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Archive for Setembro, 2009

 ILucília Cisnes 0001

Cristóvão Azevedo é a personagem principal do romance Porque me lembrei dos cisnes, de Irene Lucília Andrade, vindo a lume em 2000. Personagem revelada ao leitor com parcimónia, à medida que a narrativa se desenvolve, o professor Cristóvão conquista-nos, não, particularmente, pelo que, em termos profissionais, representa ou preconiza, mas pela força do seu carácter, pelos dilemas com que se confronta, pelo oculto «casulo de compromissos e ansiedades» (p. 13) que progressivamente se vai rompendo, enfim, pela sua densidade psicológica. 

Não sendo propriamente um alter ego da escritora, a personagem beneficia, porém, da experiência docente de quem a criou. Afigura-se-nos ainda que alguns desencantos, acerca do sistema de ensino e até do mundo, sejam partilhados por ambos [1].

A autora dedica este livro às espécies ameaçadas, incluindo aquela a que pertence. Das razões profundas desta dedicatória, saberá a escritora. Contudo, o leitor atento, por certo, concordará que, na mesma, também se inclui o protagonista.

Na verdade, Cristóvão Azevedo refugiou-se na ilha do Porto Santo para escrever um livro (poema longo, conto ou romance – não estava ainda seguro do resultado, p. 93), perante a ameaça de, profissionalmente, ser obrigado a uma actuação que a sua consciência repudiava, após trinta anos de serviço docente. Sucessivas reformas educativas perturbaram-no. O trabalho diário com os alunos já não o entusiasmava. O desinteresse e a indisciplina constituíam grave preocupação. A imagem e a autoridade do professor estavam altamente desvalorizadas.

«As mudanças aconteciam a um ritmo que se sobrepunha às capacidades estruturais da escola e a falibilidade dos processos experimentados era rapidamente comprovada, os manuais apinhados de propostas controversas, onde surgiam completamente baralhados por critérios desconexos, conteúdos interdisciplinares, tudo de tal modo denso, tão saturado, tão inconvincente que ele não sentia prazer em seleccionar objectivos, por já não acreditar neles. Desejava veementemente deixar o seu ofício de uma vida inteira.» (p. 140)

Não só com a sua profissão se sentia desiludido. Logo, numa primeira carta, confessou à mulher que, irreversivelmente, se aborreceu com «boa parte do mundo», invocando depois o direito de se suprimir à «voragem das imagens», que lhe impunham, e de legítima defesa contra quem violentar o seu cansaço, ainda que sob o risco de ser acusado de «místico ou obscuro» (pp. 9-10).

Irene Lucília não nos revela a área disciplinar do professor Cristóvão. Pelo que se pode deduzir, seria a Língua Portuguesa e a Educação Visual, matérias que, no nosso sistema de ensino, não andam nas mãos do mesmo professor, mas que, sem dúvida, são do interesse da escritora. Há uma referência a sintagmas, conjuntos, projectos, estruturas, animais e flores que ilustra a simbiose das duas disciplinas (p. 79). O leitor fica ainda a saber que Cristóvão, na sua juventude, desejou ser fotógrafo ou cineasta e fez formação em fotografia, heliogravura e cinema no formato super-8 (pp. 91-92). Este gosto pela Arte levou-o a matricular-se na Academia Real de Belas Artes, quando vivia na Bélgica, para onde emigrou a fim de escapar ao serviço militar e à guerra colonial (p. 39).

Cristóvão Azevedo via a arte como «estruturante do pensamento» que acentuava a «consciência duma ética da conduta humana» (p. 64). A arte identificava-se com «um princípio regulador de atitudes, criador de formas iminentes de compromisso com o valor humano na sua forma global.» (p. 139). A arte possibilitava, ao artista, «uma solidão irradiante, uma tranquila doçura» (p. 39).

Este professor revelava particular afecto pela Natureza e numa das cartas a Maria Ester recordou uma das suas aulas no jardim, para observar as plantas e registar as singularidades de cada espécie quanto à forma, estrutura, número e cor (p. 97), metodologia muito característica da Educação Visual.

«Cristóvão era um homem silencioso, tímido, vibrátil, comprometido por natureza com tudo o que o rodeava, tudo lhe valia uma reflexão, nada acontecia que não fosse por ele questionado, capaz de amar um penhasco, uma erva, um recanto…». (pp. 55-56)

Esse generoso enternecimento pela Natureza revela-se bem quando decidiu alugar um carro por um dia, para dar uma volta pelo interior da ilha do Porto Santo, porque «as paisagens lavadas refrescavam-lhe os olhos e o fundo do cérebro.» (p. 113). Cristóvão precisava de laços próximos. O apelo telúrico poderia contribuir para a sua reabilitação psíquica:

«Cristóvão de Azevedo enchia os olhos e o desejo, queria criar com aquela terra um compromisso qualquer. Não sabia bem se a amava ou viria a amá-la, mas havia um frémito que lhe percorria o corpo, uma sensação física muito próxima dum estado erótico que o prendia à voluptuosidade das espessas dunas e ao hálito quente que se evolava das vinhas rasteiras expostas ao sol.» (p. 34)

Intimamente, a personagem principal assume-se como um poeta que, para assegurar a sobrevivência, ingressou na carreira docente. Todavia, desiludido com a sua actividade profissional e a poucos anos da aposentação, admitia que se sentiria bem caso tivesse sido jardineiro, músico, pastor, hortelão ou filósofo, porque, afinal, poderia sempre, em qualquer uma destas profissões, ser poeta (pp. 140-141).

Era um professor dedicado, sonhador, inconformista, com ideias diferentes para a Escola e para o mundo que, mentalmente, recusava a massificação ou a clonagem (p. 62). Bastante elucidativo deste seu ponto de vista é a descrição que o próprio fez do seu comportamento numa das actividades escolares.

No «Dia Mundial da Árvore», escreveu Cristóvão, as crianças saíram da escola «contidas e submissas em seus rebanhos formais, badalando por dentro uma frase que ainda não entendiam muito bem» (p. 84). Por solidariedade com os seus alunos, assistia à plantação programada e às demais actividades educativas que decorriam num «vale ondulado dentro da acidentada cidade, com vertentes férteis e algumas quintas ao fundo» (p. 85). Sem o expressar de viva voz, criticava o ritual que observava, antecipando, no seu íntimo, o cenário dos meninos «fabricados em série» para a civilização que se anunciava (p. 87). Neste confronto interior, fica bem claro a sua predilecção pelo ensino individualizado, preconizado, por exemplo, por Henri Bouchet e Robert Dottrens [2].

«Através do encontro pretendia-se unificar a força que havia de ter o acto educativo na formação das consciências. Mas as dúvidas persistiam. A multidão não é uma força inteligente. Move-se pelo acto mecânico do estímulo que uniformiza o gesto e espartilha o comportamento. As crianças precisam de ser individualizadas para que dentro delas se formem pessoas diferenciadas e criativas, o que tornará mais proeminente e válida a espécie humana.» (p. 85)

Nesta linha de pensamento, Cristóvão manifestava também posição crítica em relação à informatização. Admitia iniciar-se na aprendizagem da utilização do computador, mas resistia à palavra de ordem – informatizar, preservando-se da massificação, recusando-se à obrigação de seguir o rebanho (p. 89). Opunha-se à imposição da máquina com critério obrigatório (p. 93), porque, acerrimamente, defendia o pluralismo (p. 92).

«Havia uma mão funesta, oculta, algures, a ordenar uma perfídia incontrolável que era esta de nos arrastar a todos para a unicidade sem ter em conta as diferenças de cada um e a transculturalidade.» (p. 93)

Não lhe agradava, por conseguinte, a apologia desmedida das bibliotecas digitais. Rejeitava o desprezo pelo livro em suporte de papel, nem tão-pouco aceitava a desvalorização das bibliotecas tradicionais (p. 92).

Igualmente, manifestava algumas reservas quanto aos computadores individuais, designadamente como novo processo de combate à ignorância. Nas conversas que mantinha com um seu colega de profissão, Rui Morais, procurava certificar-se da qualidade da informação disponível (p. 88).

Não chegando talvez a ser o protótipo de um determinado professor, Cristóvão poderá, todavia, testemunhar a decepção de muitos profissionais da educação, na recta final da carreira, pelo rumo da Escola em Portugal, ferida por reformas mal ensaiadas e mal avaliadas, alvo de medidas inadequadas de quem desconhece a realidade do país, repleta de indisciplina e insucesso, e também a inadaptação de alguns face às mudanças operadas e, sobretudo, o descontentamento pelo inaudito desprestígio da profissão.

No entanto, Cristóvão não se evidencia somente como professor. A decisão de se afastar da profissão, da mulher e do meio que habitualmente frequentava, optando pelo refúgio na ilha do Porto Santo constitui também investimento pessoal: a busca do rejuvenescimento pela recusa do tédio e da opressão (p. 167). É ainda manifestação de cidadania, afirmação da liberdade do Homem e prova de fé num outro horizonte. 

 
 
NOTAS
 
(1) Em conversa com Irene Lucília Andrade, no dia 3 de Abril de 2009, a escritora disse-nos que a origem desta personagem e do próprio romance está numa colaboração com o Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), no suplemento Educação, pelos finais dos anos oitenta do século XX. Os dois textos, que então publicou no JL, surgem a pp. 77-83 e 83-87 de Porque me lembrei dos cisnes, Leiria, Editorial Diferença, 2000. 

(2) H. Bouchet, L’individualisation de l’enseignement: L’individualité des enfants et son rôle dans l’éducation, Paris, Alcan, 1934; R. Dottrens, O ensino individualizado, Porto, Livraria Civilização, 1973.
 
 

Revista Margem 2, n.º 26, Funchal, 2009, pp. 108-111

 

 

 
 
 
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Plágio


Plagiar é tentação antiga. Mas, nos nossos dias, os prevaricadores têm a vida facilitada. Seleccionar informação na Internet e copiar e colar tornou-se terrível praga nos estabelecimentos de ensino, sobretudo, nas universidades.


Solicitar trabalhos de pesquisa aos alunos acarreta cuidados dobrados para o professor, pois, ao corrigir, deve também verificar se houve ou não plágio, tarefa nem sempre concludente, mas que exige paciência, tempo e conhecimento.


Em Agosto passado, esta questão mereceu destaque especial no Expresso. Neste semanário, o reitor da Universidade de Coimbra defendeu um acompanhamento mais regular dos alunos, para prevenir a fraude. Porque já se encontraram dissertações de mestrado e de doutoramento plagiadas, Nuno Crato, por sua vez, afirmou ser impossível orientar, devidamente, uma dúzia ou mais de teses de mestrado ou de doutoramento. Concluiu ainda, com propriedade, que «quando se procura contribuir para a ciência, a fraude é mais difícil.»


Tomadas em devida conta, estas duas posições pedagógicas podem, na verdade, desencorajar o plágio. Contudo, tal implica trabalhar com menos alunos, o que, por razões orçamentais, é inviável ao nível de alguns cursos do 1.º ciclo do ensino superior. Por outro lado, obriga também a repensar a distribuição das orientações científicas, optimizando recursos humanos em prol da qualidade.


Para combater a fraude, a Universidade da Madeira, a exemplo de outras instituições congéneres, introduziu, este ano lectivo, o detector de plágios. Assim, os trabalhos, entregues no Gabinete de Apoio ao Estudante, serão certificados da detecção ou não de plágio e, de seguida, remetidos aos docentes.


O programa de detecção de plágios, consumados com materiais disponibilizados na Internet, ajudará, e muito, na correcção dos trabalhos. Contudo, os professores terão também em conta que o plagiador poderá servir-se de meios não electrónicos.


Constitui nossa tarefa combater o flagelo do plágio que ameaça infestar a Escola, com prejuízo da actividade científica. Com perspicácia, escreveu o professor Castanheira da Costa, reitor da Universidade da Madeira, no início deste ano lectivo: «Agir no sentido de garantirmos que este fenómeno é controlado na nossa Universidade é fundamental para o nosso bom nome e, sobretudo, para a qualidade e o prestígio dos nossos cursos.»


Não se julgue, no entanto, que o plágio é prática exclusiva dos alunos. Em 2003, foram amplamente divulgados dois plágios da bióloga, escritora e professora Clara Pinto Correia, na revista Visão. Escritores consagrados também foram acusados de plagiar, como Camilo José Cela, laureado com o Prémio Nobel da Literatura.


Em épocas mais antigas, o plágio não apresentava a gravidade actual. Muitas vezes, os escritores integravam textos anteriores nas suas obras, mencionando, quase sempre, a autoria, mas não distinguindo a obra trasladada dos acrescentos. Veja-se este exemplo, respeitante às primeiras crónicas insulares. No Livro Segundo das Saudades da Terra (1584), o micaelense, Gaspar Frutuoso (1522-1591), reproduziu o manuscrito que lhe enviou o cónego da Sé do Funchal, Jerónimo Dias Leite (c. 1536 – c. 1593), embora tivesse introduzido novos elementos. Todavia, o clérigo madeirense também teria copiado a narrativa de Gonçalo Aires Ferreira, acrescentando-a com outras notícias históricas.


Cópias e adaptações eram comuns nesse tempo. Hoje reprova-se o plágio, como prática deplorável que lesa direitos autorais e retira qualquer credibilidade científica a quem se serve, ilicitamente, de obra alheia.


Esta fraude não se limita, porém, ao irreflectido, preguiçoso ou espertalhão copiar e colar dos estudantes. Não se reduz à transcrição, com as mesmas palavras. Neste crime incorrem também aqueles que, com fina astúcia, fazem traduções literais de excertos de capítulos de livros ou artigos, disponíveis na Internet em línguas estrangeiras, e transcrevem-nas, nos seus artigos ou comunicações, sem itálico nem aspas, referenciando-os depois, na bibliografia, com outro formato ou suporte. A reprodução de uma tradução fiel, não devidamente assinalada, constitui, sem dúvida, crime de contrafacção, por apresentar como sendo seu, total ou parcialmente, o trabalho alheio.

 

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Setembro de 2009

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