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Archive for Dezembro, 2018

A Lamparina

As denominadas lojas dos chineses vieram disponibilizar, a preços módicos, muitos e diversos enfeites natalícios. Entre outros, vulgarizou-se o uso de velas artificiais na lapinha e gambiarras led por toda a casa.

Há anos as pirosas searinhas de plástico arredaram as naturais. Mais recentemente, a vela a pilhas, com ou sem oscilador de chama, tem vindo a substituir a tradicional lamparina que alumiava o Menino Jesus.

O azeite está caro. Dá trabalho substituir o pavio, limpar a rodela de cortiça e repor o azeite. Mais prático é ligar o interruptor da vela. Consome pouco, produz luz duradoura e garante segurança. Simula uma lamparina.

São, sem dúvida, argumentos aceitáveis. Contudo, a luz do azeite confere magia à lapinha. Com a lamparina aprendi a compreender o significado do presépio.

Escadinha, Sítio das Carreiras – Madeira. Foto: © Rui Camacho, 2006.

O poeta madeirense Florival de Passos (1914-1989) invocou, com sentimento, a lamparina do Menino Jesus:

Tão pequenina a luz! A luz de azeite

Que alumia Jesus. Tão pequenina!

E tudo tão modesto… A lamparina

De linda cor, mas sem nenhum enfeite.

 

Quadro perdido já da minha infância…

E tanta luz na minha vida toda…

E só aquela é que anda à minha roda…

Luz de azeite perdida na distância…

Lembro-me de lamparinas com pavios naturais. Vizinhos que usavam cálices da erva-das-lamparinas, planta comum nos quintais e hortas, que servia também para infusões com fins medicinais.

Segundo Raimundo Quintal, trata-se da Ballota nigra subsp. ruderalis (Sw.) Briq., conhecida por marroio negro, erva-das-lamparinas ou erva-dos-pavios. Após a queda das corolas, as plantas mantêm os cálices. Depois de secos, eram utilizados como pavios nas lamparinas do Santíssimo e das lapinhas.

Na Madeira, o presépio é tradicionalmente denominado de lapinha, diminutivo de lapa com o significado de gruta. Apresenta duas variantes distintas: a escadinha e a rochinha. Pelo dia de Nossa Senhora da Conceição ou na primeira Missa do Parto, a lapinha costuma estar pronta.

A escadinha ostenta três lanços. Antigamente, utilizavam-se, para o efeito, as medidas de cereais: alqueire, meio e quarta. Com o fundo para cima, o alqueire servia de base. Sobrepunha-se-lhe o meio alqueire e, de seguida, a quarta. Estava, assim, montada a escadinha.

Normalmente, é forrada com papel – «papel de ramagens», conforme Horácio Bento de Gouveia – e disposta sobre uma cómoda ou uma mesa, coberta com uma toalha de linho bordada. No topo da escada (ou trono), coloca-se a imagem do Menino Jesus, rodeada por um arco de flores de papel e ladeada por duas jarras com junquilhos ou sapatinhos. Nos outros degraus, apresentam-se pastores (figuras de presépio), frutos (laranjas, tangerinas, peros, castanhas ainda nos ouriços, nozes…) e as searinhas. É habitual também colocar um pão (brindeiro) e uma lamparina de azeite. Na parede, afixa-se um galho de alegra-campo e sobre a cómoda ou mesa não faltam as tradicionais cabrinhas e uma jarra com ensaião.

A rochinha é feita com papel pardo, pintado com viochene. Molda-se o papel em consonância com os volumes que esconde. Procura-se imitar montanhas, vales, fajãs e uma gruta. Recria-se a paisagem da Ilha. Gambiarras iluminam serras, chãos e caminhos.

Em tempos passados, as socas de canavieira serviam para moldar o papel pintado e salpicado de pós, coloridos e reluzentes, das rochinhas miniaturais, que se punham sobre mesas, arcas ou cómodas. Mas hoje estão a cair em desuso.

Armada a rochinha, dispõem-se as figuras de presépio, casas, igrejas e, por vezes, um coreto para a filarmónica; fazem-se caminhos, lagos, riachos, cascatas e levadas; dependura-se o alegra-campo na parede; distribuem-se as searinhas, o azevinho, as mimosas, o ensaião, os sapatinhos, as cabrinhas e outras verduras. Na gruta, recria-se o cenário da natividade. Por fim, colocam-se os frutos da época e acende-se a lamparina junto do Menino na manjedoura.

Presépio, Funchal. Foto: © Nelson Veríssimo, 2018.

A luz tremeluzente e ténue envolve o crente e dá especial encanto à Festa. Há quem reze, quem aconchegue a memória, se reconcilie ou se despeça. Estado de espírito que a lamparina de azeite favorece e dificilmente a vela artificial sugere.

Funchal Notícias. 19 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/19/a-lamparina/

 

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MISSAS DO PARTO

«É este o período das Missas do Parto, antemanhã, que são anunciadas pelo toque cadenciado do sino da igreja e pelo estoirar de alguns morteiros. A garotada, quando ainda não são 4 horas, já vagabundeia pelas azinhagas, retoiçando e modulando as modinhas mais em voga e outras regionais, em pifes de cana-vieira e harmónios.»

Horácio Bento de Gouveia, 1901-1983 – Páginas de Jornalismo. Alcobaça: Minerva, 1933.

Pife. Fotografia: ©Rui Camacho.

Harmónica. Fotografia: © Rui Camacho.

NOITE DE NATAL

Contar mais não podia, em meu desejo
De chegar mais depressa ao grande dia!
Quanto mais próximo estava, mais sofria
Cada hora era um século em meu anseio.

Outra ambição maior, haver, não creio
Nem maior fogo o que em mim se acendia,
E já até os segundos eu media
Na distância a aumentar o meu enleio.

Veio do porco a festa da matança
E das manhãs em glória de cantigas
As missas que do Parto se chamaram.

E à noite que chegou, plena de esperança
Na certeza dourada das espigas
Meus olhos, de sorrir, até choraram.

Henrique Pereira, 1929-1990 – Noite de Natal. Diário de Notícias. Funchal. 108: 35 466 (25-12-1983).

 

MISSA DO PARTO

«Rebentam os primeiros foguetes acendendo no ar estrelas candentes. E o eco dos passos vai desaguar no adro da Igreja, aquecida, luminosa, resplandecente de círios e de flores.

Enchem-se as bancadas de rezas e cânticos. Um Menino Jesus rosado, boquita de promessas sorridentes e amplos perdões, acorda entre palhas. E irrompem os cânticos em vozes crentes e cristalinas.

Os homens acotovelam-se na entrada.

Um cheiro intenso a suor e velas queimadas enche a nave central.

As rezas partilhadas sobem de tom e de fé enquanto o sol varre os cimos da montanha entre franjas de nuvens esparsas, a descerem rápidas sobre os pequenos poios, arduamente ajardinados descaindo em precipícios para a costa.

A Festa está prenhe de cheiros, de sabores e de crenças.»

Maria Aurora Carvalho Homem, 1937-2010 – Um postal da Festa. Correio da Madeira. Funchal. (31-01-1991).

 

MISSAS DO PARTO

         «As campainhas lembram-me a Festa, nome por que é conhecida a quadra do Natal na Madeira. Porque na ilha da minha infância, tudo começava com as missas do parto, celebradas alta madrugada, a partir da segunda semana de Dezembro. Nunca assisti a nenhuma, pois quando tinha desejos de participar, faltava-me idade e quando sobrevieram os anos, abalara-se-me a fé. Mas recordo-me dos romeiros descendo os caminhos em direcção às igrejas, a tocar as campainhas, num chinfrim, com cantares acompanhados à harmónica, por vezes organizados em brinquinhos com sanfona, machete e rajão.

         Devo confessar que os meus sentimentos perante tamanha religiosidade sofreram profundas alterações. A princípio adorava. Era prenúncio de um tempo mágico, com imagens, sons e odores simpáticos. Vinham aí as broas, rosquilhas, bolos de mel, licor tim-tam-tum, cuscuz, carne de vinho e alhos, torresmos e gaiado seco no ritual da matança do porco. Seguiam-se os presépios em lapinha, com todo aquele estendal de bonecada, searas e cabrinhas. Depois era a Festa propriamente dita, o Natal e as oitavas, até à Noite de São Silvestre, com folguedos e petiscadas que, bem esticadas, chegavam ao dia de Santo Amaro, em Janeiro. Porém, quando comecei a criar buço, naquela idade em que tudo sabemos e nos zangamos com Deus, considerava uma alarvidade importunar os descrentes com missas fora de horas.»

Ricardo França Jardim, 1946-

O Céu pode esperar: a Missa do Galo. Arsénico e rendas velhas: 37 crónicas do ‘Público’, seguidas de uma admoestação e dois epitáfios. Matosinhos: Contemporânea, 1996.

 

FIO DE FRIO

Os dias de dezembro

não são sempre os dias de dezembro

e a certeza do olhar

não está no sol em ausência

ou no fio de frio que se estende

entre rosas e pomares

dum lado a outro dum inverno tardio,

às vezes a chuva vem cedo e o fogo do céu

rasga as árvores, às vezes perde-se

o termo das estradas no nevoeiro

e o fim das tardes arrepia-se escuro

nos pés dos vagabundos.

não está no hábito com que à boca

chega a vontade duma palavra útil

ou apenas dum bocejo, digo azul essa

não é a cor destas horas,

não está aqui nem se torna visível a sombra

ou o passo que imprime a diferença, o som

ou a janela equivalente à luz que falta

a música que acende uma memória doce

às formas que dão ao coração

o ensejo dos astros e distantes amores.

nada está aqui que me diga dezembro

porque dezembro é um hálito sagrado

e o prodígio aponta o indizível.

 

porque dezembro é também coisa tão simples

como os galos, o sótão

o altar da infância aconchegado

de ensaião e acácias

porque em dezembro se trazia

estrelas na algibeira

e um fruto no céu a dispersar o medo.

Irene Lucília Andrade, 1938-

Fio de dezembro. Margem 2. Funchal. N.º 10 (Dez. 1998).

Escadinha. Casa-Museu Frederico de Freitas, Funchal.

 

A ESCADINHA

«Em um ângulo da casa lá se erguia a escadinha sobre velha mesa; do alto, o Menino Jesus domina o mundo de pastores colocados nos vários degraus da escada da lapinha. Em torno do altar e a cobrir quase todo o tecto há ramos de loiro, o trepador alegra-campo da serra, as cabrinhas, o esparto, o saião das paredes e pequenos galhos de cedro que formam diademas. Na beira dos degraus da escadinha e da mesa destaca-se, à maneira de colar, um renque de laranjas entremeadas de peros e tigelas com trigo espigante.»

Horácio Bento de Gouveia, 1901-1983 – Canga. Coimbra: Coimbra Editora, 1975. (3.ª ed. de Ilhéus; 1.ª ed. Coimbra, 1949).

 

NOITE DE NATAL

«Eu seguia com os olhos felinos o lidar das mãos de minha mãe, que à vista em breve me haviam de provocar um céu cheio de delícias pela revelação de Jesus, na magia dum movimento subtil. Estava já realizada sobre a toalha de linho, a simetria do trigo verde, dos frutos colhidos quando Verão, dos raminhos de murta e laranjeira, e das rosas de Inverno do jardim. Depois, sentando-se em frente da lapinha, minha mãe tomou-me entre os seus braços. Eu olhava a mesa com a curiosidade de criança impaciente, no desejo sempre vivo de ver nascer o Menino; minha mãe olhava para mim na consolação tranquilizante de quem já possuía um menino cingido às palpitações do seu peito. E, cansado já de olhar a mesa, quando os meus olhos se encontraram com o seu olhar de deleite, perguntei à minha mãe se não nascia Jesus.

Ela foi então buscar a lâmpada. E, quando lá fora, sob a chuva e sob o frio, a meia noite enfim se anunciava pelo cântico dos galos, minha mãe acendeu lume no azeite de oliveira.»

Albino de Meneses, 1889-1949 – Uma vez, um Natal, em pequenino… Diário de Notícias. Funchal. (25-12-1925).

Foto: © Nelson Veríssimo, 2018.

NATAL… NATAIS…

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E em cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento, 1897-1978 – Natal… Natais… Cancioneiro. Lisboa: Portugália, 1963.

 

UM PRESÉPIO AO FUNDO DA RUA

«Na linha dos olhos, sobre o tampo da cómoda, tudo descansa em morno sossego, um pastor encosta-se sonolento à parede porosa de uma laranja gigantesca, a nuvem de algodão de uma ovelha repousa ao lado de uma cascata azul que desce ao longo da lapinha. A banda, de farda azul com dobras vermelhas e galões dourados, avança com pezinhos de lã e suspende os instrumentos, enquanto as suas sombras se agigantam tremulantes e tocam em silêncio. Dois reis sábios montados em seus camelos saem por detrás do biombo verde do bosque misterioso e rescendente. Na clareira, para além da cortina espessa de searas viçosas, o líquido vítreo e oleoso alimenta uma fonte de luz que crepita baixinho, iluminando o quarto na penumbra, todo ele suspenso naquela luz, como num teatro de sombras chinesas. Ao fundo, por debaixo das enormes cabrinhas que parecem palmeiras, uma gruta. As paredes arroxeadas cobrem-se de pó das estrelas. Lá dentro, aconchegado entre os pais, um menino nas palhinhas.»

António Fournier, 1966-

Um presépio ao fundo da rua. Margem 4. Funchal. N.º 1 (Dez. 2007).

 

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No tempo em que muito do que entrava em casa era transportado aos ombros, havia a necessidade de, ao longo do percurso, arriar, de vez em quando, a carga por alguns minutos, para recuperar energia e prosseguir a marcha.

Surgiram assim, em locais estratégicos, os descansos. Numa parede, rompia-se uma abertura em forma de meia-lua, a uma altura ideal para descarregar um cesto, fardo ou outro qualquer volume.

Descanso. Caminho das Romeiras, Santo António, Funchal. Foto: © Nelson Veríssimo

No Caminho das Romeiras, nas imediações da Igreja de Santo António, encontra-se, em bom estado de conservação, um dos poucos descansos que escaparam à implacável demolição. Um outro resiste, mas parcialmente adulterado, no Caminho do Lazareto.

De muitos não ficou qualquer registo. Foram demolidos, quando se construíram novos edifícios, sem sequer se ter a preocupação de tirar simples fotografia para memória.

O descanso de Santo António é um exemplar bem preservado desses úteis e ansiados lugares para quem, por caminhos e ladeiras, transportava aos ombros pesadas mercadorias.

Lembro-me de ver o distribuidor de pão, popularmente também chamado de padeiro, a arriar o cesto coberto com o pano branco num outro descanso, já desaparecido. Havia quem o esperasse ali para comprar o pão fresco.

O descanso era, inevitavelmente, um lugar de sociabilidade, propício para uma conversa acerca de novidades presenciadas ou conhecidas em outros caminhos ou uma bebida revigorante na mercearia ou taberna das redondezas.

Em frente da Igreja Velha de São Martinho havia um descanso num muro ocre, de superfície rugosa. Aqui aconteceu uma cena miraculosa, segundo minha tia Matilde (a Matildinha), que nasceu e, por muitos anos, morou neste sítio. Contou-me que dois carregadores, que levavam para o Estreito, uma caixa de madeira com uma escultura de Nossa Senhora, pousaram, ao fim da tarde, o volume no descanso e dirigiram-se, de imediato, para a taberna.

Quando pretenderam retomar o percurso, a caixa pesava tanto que nenhum conseguiu levantá-la. Decidiram então ali pernoitar, mas logo um se lembrou de tentar colocar a carga em segurança, no interior da Igreja de São Martinho. Com este propósito, deitaram mãos à caixa e, para sua surpresa, conseguiram com facilidade deslocá-la, pois tinha o peso normal.

No outro dia, aprontaram-se, bem cedo, para se porem a caminho. Mas, quando um deles experimentou colocar a caixa sobre os ombros, não conseguiu levantá-la, devido ao peso excessivo. Várias tentativas foram feitas, mas sempre sem sucesso. A caixa parecia grudada no pavimento da Igreja. Interpretando esta situação como sinal divino anunciador de que a escultura de Maria pretendia ficar naquele templo, logo os dois homens deixaram ali a encomenda que transportavam, tendo um deles dito, com satisfação, que a falta de força, no dia anterior, para transportar caixa tão pesada, não fora dos muitos copos de vinho que havia tomado. Convicto, afirmava que o ocorrido tinha a mão de Deus.

Verificou-se depois que, no interior da caixa, estava uma estátua de roca, daquelas que são vestidas com trajes de tecido, para serem colocadas nos altares ou saírem nas procissões, de modo que a carga era leve.

Esta história irreal, há muito ouvida, é aqui lembrada para, afinal, documentar que estes descansos encerram vivências e vozes de um passado já distante, quando o transporte de mercadorias se fazia aos ombros em longas e difíceis jornadas, por caminhos íngremes e veredas tortuosas.

O descanso do Caminho das Romeiras é um exemplar raro desse mobiliário urbano com carácter utilitário, que existiu em muitas localidades da ilha da Madeira. Apesar de, na actualidade, não ter o préstimo para que foi construído, deve, todavia, ser preservado como Património Cultural da freguesia de Santo António. Constitui memória singular de um tempo, uma actividade e um sítio.

 

Funchal Notícias. 12 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/12/o-descanso/

 

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A salvaguarda do património passa, por vezes, por pequenos gestos e capacidade de resposta em tempo útil. Património engloba também bens singelos, mas com particular significado para a comunidade.

Num prédio urbano devoluto da freguesia de São Roque, parcialmente atingido pelo incêndio de 9 de Agosto de 2016, existia um registo de azulejos embutido na parede da edificação, paralela à via pública.

Em muitas casas, era habitual, no século passado, colocar-se um painel de azulejos alusivo a Maria, ao orago da freguesia ou ao santo ou santa da devoção dos proprietários. Ultimamente é mais comum o registo em honra de Nossa Senhora de Fátima.

Na canção “Uma casa portuguesa”, celebrizada mundialmente por Amália Rodrigues (1920-1999), Reinaldo Ferreira (1922-1959) e Vasco Matos Sequeira (1903-1973), autores da respectiva letra, que veio a ser musicada por Artur Fonseca, associaram à arquitectura vernácula o registo azulejar, no caso com a representação de São José.

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Na casa devoluta de São Roque, o registo hagiográfico estava em bom estado. Por falta de segurança, temia-se que viesse a ser furtado ou vandalizado.

Informado da situação, logo o padre José Luís Rodrigues tratou de obter autorização dos proprietários para salvaguardar o painel de azulejos, tendo sido colocado, em Maio deste ano, no alçado lateral poente (torre) da Igreja de São Roque. Com boa vontade, preservou-se, assim, um registo característico da arquitectura portuguesa.

Registo: Nossa Senhora da Conceição. Aleluia, Aveiro, séc. XX. Torre da Igreja de São Roque, Funchal.

Trata-se de um registo hagiográfico em formato oval recortado, com moldura policroma e figuração azul e branco, representando Nossa Senhora da Conceição. Na base, a moldura exterior é interrompida por cartela com a inscrição: N.A S.A / DA / CONCEIÇÃO. Executado pela Fábrica Aleluia de Aveiro, no século XX, é, por certo, posterior a 1946, ano da comemoração do 3.º centenário do decreto do rei D. João IV, que declarou Nossa Senhora da Conceição como Padroeira do Reino de Portugal. Nesse ano, a Fábrica Aleluia produziu registos invocativos desta efeméride com a inscrição: 1646 / 25 DE MARÇO / 1946.

A Fábrica Aleluia, Louças e Azulejos foi fundada em 1917 por João Aleluia, ceramista, pintor e músico, e sucedeu à sua Fábrica de Louça dos Santos Mártires, Ld.ª.

Na freguesia de São Roque, a devoção à Senhora da Conceição está também presente numa capela situada a pouca distância da referida casa devoluta. De facto, em 1700, o cónego António Lopes de Andrade mandou erguer, na sua propriedade, do Caminho de São Roque, uma ermida com essa invocação. Ainda hoje, os moradores do Chão do Carlinhos promovem a festa da padroeira de Portugal no seu dia.

Funchal Notícias. 5 Dezembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/12/05/um-registo-de-nossa-senhora-da-conceicao/

 

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Do livro do historiador Alberto Vieira, O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões, foram impressos 300 exemplares de uma edição modestíssima, em papel de má qualidade e todas as ilustrações a preto e branco. O folheto 600 anos: Madeira, Porto Santo, distribuído com a edição de 30-11-2018 do Diário de Notícas, do Funchal, teve uma tiragem de 55 000, a cores e em bom papel.

O primeiro é um livro de História. O segundo é um folheto de propaganda do PSD, com quatro páginas de umas notas históricas inqualificáveis, três entrevistas bem cozinhadas (Miguel Albuquerque, Paula Cabaço e Guilherme Silva) e uma resenha de eventos realizados.

O livro ficará na estante, será consultado e terá sempre utilidade. O folheto da propaganda mal disfarçada, fatalmente, acabará no lixo ou na fogueira. Assim se gasta o dinheiro público. O DN ganha o seu, e sobre esta empresa só podemos dizer: bom proveito. Quanto à Comissão Executiva dos 600 anos, lamentamos a instrumentalização partidária de uma efeméride histórica.

VIEIRA, Alberto – O (re)descobrimento / (re)conhecimento do Porto Santo e da Madeira: em torno da História, de alguns conceitos e imprecisões. Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico, 2018.

600 anos: Madeira, Porto Santo. Folheto distribuído com a edição do Diário de Notícias, Funchal, 30-11-2018.

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