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Archive for Junho, 2009

Em conversa recente, concluía-se que «tudo não passava de mera luta pela sobrevivência». A frase, fria e convincentemente pronunciada, impôs-se, de imediato, como mote para a crónica deste dia.


Como se sabe, a luta pela sobrevivência não se resume à satisfação de necessidades básicas. É, porém, certo que quase tudo passa por aí. No início dos tempos, o homem foi buscar à Natureza alimentos e instrumentos de que necessitava. Vivia o período da economia de recolecção. Mas, mesmo nessa época, a actividade humana não se restringiu à caça, pesca, recolha de frutos e ovos ou a outras necessidades fisiológicas. Houve também lugar para a arte e a espiritualidade. No Neolítico, começou o homem a dominar a Natureza, a cultivar e a domesticar, para garantir o seu próprio abastecimento em comida, procurando já armazenar grãos até novas colheitas.


Desde a Pré-História até à actualidade, assegurar o pão e as comodidades tem sido preocupação dominante.


No entanto, a sobrevivência, de que falávamos, era outra. Tratava-se de subsistir em termos de mando ou influência, e de todo o aparato que o culto do grude envolve.


A disputa democrática do poder constitui inquestionável manifestação de cidadania. Já a alternância partidária corresponde a um estádio dos regimes democráticos, onde à oposição são reconhecidos, através do sufrágio, o mérito do seu programa e o trabalho em prol da sua afirmação como alternativa.


Contudo, no terreno, proliferam, com frequência, clientelas poderosas, expectativas e laços que condicionam a liberdade e a opção de alguns cidadãos, como é humano e natural, preocupados com o seu futuro.


O mote da sobrevivência, assaz invocado e, já pelo fim, envolvido, em saudável ironia, na aludida conversa, dizia respeito ao quotidiano dos pequenos grupos que, tendencial e perniciosamente, se transformam em «capelinhas», sem orago reconhecido fora do adro, mas com tementes fiéis e farsas ensaiadas de véspera e representadas, em dia aprazado, com acabrunhante despudor.


Por desgraça, «capelinhas» destas abundam. Com elas, o interesse superior fica sempre ameaçado. A sua actuação discreta, mas corrosiva, engenhosa, mas intolerável, delicada, mas perversa, envernizada mas imunda, tudo numa lógica febril de relações de poder, vai minando os alicerces das instituições, dificultando reformas necessárias e obstruindo prementes inovações.


Há que permanecer atento a essas manobras de sobrevivência no poder, em especial por parte dos «sacristães de capela», e conservar a verticalidade e a forte motivação para um trabalho honesto e persistente, mesmo quando o insulto é uma arma, a demagogia uma especialidade e a sede de vingança a crónica histeria.


Sobretudo importante é cultivar a serenidade e a esperança, não recear, porque, afinal, ninguém sobrevive à morte.


Por outro lado, convém não esquecer o grande ensinamento do Padre António Vieira, de que sempre me socorro, e com ele termino, por uma questão de sobrevivência: «Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta.» (Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, Lisboa, na Capela Real, 1649, § III)


Diário de Notícias, Funchal, 7 de Junho de 2009

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Foi, finalmente, editado um CD que recupera gravações de Lomelino Silva, realizadas em 1926. Com enorme satisfação, registamos esta iniciativa, apresentada, publicamente, na cidade do Funchal a 30 de Maio de 2009, não somente por nos permitir ouvir a voz do tenor madeirense, mas também porque, desde 1993, temos vindo a sugerir esta edição discográfica nos meios oficiais e através das páginas do Diário de Notícias.


A 20 de Janeiro de 1993, escrevemos:


«Integrou famosas companhias de ópera internacionais e gravou para His Master’s Voice. Será possível recuperar as suas gravações para a edição de um CD alusivo ao 1.º centenário do seu nascimento? Antevejo (sonho) esse lançamento no Teatro Municipal, envolvido por uma exposição evocativa de Lomelino Silva.»


No mesmo períódico, a 17 de Junho de 2001, nas vésperas de uma homenagem pública promovida pela Direcção Regional dos Assuntos Culturais, do Governo Regional da Madeira, voltámos a apelar para a edição de um CD do cantor lírico madeirense. É esse artigo que, de seguida, reproduzimos:


Uma voz de ouro: Lomelino Silva


Tenor de reputação internacional, Nuno Estêvão Lomelino Silva foi, sem dúvida, o madeirense mais conhecido em todo o mundo, no segundo quartel do século XX. Muito provavelmente, será também o madeirense que mais aplausos recebeu na centúria de Novecentos. Nos Estados Unidos da América, chamaram-no «o Caruso português»; no Brasil, «o rouxinol madeirense».


Em diversos países, a imprensa relevou as singulares características da sua melodiosa voz e reconheceu o seu enorme talento. Mário Moreau na obra Cantores de ópera portugueses (Lisboa, 1984, 2.º vol.) dedicou-lhe 56 páginas, transcrevendo algumas das críticas que jornais de todo o mundo dirigiram ao mais conhecido tenor português. O New York Herald Tribune, por exemplo, afirmou que Lomelino Silva cantava «com a garganta livre, com um timbre inesgotável e um sentimento enorme».


Na imprensa funchalense, colhe-se também abundante documentação sobre o famoso tenor, em especial no Diário de Notícias, O Jornal, Comércio do Funchal e Eco do Funchal, principalmente por ocasião dos seus espectáculos na capital madeirense.


Lomelino Silva, nasceu à Rua das Maravilhas, no sítio da Cruz do Carvalho, em 26 de Dezembro de 1892, sendo filho de Guilherme Augusto da Silva e de D. Helena Lomelino da Silva. Baptizou-se na Igreja de S. Pedro da cidade do Funchal aos 22 de Janeiro de 1893. Morreu em Lisboa, a 11 de Novembro de 1967.


Estreou-se na Madeira em 1916, no Teatro Municipal do Funchal, na altura denominado Dr. Manuel de Arriaga. Cantou, então, a opereta Primeiros afectos, cuja letra é da autoria de Alberto Artur Sarmento. Na oportunidade, convém referir que em 24 de Maio de 1933, no Teatro-Circo, Lomelino Silva voltou a cantar versos de Alberto Artur Sarmento. Desta vez, e em primeira audição, Saudades da Terra, uma canção com música do grande maestro e compositor Francisco de Lacerda.


Estudou em Lisboa e em Itália. Neste país, foi discípulo de Giovanni Laura e Ercole Pizzi. A sua carreira artística, como cantor de ópera, iniciou-se em Milão em 29 de Dezembro de 1921, onde alcançou assinalável êxito no Rigoletto, de Verdi. Em Fevereiro seguinte, apresentou-se na ópera La Bohème, de Puccini.


Lomelino Silva considerava 1921 e Milão como o início da sua carreira artística. Em 1946, comemorou no Funchal as suas bodas de prata com um recital de canto no Teatro Baltasar Dias.


Os primeiros sucessos em Milão proporcionaram-lhe, de imediato, projecção internacional, tendo actuado em vários países, por todo o mundo, nas décadas de vinte, trinta e quarenta do século XX. Para além de Portugal e Itália, cantou na Holanda, Brasil, Inglaterra, Estados Unidos da América, Havai, Japão, China, Macau, Hong-Kong, Filipinas, Singapura, Índia, África do Sul, Moçambique, Trindade, Guianas, Venezuela, Curaçao, Colômbia, Cuba, Panamá, Espanha, Marrocos. Aliás, actuou mais no estrangeiro do que em Portugal, porque no nosso país realizavam-se poucos concertos.


Cantou também, por diversas vezes, no Teatro Municipal do Funchal depois da sua consagração internacional. Sem pretensão de lista exaustiva, referimos espectáculos em 1921, 1925, 1926, 1928, 1933, 1939, 1943, 1944 e 1946. O número de actuações no Funchal revela bem a afeição que tinha com a sua família e a terra natal.


A propósito, registe-se o que afirmou Lomelino Silva numa entrevista publicada neste Diário em 21 de Novembro de 1943:


«Gostei de ver a minha terra e isto faz-me recordar que, da última vez que passei em Nova York, um amigo levou-me a um museu de pintura, onde encontrei um quadro com esta legenda: ‘Uma visão do paraíso’. Era apenas uma pérgola vulgaríssima, tendo ao fundo um pedaço de céu azul. E eu lembrei-me da nossa terra, onde esses cantos de paraíso se vêem por toda a parte, tendo quase cada pessoa um no seu quintal, para uso e regalo próprio… O facto de ter viajado muito […] tornou-me cada vez mais orgulhoso da minha linda terra.»


Em 1926, gravou para a His Master’s Voice composições de Verdi, Sarti, Tomás de Lima (com este compositor, também pianista de renome, Lomelino Silva apresentou-se no Funchal, em Outubro-­Novembro de 1928, e no Brasil), Fernando Moutinho, Coutinho de Oliveira, António Menano, Alfredo Keil e Rui Coelho. Seria importante recuperar estas gravações num CD, tal como se fez para Edmundo de Bettencourt.


Do seu vasto repertório, destacam-se o Rigoletto, La Bohème, Mefistófeles, Tosca, Fausto, O Barbeiro de Sevilha, La Traviata… Todavia, Lomelino Silva também incluía nos seus espectáculos canções portuguesas bastante conhecidas.


De registar ainda o facto de, em 1937, o actor de cinema Edward Everett Horton, grande admirador de Lomelino, ter inaugurado, na sua casa em Hollywood, um teatro com 400 lugares denominado Da Silva’s Musical Gallery, em homenagem ao tenor madeirense.


Depois de uma brilhante carreira internacional, Lomelino Silva despediu-se dos palcos em 6 de Fevereiro de 1949, no Cinema Tivoli, em Lisboa.


A primeira homenagem ao tenor madeirense ocorreu em 14 de Setembro de 1925, promovida pelo Club Sport Marítimo, na presidência de Travassos Lopes. Foi então organizado um concerto no Teatro Municipal do Funchal e descerrada, no Salão Nobre, uma lápide com o seu nome e a data da sua consagração no Funchal, tendo Álvaro Reis Gomes, membro da direcção do clube do Almirante Reis, saudado o homenageado.


Passados oitenta anos sobre o início da carreira artística de Lomelino Silva, uma lápide no local onde nasceu e um concerto no Teatro Baltasar Dias, no próximo dia 22, servirão para avivar a memória de um grande tenor que, pelos quatro cantos do mundo, granjeou admiração e muitos aplausos.


Bem a propósito, afirmou Carlos M. Santos em O Jornal de 25 de Março de 1946:


«Estampado nos cartazes o seu nome português, que nunca modificou, apesar de fortes insistências e razões, Lomelino Silva apregoou por essas terras além o nome de Portugal, bem como o do torrão que lhe foi berço, honrando-se sempre em se declarar português, sem se esquecer de falar do seu país e de o colocar no melhor conceito dos seus ouvintes.»


Em 20 de Janeiro de 1993 e 1 de Janeiro do ano seguinte, neste Diário, propusemos uma ampla homenagem a Lomelino Silva. Em parte, será realizada no próximo dia 22 de Junho. Contudo, esperamos ainda que se venha a concretizar o CD com as suas gravações de 1926, e que o seu nome seja dado a uma rua do Funchal. Ficaria, assim, perpetuado nesta cidade o nome de um dos madeirenses mais famosos do século XX.

Diário de Notícias, Funchal, 17 de Junho de 2001

Outros artigos da minha autoria no Diário de Notícias com referências a Lomelino Silva:


«A propósito de um centenário», Diário de Notícias, Funchal, 20 de Janeiro de 1993.


«Nomes de ruas», Diário de Notícias, Funchal, 31 de Julho de 1993.


«Uma prenda adiada: a homenagem a Lomelino Silva», Diário de Notícias, Funchal, 1 de Janeiro de 1994.

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