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Archive for Novembro, 2009

Henrique, o Infante

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Com a chancela de A Esfera dos Livros, veio a lume, no mês passado, Henrique, o Infante, de João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e director do Centro de História de Além-Mar.

O infante D. Henrique (1394-1460) é uma das personalidades mais conhecidas da História de Portugal e com fama além-fronteiras, sobretudo pela acção desenvolvida na fase inicial dos Descobrimentos.

Sobre a vida do Infante e o seu tempo, muito já se escreveu, nem sempre com o rigor histórico desejável e, tantas vezes, apenas em função da Expansão Portuguesa. Fazia, pois, falta uma biografia de D. Henrique, assente na documentação, principalmente a Monumenta Henricina, e delineada com a preocupação de conhecer e compreender «o homem que espoletou as Descobertas, mas cuja vida não se resumiu ao perscrutar do oceano.» (p. 34). Como sublinha ainda Oliveira e Costa, este é um livro «sobre a totalidade da sua personalidade», destinado ao grande público.

Pela sua natureza, a obra, em apreço, não privilegiou, logicamente, o debate sobre as diferentes teses historiográficas a respeito do Infante e da conjuntura quatrocentista. Contudo, as opiniões, que veicula, demonstram a preocupação do autor em apresentar linhas interpretativas, em sintonia com a investigação histórica mais recente, e em destituir lugares-comuns e mitos que envolvem o Infante, em particular, e o início dos Descobrimentos, em geral.

Com um plano meticulosamente traçado, esta biografia proporciona-nos a compreensão, à luz da época, da ascensão económica, social e política do quarto filho varão legítimo do rei D. João I, em especial, a vontade de engrandecimento e a firmeza em alcançar objectivos sonhados pela sua geração.

Para João Paulo Oliveira e Costa, o Infante ultrapassou a condição de nascimento, construiu fortuna e o seu próprio destino, alterou o rumo do País e, por conseguinte, tornou-se herói nacional e figura da História da Humanidade, e isto já no século XVI.

O infante D. Henrique foi duque de Viseu, Senhor da Covilhã, governador e administrador da Ordem de Cristo, Senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, Senhor de Lagos e de Alvor… Animou-o o espírito de cruzado. Combateu em Ceuta, Tânger e Alcácer-Ceguer. Interessou-se pelo mar desconhecido e desencadeou uma Revolução Geográfica. Por sua iniciativa, abriu-se a passagem do Bojador e, ainda em sua vida, as caravelas chegaram ao arquipélago de Cabo Verde e à Serra Leoa. Participou activamente da vida política portuguesa, assumindo, com frequência, papel conciliador, norteado pelos mais altos interesses do Reino.

A leitura de Henrique, o Infante constitui um prazer, não somente pela linguagem cuidada e o estilo elegante, mas também porque a história da personalidade e da sua época é-nos revelada com precisão e clareza, por vezes num tom coloquial, diria até com certa preocupação didáctica, a fim de o leitor reter os dados essenciais e, com naturalidade, comungar o entusiasmo do autor em desvendar e compreender a personalidade biografada, sem que a frieza da História contamine, por completo, o discurso.

Registe-se, a propósito, que Oliveira e Costa considera D. Henrique «uma personagem histórica fascinante», logo declarando que não tem por ele nem simpatia nem antipatia. Compreende-se tal preocupação, anunciada de início, no contexto da objectividade almejada pelo historiador. Todavia, o seu convívio intenso com o Infante durante a pesquisa e escrita do livro, bem como o facto de este corresponder a um «sonho da juventude», como confessa, adicionaram, por certo, a esse fascínio boa pitada de simpatia, sem que, na verdade, a obra disso se ressinta.

Biografia bem estruturada e solidamente construída, Henrique, o Infante é, sem dúvida, obra de referência na bibliografia da Expansão Portuguesa.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Novembro de 2009
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