Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Agosto, 2008

      

        

 
No 500.º aniversário da elevação do Funchal à categoria de cidade, transcrevemos quatro estrofes de dois poemas épicos sobre a ilha da Madeira Insulana e Zargueida –, obras que, em nosso entender, merecem ser reeditadas, com estudos introdutórios e actualização da grafia.

 

Descobre Zargo um vale ameno e fundo,

Por onde três ribeiras serpejavam, 

D’arvoredos despido e só fecundo

Em funchos, que ali fertéis abundavam:

Os hálitos fragrantes do jucundo

Funchoso vale os ares perfumavam;

Montes em meio círculo frondosos

Lhe serviam de guarda numerosos.

 

Deu Zargo ao vale do Funchal o nome

E num lado daquele porto amigo

Porque de noite então descanso tome,

De dois grandes ilhéus buscou o abrigo:

Ali a noite plácido consome,

Sem desgosto, sem susto, sem perigo,

E quando apenas vinha amanhecendo,

Já novos mares Zargo ia fendendo.

 

(Francisco de Paula Medina e Vasconcelos, Zargueida…, Lisboa, 1806, C. X, XXX-XXXI)

 

Em seu tempo ditoso, o ceptro grave

Tomará Manuel, da Lusitânia,

A Musa merecendo mais suave,

Que já com canto honrou aos Pais da Albânia,

Cuja memória, o Lete  nunca lave,

Nem dos Lótus alcance a dura insânia,

Pois Numa, e Salomão, foi em a terra,

E um César e David na justa guerra.

 

Este, pelos serviços sinalados

Dos Capitães da Ilha recebidos,

Se bem com seu amor leal pagados,

E com largas mercês agradecidos,

Depois dos forais dar mais confirmados

Antes do Quinto Afonso concedidos,

Por levantar-lhe o grau na dignidade

Da vila do Funchal fará cidade.

 

(Manoel Thomas, Insvlana, Em Amberes: Em casa de Ioam Mevrsio Impressor, 1635, L. VI, 102-103)

 

 

 

Read Full Post »

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em S. Vicente, Madeira, a 22 de Setembro de 1921.

 

Morreu no Funchal, em 11 de Agosto de 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

      

Vai não com mãos de fadas

a bailar quimeras…

Que outra voz

te anime o leme;

que outra vela

te guarde a saudade.

 

        António Aragão, Arquipélago, Funchal, 1952, p. 15. 

 

 

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa; especialização em Biblioteconomia e Arquivística pela Universidade de Coimbra.

Historiador, poeta, romancista, contista, dramaturgo e pintor.

Director do Arquivo Distrital do Funchal (Arquivo Regional da Madeira) de 1969 a 1986.

 

Preservação do Património Cultural: um alerta de 1979 repetido em 1987

 

E se a cidade do Funchal é vítima impotente duma espécie de destruição sistemática, que devemos dizer também do que se passa em toda a Madeira? Realmente, se o património urbano do Funchal posterior à época manuelina (séculos XVII e XVIII – cidade do vinho), já profundamente delapidado, caminha para uma breve extinção, outro tanto devemos apregoar quanto às construções tradicionais da Madeira e Porto Santo, as quais constituem as peças mais valiosas do património rural insular e que nos nossos dias rapidamente estão morrendo por toda a parte.

 

Qualquer dia nada resta. Consumou-se um crime. Aliás um duplo crime. Matou-se uma cultura e, conjuntamente, o homem que a concebeu e viveu – esse homem europeu que, numa agigantada ocasião da sua história, levantou a primeira cidade portuguesa fora da Europa, nas distanciadas paragens do Mar Atlântico.

 

Para a História do Funchal, Funchal, 1987, p. 284.

 

OBRAS PRINCIPAIS

 

HISTÓRIA

Pelourinhos da Madeira, Funchal, 1959.

O Museu da Quinta das Cruzes, Funchal, 1970.

Para a História do Funchal: pequenos passos da sua memória, Funchal, 1979.

A Madeira vista por estrangeiros. Funchal, 1981.

As armas da cidade do Funchal no curso da sua História, Funchal, 1984

Para a História do Funchal, Funchal, 1987 (2.ª ed.).

O espírito do lugar: a cidade do Funchal, Lisboa, 1992.

 

Lançou, em 1972, a Série Documental do boletim Arquivo Histórico da Madeira, editado pelo Arquivo Distrital do Funchal, a fim de divulgar fontes para a história da Madeira.

 

LITERATURA

 

Poema primeiro, Covilhã, 1962.

Roma nce de Iza Mor f ismo, in Poesia experimental 1: 1.º caderno antológico (org. António Aragão e Herberto Helder), Lisboa, 1964.

Mirakaum em 5 episódios in Poesia experimental 2: 2.º caderno antológico (org. António Aragão, E. M. de Melo e Castro e Herberto Helder), 1966 

Folhema 1, Funchal, 1966.

Folhema 2, Funchal, 1966.

Mais exacta mente p(r)o(bl)emas, Funchal, 1968.

Poema azul e branco, Funchal, 1970.

Poema vermelho e branco, Funchal, 1971.

um buraco na boca: romance, Funchal, 1971.

Os Bancos, Setúbal, 1975.

Metanemas, Funchal, 1981.

Desastre nu: peça em quatro episódios, Lisboa, 1981 (2.º Prémio do Concurso de Peças de Teatro Inéditas – 1980, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura).

Pátria, Couves, Deus, etc., Lisboa, 1982.

Textos do Abocalipse, Lisboa, 1992.

Pátria, couves, Deus, etc. com tesão, política, detergentes, etc., Lisboa, 1993

 

Em 1956, organizou o caderno literário, Búzio, onde colaboraram Edmundo Bettencourt, David Mourão-Ferreira, Eurico de Sousa, Esther de Lemos, Herberto Helder, Jorge Sumares e J. Escada, além do próprio António Aragão.  

 

ANTOLOGIAS

Arquipélago, Funchal, 1952.

Musa Insular (poetas da Madeira) / Luís Marino, Funchal, 1959.

Antologia da poesia concreta / José Alberto Marques e E. M. de Melo e Castro, Lisboa, 1973.

O Natal na voz dos poetas madeirenses / José António Gonçalves, Funchal, 1989.

Narrativa Literária de Autores da Madeira do Século XX: antologia / selecção de textos, prefácio e notas de Nelson Veríssimo, Funchal, 1990.

Narrativas contemporâneas da Madeira. Récits contemporains de Madère / selecção de textos, choix des textes, Thierry Proença dos Santos, Funchal, 1997.

Contos Madeirenses / org. e nota introdutória de Nelson Veríssimo, Porto, 2005.

 

ETNOGRAFIA

As recolhas de António Aragão e Artur Andrade, com a colaboração de Jorge Valdemar Guerra e Luís Alberto Silva, nos anos de 1972 e 1973, deram origem a diversos discos editados pela DRAC (duplo LP em 1982) ou com o apoio deste departamento governamental (seis CD, 1996 e 1998). Constituem, sem dúvida, significativos contributos para o estudo da cultura popular tradicional madeirense.

 

PATRIMÓNIO CULTURAL

Delegado dos Museus e Monumentos Nacionais na Madeira.

Membro da Comissão de Arte e Arqueologia da Câmara Municipal do Funchal.

Elaborou o Estudo de Prospecção e Defesa da Paisagem Urbana do Funchal, 1966-1967, e, a partir de 1969,  os Inventários Artísticos dos concelhos de Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta, a pedido da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Coordenador da exposição Funchal: ontem e hoje, Museu de Arte Sacra, Funchal, 1980.

Em 1956, esteve ligado à instalação do Jardim Arqueológico do Museu da Quinta das Cruzes e, em 1961, dirigiu as escavações arqueológicas do local onde se ergueu o Convento Franciscano de Nossa Senhora da Piedade, em Santa Cruz.

Procedeu também a levantamentos de moinhos do Porto Santo e de espécimes da arquitectura tradicional do arquipélago madeirense, tendo em vista a obra que preparava: Arquitectura Rural da Madeira e Porto Santo.

 

BIBLIOGRAFIA PASSIVA

DIONÍSIO, F. P. (1997). O experimentalismo em António Aragão. Islenha, n.º 20, Funchal, pp. 12-20.

GUERRA, J. V. (2009). Dr. António Aragão Mendes Correia (1921-2008). In BARROS, F., coord. Legados para a História: um agradecimento. Doações ao Arquivo Regional da Madeira de 2005 a 2008. Funchal: SREC-DRAC, pp. 28-33.

Margem 2, n.º 28, Funchal, 2011 (número inteiramente dedicado a António Aragão, coordenado por Nelson Veríssimo)

RODRIGUES, A. (1981, Dez.). Lendo António Aragão: um buraco na boca. Margem I, Funchal.

 

 

Read Full Post »

 

 

No contexto das guerras napoleónicas, desembarcaram, por duas vezes, no Funchal, forças militares britânicas, a fim de tomarem a ilha da Madeira. A primeira ocupação ocorreu de Julho de 1801 a Janeiro seguinte. A segunda iniciou-se a 24 de Dezembro de 1807 e terminou no princípio de Outubro de 1814. Nos primeiros três meses da segunda ocupação, a Madeira ficou sob o domínio britânico. Jorge III, rei da Grã-Bretanha e da Irlanda, era então soberano dos madeirenses e a bandeira britânica achava-se içada em todas as fortalezas.

 

A aluvião de 9 Outubro de 1803 foi uma grande calamidade para a cidade. Para além de mais de duas centenas de mortos, numerosos edifícios arruinados, incalculáveis bens levados pelas torrentes, pontes e ruas destruídas provocaram grandes problemas aos funchalenses.

 

Na sequência desta catástrofe, procedeu-se ao encanamento das três ribeiras do Funchal, obra fundamental para a cidade, há muito pretendida, mas executada pela determinação do Brigadeiro Reynaldo Oudinot, enviado para a ilha, por Decreto de 17 de Dezembro de 1803, com a missão de dirigir os trabalhos de recuperação do tecido urbano e de prevenir as habituais inundações.

 

Em 1820, triunfou a Revolução Liberal em Portugal. Os funchalenses saíram à rua, para manifestar a sua adesão ao liberalismo, somente a 28 de Janeiro do ano seguinte.

 

A liberdade proporcionou a publicação do primeiro jornal madeirense, O Patriota Funchalense, importante veículo de expressão e de formação da opinião pública, entre 1821 e 1823. A imprensa revelou-se essencial para o desenvolvimento de uma consciência madeirense que, ao longo do séc. XIX, contestou fortemente o Poder Central, pouco motivado para o progresso do arquipélago e quase sempre surdo às principais reivindicações insulares. A Pátria era, frequentemente, alcunhada de «madrasta». O insistente empenho, na resolução dos principais problemas dos ilhéus, originará o movimento autonomista, entre nós, fruto de reduzida reflexão teórica, mas eivado de forte sentido pragmático. 

 

Após a implantação definitiva do liberalismo em 1834, assistiu-se à promoção da instrução pública elementar, com a criação de escolas municipais e do Estado, e ao desenvolvimento de estudos mais avançados, através da Escola Médico-Cirúrgica do Funchal (1837), do Liceu (1837) e da Escola Industrial (1889). Surgiu também o ensino público para o sexo feminino. Em 1855, a Câmara Municipal do Funchal tinha a seu cargo onze escolas de meninas, havendo ainda, para o mesmo género, um outro estabelecimento público na cidade, a expensas do Estado.

 

A economia madeirense, por meados do século, enfrentava sérias dificuldades. Verificou-se, na década de vinte, uma contracção do mercado consumidor do vinho da Madeira. Mais tarde, as pragas do oídio (1852) e da filoxera (1872) afectaram gravemente a economia vitivinícola, gerando, por conseguinte, considerável aumento da emigração.  

 

Com o fim de activar a economia, reintroduziu-se a cana sacarina, para produção de açúcar e destilação de aguardente, aplicando-se novas tecnologias nos engenhos. A Fabrica do Torreão, fundada em 1856 por William Hinton, constitui o exemplo mais representativo de um estabelecimento industrial no Funchal, tendo sobrevivido até 1986.

 

Inovação, igualmente associada à Revolução Industrial, foi o Caminho-de-Ferro do Monte, inaugurado a 16 de Julho de 1893 (1.º troço: Pombal – Levada de St.ª Luzia) e desactivado em 1943. O «comboio do Monte» revelou-se, durante muitos anos, atracção turística útil e símbolo do progresso nos transportes da cidade.

 

Em Oitocentos, a Madeira tornou-se reputada estação sanatorial, apesar de não possuir clima favorável para doenças pulmonares. Ao Funchal, acorreram numerosos forasteiros, buscando a almejada saúde, belezas naturais da «Flor do Oceano» ou novas espécies para a ciência. 


Para servir os navios, que faziam escala no porto do Funchal, e promover o turismo e o comércio, iniciou-se, em 1885, a ligação entre o ilhéu de N.ª Sr.ª da Conceição e o de S. José, conhecido também por ilhéu da Pontinha, porque, desde a segunda metade do século XVIII, estava unido a terra através de uma muralha, formando um porto de abrigo. Devido a estragos causados por temporais e avarias, continuaram obras de reparação e ampliação do molhe da Pontinha até 1897.
 


Na década de quarenta do século XIX, graves episódios de intolerância mancharam a reputação do Funchal cosmopolita e hospitaleiro, onde, habitualmente, conviviam, de forma pacífica, cidadãos de diferentes confissões religiosas. As autoridades e a Igreja Católica opuseram-se à acção do médico protestante escocês, Robert Reid Kalley (1809-1888), e hostilizaram os seus seguidores, obrigando-os a sair da ilha.
 


Kalley desenvolvera meritória acção filantrópica e pedagógica, tendo, inclusivamente, fundado várias escolas de primeiras letras. Todavia, as suas preocupações com a alfabetização e o bem-estar das populações, associadas ao incentivo da leitura da Bíblia e às pregações sobre matérias religiosas, enquadravam-se num projecto, não consentido, de difusão e implantação da fé protestante nesta ilha.
 


Finalmente, é de mencionar que, na década de oitenta, se construiu o Teatro Municipal, primeiramente denominado de D. Maria Pia, e hoje conhecido como de Baltasar Dias, em homenagem ao dramaturgo madeirense do século XVI.
 

 

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Agosto de 2008 

(Reproduz-se aqui a versão integral do texto; a enviada para o DN foi reduzida por exceder o número recomendado de caracteres)
 
 
 
 
 
 

 

Read Full Post »