciaram decisivamente o devir político do município.

Quatro razões fundamentais ditaram a escolha do objecto desta investigação. Em primeiro lugar, o facto de Bernardo Martins pretender trabalhar um tema da sua terra natal, demonstrando, uma vez mais, o afecto ao concelho de Machico, ao qual, anteriormente e por diversas vezes, já havia dedicado largos anos da sua vida nas funções de presidente da Junta de Freguesia, presidente da Câmara Municipal e deputado na Assembleia Legislativa da Madeira.

Seguidamente pesou a experiência de juventude no CIPM, cabendo-lhe assim a responsabilidade de descrever e analisar acontecimentos vividos e que a memória guardava, tarefa facilitada pelo conhecimento privilegiado, mas com responsabilidade acrescida, pois a História procura a objectividade e exige um natural distanciamento dos factos.

A terceira razão associa-se ao corpus documental, sobre o qual assentou a investigação. O autor detém abundante documentação produzida pelo CIPM ou relacionada com esta associação. Conhecia ainda materiais diversos, na posse de particulares, sobre a mesma temática e tinha acesso aos mesmos. Era, pois, chegada a altura de organizar o acervo, em causa, e estudá-lo, valorizando-o, de forma especial, como património arquivístico.

Finalmente, a necessidade de estudar os movimentos populares que eclodiram após a Revolução do 25 de Abril, por todo o país. Na Região Autónoma da Madeira, o CIPM congregou as aspirações populares dos machiquenses, em particular, mas não exclusivamente. Contribuiu de forma decisiva para a difusão dos ideais da Revolução e para a construção da cidadania democrática no concelho de Machico, com repercussões para além da sua existência, como associação popular, e com efeitos na alternância política ao nível autárquico.

Animado com estes propósitos, Bernardo Martins desenvolveu uma aturada investigação, procurando situar e analisar os principais acontecimentos no contexto da Revolução de Abril, sempre tendo em conta as várias forças políticas em confronto. O rigor e a objectividade implicaram o confronto da documentação do CIPM com outras fontes, para que o princípio do contraditório permitisse justificada interpretação dos factos históricos.

A história do 25 de Abril na Madeira ainda está por fazer. É investigação que se impõe aos historiadores. Sem o crivo da História, o que se tem editado sobre o assunto, sempre a ter em devida conta, reduz-se ao género reportagem ou memórias e, por vezes, com manifesta parcialidade ou descarado branqueamento.

Fica agora, em livro, relevante contributo para a compreensão da Revolução dos Cravos na Madeira, sobretudo no domínio dos movimentos populares, com foco no concelho de Machico, em boa hora, editado pela respectiva Câmara Municipal, tendo design gráfico de Ricardo Caldeira e fotografias de Manuel Nicolau e da imprensa da época.

Martins, Lino Bernardo Calaça – O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75. Machico: Câmara Municipal, 2017. ISBN 978-989-97206-1-9.

 

Funchal Notícias. 3 Maio 2017

O 25 de Abril em Machico

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A Liberdade

A Liberdade foi a conquista maior da Revolução do 25 de Abril, que pôs fim à ditadura.

O «Estado Novo», criado por Salazar, sobreviveu por mais de quatro décadas através de diversos mecanismos de opressão e de repressão, característicos das ditaduras, tais como a censura, a polícia política, que vigiava, perseguia, torturava e matava, os campos de concentração e presídios, a proibição de partidos políticos, o controlo apertado de associações e sindicatos, a inexistência do direito à greve e a manipulação das consciências por uma educação sujeita aos valores do regime político, uma opinião pública monocolor e uma intensa propaganda governamental.

O «25 de Abril» devolveu aos portugueses os direitos da cidadania, instaurando o sufrágio universal e a participação democrática na vida pública.

Cartaz da autoria de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992).

Passados quarenta e três anos da «Revolução dos Cravos», quase a maioria dos eleitores portugueses, lamentavelmente, rejeita a utilização da liberdade em momentos fundamentais da vida democrática.

Na verdade, as elevadas percentagens da abstenção, nos últimos actos eleitorais, denotam a demissão de numerosos cidadãos na apreciação dos projectos políticos para o seu concelho, a sua Região, o seu país ou a União Europeia. Diz-se, com ironia, que a abstenção é o maior partido. Trata-se, porém, de realidade nada saudável para a democracia. Revela bem a sua imperfeição.

Decorridos quarenta e três anos, é inadmissível a postura de tantos cidadãos que se demitem da sua responsabilidade no sufrágio, para tempos depois protestarem no «seu quintal» contra situações que lhes tocam.

A liberdade e a construção da cidadania não se devem limitar, todavia, ao tempo das eleições. Precisamos de uma participação mais frequente e activa, quer na militância em partidos e movimentos cívicos quer noutros espaços democráticos com fins diversos.

A liberdade de opinião, consciente e responsável, é para usar sempre. Contudo, ainda há muitos medos, vinganças e outros comportamentos prepotentes e impróprios de uma sociedade democrática.

Há sempre quem confunda uma opinião crítica com um ataque pessoal, mesmo que ela decorra de observação directa ou constatação pura e simples de determinado facto ou situação.

Na verdade, persistem ainda, na nossa sociedade, resquícios da ditadura do «Estado Novo».

A Justiça é cara e não funciona. O alargamento da escolarização não correspondeu à qualificação nem à promoção da cidadania. As minorias são, não raras vezes, desconsideradas. A emigração continua. A Liberdade vai sendo amordaçada com requintes estratégicos e tecnologias inovadoras. Os direitos dos trabalhadores têm vindo a ser cerceados. Há, inclusive, empresários que agridem verbal e fisicamente os trabalhadores, em especial, mulheres, e as autoridades fingem cegueira. A violência doméstica não desapareceu e parece estar a crescer, com elevado número de homicídios. A desigualdade de género permanece, em especial, quanto a salários e lugares de chefia. A maioria da população idosa vive na pobreza ou na dependência. O desrespeito por quem pensa de forma diferente manifesta-se com frequência, gerando situações de intolerância e ostracismo. E, muito grave, continuam por aí os «informadores», bufando acerca de outros cidadãos, na mira das benesses de um ditadorzinho medíocre que, por acaso, ocupa posição superior na hierarquia. Com iguais propósitos, desenfezam, a toque de caixa, bajuladores e capangas.

O radicalismo e o fanatismo provocam ataques cruéis. O terrorismo e a insegurança podem ferir ou matar a Liberdade. O populismo constitui também uma ameaça séria.

Necessitamos, pois, de valorizar a Liberdade, que a «Revolução de Abril» nos proporcionou, fazendo bom uso dela na construção de uma sociedade de cidadãos conscientes e participativos, porque o tempo de homens e mulheres cegos, surdos e mudos acabou!

Funchal Notícias. 26 Abril 1974

A Liberdade

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Ditadura… nunca mais!

 

cravo

Com rigor, não se pode denominar o «Estado Novo» de fascista. Foi um regime antidemocrático, uma ditadura conservadora, autoritária e totalitária. A Revolução do 25 de Abril pôs-lhe fim. Mas passados 39 anos, ainda encontramos em Portugal muitos resquícios do Salazarismo. Há pessoas que se proclamam democratas, alguns até se dizem socialistas, todavia agem como verdadeiros salazaristas. Ameaçam, manobram os mais fracos ou desprotegidos, ocultam documentação, não respeitam opiniões diferentes, odeiam as minorias, semeiam o medo, pretendem secar tudo o que julgam fazer-lhes sombra, a fim de se perpetuarem no poder… Não entenderam a liberdade nem a convivência democrática. Para eles, a Revolução de Abril foi apenas um trampolim para subirem na vida. Por isso, nunca é por demais lembrar o 25 de Abril. Em casa, no local de trabalho, na rua… Ditadura nunca mais!

(24 Abr. 2013)

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