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Posts Tagged ‘Escultura’

A «Sereia» da marina do Funchal poderá vir a ser deslocada para a Praça do Povo (Funchal Notícias, 13-03-2017). O bronze de Ricardo Velosa já lá está há cerca de vinte e oito anos, bem assente sobre um bloco de cantaria rija. Cansada daquelas vistas, a «Sereia», segundo se diz, anseia por outros horizontes.

Se ocorrer tal mudança, será apenas mais uma das muitas andanças das esculturas do Funchal. Senão, vejamos.

No Cemitério de Nossa Senhora das Angústias, o «Anjo» veio do antigo cemitério, com a mesma denominação, que se localizava onde hoje é o Parque de Santa Catarina. De igual proveniência é também o «Monumento aos mortos na manhã de 3 de Dezembro de 1916», que se encontra à entrada do cemitério de São Martinho. Ambas as esculturas são da autoria de Francisco Franco.

Os bustos do conde de Canavial e de João Fernandes Vieira foram, de início, colocados na Avenida Arriaga. Ambos mudaram de lugar em Dezembro de 1932. O primeiro para o Campo da Barca e o segundo para o Jardim Municipal.

Em 1941, a «Leda e o Cisne» veio do Mercado D. Pedro V para o átrio da Câmara Municipal do Funchal, onde ainda hoje poderá ser visitada.

Semeador. Escultura da autoria de Francisco Franco. 1923. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

O «Semeador», de Francisco Franco, foi inaugurado na Praça de Tenerife em Dezembro de 1936. Quase trinta anos depois, passou para a entrada do edifício da Junta Geral, na Avenida Zarco. Em 1989, seguiu para o Parque de Santa Catarina e, nos dias de hoje, está num jardim da Câmara Municipal do Funchal, junto à Rua Padre Gonçalves da Câmara. Como a actual localização em nada dignifica esta belíssima escultura, provavelmente também será um dia transferida para um sítio mais adequado.

Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Duas outras esculturas de Franco também se deslocaram. O «Aviador», em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que, em 1921, realizaram, com sucesso, a primeira travessia aérea entre Lisboa e a Madeira, estava no Jardim Municipal e transitou para o Parque de Santa Catarina. O busto de Henrique Vieira de Castro deixou o Hospital dos Marmeleiros e encontra-se no Museu Henrique e Francisco Franco.

A alegoria à Autonomia da Madeira, de Ricardo Velosa, inaugurada em 1987 junto ao Aeroporto de Santa Catarina, em Santa Cruz, foi transferida em 1990 para a Praça da Autonomia, no Funchal. As obras de junção das fozes das ribeiras de Santa Luzia e João Gomes implicaram o seu apeamento.

O monumento à Revolta da Madeira, do mesmo escultor, deixou a Estrada da Liberdade, na zona de São Martinho, e veio para o Largo Charles, conde de Lambert.

A escultura alegórica à Paz e Liberdade, de Manuela Aranha, esteve provisoriamente na Avenida do Mar, sendo, dois anos depois, deslocada para o Largo da Paz, no início da Rua Dr. Pita.

João Paulo II. Estátua da autoria de Lagoa Henriques. 1995. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

A estátua do papa João Paulo II, de Lagoa Henriques, foi inaugurada em 1995 na Rua António José de Almeida. Presentemente está no adro da Sé do Funchal. Mas a mudança de local nada adiantou. A desproporção intencional da mão direita exige um plinto mais alto, o que não é possível nem adequado junto à catedral.

Mais recentemente, transferiu-se o monumento de homenagem ao combatente madeirense no Ultramar, da mata da Nazaré, para junto da entrada do Regimento de Guarnição n.º 3, na Rua dos Estados Unidos da América.

Haveria mais, mas, por agora, ficam estes exemplos para ilustrar a «dança das esculturas» no Funchal. Algumas mudaram de local com benefícios para o observador e, naturalmente, para a arte pública. Outras nem por isso. Algumas transferências foram inevitáveis, face à evolução da malha urbana. Outras não.

Melhor seria ponderar o lugar, antes da aquisição. Até porque o escultor, no seu acto criativo, tem também em mente o espaço para o qual se destina a sua obra.

Uma certeza, porém, nos resta: todas as deslocações têm custos. De modo que convém pensar um pouco na altura certa. Por outras palavras: impõe-se o planeamento urbano.

Funchal Notícias. 22 Março 2017

As esculturas «andam»?

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Esculturas há muitas…!

Na Madeira, existe abundante escultura nas praças, rotundas, largos, ruas, jardins e recantos. Há excelentes peças escultóricas, mas também um significativo número sem qualidade estética para ocupar o espaço público. Por outro lado, algumas não se adequam ao sítio onde foram colocadas.

Importa, por conseguinte, repensar a arte pública na Região. Questão ainda mais pertinente quando envolve o dinheiro dos contribuintes.

O concelho do Porto do Moniz prepara-se para, em breve, exibir uma escultura alusiva ao combatente na guerra colonial, homenageando, em particular, os munícipes que cumpriram missões no Ultramar.

Se se trata de encomenda directa ao escultor que, no entender da Câmara Municipal, reunia melhores condições para executar tal projecto, parece-me que teria sido mais vantajoso um concurso público, isto independentemente do currículo do artista em causa.

Durante vários anos, foi sempre contratado Ricardo Velosa para as esculturas que o Governo Regional, autarquias e outras organizações próximas do PSD pretendiam promover. Até se chegou a falar no «escultor oficial» da dita «Madeira Nova». Recorde-se, entre outros, os seguintes exemplos: Autonomia (1987); Sereia (1989); Turista (1989); Sá Carneiro (1990); D. Francisco Santana (1991); Revolta da Madeira (1991); Carreiro do Monte (1992); Júlio Dinis (1993); homenagem aos que colaboraram no desenvolvimento do sector da construção civil e obras públicas nos últimos anos na RAM, o popular “Enforcado” (2004).

Registe-se que a escultura alusiva à Revolta da Madeira foi objecto de concurso público, tendo o júri, para o efeito nomeado, atribuído o primeiro prémio ao projecto do escultor José Manuel da Silva Gomes. No entanto, o Governo Regional desautorizou o júri e aprovou o de Ricardo Velosa, que não fora seleccionado.

Se, nos finais dos anos oitenta do século passado, não foi respeitada a deliberação de um júri de um concurso público, fazendo o Governo Regional, através de uma ardilosa alínea do respectivo regulamento, valer a sua opção, não sei se estética ou de outra natureza, em pleno século XXI, parece ainda não constituir prática um processo selectivo para peças escultóricas no espaço público.

Assim tudo aparenta depender da vontade de quem manda e paga. Seria procedimento indiscutível caso a encomenda fosse de um particular e se destinasse a espaço privado. Tratando-se de espaço público e verbas do erário, o questionamento tem toda a razão de ser.

Por agora, interessa somente o assunto das esculturas em espaço público. Não o seu custo. Independentemente de tudo o mais, reconheça-se o direito de alguém não gostar da conspurcação da paisagem com esculturas de má qualidade e de publicamente manifestar indignação.

Escultura dedicada aos produtores de sidra. Santo da Serra, Santa Cruz, Madeira.

Os autores dessas «infelicidades» sentem-se satisfeitos ao realizá-las e, por vezes, contentes ao oferecê-las à freguesia ou concelho. Pois bem, continuem o seu passatempo ou terapia, mas coloquem o fruto do seu «talento» nas suas casas e, de preferência, sem vista do exterior.

Os largos e as rotundas ficam mais bem ornamentados com um bonito e cuidado jardim do que com uns arremedos escultóricos.

A propósito de rotunda, refira-se a de São Martinho, frente ao cemitério de Nossa Senhora das Angústias, onde insensatamente foi colocado, já há alguns anos, o busto do padre Eleutério Caldeira (1913-1964).

Busto do padre Eleutério Caldeira. Rotunda do Cemitério, São Martinho, Funchal. Foto: Rui Marote, Funchal Notícias.

Manda o bom senso e a educação visual que uma escultura, numa rotunda, tenha leitura de todos os ângulos, o que um busto, obviamente, não possibilita.

Já que falamos nesta freguesia, recorde-se o insólito projecto de uma escultura dedicada a São Martinho, cuja maqueta, da autoria de Ricardo Velosa, esteve exposta na Igreja e na Junta de Freguesia há cerca de dois anos, tendo em vista a angariação de fundos para a sua execução. Trata-se de uma iniciativa de um grupo de cidadãos. Agora imagine-se que cada freguesia resolvia erguer uma estátua do seu orago…! No tempo actual, julgo que luxos desta natureza são perfeitamente dispensáveis, principalmente quando a escultura do santo, que o templo abriga, é de qualidade superior à escultura pretendida.

A arte nos espaços de livre acesso merece discussão pública. Não deve depender, exclusivamente, do gosto de autarcas e governantes.

Na verdade, as manifestações de arte pública contribuem para o embelezamento urbanístico, mas constituem também um indicador do grau civilizacional e poderão concorrer para a afirmação da identidade cultural.

Funchal Notícias. 8 Março 2017

Esculturas há muitas…!

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