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Archive for Março, 2010

Neste dia, um poema de José António Gonçalves (1954-2005):

 

As tábuas de madeira

 

Dêem-me as tábuas,

essas tábuas de madeira firme

com que se constroem os barcos.

 

Dêem-me as tábuas rijas do tempo,

as tábuas livres e cantantes de madeira

com que se erguem os muros fortes

das cidades inexpugnáveis.

Deixem-me juntá-las às folhagens

do despojamento da sua condição de árvores.

 

Com elas, prometo,

irei vigorosamente alicerçar,

no entrelaçar das tempestades

que se lêem nos intervalos das nuvens invernais,

as jangadas calmas

que respondem nas manhãs de nevoeiro

pelo simples nome de casas.

 

Depois, se verdadeiramente me apetecer,

decoro-as com dois pares de asas

e deixo-as voar.

 

A promessa permanece no poema.

Deixemos as casas, na sua condição de jangadas,

cumprir com a sua missão de navegar.

 

In Memórias da Casa de Pedra, Madeira, Arguim, 2002

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Saída da Procissão dos Passos, da Igreja do Colégio, Funchal. Gravura in Marquis Degli Albizzi, Six mois à Madère. Paris: Hachette, 1889.

Saída da Procissão dos Passos, da Igreja do Colégio,
Funchal.
Gravura in Marquis Degli Albizzi, Six mois à Madère.
Paris: Hachette, 1889.

 

No Funchal, a Procissão dos Passos ocorria habitualmente no segundo domingo da Quaresma. Em 1896, sucedeu a 8 de Março e o Diário de Notícias narrou o acontecimento, que quebrou a monotonia das pacatas tardes de domingo da nossa cidade e fez o comboio duplicar as viagens até ao Monte, tal o desusado afluxo de pessoas na estação do Pombal.

Como habitualmente, na véspera pelas 16 h., saiu a imagem do Senhor dos Passos da Igreja do Convento de Santa Clara rumo à Igreja do Colégio. Do Convento das Mercês, pela mesma hora, partiu a imagem de Nossa Senhora da Soledade com destino à Sé.

Nesse domingo, ao som da Missa de Requiem, de Verdi, executada pela banda do Regimento de Caçadores n.º 12, o Senhor dos Passos deixou a Igreja do Colégio, acompanhado da respectiva Irmandade. Antes, acontecera o sermão do Pretório.

A procissão seguiu pela Rua da Carreira, desceu a Rua de S. Francisco e fez a primeira paragem no passo processional do Jardim Pequeno (Avenida Arriaga, mais ou menos defronte das actuais adegas da Madeira Wine). Dirigiu-se depois à Catedral. Aqui, realizou-se o «Encontro» com a Senhora da Soledade que, com a respectiva confraria, se incorporou no préstito, depois do sermão da praxe.

O cortejo parou nos diversos passos processionais, encaminhando-se para Santa Maria Maior. Nesta igreja, recriou-se o cenário do Calvário e aconteceu o terceiro e último sermão.

Só no domingo seguinte, as imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora da Soledade regressariam às suas casas.

Isabella de França assistiu à Procissão dos Passos de 19 de Março de 1854 e deixou-nos curiosa descrição no seu jornal de viagem. É tudo muito semelhante a 1896.

A visitante inglesa registou os dois pendões, que davam início à procissão, com as enigmáticas iniciais S. P. Q. R., as duas imagens, as duas irmandades, as lanternas processionais, a banda de música, a guarda de honra (estranhou os soldados com o «barrete» na mão e a espingarda na outra), o clero com as suas vestes de cerimónia e as crianças vestidas de anjos «com túnica de seda roxa e cordão branco, e grinaldas de verdura e flores brancas na cabeça», com guarnições de prata, lantejoulas e jóias, algumas empunhando instrumentos da paixão – martelos, pregos, esponjas – que, no seu entender, «pareciam mais dançarinas minúsculas, de ópera, do que anjos». Anotou ainda a participação de muitos fidalgos.

Isabella de França, que observou a procissão da varanda do consulado americano, reparou que «durante todo o tempo andaram rapazes com tabuleiros de doces a vender».

Relato minucioso da mesma procissão, da autoria de Marinho de Nóbrega, foi publicado no Diário da Madeira, de 27 de Fevereiro de 1921. Praticamente coincide com a respectiva entrada do Elucidário Madeirense. Esta descrição refere-se, todavia, a um tempo anterior à data de publicação. Aliás, o seu autor escreveu em subtítulo, «Um punhado de lembranças».

Conta Marinho de Nóbrega que, no Domingo de Passos, as confeitarias vendiam muitos bolos, amêndoas, rebuçados e outras guloseimas, pois na cidade «era um dia cheio». Pelas ruas, armavam-se tabuleiros com cavacas, rebuçados e cartuchos de amêndoas frisadas. Nas vésperas, modistas e alfaiates tinham trabalhado afanosamente para que novos fatos desfilassem pelo Funchal.

Quanto à procissão, iniciava-se com um pendão roxo tendo ao centro as iniciais S. P. Q. R. Trata-se de uma expressão latina, cuja tradução quer dizer o Senado e o Povo Romano. Assim, à partida, imputava-se aos Romanos a condenação de Cristo. Antes da queda da monarquia, gracejava-se com estas iniciais, traduzindo-as por «Senhor, o povo quer a República».

Logo depois do pendão iam as penitentes, na maioria descalças e com os rostos encobertos por véus negros. Lembra Marinho de Nóbrega que, noutros tempos, integravam esta procissão homens que se flagelavam com grossas cordas. Outros, como sacrifício, carregavam barras de ferro atadas às pernas ou nos ombros. Nessa altura, abria o cortejo o «gajeiro» com o seu traje característico, tocando trombeta.

Próximo das penitentes, iam os anjos que transportavam instrumentos da paixão. A procissão completava-se na Sé, quando o Senhor dos Passos e a sua confraria se encontravam com a Senhora da Soledade e a sua irmandade. Era então proferido um sermão ao ar livre, num púlpito improvisado junto ao adro da Sé. Esclarece o autor do texto que temos vindo a aludir, que estas imagens foram mandadas vir do Porto, por Joaquim Roque, abastado proprietário da ilha da Madeira.

O bispo, o cabido, muitos padres, as autoridades locais, a força do regimento e a sua banda de música fechavam o cortejo.

Da Sé, a procissão dirigia-se para a Igreja de Santa Maria Maior, onde, no altar-mor, se improvisava a cena do Calvário. Em diferentes pontos do trajecto, o préstito detinha-se em frente dos «passos», armados para a ocasião ou fixos, como os dois ainda existentes, no Largo do Pelourinho e na Rua de Santa Maria.

A volta da procissão, por esta altura, fazia-se na noite do mesmo domingo. As imagens vinham agora nos seus nichos. O povo acompanhava-as com archotes até à Igreja do Colégio. Mas já não participavam as autoridades eclesiásticas e civis neste cortejo de regresso.

Cerca de 1960, segundo a nossa informante, o Senhor dos Passos vinha de Santa Clara para o Colégio, pelas Capuchinhas, na sexta-feira à noite. A procissão realizava-se no segundo domingo da Quaresma, pois, no primeiro, tinha lugar em S. Roque, no terceiro, em St.º António, no quarto, em Câmara de Lobos e no quinto, em S. Martinho. O percurso era então mais reduzido, pois já não fazia estações nos passos processionais e não havia a representação do Calvário em Santa Maria Maior.

Saía do Colégio, descia a Rua dos Ferreiros e no Largo da Sé dava-se o encontro com Nossa Senhora. Prosseguia pela Avenida Arriaga, subia a Rua de S. Francisco e regressava à Igreja do Colégio de S. João Evangelista, pela Rua da Carreira.

A Procissão dos Passos do Salvador mantém-se ainda em muitas paróquias da ilha, como manifestação religiosa tradicional do nosso calendário litúrgico.

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 30 de Março de 1997 (adaptado)

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Sé do Funchal

Samuel Davies (1757-1819), "Funchal, Madeira: A Square with a Church". Aguarela, 1779. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection. Uma das mais antigas representações iconográficas da Sé do Funchal.

Samuel Davies (1757-1819), “Funchal, Madeira: A Square with a Church”.
Aguarela, 1779. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection.
Uma das mais antigas representações iconográficas da Sé do Funchal.

CRONOLOGIA

1485

D. Manuel, donatário do arquipélago da Madeira, doou, ao município do Funchal, um chão, no denominado Campo do Duque, para construção de uma igreja, praça e casa do concelho.

1488

A Câmara do Funchal revela ter já conhecimento do projecto da Sé.

1493

Início da construção, sob a direcção do mestre Pêro Anes.

1508

Bênção da nova igreja pelo bispo de anel, D. João Lobo.

A paróquia de Santa Maria do Calhau foi extinta, sendo transferida para a nova igreja.

Elevação da vila do Funchal a cidade.

1512

Retábulo da Sé.

1514

Criação da Diocese do Funchal, pelo Papa Leão X, sendo nomeado primeiro bispo, D. Diogo Pinheiro. O extenso território do novo bispado abrangia todas as terras descobertas pelos portugueses.

Instituição da Sé com o orago de Nossa Senhora da Assunção.

Criação da dignidade de Mestre-Escola da Sé.

1517

Consagração da Catedral.

1523

No coro da Sé, S. Tiago Menor é proclamado protector e defensor da cidade pelo capitão do Funchal, oficiais do concelho, mesteres, cidadãos, povo, deão e cabido.

1533

Elevação da diocese funchalense à dignidade metropolítica.

Nomeação de D. Martinho de Portugal como arcebispo do Funchal.

1551

Supressão do arcebispado do Funchal.

1558

D. Jorge de Lemos, 4.º bispo do Funchal, entrou na sua diocese, sendo o primeiro prelado titular a residir na ilha da Madeira.

1566

Saque de corsários franceses.

1578

Reuniu, na Sé, o primeiro sínodo da Diocese do Funchal, sendo bispo D. Jerónimo Barreto.

1591

Um temporal danificou a Sé do Funchal, principalmente a grimpa da torre e as coberturas em telha.

1732-37

Construção da nova sacristia, junto à torre sineira, e da Casa do Cabido, pelo mestre das obras reais, Diogo Filipe Garcês.

1748

Um terramoto danificou a Sé.

1775

Colocação de um relógio na torre, por expensas do governador João António de Sá Pereira.

1790-1800

Remoção de sete dos nove altares do cruzeiro; deslocação das duas portas travessas; construção de seis altares nas naves laterais e de dois janelões com a respectiva varanda na fachada principal. Construção do actual coro, junto à porta principal.

1910

Classificação como Monumento Nacional.

1911

O altar da antiga Capela de N.ª Sr.ª dos Varadouros foi transferido para a sacristia dos capelães da Sé.

1922

Novo relógio oferecido por Michael Grabham.

1937

Aquisição do actual órgão, de tipo orquestral, romântico e de fabrico inglês.

1954

Eliminação dos janelões da frontaria e respectivo varandim.

1959

Colocação de vitrais nas janelas da capela-mor, da autoria do pintor Joaquim Rebocho.

1989

Novo relógio associado a um sistema informático.

1991

Visita de Sua Santidade o Papa João Paulo II.

2004

Renovação do sistema de canalização das águas pluviais e das coberturas planas da cabeceira da Sé.

2007

Renovação das coberturas.

2008

Restauro das cantarias.

2013

Início das obras de conservação e restauro do retábulo da Capela-Mor.

2014

Conclusão do restauro do retábulo da Capela-Mor.

Comemorações do 500.º aniversário da criação da Diocese do Funchal.

2017

Recuperação das cantarias da torre. Cf. Diário de Notícias. Funchal. 141: 46 224 (26 Março 2017), p. 6)

(Cronologia sucinta elaborada por Nelson Veríssimo, a pedido do Rev.º Vigário da Sé, em Julho de 2008, e posteriormente aumentada)

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Joaquim Pestana

  

Joaquim Pestana

Nasceu a 24 de Dezembro de 1840 na vila de Câmara de Lobos, sendo filho de António Pestana e de Genoveva Cândida de Jesus. Morreu na freguesia de S. Martinho, do concelho do Funchal, a 6 de Fevereiro de 1909.

Brevemente, será editada, pela Câmara Municipal de Câmara de Lobos, uma compilação dos seus poemas, até agora dispersos por várias publicações periódicas.  O livro será apresentado no próximo dia 3 de Maio,  pelas 18:00 h, na Biblioteca  Municipal de Câmara de Lobos. Constituirá, por certo,  justa homenagem ao poeta que, no final da vida, preparou e anunciou um livro – Espinhos e Flores, mas que, infelizmente, não logrou ver concretizado.

Do poeta câmara-lobense, o seu amigo e conterrâneo, Padre Eduardo Pereira (1887-1976), deixou singular testemunho:

Considerado dentro da época literária em que viveu, a do Romantismo, Joaquim Pestana foi um dos mais distintos e prolíferos poetas líricos deste arquipélago. Como poeta do género ultra-romântico, seguiu a Escola do seu fundador, A. A. Soares dos Passos, filiando-se na corrente do Novo Trovador, cujas composições se inspiravam no sentimento e na natureza, e eram repassadas dum lirismo melancólico, saudosista e doentio. (Das Artes e da História da Madeira, n.º 29, Funchal, 1959, p. 29)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÂMARA, Jayme, «Joaquim Pestana», Almanach de Lembranças Madeirense para o anno de 1909, Funchal, J. M. da Rosa e Silva – Bureau de La Presse, 1909, pp. 98-101.

FREITAS, Manuel Pedro (ed.), «Joaquim Pestana: colectânea de textos e poemas», 2001. [Consult. 5-2-2009] Disponível em:

http://www.concelhodecamaradelobos.com/dicionario/pestana_joaquim.html

GONÇALVES, José António, «Joaquim Pestana: no 150.º aniversário do nascimento do poeta câmara-lobense ultra-romântico», Girão, n.º 4, Câmara de Lobos – Madeira, 1990, pp. 125-128.

MARINO, Luís, Musa Insular (Poetas da Madeira), Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959, pp. 155-157.

PEREIRA, Eduardo, «Joaquim Pestana», Diário da Madeira, Funchal, 29-6-1937, pp. 1 e 5.

_____, «Joaquim Pestana», Das Artes e da História da Madeira, n.º 29, Funchal, 1959, pp. 29-32.

PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, II vol., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1951, pp. 118-121.

SAINZ-TRUEVA, José de, «Lembrança de Joaquim Pestana», Girão, n.º 11, Câmara de Lobos – Madeira, 1993, pp. 537-541.

SANTOS, Rui, «Um texto de Joaquim Pestana», Girão, n.º 7, Câmara de Lobos – Madeira, 1991, pp. 323-324.

SILVA, Padre Fernando Augusto da, «Poetas madeirenses», Das Artes e da História da Madeira, n.º 24, Funchal, 1956, pp. 18-22.

TEIXEIRA, Mónica, Tendências da Literatura na Ilha da Madeira nos séculos XIX e XX, Funchal, SRTC-CEHA, 2005, pp. 41-70; 433-441.

VERÍSSIMO, Nelson, «Escritores de Câmara de Lobos: Câmara de Lobos num almanaque, pela pena de Joaquim Pestana», Girão, n.º 9, Câmara de Lobos – Madeira, 1992, pp. 417-421.

_____, «1.º Centenário da morte de Joaquim Pestana», Diário de Notícias, Funchal, 8-2-2009.

 

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