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Archive for Maio, 2010

Ainda não completamente acordado, e já leio que  Luís Calisto se demitira da direcção do Diário de Notícias.

Na última página está tudo explicado. Os historiadores do futuro terão de ler essa derradeira e triste página do DN, se quiserem compreender a Madeira de hoje.

Lamento a saída de Luís Calisto, um jornalista competente, corajoso e que escreve muito bem. Um jornalista que trouxe  ao DN a força renovada do poder das palavras.

Mas compreendo a sua decisão… Por vezes, mais vale bater a porta…

Houve tanto ruído à volta da saída de Manuela Moura Guedes daquele famigerado jornal “nacional”  das sextas na  TVI.  Quem se interessará pelo “caso Diário de Notícias“?

A saída de Luís Calisto não representa uma  simples demissão de um director de um jornal centenário.  Resulta de perversa investida, integrada numa estratégia mais vasta e astutamente preparada, para liquidar ou domesticar o Diário de Notícias.

Faço votos de que o novo director, o jornalista Ricardo Oliveira, continue a pugnar pela independência do nosso Diário de Notícias.

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Foto: CMCL

Realizou-se ontem, 3 de Maio, na Biblioteca Pública de Câmara de Lobos, a apresentação de Poesias, de Joaquim Pestana (1840-1909), com sala completamente cheia, sendo de salientar a presença de um grupo significativo de estudantes da Universidade da Madeira.

Na mesa, encontrava-se o Director Regional dos Assuntos Culturais, o Presidente da Assembleia Municipal de Câmara de Lobos, o Presidente da edilidade, a vereadora com o pelouro da Intervenção Social, Cultura e Juventude e eu próprio.

O Presidente da Câmara relevou a importância do volume editado para o conhecimento da obra de um homem de letras, natural do concelho, associando o novo livro ao projecto de dinamização cultural do município e, em especial, à animação da Biblioteca Pública, cujo primeiro aniversário estava também a ser assinalado.

De seguida, apresentei o livro e  referi, de forma sucinta, a biografia de Joaquim Pestana, lembrando, em particular, a importância da sua obra no contexto do Romantismo e o seu significado para a Literatura Madeirense.

Foto: CMCL

O Director Regional dos Assuntos Culturais elogiou a iniciativa editorial e sublinhou a importância do investimento naquilo que permanece, caso do livro de Joaquim Pestana ou da Biblioteca Pública, como infra-estrutura estratégica para a promoção da cultura no município de Câmara de Lobos. 

Foto: CMCL

O actor António Plácido disse, depois, três poemas de Joaquim Pestana. Por fim, o Grupo Coral do Estreito de Câmara de Lobos cantou A minha terra, poema publicado em 1874 e que foi musicado por autor, por agora, desconhecido. No âmbito das investigações desenvolvidas sobre a obra literária de Joaquim Pestana, tive a felicidade de encontrar a partitura musical para uma versão daquele hino à Madeira, na posse do Doutor Aires dos Passos Vieira, que amavelmente me cedeu uma cópia.

Conjuntamente com o livro agora editado, esta canção, integrada no repertório daquele Grupo Coral, constituirá, por certo, um novo meio para dar a conhecer o poeta câmara-lobense que, entre 1870 e 1909, publicou em diversos periódicos da Madeira, Açores, Continente e Brasil.

Foto: CMCL

O Diário de Notícias, Funchal, 5 de Maio de 2010, p. 27, referiu-se à apresentação de Poesias, de Joaquim Pestana.  Ver ainda Diário de Notícias, Revista Mais, Funchal, 9-15 de Maio de 2010, p. 44.

 

Sobre este livro:

«Joaquim Pestana Poesia, organizado por Nelson Veríssimo, materializa uma competente edição crítica de poemas coligidos, com apresentação do poeta, deixando pistas para se aprofundar as coordenadas ideológicas e as práticas sociais que instruíam a produção literária na Madeira do séc. XIX.»

Thierry P. Santos, Diário de Notícias, Funchal, 17-07-2010

 

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Mesmo com valor reconhecido, alguns escritores não tiveram a felicidade de ver a sua obra publicada em livro, quase sempre por razões financeiras. Os poetas foram os que mais sentiram essa dura realidade. Entre nós, o câmara-lobense Joaquim Pestana viveu, com mágoa, tal situação.

Nascido em 1840, dedicou grande parte da sua vida à leitura e à escrita, apesar da doença e dos fracos recursos económicos. Publicou em mais de duas dezenas de periódicos da Madeira, Açores, Continente e Brasil. Em vida, recebeu elogios e incentivos para publicar. Era um cidadão respeitado e estimado que mantinha larga correspondência com intelectuais portugueses e estrangeiros. Alguns dedicaram-lhe poemas, prática, na verdade, bastante cultivada na sua época. 

Quase no final da vida, em 1903, anunciou o livro Espinhos e Flores, constituído por inéditos e poemas já publicados. Mas morreu seis anos depois, sem dar à estampa a anunciada e tão esperada obra literária. 

O Padre Eduardo Pereira, amigo do poeta, herdou o seu acervo. E em 1937 e 1959 sugeriu a publicação de Espinhos e Flores. Fernando Augusto da Silva, o Visconde do Porto da Cruz, José António Gonçalves, José de Sainz-Trueva, Manuel Pedro Freitas e eu próprio, em diferentes ocasiões, lembrámos a necessidade de editar o livro inédito de Joaquim Pestana. 

Entretanto, o paradeiro desse livro, depois de 1976 na posse dos herdeiros de Eduardo Pereira, parece que deixou de ser conhecido nos anos 90 do século passado. 

Tão misterioso descaminho não poderia, contudo, representar impedimento à publicação. Quando se conjugam vontades, os projectos avançam. Assim aconteceu. A Câmara Municipal de Câmara de Lobos assumiu a edição e o livro está pronto para vir a lume amanhã, no 1.º aniversário da Biblioteca do município. 

Na impossibilidade de aceder ao volume preparado por Joaquim Pestana nem, tão-pouco, ao seu acervo, considerou-se preferível editar uma compilação em vez de uma selecção de poesias. Para esta decisão, contribuiu também a certeza de ser ainda desconhecida a verdadeira dimensão da sua obra poética. Reuniu-se, por conseguinte, a poesia coligida, até à data, na imprensa periódica, álbuns e bibliografia disponível, num total de cento e quarenta e cinco composições.

 Cumpre-se, assim, parcialmente, o propósito do poeta, acalentado nos últimos anos de vida: editar um livro com poesias esparsas por almanaques, álbuns e jornais de permeio com composições inéditas.

 Este volume de Poesias facultará, por certo, a compreensão da obra e do labor de um ilustre câmara-lobense que pugnou para ultrapassar as fronteiras da ilha e da doença, conservando-se, toda a vida, fiel ao romantismo, que se manifestava num lirismo melancólico e numa intensa religiosidade cristã. 

No poema «Desalento», Joaquim Pestana compara a sua vida com o mar, para transmitir a ideia de que o infortúnio lhe chegara de «vaga em vaga». É certo que a sua poesia está dominada pelo culto do pessimismo funéreo, tão característico do romantismo tardio. Ainda assim, aquele «de vaga em vaga» retrata bem uma vida marcada pela enfermidade, tristeza e solidão. 

No entanto, a ausência de saúde e o domicílio permanente, quase toda a vida, numa vila piscatória, não o impediram de, através das publicações onde colaborou com assiduidade, galgar obstáculos e, abundantes vezes, afirmar o nome da terra natal, principalmente, quando escrevia sobre o seu concelho ou, quando abaixo da identificação, deixava bem expressa a naturalidade.

 Diário de Notícias, Funchal, 2 de Maio de 2010

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