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Archive for the ‘História’ Category

Largo do Encontro – São Roque, Funchal

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Regicídio

Em 1908, tinha-se consciência de que a monarquia, em Portugal, caminhava para o fim. Republicanos, mas também muitos monárquicos, odiavam D. Carlos. Já no início do reinado, recebera o cognome de “o Último”.

O governo ditatorial de João Franco, promovido pelo rei em Maio de 1907, veio aumentar a contestação à Coroa. Mas, na verdade, a agitação antidinástica remontava ao início da década de 90, com a crise decorrente do conflito diplomático com a Inglaterra por questões coloniais, em especial, o “mapa cor-de-rosa”.

D. Carlos temia um atentado. No seu tempo, vários chefes de estado e aristocratas tinham sido assassinados. O príncipe D. Luís Filipe, quando acompanhava o pai, levava sempre a mão no revólver.

Rebentavam engenhos explosivos em Lisboa. Em 28 de Janeiro, eclodiu uma tentativa de golpe para neutralizar João Franco e proclamar a República ou apenas depor o rei, na qual participou o visconde da Ribeira Brava, entre outros dissidentes progressistas, republicanos e carbonários.

D. Carlos no dia 31 assinou, em Vila Viçosa, o decreto do desterro, que previa a retirada das imunidades parlamentares e determinava a pena de degredo para o Ultramar para todos os que atentassem contra a “segurança do Estado, tranquilidade pública e interesses gerais da Nação”.

No dia seguinte, os soberanos e o príncipe herdeiro regressaram a Lisboa. No final da tarde, a carruagem real descoberta foi alvejada quando saía do Terreiro do Paço em direcção à Rua do Arsenal. Alfredo Luís da Costa matou o rei e Manuel dos Reis da Silva Buíça assassinou o príncipe D. Luís Filipe. Os dois regicidas foram, de imediato, mortos pelas forças policiais.

O Diário de Notícias deu conta do duplo assassinato em 3 de Fevereiro, pois a notícia, por comunicação telegráfica, só foi conhecida no Funchal na manhã do dia anterior, já depois de publicada a respectiva edição. Contudo, na tarde do dia 2 saiu um suplemento sobre o trágico acontecimento.

Na edição de 3 desse mês, o editorial, marcado com uma tarja preta, certamente da autoria do redactor principal, Ciríaco de Brito Nóbrega, condena a “tragédia sangrenta” que toda a Nação Portuguesa deveria lamentar, “postas de parte, nesta hora de angústia e de luto, as paixões políticas, os ressentimentos pessoais, os ódios de seita.”

Até ao dia dos funerais, o DN noticiou várias manifestações de luto e cumprimentos de condolências de entidades oficiais e civis. Foram também cancelados vários eventos, como, por exemplo, o baile em benefício do Asilo de Mendicidade e Órfãos do Funchal, um Te Deum na Igreja do Colégio e um sarau literário e musical no Paço Episcopal. Alguns estabelecimentos de ensino, como o Liceu, permaneceram encerrados por alguns dias.

No dia 10 de Fevereiro, para assinalar os funerais régios, realizou-se uma missa de Requiem na Sé do Funchal. Os estabelecimentos de comércio encerraram por sugestão do presidente da Associação Comercial do Funchal. Ocorreram também serviços religiosos, em homenagem ao rei e príncipe assassinados, no Templo Escocês da Rua do Conselheiro, promovido pela Igreja Evangélica Portuguesa, e na Igreja Anglicana.

Um madeirense alvejado pelas forças policiais: acaso ou engano fatal?

Os regicidas ficaram na História pelo crime cometido. E logo se desenvolveu insólito culto à sua memória, como se fossem heróis, que se traduziu na edição de postais, romagens às suas sepulturas, reportagens na imprensa, subscrições em favor dos seus parentes e construção de um mausoléu no cemitério do Alto de São João pela Associação do Registo Civil e do Livre Pensamento, que o Estado Novo mandou demolir.

Mas pouco se fala de João Sabino da Costa, o madeirense com 21 anos de idade, abatido violentamente pela polícia e, nos primeiros dias, tido como suposto regicida. Natural de Santa Maria Maior, mudara-se para Lisboa, conjuntamente com a sua mãe, Brígida Teixeira Costa, no estado de viúva.

Por altura da sua morte, era caixeiro da ourivesaria de J. P. Vella & C.ª, na Rua do Arsenal. Nesse dia fatídico, foi ao correio enviar algumas cartas do seu patrão e acabou por ser baleado pelos agentes policiais.

Uma testemunha, o ourives João Rodrigues Colaço, das Caldas da Rainha, dirigiu uma carta ao Mundo, que o DN reproduziu, dando conta de que não se tratou de uma bala perdida, como a imprensa de início noticiara, mas sim de um acto violento da polícia sobre um homem inocente:

Na tarde de 1 de Fevereiro, encontrando-me eu em Lisboa para tratar dos meus negócios, e estando em um escritório no largo do Pelourinho, ouvi gritos que me levaram à janela, vendo então que à porta principal do edifício da Câmara Municipal, que tem frente para o largo do Pelourinho, estava um homem de estatura regular, de bigode, gritando que não o matassem. Estava rodeado de alguns polícias, os quais o espancavam, aparecendo nesse momento um [da] polícia secreta que lhe deu uma grande bengalada. Em seguida, um guarda fardado apontou-lhe o revólver e deu-lhe um tiro, que o fez cair redondamente no chão, depois dois polícias levaram o morto arrastado pelo chão como se fosse um cão.

Confundido com os regicidas, João Sabino da Costa foi “vítima da perturbação ou estupidez daqueles a quem estavam confiadas a segurança individual e a manutenção da ordem pública no local da hedionda tragédia”, “e todos também lastimam que o tiro que o matou tivesse partido da mesma polícia brutal, inepta e imprevidente que não soube guardar e defender as preciosas vidas do chefe do Estado e do seu presuntivo herdeiro”, como se escreveu no Diário de Notícias, de 7 de Fevereiro de 1908.

Diário de Notícias. Funchal. 140: 45 946 (20 Jun. 2016) 4-5.

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A escolha do cabeça-de-lista do Partido Socialista, para o círculo da Madeira, suscitou, como foi amplamente noticiado, alguma polémica. O líder nacional dos socialistas designou para esse lugar Bernardo Trindade. Logo o presidente do PS-Madeira manifestou forte discordância, por ainda não haver decisão dos órgãos competentes, sobre a matéria em causa. Bernardo Trindade acabou por, airosamente, não aceitar o lugar que António Costa lhe ofereceu, abrindo, assim, caminho para que os socialistas madeirenses formassem a sua lista de candidatos, com aprovação regional e nacional. Mas António Costa não se saiu bem neste processo. Contra ele, pesa a visão centralista, ainda que o caso seja de índole partidária.

No meio desta embrulhada, foi publicamente lembrado um caso que remonta às eleições de 1976 para a Assembleia da República, quando Jorge Campinos encabeçou a lista pela Madeira. Duarte Caldeira veio então à liça para defender que não se tratou de uma imposição da direção nacional ao PS-Madeira. No congresso dos socialistas madeirenses, em junho passado, Caldeira negou qualquer pressão de Mário Soares para colocar Campinos na lista da Madeira às nacionais de 1976, garantindo ter havido intervenção da sua parte no convite ao cabeça de lista: «É falso, eu próprio é que fui a Lisboa convidar o Campinos», afirmou o militante socialista, do grupo dos fundadores do PS-Madeira («Não se trata de repisar, mas … mais uma do PS que é… e não é!», in Fénix do Atlântico, 16-7-2015).

A opinião de se tratar de um convite do PS-Madeira e não de uma imposição dos órgãos nacionais do Partido foi logo contrariada por Ângelo Paulus. Este militante socialista, igualmente dos primeiros tempos da organização do partido na Madeira, afiançou a Luís Calisto: «É mentira, o Duarte Caldeira não convidou Campinos nenhum.» Acrescentou ainda: «O Soares é que impôs esse nome e nós aqui tivemos de o meter na lista. O Duarte está errado. E diga mesmo que fui eu a dizer.» (Fénix do Atlântico, 16-7-2015). Mais tarde, quando por mim confrontado com esta questão, Ângelo Paulus reafirmou o que já havia dito.

Para compreender esta situação, e de certa forma verificar como as direções nacionais de alguns partidos atuam em relação às periferias, impondo cabeças-de-lista não naturais dos círculos eleitorais e, por vezes, até ilustres desconhecidos, consultei a imprensa madeirense nos meses anteriores às legislativas de 1976.

A 6 de março, chegaram ao Funchal, em campanha eleitoral, três membros do VI Governo Provisório (Walter Rosa, ministro da Indústria e Tecnologia, Manuel Ferreira de Lima, secretário de Estado da Administração Regional e Local, e Firmino Monteiro Rocha, subsecretário de Estado dos Seguros). Conjuntamente, vinham Miranda Calha, candidato a deputado por Portalegre, e Arnaldo Silva, membro da Comissão Técnica Eleitoral do PS.

No aeroporto do Funchal, realizou-se, nesse dia, uma conferência de imprensa para apresentação dos propósitos eleitorais dos socialistas e justificação da escolha do cabeça-de-lista pela Madeira, Jorge Campinos, ministro do Comércio Externo.

Interrogado pelo Diário de Notícias sobre a escolha de um cabeça-de-lista não natural da Madeira nem tão-pouco com residência nesta Região, Arnaldo Silva esclareceu «que foi intenção do PS colocar figuras nacionais em locais, onde possam, por afinidade dos cargos que desempenham, ser úteis à resolução dos problemas específicos de cada região.»

Na oportunidade, Duarte Caldeira, apoiante da candidatura de Jorge Campinos, justificou também ao DN a opção socialista nos seguintes termos:

Nós perguntamos muitas vezes quem é preferível estar na cabeça de lista: um madeirense que não tenha possibilidades de fazer nada pela sua terra ou uma pessoa de projeção nacional, como no caso concreto de Jorge Campinos que é ministro e pode fazer muita coisa pela Madeira?

O que será preferível para a nossa terra? Ultrapassar os interesses do nome aos interesses da região? Talvez seja preferível o desenvolvimento da própria região do que pôr um madeirense que não tenha possibilidades de nada fazer pela Madeira. E a verdade é que talvez dentro de breves dias se veja essa possibilidade demonstrada pelo próprio ministro, não só no aspeto do Turismo, como no Comércio Externo.» (Diário de Notícias, Funchal, 7-3-1976)

Nas eleições legislativas de 1976, a escolha de Jorge Campinos para cabeça-de-lista pela Madeira foi, portanto, uma estratégia do PS, como assumiu Arnaldo Silva no Funchal. Preteriu-se um madeirense ou porto-santense em favor de um ministro que tutelava o Turismo. Mas, para o comum dos eleitores da Região Autónoma da Madeira, Campinos era um desconhecido. Depois de eleito deputado, integrou o governo de Mário Soares como ministro sem pasta. Desconheço se fez alguma coisa em benefício do círculo que o elegeu, como esperava o PS-M.

Esta prática de candidaturas de não naturais ou sem residência no círculo eleitoral vem já do constitucionalismo monárquico. Nesse tempo, e ainda nos regimes seguintes, os distritos apanhavam com os candidatos que as direções nacionais, por razões diversas, pensavam ser os melhores para determinados círculos. Por vezes, tinha-se apenas em consideração que o círculo oferecia garantia segura para a eleição. O candidato era desconhecido e mais ou menos ilustre. Contudo, os caciques mostravam-se fiéis aos chefes dos partidos e tratavam de mover influências em favor da almejada, quanto concertada, eleição.

Embora ainda se verifique no Continente a indicação de candidatos não naturais nem residentes para encabeçar listas nalguns círculos, valendo apenas o seu currículo, verdade é que, nas Regiões Autónomas, constitui, nos dias de hoje, conduta inaceitável. Como inadmissível, foi também querer impor um candidato independentemente da vontade da estrutura regional do partido.

O relacionamento entre o centro e a periferia atlântica ainda apresenta alguma conflitualidade, com implicações indeléveis no sistema autonómico.

 Funchal Notícias, 10 de Agosto de 2015

 http://funchalnoticias.net/2015/08/10/imposicao-ou-convite-no-ps-madeira-contributo-para-a-historia/

 

 

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Governo e Oposição manifestaram já vontade em comemorar o 6.º Centenário do Descobrimento da Madeira. A efeméride aproxima-se e há que preparar um programa festivo.

Contudo, uma pergunta impõe-se: em que ano será celebrado tão importante acontecimento?

O programa comemorativo deverá prever atividades para antes e depois da data a assinalar, mas não poderá omiti-la. Contemplará também, por certo, obra que perdure, porque o efémero depressa se consome e cedo cai no esquecimento.

O 5.º Centenário foi celebrado em 1922. Era, então, diversa a conjuntura, nomeadamente pelos efeitos nefastos da Grande Guerra, a instabilidade governativa, a crise financeira e a conflitualidade social da Primeira República.

E o 6.º, quando será assinalado?

O problema é que não se sabe, com exatidão, a data da primeira viagem de João Gonçalves e Tristão ao arquipélago da Madeira. As crónicas registaram o acontecimento após o descerco de Ceuta, ocorrido em 1419.

O cronista madeirense Jerónimo Dias Leite, escrevendo por volta de 1579, afirmou que foi em junho de 1419 que os navegadores portugueses chegaram ao Porto Santo. No início do mês seguinte, dirigiram-se para a Madeira. Contudo, a sua cronologia não é rigorosa.

Por outro lado, as crónicas de Zurara, que escreveu muito mais próximo do início do povoamento destas ilhas e teve acesso privilegiado a informações do círculo do Infante D. Henrique e da Corte, levam-nos a supor que foi em 1420.

Fora de questão é o conhecimento do Arquipélago na segunda metade do século XIV, como prova a cartografia. Em algumas representações dessa época, as ilhas aparecem já com as denominações atuais, embora com grafias diversas. Mas todas estão legendadas em português numa carta de 1408.

Na verdade, o arquipélago madeirense era conhecido por alguns navegadores e cartógrafos da área do Mediterrâneo desde a segunda metade de Trezentos. Possivelmente, igual conhecimento circulava nos meios náuticos portugueses. Estas ilhas teriam sido avistadas nas viagens para as Canárias e até serviriam de escala para aguada. A abundância de madeira poderia também ter suscitado o interesse dos navegadores e mercadores portugueses.

Assim, o uso da palavra “descobrimento” só pode ser legitimado no sentido de ampla revelação de uma realidade geográfica até então circunscrita a um reduzido círculo de mareantes, como nos ensinou Armando Cortesão e Luís de Albuquerque.

Face à impossibilidade de determinar com precisão a data da famigerada viagem de Zarco e ao facto de o arquipélago madeirense ser já conhecido e visitado, importa, em nosso entender, valorizar mais o início do povoamento do que especular sobre o seu achamento.

Assim, tomamos por válida a informação de Gomes Eanes da Zurara, que escrevendo por volta de 1453, apontou o ano de 1420 para o início da “povoação” da ilha da Madeira, porque entendemos que as primeiras viagens de reconhecimento dos navegadores portugueses tinham em vista o povoamento imediato do arquipélago, antes que outros povos tomassem a iniciativa.

Diário de Notícias. Funchal. 139: 45 565 (5 jun. 2015) 25

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Senhora da Conceição

O CULTO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO NA MADEIRA

No início do povoamento do arquipélago madeirense, estabeleceram-se três capitanias: Machico, Porto Santo e Funchal. Na sede de cada uma delas, foi instituída uma igreja paroquial, com obediência à Ordem de Cristo, porquanto o espiritual destas ilhas pertencia aos freires de Tomar, por doação do rei D. Duarte, em 1433.

Todas essas primeiras igrejas foram consagradas a Maria. A Igreja de Machico foi dedicada a Nossa Senhora da Conceição. A tradição regista que o rei D. Manuel doou a este templo uma escultura da Virgem, de Escola Flamenga, que actualmente se encontra no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Nossa Senhora da Conceição. Escola Flamenga. Inícios do século XVI. Escultura em madeira estofada, policromada e dourada. Museu de Arte Sacra do Funchal.

Nossa Senhora da Conceição. Escola Flamenga. Inícios do século XVI. Escultura em madeira estofada, policromada e dourada. Museu de Arte Sacra do Funchal.

Nos finais do século XV, o orago do Porto Santo era Santa Maria da Conceição, como então se dizia.

No Funchal, Zarco mandou construir a ermida de Santa Maria de Cima (assim designada por confronto com a localização da Igreja de Santa Maria do Calhau) ou da Conceição de Cima (já com esta invocação em 1450), junto da sua moradia das Cruzes, onde hoje está a Capela do Convento de Santa Clara. Este convento foi fundado em 1476 pelo segundo capitão do Funchal, João Gonçalves da Câmara, e a sua igreja manteve a invocação da Conceição.

Com a invocação da Senhora da Conceição no século XVI temos ainda uma capela em Câmara de Lobos, onde posteriormente se fez um altar dedicado a São Pedro Gonçalves Telmo, o Corpo Santo, com a respectiva confraria, e a igreja paroquial do Porto do Moniz, criada nessa centúria.

Como se pode verificar, muito antes da instituição do dogma da Imaculada Conceição pelo papa Pio IX em 1854, a Senhora da Conceição, na tradição da Igreja Católica, oficialmente adoptada na segunda metade do século XV, era festejada em Portugal e, em particular, no arquipélago da Madeira.

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No Jornal da Madeira, de 2 de Novembro de 2010, p. 37, pode ler-se o seguinte:

A ilha do Porto Santo celebrou ontem o 592.º Aniversário do seu Achamento.

Não sei em que fontes históricas se basearam os rotários porto-santenses para a invenção desta «efeméride».

A data de 1 de Novembro, mas de 1446, refere-se à doação da capitania do Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo.

Confundir a data da carta do Infante D. Henrique com a chegada dos portugueses a esta ilha não dignifica a memória dos porto-santenses.

 

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Mesmo com valor reconhecido, alguns escritores não tiveram a felicidade de ver a sua obra publicada em livro, quase sempre por razões financeiras. Os poetas foram os que mais sentiram essa dura realidade. Entre nós, o câmara-lobense Joaquim Pestana viveu, com mágoa, tal situação.

Nascido em 1840, dedicou grande parte da sua vida à leitura e à escrita, apesar da doença e dos fracos recursos económicos. Publicou em mais de duas dezenas de periódicos da Madeira, Açores, Continente e Brasil. Em vida, recebeu elogios e incentivos para publicar. Era um cidadão respeitado e estimado que mantinha larga correspondência com intelectuais portugueses e estrangeiros. Alguns dedicaram-lhe poemas, prática, na verdade, bastante cultivada na sua época. 

Quase no final da vida, em 1903, anunciou o livro Espinhos e Flores, constituído por inéditos e poemas já publicados. Mas morreu seis anos depois, sem dar à estampa a anunciada e tão esperada obra literária. 

O Padre Eduardo Pereira, amigo do poeta, herdou o seu acervo. E em 1937 e 1959 sugeriu a publicação de Espinhos e Flores. Fernando Augusto da Silva, o Visconde do Porto da Cruz, José António Gonçalves, José de Sainz-Trueva, Manuel Pedro Freitas e eu próprio, em diferentes ocasiões, lembrámos a necessidade de editar o livro inédito de Joaquim Pestana. 

Entretanto, o paradeiro desse livro, depois de 1976 na posse dos herdeiros de Eduardo Pereira, parece que deixou de ser conhecido nos anos 90 do século passado. 

Tão misterioso descaminho não poderia, contudo, representar impedimento à publicação. Quando se conjugam vontades, os projectos avançam. Assim aconteceu. A Câmara Municipal de Câmara de Lobos assumiu a edição e o livro está pronto para vir a lume amanhã, no 1.º aniversário da Biblioteca do município. 

Na impossibilidade de aceder ao volume preparado por Joaquim Pestana nem, tão-pouco, ao seu acervo, considerou-se preferível editar uma compilação em vez de uma selecção de poesias. Para esta decisão, contribuiu também a certeza de ser ainda desconhecida a verdadeira dimensão da sua obra poética. Reuniu-se, por conseguinte, a poesia coligida, até à data, na imprensa periódica, álbuns e bibliografia disponível, num total de cento e quarenta e cinco composições.

 Cumpre-se, assim, parcialmente, o propósito do poeta, acalentado nos últimos anos de vida: editar um livro com poesias esparsas por almanaques, álbuns e jornais de permeio com composições inéditas.

 Este volume de Poesias facultará, por certo, a compreensão da obra e do labor de um ilustre câmara-lobense que pugnou para ultrapassar as fronteiras da ilha e da doença, conservando-se, toda a vida, fiel ao romantismo, que se manifestava num lirismo melancólico e numa intensa religiosidade cristã. 

No poema «Desalento», Joaquim Pestana compara a sua vida com o mar, para transmitir a ideia de que o infortúnio lhe chegara de «vaga em vaga». É certo que a sua poesia está dominada pelo culto do pessimismo funéreo, tão característico do romantismo tardio. Ainda assim, aquele «de vaga em vaga» retrata bem uma vida marcada pela enfermidade, tristeza e solidão. 

No entanto, a ausência de saúde e o domicílio permanente, quase toda a vida, numa vila piscatória, não o impediram de, através das publicações onde colaborou com assiduidade, galgar obstáculos e, abundantes vezes, afirmar o nome da terra natal, principalmente, quando escrevia sobre o seu concelho ou, quando abaixo da identificação, deixava bem expressa a naturalidade.

 Diário de Notícias, Funchal, 2 de Maio de 2010

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