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Archive for Junho, 2007

Há 125 anos nasceu, na freguesia de Santa Luzia do concelho do Funchal, António Aurélio da Costa Ferreira, médico, antropólogo, professor e pedagogo de renome, com lugar de relevo na História da Educação em Portugal.

Filho de Francisco Joaquim da Costa Ferreira, oriundo da cidade do Porto, e de Teodolinda Augusta de Freitas Ferreira, natural de Machico, António Aurélio da Costa Ferreira nasceu a 18 de Janeiro de 1879, sendo baptizado na igreja paroquial de Santa Luzia a 17 do mês seguinte.

Concluiu a instrução primária em Viana do Castelo. Contudo, fez o curso liceal na cidade onde nasceu. Durante este período da sua vida, recebeu forte influência, quanto ao gosto pela leitura e escrita, do seu tio materno, João Joaquim de Freitas, distinto professor de Literatura e Língua Portuguesa no nosso Liceu e bibliotecário da Biblioteca Municipal do Funchal.

Em 1894, António Aurélio matriculou-se na Universidade de Coimbra para cursar Filosofia, tendo-se licenciado em 1899. No ano seguinte, inscreveu-se em Medicina, curso que terminou em 1905. Recebeu vários prémios nas duas faculdades. Como médico, estagiou em Paris, Bruxelas e Lisboa.

Durante a sua permanência em Coimbra, colaborou em diversas publicações periódicas, com trabalhos científicos ou artigos de intervenção cívica. Foi também nesta cidade que aderiu ao ideal republicano, do qual seria um militante activo e convicto.

Não se pode, todavia, compreender a actuação de Costa Ferreira enquanto cidadão, sem associar a sua formação maçónica à condição de republicano fervoroso.

Como vereador republicano na Câmara Municipal de Lisboa, de 1908 a 1911, defendeu várias medidas no âmbito da Educação, Cultura, Desporto Escolar e assistência médica e social às crianças desfavorecidas do concelho.

No âmbito da actividade política, é de salientar ainda a sua eleição como deputado em Agosto de 1910, por Setúbal, e em 1911, pelo círculo do Funchal. Exerceu também funções de ministro do Fomento, de Junho de 1912 a Janeiro de 1913. No entanto, esta passagem pelo governo corresponde à sua desilusão com a política activa. Afirmou mesmo: «Fui ministro. Foi esta a maior honra que alcancei, o maior sacrifício que fiz e o maior desgosto que até hoje experimentei. Hoje, em face do que para aí vai, não me contento já com não voltar a ser ministro; não quero ser político.»

Já também um pouco decepcionado com a actividade que desenvolvia, Costa Ferreira aceitou, em 1922, o convite de Brito Camacho para uma missão de estudos antropológicos em Moçambique. Partiu de Lisboa com destino ao Funchal, tendo daqui embarcado para Lourenço Marques. Veio, porém, a suicidar-se nesta cidade a 15 de Julho.

Em sua homenagem, a Câmara Municipal do Funchal atribuiu, em Setembro de 1922, o seu nome à Rua do Carmo. Todavia, passados alguns anos esta artéria citadina retomou a antiga designação.

Apesar de morrer com 43 anos de idade, António Aurélio da Costa Ferreira deixou-nos uma vastíssima obra em vários domínios do conhecimento, desde a literatura à antropologia e à pedagogia.

Como educador, desempenhou um papel importante na direcção da Casa Pia de Lisboa, na formação de professores, na reabilitação e integração de crianças com necessidades educativas especiais, na promoção da laicização do Ensino e na divulgação do movimento da «Escola Nova» em Portugal.

Nomeado para director da Casa Pia de Lisboa em Março de 1911, Costa Ferreira norteou a sua actuação dentro dos propósitos da «Escola Nova», concedendo plena liberdade às crianças e encaminhando-as para as artes e ofícios conforme as aptidões demonstradas. Incentivou igualmente as aulas de trabalhos manuais, música e desporto.

A propósito, registe-se o que escreveu no jornal O Tempo, de 25 de Março de 1911: «Não é só útil aquele ensino que visa a fornecer conhecimentos de imediata aplicação.» Pretendia, por conseguinte, «criar espírito científico, cultivar faculdades e aptidões, ensinar a observar, a experimentar, a raciocinar, fomentar o espírito crítico, criar olhos para verem, mãos para trabalharem, cérebros para pensarem, mas por forma que cérebros, olhos e mãos caminhem juntos e livremente.»

No âmbito da formação de professores, leccionou Pedologia, Higiene Geral e Higiene Escolar na Escola Normal de Lisboa, a partir de 1915. Nos diversos estudos que dedicou à psicopedagogia, com vista à formação de professores e educadores de crianças normais e deficientes, denotam-se influências muito fortes de Édouard Claparède (1873-1940), Alfred Binet (1857-1911), Ovide Decroly (1871-1932) e Maria Montessori (1870-1952). Como, de resto, não lhe são alheias as ideias de Kant (1724-1804) e Pestalozzi (1746-1827) sobre educação, designadamente na necessidade de desenvolver todas as capacidades do educando e na preparação que a escola deve dar para a intervenção do indivíduo num futuro melhor da humanidade.

Costa Ferreira entendia que o tempo do mestre-escola estava ultrapassado. Já não bastava ensinar a ler, escrever e contar. O futuro professor deveria, por isso, possuir conhecimentos sobre Pedologia, Higiene Escolar, Trabalhos Manuais e Ginástica. A individualização do ensino e a importância do desenvolvimento dos sentidos mereceram também a sua atenção.

Por outro lado, há que referir a sua dedicação às crianças com necessidades educativas especiais, principalmente na Casa Pia de Lisboa. Desenvolveu, assim, vários esforços conducentes à reabilitação, ensino e integração social dos, então, designados por «anormais pedagógicos», gagos e surdos-mudos. Para os «anormais pedagógicos», criou, em 1912, a Colónia de S. Bernardino, em Atouguia da Baleia, próximo de Peniche. No ano seguinte, dedicou-se ao curso de formação de professores para surdos-mudos. Em 1915, funda o Instituto Médico-Pedagógico, na freguesia de Santa Isabel. Este Instituto enquadra-se no projecto de desenvolvimento de uma pedagogia científica em Portugal, no âmbito do movimento da «Educação Nova», pela qual também pugnavam António Sérgio, Adolfo Lima, Álvaro Viana de Lemos, Joaquim Tomás e Faria de Vasconcelos, entre outros.

Em sua homenagem, a partir de 1929, o Instituto Médico-Pedagógico da Casa Pia de Lisboa recebeu a denominação de Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, seu fundador. Igualmente, o seu nome está associado ao Instituto de Inovação Educacional.

Nome porventura ignorado na sua terra natal, verdade é que este madeirense sobressai entre a plêiade de educadores republicanos que se empenharam na laicização do ensino e na divulgação da pedagogia científica e dos ideais da «Escola Nova». Não podia, pois, passar despercebido, nesta ilha, o 125.º aniversário do nascimento de António Aurélio da Costa Ferreira, o pedagogo que, no início do século XX, preconizou que nenhuma criança, por maiores dificuldades que apresente, poderá deixar de ter acesso à educação.

               

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 18 de Janeiro de 2004

Cópias digitais de obras de António Aurélio da Costa Ferreira:

FERREIRA, António Aurélio da Costa – Algumas lições de psicologia e pedologia. Lisboa: Lumen, [1920].

http://purl.pt/6386

FERREIRA, António Aurélio da Costa – História natural da criança: duas lições. Lisboa: Instituto Médico-Pedagógico da Casa Pia de Lisboa, 1922.

http://www.sg.min-edu.pt/fotos/editor2/RDE/OR/FerreiraAAC_Hist%20natural/index.html#/1/

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Basta percorrer as imediações de um estabelecimento escolar e registar algumas conversas de rua, para ficarmos com uma ideia de como alguns pais se referem aos professores dos seus filhos, na presença destes, a caminho ou de regresso da escola. Por vezes, não se abstêm de termos injuriosos e de desveladas ameaças.

Não querendo parecer saudosista, anoto a diferença do que se passava há mais de quatro décadas. Minha mãe perguntava: “O que é que o Senhor Professor mandou hoje como trabalho de casa?”. Actualmente, ouço com frequência: “O que é que ela mandou para casa?”. “Isso é muita coisa, ela tá louca ou que é? Tu não vais fazer o que ela quer e, amanhã, ela vai ouvir”.

A diferença de tratamento entre o “meu tempo” e os dias de hoje, manifestada neste exemplo real, demonstra bem a pouca consideração que, presentemente, muitos pais dedicam aos professores dos seus filhos e como a revelam em público, sem qualquer pudor.

É claro que não se deve generalizar, nem tão-pouco pensar que este desrespeito existe somente do lado dos pais ou encarregados da educação. Também há professores que dão azo a situações desagradáveis e que tratam os pais ou encarregados de educação com reduzido apreço. Já a alguns ouvi dizer que “os pais são a parte pior da escola”.

Para além de uma disseminada falta de educação, estes exemplos ilustram e introduzem um tema bem complexo. Na verdade, verifica-se uma crise de confiança na Escola por parte do público que, não raras vezes, a responsabiliza pela generalização da mediocridade.

O Ministério da Educação tem consciência deste problema e, por diversas ocasiões, já o referiu. Por exemplo, no Despacho de 14 de Fevereiro de 2006, a Senhora Ministra da Educação afirmou que a avaliação aferida, no final dos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, “destina-se a avaliar o desenvolvimento do currículo nacional e a aquisição pelos alunos do nível de desenvolvimento das competências essenciais e estruturantes definidas para os respectivos ciclos, com o propósito de contribuir para a tomada de decisões, no sentido de melhorar a qualidade das aprendizagens e reforçar a confiança social no sistema educativo.”

Compreende-se a boa intenção, mas temos dúvidas sobre o pretendido reforço da confiança social no sistema educativo através das provas de aferição. Acreditamos que estas provas têm alguma utilidade, sobretudo, pelos estudos que possibilitam, pela divulgação pública de resultados e pela desejável tomada de decisões face ao previsível insucesso. Mas a comunidade depositará mais confiança na Escola após conhecer as médias alcançadas?

Por outro lado, há que analisar, com rigor, estas provas de aferição. Tomemos, como exemplo, a de Língua Portuguesa para o 1.º ciclo do Ensino Básico. A prova está bem estruturada, mas é acompanhada de excessivas instruções que podem confundir o aluno. Até para fazer o rascunho, é enunciado o material necessário: lápis, borracha e apara-lápis.

O texto, apresentado na 1.ª parte e retirado da peça de teatro ‘Enquanto a cidade dorme’, de Álvaro Magalhães, é, essencialmente, um produto da cultura urbana. Não se pensou em seleccionar um texto que fosse, facilmente, compreendido tanto por crianças dos meios urbanos como dos meios rurais e as motivasse de igual modo.

O excerto escolhido da peça de Álvaro Magalhães apresenta a cena em que uma menina se prepara para dormir e é surpreendida pelo anão Martim. Ora, num tempo em que tanto se fala na inclusão, esta fabulosa personagem pode incomodar, tanto no texto, cuja interpretação se exigia, como na continuação do diálogo entre a Ana e o anão, que os alunos tinham de construir na 2.ª parte. Imagine-se como se sentirá uma criança, que apresenta nanismo, sujeita a esta prova?

O texto contém ainda vocábulos que, ao que julgo, a maioria dos alunos desconhece. Conhecerá um aluno do 4.º ano de escolaridade a palavra “sílfide”? É verdade que não há nenhuma questão que envolva tal termo da mitologia céltica e germânica da Idade Média, mas, num texto de uma prova de aferição deste nível, o significado de todos os vocábulos deveria ser, naturalmente, identificado pelo aluno ou, então, colocava-se no final um vocabulário, como noutros tempos.

Ainda que ao de leve, não podemos também deixar de abordar os critérios de classificação propostos. É incrível a desvalorização da correcção ortográfica na 1.ª parte da prova, com excepção apenas do item 10, e, até neste, com grande benevolência. Somente no diálogo, solicitado na 2.ª parte, são contabilizados os erros ortográficos.

Em suma, não acredito que as provas de aferição venham a reforçar a confiança social no sistema educativo português. Com estas provas, o Estado não exige nem responsabiliza. Limita-se a aferir, a retocar ou remendar, sem coragem para construir uma Escola de qualidade que, realmente, motive confiança.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Junho de 2007

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