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No passado dia 14, foram divulgados comunicados da Associação de Pastores das Serras de São Roque e de Santo António e da Associação Cartilha Madeirense, protestando contra a extinção, por envenenamento, das cabras do Bugio. Até agora, a notícia não foi desmentida nem o assunto, em causa, mereceu qualquer explicação pública por parte do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) ou da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRARN).

Perante esta realidade, esperava-se que dirigentes ou governantes viessem a público justificar o que se passou ou expor os motivos da matança. Mas, infelizmente, aqueles que se mostram tão zelosos nos contactos com a comunicação social para divulgarem coisas de somenos importância, e que só nesta região são objecto de reportagens ou notícias, desta vez nada esclareceram, como se o povo nada tivesse a saber ou a ver com isso, julgando talvez que o Bugio é propriedade privada. Esta postura em nada credibiliza quem governa nem se coaduna com o regime democrático, dando azo a especulações ou ilações infundadas.

Mesmo correndo tal risco, o silêncio comprometedor do IFCN e da SRARN ditou este artigo.

No Bugio, existem cabras e bodes desde o século XV. Foram ali introduzidos a mando do infante D. Henrique. O cronista Gomes Eanes da Zurara, na sua Crónica de Guiné, escrita por volta de 1453, afirmou que o Infante «fez lançar gado» na Deserta, o que constitui uma prática comum na época dos Descobrimentos. Valentim Fernandes precisa que a introdução de gado ocorreu no ano de 1420.

Jerónimo Dias Leite, em 1579, asseverou que, no Bugio, havia gado miúdo e fina urzela «de que se tira proveito». Gaspar Frutuoso repetiu as palavras do primeiro cronista madeirense, acrescentando, porém, que se criavam «muitas cabras bravas nas rochas, que, a tempos, vão tomar com cães».

A infanta D. Beatriz, na qualidade de tutora de seu filho, o duque-donatário D. Diogo, doou, em 1477, o Bugio a João Gonçalves da Câmara, segundo capitão do Funchal, para ali lançar gado, com a expressa obrigação de pagar o dízimo à Ordem de Cristo.

Em 28 de Julho de 1481, a Câmara do Funchal permitiu, ao contador e a João da Castanheira, a aquisição de gado, que viera das Canárias, para cabresto das cabras bravas que traziam da Deserta.

Na verdade, o interesse económico no povoamento das ilhas Desertas assentava na colheita da urzela e na criação de gado.

Assim se conclui que, desde o século XV, existiram cabras no Bugio e que, ao longo dos séculos, esta espécie conseguiu sobreviver, adaptando-se às condições agrestes da ilha: ausência de água potável, vegetação escassa e relevo acidentado.

Sobre a sua adaptação ao Bugio e misteriosa sobrevivência ao longo dos tempos, o padre Manuel de Nóbrega publicou, em 2001, um interessante artigo no n.º 28 da revista Islenha, defendendo que os líquenes, ali existentes, serviam de alimento às cabras e garantiam-lhes a água de que necessitavam.

Com frequência, associa-se esta população de caprinos às Canárias. Deste arquipélago teriam sido importados para as Desertas. Nos finais dos anos 1980, contaram-me que autoridades desta Comunidade Autónoma de Espanha teriam solicitado, ao Governo Regional da Madeira, a doação de dois casais desta espécie, do Bugio, porque se trataria da cabra pré-hispânica já extinta naquele arquipélago, o que teria sido recusado. No entanto, nunca consegui comprovar a veracidade deste pedido.

Segundo as notícias que vieram a lume na semana passada, a cabra do Bugio foi exterminada com malvadez inconcebível no século XXI.

O Bugio é uma área de preservação da Natureza e, em particular, de uma ave marinha pelágica, endémica da Madeira, a Pterodroma deserta, a freira-do-bugio, que nesta ilha nidifica. De acordo com o  Atlas das Aves Marinhas de Portugal (2014), «as principais ameaças a esta espécie estão associadas aos locais de reprodução. A perda de habitat disponível devido à erosão provocada pelo vento, pela chuva e pela presença de mamíferos introduzidos, nomeadamente coelhos e cabras, contribuiu para a diminuição da área potencial de nidificação da freira-do-bugio». Procedeu-se, por conseguinte, à erradicação das populações de ratos-domésticos, de cabras e de coelhos, no âmbito do projecto SOS freira-do-bugio.

Conforme informação disponível no sítio do IFCN, «atualmente e decorrente das ações implementadas no projeto SOS freira-do-bugio foi conseguida a erradicação de coelhos e murganhos na ilha do Bugio, caso de sucesso numa ilha tão grande.» Mas não se fala das cabras.

O que se teria passado? De acordo com a Associação de Pastores das Serras de São Roque e de Santo António e da Associação Cartilha Madeirense a cabra do Bugio foi extinta por envenenamento. Urge uma explicação. Esta situação não pode ser disfarçada nem ocultada.

Foi estudada a possibilidade de confinar esta espécie a determinada área ou mesmo a sua transferência para um lugar vedado da Madeira? Ou seria procedimento inviável?

A cabra do Bugio não terá uma diferenciação genética ao ponto de constituir uma nova espécie ou uma subespécie. Mas deveria ser objecto de estudos científicos. Em condições adversas, uma população de cerca de meia centena de caprinos conseguiu adaptar-se e sobreviver durante quase seis séculos. Essas adaptações teriam originado uma variedade a preservar?

Foi elaborado um estudo genético sobre a cabra do Bugio? Na suposição de que foi realizado, quais as amostras utilizadas? De cabras do Bugio ou do exemplar exposto no Museu de História Natural do Funchal? O número de amostras da Madeira, que serviram de comparação, teve correspondência adequada com o número de amostras de cabras do Bugio? O estudo, em causa, será publicado?

Foram reunidas garantias científicas para se poder afirmar que a população de cabras do Bugio não suscita qualquer preocupação ou interesse do ponto de vista de manutenção de um património genético?

Todas estas e outras questões deveriam merecer resposta de quem governa, mas que também possui reconhecida experiência no labor científico e técnico.

Por estas e outras razões, acho que a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais deveria vir a público explicar o que, com efeito, se passou ou se está a passar.

O silêncio compromete. É, por vezes, sinónimo de consentimento. Propaga rumores, que a prudência aconselha evitar. Esclarecer comprometerá ainda mais?

 

Funchal Notícias. 21 Junho 2017

 

Silêncio comprometedor

 

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A casa emoldurada por um terreno agrícola, latadas de vinha, viçosas bananeiras, canas-de-açúcar ondeando na vizinhança, mantas de semilhas e outras hortaliças, árvores de fruto, estimadas mas quase sempre não de propósito ali plantadas, marcaram a paisagem dos meus primeiros anos. O cenário não desapareceu por completo, mas há muito tempo que dele me separei.

Nesse mundo semi-rural, porque bem próximo do centro da cidade, então a única da ilha, a água de rega era uma riqueza. Nada existia sem ela.

Dia de rega era dia de agitação. Preparavam-se os tornadouros, reforçava-se aqui ou ali os camalhões para o rego não rebentar. Vigiava-se o tempo, a levada, o levadeiro e o vizinho com a responsabilidade de entregar a água.

Na véspera ou no dia da rega, acertava-se o relógio pelo sinal horário da estação de rádio. Se fosse nocturna, importava preparar as lanternas ou ver se o olho de boi tinha as pilhas carregadas. Percorria-se a levada para verificar se não havia uma artimanha para furtar água, uma pedra estrategicamente colocada, uma tampa levantada ou uma laje do mainel deslocada. Falava-se com o levadeiro e perguntava-se-lhe as horas para confirmar se tinha o relógio acertado. Então o levadeiro colocava a foice no ombro e, teatralmente, retirava o relógio do bolso, deixando ver a grossa corrente de prata presa numa das alhetas da cintura das calças. Tudo teria de estar a postos para pegar na água, quando o regante anterior a entregasse. Mas convinha estar atento, não fosse o vizinho prolongar o tempo a que tinha direito e houvesse necessidade de lhe tapar a água. Por vezes, havia também que ir buscá-la, porque não a tinham trazido ou cansara.

Quando a levada vinha boa, isto é, com um volumoso caudal, a rega era mais rápida e dava para encher o poço.

Havia muitos poços nas fazendas. Até podia ser sinal de alguma abastança. Havia quem não gostasse de regar de noite e então metia a água no poço. Descobertos ou rodeados com rede de galinheiro, armazenavam a água que serviria para a rega diurna, a meio do giro ou quando o calor apertava e as culturas exigiam.

Cuidava-se do poço como do terreiro. Devia ser esvaziado com frequência e lavado, para a água se manter limpa. Havia poços com peixes e rãs. Evitavam os mosquitos, dizia-se. No Verão, alguns transformavam-se em piscinas. Havia quem aprendesse a nadar no poço. E também quem morresse afogado.

Muitas imagens de água andam comigo. Ia para a escola a pé, seguindo a levada da berma do caminho. Água limpa a transbordar e a escorrer no empedrado. Quando passava na margem da Ribeira de São João, via as mãos agitadas das lavadeiras na água cristalina, que por ali corria, esfregando, batendo e enxaguando peças de roupa alheia, que depressa estenderiam sobre os calhaus das redondezas, para corar ou secar.

Com água se fazia sabedoria. Dela se tirava ou dava ensinamento. Havia ditos e provérbios. Águas passadas não movem moinhos. A água o dá, a água o leva. A água corre sempre para o mar. Água mole em pedra dura tanto bate que fura. Águas da Ascensão das palhas fazem pão…

A minha avó sempre lembrava de que não se podia tirar água limpa de um poço sujo, quando pretendia precaver-se de uma troca de palavras inútil. E logo acrescentava, agora personificando: «O melhor é virar-lhe as costas!»

Palavras sábias estas e de aplicação sempre proveitosa. Quer o poço sujo se situe no Caminho dos Pretos ou na Penteada, nunca dali virá água limpa.

 

Funchal Notícias. 14 Junho 2017

 

A água limpa e o poço sujo

 

Na última Feira do Livro, foi apresentada a História do Povo da Madeira no 25 de Abril, de Raquel Varela e Luísa Barbosa Pereira, obra apoiada pela Câmara Municipal do Funchal.

Esta monografia vem na sequência de A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, de Raquel Varela (Lisboa: Bertrand, 2014), e idêntico projecto está em curso nos concelhos de Loulé, Maia e Sines.

Quando se fala de povo, há que esclarecer qual a realidade social em análise. Na «Nota Prévia», as autoras precisam de que se trata «do povo revolucionário, rebelde e resistente», concretizando:

«Daqueles que desafiaram a ordem estabelecida, questionaram o regime de colonia, fundaram movimentos, partidos e sindicatos. Ocuparam estabelecimentos para fazer creches e escolas ou lutaram por um preço justo pelo peso da cana. Organizaram periódicos. Manifestaram-se contra o desemprego, pelo salário mínimo na Madeira, realizaram eleições populares e cantaram o sonho e o quotidiano daqueles que vivem do trabalho.» (p. 13)

Na esteira de Howard Zinn (1922-2010) e o seu People’s History of the United States (1980), Chris Harman (1942-2009) (A people’s history of the world, 1999) e Eric Hobsbawm (1917-2012) e os seus estudos sobre as classes operárias, Raquel Varela, já em trabalhos anteriores, havia dedicado particular atenção aos que, habitualmente, contam com pouca ou nula representatividade na historiografia, apesar de serem protagonistas de movimentos e iniciativas populares com repercussões significativas.

Partindo deste campo conceptual de raiz marxista, as autoras de História do Povo da Madeira no 25 de Abril não têm a veleidade de uma História do 25 de Abril na Madeira, a qual, sem dúvida, implicaria outra abrangência.

Servindo-se de entrevistas, da imprensa (a pesquisa denota não ter sido exaustiva nos periódicos mencionados) e da bibliografia disponível (embora com algumas falhas notórias, como, por exemplo, a dissertação de mestrado de Lino Bernardo Calaça Martins, O Centro de Informação Popular de Machico: um pólo dinamizador da Revolução do 25 de Abril…, de 2016) vão dar especial relevo aos conflitos sociais, que ocorreram na Madeira desde Maio de 1974 a Novembro do ano seguinte.

Não deixam, porém, de dedicar atenção à situação económica e social da Madeira no período anterior ao «25 de Abril» e à adesão à Revolução. De referir ainda dois capítulos de enquadramento histórico, um sobre o «Estado Novo» e outro relativo à «Revolução dos Cravos», na mesma perspectiva ideológica.

O capítulo «Situação económico-social da Madeira pré-25 de Abril», fundamental para explicar a conflitualidade no tempo da Revolução, mostra-se, todavia, pouco esclarecedor, servindo-se frequentemente de situações que eram comuns no resto do país, anacronismos e vulgaridades, como, por exemplo, relativamente à Revolta do Leite, emigração ou à colonia. No que diz respeito a este sistema de exploração da terra, julgo que as autoras não o entenderam verdadeiramente ou então trata-se de problemas ao nível da linguagem, o que também ocorre várias vezes neste livro. Veja-se, a título de exemplo, esta afirmação, que procura explicitar ou definir o regime de colonia: «Neste modelo, os detentores de terras incultas ou necessitadas de reconversões agrícolas (senhorio) angariavam-nas a outros, não detentores de terras (colonos).» (p. 37). Ou esta: «A colonia é um sistema de exploração de terra dotada de preponderância social sem fácil paralelismo.» (Idem)

Por outro lado, a dedução infundada de que a emigração se apoiava «numa rede de traficantes que atuavam para garantir a emissão de papéis necessários à entrada legal dos madeirenses nos países de destino» (p. 36) é, para não dizer outra coisa, uma generalização inconsciente. No Arquivo Regional da Madeira, há abundante documentação sobre este assunto, para quem o quiser estudar a partir das fontes.

Os conflitos em torno da água de rega e das levadas justificaram a abertura de um subcapítulo no âmbito da situação económica e social madeirense anterior à Revolução. No entanto, a sua leitura nada acrescenta ao artigo de Gabriela Relva sobre a «Revolta das águas na Lombada da Ponta do Sol» (2012) nem a um depoimento inserto em Ecos de memórias: histórias de vida de mulheres (2013), coordenado por Guida Vieira.

Não há espaço para mais exemplos, mas a situação do povo da Madeira antes de 1974 merecia análise mais bem cuidada.

Capítulo de maior fôlego, e principal no contexto da monografia, é o quarto, dedicado ao período revolucionário, o qual se apresenta subdividido em seis subcapítulos. São aqui apresentados numerosos exemplos da conflitualidade colectiva do «25 de Abril»: comícios, manifestações, ocupações e greves. Há erros quanto a datas (por exemplo, na p. 116), mas a descrição é abundante e significativa. Faltou, porém, a análise.

Já na «Introdução» haviam sido enumerados vários acontecimentos dessa natureza, de forma deselegante, numa sequência de parágrafos sempre iniciados pela preposição «em», parecendo uma torrente de dados, na verdade, inadmissível num texto historiográfico: «Em 13 de maio, … »; «Em agosto de 1974, … »; «Em 13 de setembro, … » (p. 22); «Em dezembro, … »; «Em março, … » (p. 23); «Em abril, … »; «Em junho, … »; «Em julho, … »; «Em agosto de 1975, … » (p. 24); «Em setembro, … » (p. 25)

Estranha ou insólita é a conclusão deste livro. Tratando-se da História do Povo da Madeira no 25 de Abril, natural seria que as historiadoras concluíssem sobre o objecto da sua investigação. Mas não! Nem uma referência conclusiva ao tema que se propuseram abordar. Nada sobre a Madeira!

Intitularam, pomposamente, a conclusão de «Revolução e democracia: que democracia?». Contudo, não foi elaborada para esta edição. Trata-se de um texto de Raquel Varela, publicado em 2014, em A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, pp. 473-486, reproduzido sem a devida adaptação (veja-se a nota da p. 172) e sem referência à obra onde surgiu anteriormente.

Em suma, apesar de tudo, o livro vale pela compilação realizada, mas está longe daquele objectivo definido na «Nota prévia»:

«Não pretendemos aqui ocultar as causas explicativas do processo histórico, mas partir de uma teoria para a verificação de se ela na verdade se confirma ou não, procurando explicar essa realidade hierarquizando, numa história em construção, os fatores que contribuíram para um dado acontecimento; neste caso, a Revolução Portuguesa entre abril de 1974 e novembro de 1975 no arquipélago da Madeira.» (p. 14)

VARELA, Raquel; PEREIRA, Luísa Barbosa – História do povo da Madeira no 25 de Abril. Lisboa: Parsifal, 2017. ISBN 978-989-8760-39-5.

Funchal Notícias. 7 Junho 2017

 

https://funchalnoticias.net/2017/06/07/historia-do-povo-da-madeira-no-25-de-abril/

 

Há quem ouse pensar que, por ter sido protagonista de determinada era, também escreverá a história desse mesmo tempo. Nada mais errado!

Independentemente do título atribuído, um livro de memórias não passa de um testemunho. A visão do próprio sobre os acontecimentos em que esteve envolvido. Mesmo alicerçado em documentos, que o memorialista foi arquivando, não deixa de ser a perspectiva do actor.

Apesar da subjectividade implícita, as memórias constituem, sem dúvida, importantes fontes para a História. A perspectiva de quem participou nos acontecimentos, e dos mesmos construiu a sua narrativa, revela, quase sempre, curiosas peripécias e pormenores insólitos, dificilmente representados em relatos de outra natureza.

No entanto, ao historiador caberá a tarefa de confrontar os diversos testemunhos conservados, analisando e debatendo hipóteses previamente formuladas. Exige-se-lhe, por conseguinte, atitude prudente em relação aos livros de memórias.

Mais inquinada se revelará a narrativa deste género, quanto conhecido for o comportamento do seu autor no tempo objecto de relato. Se, com acintosa obsessão, tentou neutralizar ou silenciar tudo o que, no seu entender, poderia pôr em causa ou denegrir o seu programa, acção e personalidade, e, deliberadamente, propagandeou, com regularidade, uma versão oficial escrita da sua actuação, então, por certo, o seu testemunho enfermará dos vícios que marcaram o tempo do seu discurso.

O livro de memórias é escrito a partir da selecção de factos, que o seu autor elege como dignos ou pertinentes. Sobre estes, irá construir a narrativa, que pretende venha a prevalecer. A sua verdade. Nesse esforço, irá privilegiar certos aspectos e esquecer tantos outros.

O esquecimento dissimulado é prática recorrente neste género. Não será, todavia, pecado dos mais graves. Pior é a manipulação e ideologização da memória. Isto é, o narrador em vez de se preocupar em revelar ou analisar o que, na verdade, aconteceu, e que se conhece mal, vai carreando elementos daqui e dacolá para, no fundo, juntar mais peças ao rasto panegírico, que sempre se preocupou em construir. Já não são memórias, mas pegadas areadas com detergente, ingenuamente tido como eficaz, a exemplo de tantas outras, que, com astúcia, foi desenhando e redesenhando no receio de que a maré as apagasse.

Essa tentativa de apropriação do passado histórico, com os actores a narrarem-se a eles próprios numa conversa fantasiosa e falaciosa, de nada servirá à História.

Contudo, não se pode privar o actor de contar a sua história, mas, inquestionavelmente, será sempre a sua história, não a História.

Funchal Notícias. 31 Maio 2017

 

https://funchalnoticias.net/2017/05/31/memoria-e-historia/

 

Na Madeira, a água para rega foi, desde sempre, um bem intensamente disputado, porque imprescindível para a agricultura, quer quando esta se centrava em produtos ricos para exportação, quer quando se destinava a assegurar a subsistência.

A posse da água ou o direito sobre a sua utilização geraram numerosas contendas, por vezes, com desfechos violentos. Frequentemente, o litígio advinha da apropriação alheia da totalidade ou de parte do tempo de rega, que determinada parcela agrícola possuía ou o seu proprietário julgava deter.

Administrado com mestria e, por norma, integralmente aproveitado, o tempo de rega de cada agricultor deveria ser também cronometrado de forma exemplar.

Na ânsia de regar tudo e bem, o relógio assumiu papel fundamental na distribuição da água pelos heréus.

Quando os relógios não eram de uso vulgarizado nem habitualmente faziam parte dos adereços dos levadeiros, as comissões administrativas de algumas levadas mandaram construir, em sítios estratégicos, singelas torres, quase sempre de planta rectangular, com um relógio, para melhor gerirem a distribuição da água pelos diversos regantes.

Restam poucos exemplares deste tipo de arquitectura civil de equipamento, na Madeira dos nossos dias. Classificado há apenas um, no concelho da Ponta do Sol, com um relógio datado de 1890.

Relógio de água. Canhas, Ponta do Sol – Madeira.

Na verdade, o relógio de água da Levada do Poiso, na freguesia dos Canhas, de finais do século XIX, foi classificado pelo Governo Regional da Madeira em 1998, com a categoria de valor local (Resolução n.º 1596/98, JORAM, I, 10 Dez. 1998, p. 3), e reabilitado no ano seguinte, com a comparticipação de fundos da iniciativa comunitária Leader.

Em 16 de Janeiro deste ano, o Grupo Parlamentar do JPP apresentou, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, um projecto de resolução sobre a salvaguarda dos relógios de água da freguesia do Caniço, no qual recomendava ao Governo Regional que procedesse à sua inventariação, classificação e reabilitação.

Relógio de água. Caniço, Santa Cruz – Madeira. Foto: Élvio Sousa.

Relógio de água. Caniço, Santa Cruz – Madeira. Foto: Élvio Sousa.

Na reunião plenária da Assembleia Legislativa do passado dia 11 de Maio, procedeu-se à votação na generalidade daquele projecto de resolução, tendo o mesmo sido rejeitado com os votos contrários do PSD e do CDS.

O facto de os deputados do PSD e do CDS não se interessarem pela valorização dos relógios de água da freguesia do Caniço, por sinal, exemplares raros do património arquitectónico associado às levadas, num tempo em que a Região desenvolve um processo de candidatura das levadas a património da Humanidade junto da UNESCO, revela bem as suas preocupações quanto ao Património Cultural da RAM e, em particular, do município de Santa Cruz.

Todavia, tal comportamento não deve inibir a Junta de Freguesia do Caniço e a Câmara Municipal de Santa Cruz de iniciarem o procedimento administrativo de classificação dos relógios de água, como imóveis de interesse municipal, por representarem um valor cultural de significado relevante para o concelho.

A classificação constituirá, por certo, um instrumento determinante para a reabilitação dessas modestas construções, fruto da mobilização dos heréus das respectivas levadas, e que, no passado, tanta importância tiveram na divisão e distribuição da água de rega.

 

Funchal Notícias. 24 Maio 2017

Relógios de água

No passado dia 11, veio a lume Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, com fotografias de Francisco Correia e publicada pela Imprensa Académica. Segundo o editor, Luís Eduardo Nicolau, constitui objectivo deste livro «dar a conhecer aos leitores uma relação pouco explorada entre o texto literário e essa obra única da nossa natureza, construída e moldada ao longo dos séculos e cuja marca, na vida dos madeirenses e de todos os que nos visitam, é indelével.»

Thierry Proença dos Santos, professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira, tem, nos últimos anos, dedicado a sua investigação à produção literária madeirense e contribuído de forma notável para a sua divulgação no contexto académico nacional e internacional, através de muitos artigos e ensaios em revistas e actas de colóquios, e ainda de alguns livros, dos quais salientamos Comeres e beberes madeirenses em Horácio Bento de Gouveia (2005) e a edição crítica de Canga, (2008). Foi também co-organizador de Crónica madeirense: 1900-2006 (2007) e Cadernos de Santiago 1: colectânea de poesia (2016).

Em Levadas da Madeira: uma antologia literária, Thierry Proença dos Santos reuniu contos, crónicas e poemas, excertos de diários, cartas, romances e reportagens sobre as levadas da nossa ilha.

Surgem assim autores de diferentes épocas e correntes literárias e estéticas. O primeiro texto apresentado é de Gaspar Frutuoso, extraído do Livro Segundo das Saudades da Terra, obra escrita por volta de 1584. Isabella de França, João de Nóbrega Soares, Luzia, Alberto Artur Sarmento, António Ferreira, Assis Esperança, Maria Lamas, Ferreira de Castro, António Marques da Silva, Horácio Bento de Gouveia, João França, Carlos Martins, Alberto Figueira Gomes, Maria do Carmo Rodrigues, Jorge Sumares, António Ribeiro Marques da Silva, Clemente Tavares, Irene Lucília Andrade, Dalila Teles Veras, Fátima Pitta Dionísio, José António Gonçalves, Nelson Veríssimo, Lília Mata, Fernando Bessa são os autores seleccionados. Apenas um viajante estrangeiro foi antologiado. Trata-se do francês Léon Manchon, cujo relato de uma caminhada ao Rabaçal foi traduzido para português, pela primeira vez.

Os discursos sobre as levadas figuram dispostos sob nove temáticas que dão origem a igual número de capítulos. Assim: Os construtores de levadas; Águas passadas, Disputa de água; O silêncio das levadas; O prazer da água (de rega); Ao sabor da levada; A levada que corre dentro de mim; A fonte de lendas, Tornadoiro de poemas. No final, são apresentadas notas bibliográficas dos autores escolhidos, seguindo-se um glossário e um breve posfácio com o enquadramento histórico das levadas madeirenses.

As fotografias de Francisco Correia, que acompanham os textos, não assumem o papel de mera ilustração, sem menosprezo dessa importante função da representação do real. Neste livro, as bonitas imagens captadas são uma espécie de texto visual que anuncia, rodeia ou prolonga o texto literário, envolvendo o leitor no amplo processo de fruição da levada, enquanto obra insular e produto da Natureza. Trata-se, portanto, de uma antologia literária e fotográfica, mas um objecto com unidade, criado com palavras e registos da paisagem.

No processo em curso sobre a candidatura das levadas da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO, esta edição constitui mais uma importante achega para valorização de um legado cultural, que remonta aos tempos do povoamento da ilha.

Nesta antologia, narrativas, poemas e fotografias fixam imagens bem diversas das levadas e da sua paisagem, da rega e dos levadeiros, do quotidiano agrícola, de superstições e crendices, quando na noite não existia luz elétrica para iluminar as encostas, dos recorrentes e indómitos conflitos em torno da água de rega, de relatos de caminhadas e de visões inspiradas.

Com a chancela da Imprensa Académica, da Associação Académica da Universidade da Madeira, disponibiliza-se um novo e diferente instrumento para a compreensão das levadas como obra da cultura madeirense.

Santos, Thierry Proença dos, org. – Levadas da Madeira: uma antologia literária. Francisco Correia, fot. Nelson Veríssimo, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2017. ISBN 978-989-99638-5-6.

Funchal Notícias. 17 Maio 2017

Levadas da Madeira: uma visão literária

Fátima

Acredita quem quiser no que se passou em Fátima, ente Maio e Outubro de 1917. Nem aos católicos se impõe a crença nas ditas aparições ou visões.

A maioria dos crentes contenta-se com o que lhe contaram sobre o assunto, justificando qualquer dúvida com a sua fé. Todavia, quem pretender informação esclarecedora tem à sua disposição vasta bibliografia e a Documentação crítica de Fátima, uma colectânea  de documentos relacionados com os acontecimentos de 1917, a evolução do Santuário e a expansão da mensagem em Portugal e no mundo, desde 1917 a 1930, editada, entre 1992 e 2013, com o patrocínio científico da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

Sem querer convencer quem quer que seja ou decepcionar outros tantos, ficam aqui, entre muitos exemplos, cinco factos, sustentados na Documentação crítica de Fátima e nas Memórias da Irmã Lúcia, que sempre me suscitaram reflexão e dúvidas.

 

CÉU E PURGATÓRIO

Na 1.ª «aparição», Lúcia perguntou à Senhora pela Maria do José das Neves (1897-1917), tendo Ela lhe dito que estava no céu. Quis depois saber do destino da Amélia, falecida em 28 de Março desse ano, ficando a saber que estava no purgatório (Primeiro escrito de Lúcia sobre as «aparições», feito a pedido do seu confessor, no Asilo de Vilar, Pe. Manuel Pereira Lopes, in DCF: SD, p. 231).

No entanto, nas Memórias, a «vidente» narra esta cena com mais pormenores:

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com minha irmã mais velha.

– A Maria das Neves já está no Céu?

– Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

– E a Amélia?

– Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos. (MIL, p. 173).

Que teria feito essa jovem para ser condenada ao purgatório «até ao fim do mundo»?

Amélia fora violada. Segundo Lúcia, a Senhora dissera que ela ficaria para sempre no purgatório.

Para Frei Bento Domingues: «A revelação mais extraordinária é, também, a mais incrível: não bastando à Amélia ter sido violada, vir de Nossa Senhora a afirmação de que ficaria no Purgatório “até ao fim do mundo”, é de mais. Isso não se faz!» (Público, 30 Abril 2017).

 

O INFERNO

Conta Lúcia no seu primeiro escrito que, no dia 13 de Julho de 1917, a Senhora, em cima da azinheira, ensinou-lhe a seguinte oração: «Ó meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e levai as alminhas todas para o céu principalmente aquelas que mais dele precisarem.» (DCF: SD, p. 232).

Aliás, uma parte do «segredo» de Fátima relaciona-se com o Inferno, que Nossa Senhora teria revelado aos pastorinhos:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. (MIL, p. 121).

De acordo com Lúcia, esta visão deixou Jacinta horrorizada, levando-a a numerosas penitências e mortificações. É natural que as crianças ficassem aterrorizadas. Jacinta tinha 7 anos de idade, Francisco 9 e Lúcia 10. O que não me parece edificante é a «Mãe do Céu» mostrar o inferno a crianças inocentes, incitando-as a sacrifícios, como por exemplo a privação de uma pobre merenda.

Para este procedimento, Lúcia apresentou uma justificação, quanto a mim, absurda e cruel:

Algumas pessoas, mesmo piedosas, não querem falar às crianças do inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três e uma de 6 anos apenas [na verdade, Jacinta tinha 7 anos] e que Ele sabia se havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, de susto se definhar. (MIL, p. 123).

 

AS ESMOLAS EM DINHEIRO

Em 19 de Agosto (4.ª «aparição»), Lúcia perguntou a Nossa Senhora:

– Aquele dinheiro que vossemecê tem, o que é que vossemecê quer feito dele?»

– Aquele dinheiro façam dois andorzinhos pequeninos; um leva-o tu mais três meninas como tu e vão de branco; o outro leva-o o Francisco e mais três meninos como ele; levem uma capa branca, levem-no à Senhora do Rosário e apliquem-no a ela. (Interrogatório do Pe. Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, a Lúcia, sobre a aparição de Agosto, nos Valinhos, in DCF: SD, p. 36; MIL, p. 178).

Lúcia, a mando de quem guardava o dinheiro que o povo deixava na Cova da Iria, interrogara a Senhora sobre a sua aplicação e recebera instruções para utilizá-lo na construção de dois andores e na festa de Nossa Senhora do Rosário. É inconcebível que Maria se preocupasse com andores e a festa da paróquia!

 

O FIM DA GRANDE GUERRA E O «MILAGRE DO SOL»

A «aparição» de 13 de Outubro seria marcada pelo anúncio do fim da Grande Guerra e o «milagre do sol».

Nos Interrogatórios do Dr. Manuel Nunes Formigão aos «videntes» Lúcia, Francisco, Jacinta e a João Marto, nos dias 2 e 3 de Novembro de 1917, a primeira referiu que Nossa Senhora lhe dissera no dia 13 de Outubro: «a guerra acaba hoje e esperem cá pelos seus militares muito breve.» (DCF: SD, p. 121). De facto, a guerra só terminou em 11 de Novembro de 1918.

Quanto ao «milagre do sol», no interrogatório de 19 de Outubro, Francisco disse que o sol andava à roda e parecia uma roda de fogo. Acrescentou que viu «cores muito bonitas, azul, amarelo e outras», no sol. Jacinta afirmou: «Vi o sol encarnado, verde e de outras cores e vi que andava à roda.». Já Lúcia referiu que o sol parecia a lua. (DCF: SD, p. 99-104).

Descrição mais pormenorizada deste fenómeno deve-se ao repórter de O Século, sob o título «Coisas espantosas: como o sol bailou ao meio-dia em Fátima», publicada na edição de 15 de Outubro de 1917:

Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zénite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:

– Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!

Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas – o sol “bailou”, segundo a típica expressão dos camponeses.

O repórter, Avelino de Almeida, não afirmou ter visto o sol «bailar», mas registou a percepção popular. Mais adiante, mencionou que, logo depois, Lúcia anunciou, «com ademanes teatrais, ao colo de um homem, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminara e que os nossos soldados iam regressar.» (DCF: SD, p.72-77).

Acrescente-se que Judah Bento Ruah, o fotógrafo que acompanhava o repórter de O Século, nada viu e a sua câmara fotográfica nada captou sobre o fenómeno solar.

No entanto, em artigo posterior publicado na Ilustração Portuguesa, II série, nº 610, de 29 de Outubro, Avelino de Almeida apresentou uma visão mais comprometida dos acontecimentos:

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar…

Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi… O resto é com a Ciência e com a Igreja…  (p. 356).

 

O «RAPTO» DE LÚCIA

Francisco faleceu em 4 de Abril de 1919, Jacinta no dia 20 de Fevereiro de 1920. Estranhamente, em Junho de 1921, Lúcia é internada no Asilo de Vilar, no Porto, a cargo das Irmãs Doroteias. Tinha então 14 anos de idade. O pai já havia morrido, mas a sua mãe estava viva.

Por que razão a Igreja retira Lúcia do seu ambiente familiar e leva-a para um internato no Porto?

Ingressa depois no Instituto das Irmãs de Santa Doroteia, em Pontevedra e Tuy. A 25 de Março de 1948, entrou para o Carmelo de Coimbra, onde professou como Carmelita e veio a morrer em 2005. Por que razão a Igreja condenou-a à clausura?

De acordo com o Relatório da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima, de 1930, assim se explica o silenciamento de Lúcia:

À semelhança do precursor S. João Batista, a partir desse momento, ela tinha de se diminuir, de se apagar, de quase desaparecer aos olhos do mundo, para que só a Virgem fosse glorificada e a sua obra assumisse as proporções da mais colossal maravilha do século vinte… Era indispensável que momentaneamente caísse no olvido o instrumento frágil e desproporcional de que a Divina Providência se dignou servir para iniciar essa obra. (DCF: SD, p. 466).

Recorde-se, a propósito, que também Salazar considerava que Lúcia deveria permanecer num convento. Quando o presidente do Conselho soube da presença da «vidente» em Fátima, a pedido de Paulo VI, em Maio de 1967, ficou irritado, ameaçando regressar a Lisboa logo depois da missa, sem se encontrar com o papa. Para Salazar, «a exibição pública de uma pessoa que participou em acontecimentos extraordinários constitui uma atitude demagógica e condenável.» (Nogueira, 1985, p. 280).

Há anos que me venho interrogando sobre muitas questões, quanto a mim, estranhas, que envolvem os pastorinhos da Cova da Iria. A quase totalidade deste texto foi escrita há três anos, na convicção de que a fé, a piedade popular, o medo, a propaganda e até os negócios não podem invalidar a compreensão de Fátima à luz da História e como fenómeno religioso.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA:

DCF: SD – Documentação crítica de Fátima: seleção de documentos: 1917-1930. Fátima: Santuário, 2013.

MIL – Memórias da Irmã Lúcia I. 13.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007.

Nogueira, F. – Salazar: o último combate: 1964-1970. Porto: Livraria Civilização Editora, 1985.

 

Funchal Notícias. 10 Maio 2017

Fátima