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Archive for Junho, 2010

De vez em quando, lá aparece a incómoda pergunta: por que razão os Açores têm tantos escritores com projecção nacional e a Madeira não? De seguida, vêm nomes: Antero de Quental, Teófilo Braga, Roberto de Mesquita, Armando Cortes-Rodrigues, Vitorino Nemésio, Natália Correia, José Martins Garcia, Eduíno de Jesus, João de Melo e tantos outros.

Ainda contrapomos com Cabral do Nascimento, Edmundo de Bettencourt, Herberto Helder, Viale Moutinho. Mas o prato da balança pende sempre para o lado de lá.

Conjecturam-se, então, explicações. Fala-se no isolamento e o peso da tradição cultural açoriana como factores favoráveis à criação literária. Todavia, o alegado cosmopolitismo da Madeira não constitui impedimento da escrita. A tradição, com tudo o que encerra em termos de educação e convivência, deve, sim, influir e muito.

Certo é que, na literatura, a Madeira está longe dos Açores. Constatar esta realidade não implica frustração ou disputa. Mas deve merecer reflexão.

Um possível diagnóstico foi há anos delineado. Algumas medidas entretanto surgiram para incentivar a criação literária: prémios (Funchal, S. Vicente, Machico e Instituto do Vinho da Madeira), antologias (1990, 1997 e 2005), criação de uma Biblioteca Essencial de Literatura Madeirense, programas de incentivo à leitura, acordos, mais ou menos formalizados, com editoras nacionais…

Sair literariamente da ilha continua, porém, a ser difícil. Nos últimos anos, Ana Teresa Pereira e José Tolentino Mendonça trilham, com êxito, esse caminho.

Contudo, levanta-se sempre um problema com aqueles madeirenses que se vão afirmando lá fora. Parecem enjeitar a ilha, ou a ilha os rejeita.

A rejeição pela ilha assume contornos diversos, desde a inveja ao ostracismo político. O enjeitar da ilha corresponderá provavelmente a uma não identificação com certas pessoas e realidades políticas e socioculturais ou a um corte do fio umbilical.

Verdade é que os açorianos têm outra postura. Quem vive fora do arquipélago mantém laços profundos com as ilhas e frequentemente intervém na sua Região, em conferências, colóquios e debates. Os que residem nos Açores ou no Continente convivem com as comunidades açorianas, principalmente da América do Norte. Entre eles, há harmonia, respeito e admiração. Beneficiam de condições para divulgação e promoção das suas obras e desenvolvimento de afeição com o público.

Na Madeira, a realidade é diversa. Falta uma cultura de apreço pelos escritores ou artistas. Aliás, em nome do populismo, não se reconhece às elites, independentemente da sua natureza, o papel histórico de motor da sociedade.

Pior do que o pouco reconhecimento do escritor, enquanto criador, é a falta de divulgação da sua obra. O desprezo e o desinteresse reinantes desincentivam a produção.

Mesmo em eventos públicos da Região ou em instituições regionais criam-se obstáculos à participação ou iniciativa de alguns madeirenses, noutros meios reconhecidos.

No meio destes escolhos, é de relevar a persistência de alguns no trabalho árduo, e não lucrativo, da criação literária e da sua promoção. Igualmente, há que salientar o papel de várias instituições e autarquias, empenhadas na difusão dos valores culturais, através da edição.

Costuma-se dizer que ninguém é profeta na sua terra, ou seja: é preciso sair para ser reconhecido. Sair, hoje, refere-se sobretudo à obra. Assim, quem pretender a afirmação literária tem de aspirar edição bem distribuída. Do mesmo modo, se a Região tem alguma ambição, neste campo, terá de investir com outros horizontes e sob perspectiva diversa.

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Junho de 2010

 

A propósito deste artigo, ver:

Diário de Notícias, Funchal, 16 de Julho de 2010, p. 27,

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/218826/5-sentidos/218918-acores-mais-culturais-do-que-a-madeira

Jornal da Madeira, Funchal, 24 de Julho de 2010, p. 17,

http://www.jornaldamadeira.pt/not2008_12.php?Seccao=12&id=157761&sdata=2010-07-24

 

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