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A Senhora Milagrosa

Todos os anos, devoção e diversão juntam-se no Monte, freguesia instituída em 7 de Novembro de 1564. No dia 15 de Agosto, a ilha honra a sua padroeira.

Actualmente, os milagres da Senhora do Monte pertencem à vida particular dos crentes. Agradecem-se êxitos e curas. Pagam-se promessas urdidas no silêncio das aflições. Todavia, no passado, Nossa Senhora do Monte participava dos confrontos quotidianos do madeirense. Governantes e governados suplicavam publicamente, à Senhora, a resolução de situações adversas. Solenemente, reconhecia-se a generosa intercessão da Milagrosa.

Por altura do saque dos franceses ao Funchal, em 1566, um corsário pretendeu destruir a escultura de madeira, em vulto, de Nossa Senhora do Monte, arremessando-a, por diversas vezes, contra os degraus da igreja. Contudo, conta Gaspar Frutuoso, quebrou-se a cantaria, mas a imagem manteve-se intacta. Na tradição oral, ficou o registo deste acontecimento:

         Os corsários hereges

         são diabos, homens não.

         Lá vem um por í arriba

         e lá se vai ao altar.

         Minha Senhora do Monte,

         de lá Vos vai arrancar

         e na pedra dos degraus 

         Vos joga para vos quebrar!

         Vossa Igreja tremeu

         desse tamanho pecado,

         os sinos dela dobraram,

         tocando desentoado,

         água benta secou, 

         apagou lume sagrado

         E Vós, Senhora do Monte,

         a rir no Céu, sem cuidado!

         Vossa Imagem inteira,

         O degrau esmigalhado.

No século XVII e provavelmente já antes, existiam duas imagens da Senhora do Monte: a Nossa Senhora «pequenina», no nicho da Fontinha, e a Nossa Senhora «em vulto», no altar da igreja da freguesia.

A milagrosa Senhora era frequentemente solicitada para acudir às necessidades dos madeirenses, sobretudo dos moradores da cidade. Por ocasião de falta de chuvas, fomes e epidemias, a municipalidade funchalense requeria uma das imagens miraculosas da Senhora e organizava procissões e deprecações. A Senhora do Monte percorria a cidade, para observar a realidade, que motivava as preces dos funchalenses, e aplacar a ira divina. Até ser alcançada misericórdia, prolongavam-se as rogativas e a imagem permanecia na Sé. Depois, conduziam-na em procissão até a sua «casa», no Monte.

Em 6 de Março de 1627, a imagem de Nossa Senhora do Monte foi trazida para a cidade, porque não chovia. Dias depois, choveu e nevou. No dia 27 desse mês, a imagem regressou solenemente ao seu lugar. Igualmente por falta de chuvas, andou a veneranda Nossa Senhora do Monte pelo Funchal em Março de 1676, Maio de 1678, Março de 1689, Abril de 1694, Maio de 1695, Maio de 1698 e Abril de 1699. Das duas primeiras vezes, sabemos ter descido à cidade a imagem da Fontinha. Como anteriormente, a Milagrosa correspondeu às rogativas e abriram-se as fontes do céu para regar searas e vinhedos.

Um surto de doenças levou o povo «a buscar o principal remédio em Nossa Senhora do Monte» no mês de Maio de 1686. Por ordem do bispo, foi então a sua imagem transferida para a Sé, onde se efectuou solene novena. Menos de um mês depois, a Senhora regressou à igreja do Monte, pois, desde que chegara à catedral, tinham-se acabado as enfermidades.

Atribuiu-se à mediação da Virgem do Monte a entrada, no porto do Funchal, de navios carregados de trigo, pelo ano de 1695, quando a ilha enfrentava uma crise de abastecimento de cereais.

A Câmara do Funchal, normalmente, assumia a iniciativa de trazer a imagem para a cidade e de organizar as deprecações. A Câmara não enjeitava as suas responsabilidades no culto da Senhora Milagrosa, nem tão-pouco deixava de corresponder às solicitações dos munícipes que, nos apuros, recorriam aos favores da Virgem. Já em 1489, a ermida de Nossa Senhora do Monte era administrada pela municipalidade. Verificando-se abusos na abertura do nicho da Senhora, tantas eram as solicitações da imagem, a vereação funchalense, em 28 de Novembro de 1676, acordou que uma das chaves estaria nas mãos do vereador mais velho, a segunda seria da responsabilidade do bispo e a terceira caberia ao vigário da freguesia

A ilha confrontou-se com outra grande carência de chuvas no ano de 1719. Nos campos, as culturas definhavam. Rezava-se para que chovesse. À Câmara, solicitaram a vinda da Senhora do Monte para a Sé. Mas entenderam as freguesias circunvizinhas primeiro se comprometerem com uma novena. Os paroquianos do Monte, Santa Luzia, São Gonçalo, São Martinho, São Roque, Santo António, São Pedro e Santa Maria do Calhau deslocaram-se à igreja do Monte em procissão de ladainhas e fizeram penitências e súplicas. Contudo, depois de oito peregrinações não choveu. O último dia da novena coube à Sé. O bispo, o cabido, o senado, a nobreza, clero, povo e as confrarias subiram até ao santuário mariano. Depois da missa e do sermão, retiraram a imagem da milagrosa Senhora do seu nicho e formaram a procissão que a haveria de conduzir até à Sé. Pararam no Mosteiro da Encarnação, para que as freiras venerassem a Senhora do Monte. Começou então a chover. Conta ainda Henriques de Noronha, que, mal estiou, a procissão se encaminhou para a catedral «com lágrimas de alegria e total confusão dos hereges».

Em Julho de 1735, verificavam-se muitas enfermidades na Madeira, tendo sido requerida a mediação da Senhora do Monte e de São Tiago Menor, padroeiro da cidade.

A Câmara do Funchal determinou trazer a Virgem para a capela do Santíssimo na catedral, pelos finais de 1740. Durante três noites se acenderiam luminárias e fogueiras no terreiro da Sé. Acordou ainda o senado que se disparassem três salvas de artilharia e as fortalezas da cidade se ornassem com luzes.

Em Abril de 1741, a municipalidade funchalense mandou rezar uma novena de preces para que, por intermédio da Senhora do Monte, se alcançasse o «remédio da fome».

Já na primeira metade do século XVIII, Nossa Senhora do Monte era chamada de padroeira pelos vereadores da Câmara do Funchal. No entanto, somente em 1803, na sequência da terrível aluvião de 9 de Outubro, se instituiu a festividade do Patrocínio da Senhora do Monte. Na verdade, a Câmara do Funchal promoveu em 16 desse fatídico mês, uma procissão pelas ruas da cidade «para que a mesma Senhora queira interceder com o seu amado Filho ao Senhor na presente calamidade». Dias depois, o bispo colocou a cidade sob a especial protecção da «Santíssima Virgem».

Nossa Senhora do Monte. Foto: © Nelson Veríssimo, 15 Agosto 2020

Os prodígios da Senhora do Monte ficaram também registados nos livros dos viajantes estrangeiros. Numa obra inglesa sobre a ilha da Madeira, editada em Londres por F. S. Hopkins no ano de 1819, refere-se um milagre da Senhora do Monte. Por altura da independência dos Estados Unidos da América, o abastecimento de cereais à Madeira foi dificultado devido à severa vigilância do Atlântico pelos navios ingleses. Como pairava a ameaça de fome, muitas súplicas e procissões se realizaram no Funchal, implorando-se o socorro da Milagrosa Senhora. Logo depois, surgiu um navio carregado de trigo. Na igreja do Monte, das vestes da imagem da padroeira escorriam gotas de água salgada. Os pescadores afirmaram então ter visto um vulto branco que ascendia do mar para as nuvens. Acreditou-se ter a Virgem providenciado o desejado carregamento de trigo.

Registou, igualmente, o autor desta obra, o costume tradicional dos homens do mar se deslocarem em peregrinação até ao Monte, para agradecerem o regresso em segurança à «Estrela do Mar». Conta ainda que, frequentemente, tripulações descalças subiam ao santuário, carregando as velas do navio, com o seu capitão na frente. Ao vigário da igreja entregavam uma contribuição, fixada por um avaliador ajuramentado, para as despesas do culto da Milagrosa.

Muitos outros exemplos se poderiam referir para demonstrar como, ao longo de séculos, os madeirenses tomaram a Senhora do Monte por sua advogada nas adversidades climáticas, na fome e na doença, transferindo frequentemente a imagem milagrosa para a Sé, com a inabalável certeza da sua assistência em ocasiões de infortúnio.

 

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 17 Agosto 1997

 

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O Gorgulho

A Câmara Municipal do Funchal reconstruiu o solário do Gorgulho. Uma intervenção há muito esperada e, por diversas vezes, reclamada. Escrevemos aqui sobre a necessidade de recuperar esta zona balnear em 12 de Setembro de 2018. A obra concretizou-se na segunda quinzena de Junho e primeiros dias deste mês, tendo ficado acessível ao público no passado dia 7.

Um investimento de 40 mil euros permitiu a reposição do solário, limpeza da escarpa e ‘renaturalização’ de uma pequena área. Limpou-se a imagem de degradação. Devolveu-se aos cidadãos o direito de usufruto de um espaço à beira-mar, sobretudo para apanhar sol, pois a qualidade da água do mar não se recomenda.

Praia do Gorgulho. Foto: © NV, Julho 2020.

A situação, por agora, ficou remediada. É fácil prever que uma nova tempestade poderá causar estragos idênticos ou superiores aos de 2018. Talvez, por isso, não seja má ideia pensar pôr a descoberto o calhau, quando a esplanada de betão vier de novo a ser destruída pela forte ondulação. Será menos cómodo, até menos atractivo. Mas a Madeira não pode continuar a atirar dinheiro ao mar. Bastou o que foi engolido pela malfadada Marina do Lugar de Baixo. O mar, impiedosamente, voltará a fustigar o Gorgulho.

No meio da propaganda acerca do início e da conclusão desta obra, a Câmara Municipal do Funchal sempre a ela se referiu como o Solário da Praia dos Gavinas ou Solário do Gavinas.

De um momento para outro, parece ter a Câmara esquecido o verdadeiro nome desta pequena enseada: Gorgulho. Porque compete ao poder municipal zelar pela preservação e valorização da toponímia do concelho, convém lembrar que Gorgulho é topónimo antigo e documentado, pelo menos, desde os finais do século XVI.

Alterar sem razão a toponímia tradicional é, quase sempre, tornar ilegível o nome de um sítio. É matar o espírito do lugar!

Quando se denomina esta pequena praia de Gavinas, recorda-se a alcunha de quem ali instalou um bar e depois um restaurante, onde eram servidos bons pratos de peixe fresco e lapas grelhadas.

Como me explicou o Doutor Raimundo Quintal, a quem agradeço, no Calhau do Gorgulho «existiram dois bares /restaurantes especializados em peixe. Um foi criado pelo velho ‘Gavina’ na década de 60. Posteriormente passou para a posse do filho Agostinho, que vendeu ao Dr. Nélio [Mendonça] para ser explorado pelo filho Zé, que faliu. […]. O outro estabelecimento mais pequeno também nasceu na década de 60 e pertencia ao António, mais conhecido pelo ‘Belhuga’. […] ‘Gavina’ e ‘Belhuga’ eram as alcunhas dos dois homens que construíram os dois estabelecimentos a título precário, porque se localizavam numa área de domínio público marítimo.»

No início dos anos 80 do século passado, ainda ali funcionavam o ‘Gavina’s Restaurante’ e a ‘Toca do Polvo’.

Ao conferir importância à nova ou recentemente inventada denominação Solário do Gavinas, preterindo o topónimo antigo, a Câmara do Funchal está a apagar – admito que involuntariamente e por desconhecimento – toda a História deste pedaço do litoral da freguesia de São Martinho.

O topónimo Gorgulho, que genericamente designava a faixa costeira entre o Ilhéu da Forja e a Ponta Gorda, tem a ver com a pedra da praia. Gorgulho, neste contexto, significa pedra miúda. Trata-se de um geotopónimo.

Este nome surge na documentação oficial depois do ataque dos corsários franceses ao Funchal, em 1566. Como os corsários desembarcaram na Praia Formosa para atacar a cidade, as autoridades começaram a olhar com redobrada atenção a zona poente do Funchal.

Vulnerável quanto à defesa, esta área do litoral permitia desembarque fácil aos piratas e corsários. Em Maio de 1618, trabalhava-se, por conseguinte, na construção de muros e baluarte no Calhau do Gorgulho. Criou-se também a Companhia de Ordenanças do Gorgulho, sendo conhecidos alguns dos seus capitães no século XVII: Fernão Favila de Vasconcelos, Pedro da Silva Favila, Francisco de Noronha Henriques, Pedro da Silva Favila de Vasconcelos e António da Silva Favila.

No primeiro quartel do século XIX, já o Forte do Gorgulho se encontrava bastante arruinado. Paulo Dias de Almeida escreveu que dele «só existe o nome, porque apenas existem restos de paredes sem cal, sem casa de guarnição e com duas peças reprovadas no chão.»

Igualmente bastante destruída estava a muralha do Caminho da Trincheira, que ligava o Forte à Quinta do Calaça.

Uma réplica do Forte do Gorgulho, desenhada segundo uma planta setecentista, veio a ser construída nos anos 80 do século passado. Integrada no Complexo Balnear do Lido, foi inaugurada em 21 de Agosto de 1987.

Conservar e compreender a toponímia é um exercício de cidadania. Ilhéu do Gorgulho, Rua do Gorgulho (onde se situava o Hotel Gorgulho, depois denominado “Tiles” e actualmente “Allegro Madeira”) e Praia do Gorgulho são designações que perpetuam a memória deste lugar.

Com o nome “Gorgulho” navegaram também dois navios, com presença assídua nos mares da Madeira e Porto Santo: um propriedade da Parceria Geral de Pescarias, conhecido por, na Segunda Guerra Mundial, ter  recolhido 19 sobreviventes do navio britânico “Aurillac”, torpedeado pelo submarino italiano Enrico Tazzoli em 15 de Abril de 1941, a 350 milhas ao norte do Porto Santo; o outro, da Empresa Insulana de Navegação, um navio-fruteiro, mas também de passageiros, precursor na carreira Funchal-Porto Santo, foi construído na sequência do famoso Despacho 100, de 10 de Agosto de 1945, que reorganizou a marinha mercante portuguesa e possibilitou a renovação da frota da empresa liderada por Vasco Bensaúde. Mas isto é outra história.

 

Funchal Notícias. 22 Julho 2020

P. S.

Rectificação: Gavina não é alcunha dos primeiros proprietários do bar e restaurante do Gorgulho, João Pinto Gavina e seu filho, Agostinho Pinto Gavina. Trata-se, sim, de um sobrenome. Agradeço esta informação à Senhora D. Lurdes Barros.

O Gorgulho

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Já, por diversas vezes, tenho tentado corrigir ideias erradas sobre a História do Porto Santo, difundidas por políticos e outros notáveis que gostam de falar sobre o que não sabem. Hoje interrogo-me por que razão persistem no erro. Porque sentem necessidade de andar às avessas com a evidência histórica?

Há um adágio antigo, derivado de um sermão de Santo Agostinho que diz o seguinte: «Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico».

Sem querer ver diabos a saltarem das páginas dos discursos oficiais, não deixo de estar atento à teimosia de alguns porto-santenses em construírem um discurso anti-histórico, que em nada os prestigia. Retomando o conhecido adágio, podia dizer-se que, para essas pessoas, errar é humano, perseverar no erro é sádico.

No dia 24 de Junho, o município do Porto Santo celebra o seu feriado municipal. Que a escolha do dia do concelho recaísse na festa de João Baptista, isso foi opção camarária, que mereceu consenso e aplauso. Agora pretender associar a festa joanina ao aniversário do município é um disparate maior do que aquela ilha.

Segundo os camaristas, neste São João ocorreu o 185.º aniversário do município do Porto Santo. Para a efeméride, Idalino Vasconcelos fez-se fotografar junto à escultura de São João Baptista, que, pelo ar estupefacto, parece ter-se recordado do que havia dito às multidões que acorriam para serem baptizadas por ele: «Raça de víboras! Quem vos indicou que fugísseis da fúria que está para vir? Fazei crescer frutos dignos da mudança…» (Lc 3, 7-8). E o presidente fez publicar a fotografia nas redes sociais, acompanhada de um pequeno texto alusivo ao seu 185.º aniversário do concelho do Porto Santo.

Foto: Município do Porto Santo, 24-06-2020, publicada no Facebook

Não sei com que fundamentos fazem tão insensato cálculo de idade. Julgo que o município do Porto Santo não tem complexos da sua longevidade. Mas por que razão reduzem bastante o número de anos da sua existência? Em meu entender, a longa idade do município só lhe acrescenta prestígio.

Não é a primeira vez que dissimulam a idade do concelho. Para o ano, persistentes no erro como se têm revelado, serão capazes de comemorar o 186.º aniversário no mesmo dia. Deve-lhes dar um gozo tremendo contrariarem a História, mas essa infantilidade em gente adulta só pode ser ignorância ou sadismo.

Não se conhece, com rigor, as datas de criação dos mais antigos municípios do arquipélago da Madeira: Funchal, Machico e Porto Santo. São, porém, todos do século XV. Têm todos mais de quinhentos anos.

Muita da documentação antiga do concelho do Porto Santo não chegou aos nossos dias, por razões diversas, entre as quais os frequentes saques de piratas e corsários àquela ilha. No entanto, ainda sobra alguma documentação elucidativa, zelosamente guardada no Arquivo Regional da Madeira. Sugeria, por isso, ao presidente e vereadores da Câmara, bem como aos seus assessores, uma visita àquela instituição, a fim de verificarem, com os seus próprios olhos, já que parecem não acreditar no que já por duas vezes lhes disse, como estão errados quanto ao aniversário do município.

Aproveitem a visita para se desfazerem de outros equívocos como o famigerado 1.º de Novembro, para erradamente assinalarem o dito descobrimento da ilha, e também para se esquecerem dessa malfadada Cidade Vila Baleira, em vez de Cidade do Porto Santo.

Depois dessa visita, chegarão, por certo, mais esclarecidos à sua terra e, no futuro, não repetirão as cenas tristes que têm vindo a protagonizar, a não ser que, para sempre, queiram estar de candeias às avessas com o seu passado histórico.

Funchal Notícias. 26 Junho 2020

Às avessas…

 

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Há muitos anos que leio o Padre António Vieira (1608-1697). Sermões, cartas, a História do Futuro e outros textos.

Neste tempo de confinamento social, a leitura ocupa-nos, distrai-nos e enriquece-nos. Acabei de ler os sermões dedicados a São Roque pelo insigne pregador jesuíta.

São Roque era o padroeiro da Casa Professa da Companhia de Jesus em Lisboa, composta por Igreja e edifício residencial. O santo, protector contra a peste e epidemias, por voluntariamente cuidar de doentes infectados, ter sido contagiado e se manter isolado num bosque, mereceu grande devoção popular ao longo de vários séculos, sendo o orago de muitas igrejas e capelas.

Embora não se saiba, com rigor, as datas do seu nascimento e morte, é certo ter vindo ao mundo em Montpellier, na França, no século XIV, a centúria da Peste Negra, da qual teria também sido vítima em 16 de Agosto, num ano entre 1376 e 1379.

São conhecidos quatro sermões do Padre António Vieira, dedicados a São Roque: 1642, 1644, 1649 e 1652. Em todos, a peste é tema recorrente, aludindo o pregador aos méritos e milagres de São Roque.

Tal o grande imitador da caridade de Cristo S. Roque, que do sofrimento de suas enfermidades fez merecimento de nossa saúde, e morreu ferido de peste sem remédio, para que tivessem remédio os feridos de peste. (Sermão de São Roque, 1642, IV)

Apesar do topos da peste e dos louvores a São Roque, Vieira, nestes sermões, como em tantos outros, não deixou de reflectir e advertir, e até zurzir, sobre vivências e problemas da sociedade do seu tempo. Sirva de exemplo o sermão pregado na Capela Real em 1644, por ocasião do aniversário do nascimento do príncipe D. Afonso, no qual dedicou particular atenção às questões políticas da Restauração, sublinhando a importância da verdadeira fidelidade a D. João IV e o imprescindível empenho dos portugueses na defesa do Reino, face às tentativas espanholas de reconquistar Portugal.

Não vemos a moderação verdadeiramente de pai da pátria, com que el-rei, que Deus guarde, estreita os gastos de sua real pessoa e casa? Não vemos a liberalidade verdadeiramente real, com que a rainha nossa senhora se priva de suas rendas, e se aplica aos exércitos e fronteiras? Pois se assim se estreita a grandeza dos reis, porque não aprenderá a se estreitar a vaidade dos vassalos? Façamos como libertados, pois eles fazem como libertadores. (Sermão de São Roque, 1644, III)

Em 1649, Vieira voltou a pregar na Capela Real, sob a invocação de São Roque. Havia peste no Algarve. O poderoso advogado era de novo chamado para ajudar a debelar «o mais desgraçado de todos os males, a peste». O orador sacro justificava assim a sua afirmação: «porque nas outras enfermidades o maior benefício que vos pode fazer quem vos ama, é estar convosco: na peste a maior consolação que vos pode dar quem amais, é fugir de vós.»

Apresenta-nos, de seguida, um cenário da peste com forte realismo dramático, que ainda hoje nos comove:

Os portos, e as barras fechadas, e os navegantes alongando-se ao mar, e não só fugindo da costa, mas ainda dos ventos dela: os caminhos por terra tomados com severíssimas guardas: o comércio e a comunicação humana totalmente impedida: as ruas desertas e cobertas de erva e mato, como nos contavam e viram nossos maiores nesta mesma cidade de Lisboa: as portas trancadas com travessas e almagradas: as sepulturas sempre abertas, não já nas Igrejas nem nos adros, senão nos campos, e talvez caindo nessas sepulturas mortos, os mesmos vivos que levam a enterrar os outros defuntos: a fazenda adquirida com tanto trabalho, guardada com tanta avareza, estimada com tanta cobiça, já desprezada, e já lançada ou alijada, como na extrema tempestade, não à água, senão ao fogo, e vendo-se arder sem dor: o amor natural do sangue (como todo o outro amor) ou atónito ou esquecido: os irmãos fugindo dos irmãos, os pais fugindo dos filhos, os maridos fugindo das mulheres, e todos querendo fugir de si mesmos, mas não podendo, porque a saída é indispensavelmente vedada e impossível. A razão e a piedade tem ali cruelmente presos e sitiados os miseráveis, para que se matem antes a pé quedo entre si, e não saiam a matar os outros: mas, oh que dor! oh que angústia! oh que aflição! oh que ânsia! oh que violência! oh que desesperação tão mortal! E nem ainda para cuidarem os homens, ou pasmarem deste seu estado, lhes dá tempo, nem lugar a morte. (Sermão de São Roque, 1649, VI)

Passados mais de três séculos, a Covid-19 confronta-nos com medo e morte, cidades sem movimento, gente enclausurada, ruína económica, incertezas, infortúnios e estranhos desafios. Descrições deste tempo ficarão também na Literatura.

A voz do pregador já não se ouve no púlpito. O sermão como género literário já não se usa. Mas o ardor da oratória de Vieira, o poder da sua palavra, a força desmedida da sua fé, a coragem, o saber e a grandeza da sua personalidade e da sua obra continuam a alentar quem deste tempo cruel pretende pausa culturalmente  enriquecedora para o novo mundo que há-de emergir, naturalmente diferente do actual e onde se espera que a ciência e a tecnologia estreitem relações com os saberes das Humanidades e o paradigma económico se altere radicalmente, em benefício da humanidade e da Terra.

Funchal Notícias. 25 Março 2020

Lendo Vieira…

 

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SISMOS NO ARQUIPÉLAGO DA MADEIRA

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Vicejam searinhas nas lapinhas. No verde tenro, gotinhas de água a tremuluzir. Quem as contempla, diz que se cumpriu a tradição ou que procurou fazer o mesmo que os seus pais e avós. E os gestos repetem-se por quem não aprecia arremedos pirosos de searas em plástico.

Searinhas de milho. Foto: © Nelson Veríssimo, 2019.

No dia de Nossa Senhora da Conceição, põe-se o milho a hidratar. Na primeira Missa do Parto, o trigo, a lentilha, o tremoço, a alpista ou o chícharo. Quando começam a germinar, plantam-se as gramíneas ou as leguminosas em pequenos vasos de barro com terra, que são regados amiúde. Pela Festa, as searinhas já crescidas são colocadas na lapinha.

Searinhas de trigo. Foto: © Rui Marote, 2019.

Searinhas verdejantes e densas são bom augúrio. Bom é que pormeneçam – diz-se na ilha. Dá sorte… Para o ano, todos cá estaremos…

O verbo pormenecer, sinónimo de crescer, foi registado por Eduardo Antonino Pestana em Linguagem Popular da Madeira (1970) e continua a ser usado.

Na literatura madeirense, abundam referências sobre as searinhas da Festa. Albino de Meneses faz alusão ao «trigo verde» (1925). Cabral do Nascimento escreveu que «sobre a mesa, rodeando a toalha de linho, corre uma fila de searas dentro de xícaras – trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal modo que formam como que um bloco duro e redondo.» (1950). Horácio Bento de Gouveia observou «tigelas com trigo espigante» (1949). Para João Carlos Abreu, as searas anunciam o Natal: «É Natal, mãe! / As searas cresceram. Os sinos estão / a tocar. / É Natal na cidade…» (1977). António Fournier serviu-se de uma metáfora bem expressiva: «uma cortina espessa de searas viçosas» (2007).

Há, por vezes, a tentação ingénua de considerar este costume natalício como tradição genuína ou tipicamente madeirense. Na realidade, tal não corresponde à verdade.

As searinhas fazem-se em muitas terras e até em diversas ocasiões do calendário de festividades. São reminiscências de antigos ritos agrários e cultos de fecundidade. Dádivas na esperança de boas e fartas colheitas.

Maria Vitória Afonso, em Contos e vivências do Sudoeste Alentejano, deixou testemunho sobre searinhas de trigo, cevada e cizirão na sua freguesia natal, Colos, no concelho de Odemira. Depois do Natal, eram lançadas nas sementeiras para que o Menino Jesus as abençoasse e proporcionasse boa colheita. Noutras terras alentejanas, ocorre este costume, como, por exemplo, em Elvas.

Idêntica prática também se verifica no Algarve, onde a escadinha do Menino Jesus é ornamentada com laranjas e searas de trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico.

A escritora e professora Teresa Rita Lopes, natural de Faro, em «O meu Natal de antigamente», poema publicado em Afectos (2000), recordou: «Quando eu era menina / não havia Pai Natal nem Árvore de Natal. / Armava-se o presépio com chão de musgo / rochas de cortiça virgem ervas a valer / pedrinhas de verdade / e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias / no dia 8 de Dezembro / e eram o pequeno milagre o primeiro / a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.»

Nos Açores, encontramos também searas nos altarinhos do Menino Jesus ou nos presépios: «Entre o dia de Santa Bárbara e o da Imaculada Conceição, ou então no dia de Santa Luzia, coloca-se a grelar em tigelas e pratinhos, ervilhaca, trigo, milho, tremoço e alpista para, juntamente com laranjas e tangerinas, enfeitar o presépio ou o altar do Menino Jesus.» (Açoriano Oriental, 23-12-2012)

José Miguel Alzola, na obra La Navidad en Gran Canaria (1982), afirmou que no dia de Santa Luzia, 13 de Dezembro, era habitual semear trigo, alpista e lentilhas em recipientes de reduzido tamanho e pouca altura. Este costume – la siembra – teria vindo da ilha da Madeira e constituía a primeira tarefa na preparação dos nacimientos.

Em França, na Provença, há a tradição de le blé de la creche ou le blé de la Sainte Barbe, por ser o trigo plantado em três tacinhas no dia dedicado a esta Santa, ou seja, 4 de Dezembro. Associada a esta prática estava a antiga crença de que trigo bem germinado era sinal de ano próspero (Quand le blé va bien, tout va bien !). As três searinhas (alusão à Santíssima Trindade) ornamentam a mesa da consoada e do dia de Natal e são colocadas no presépio somente no dia 26, aí permanecendo até ao dia de Reis.

Falando destas usanças com a minha colega Mahnaz Khadem, professora e investigadora da Faculdade de Ciências da Vida, da Universidade da Madeira, fiquei a saber que no Irão também se fazem as searinhas para ornamentar a mesa do Ano Novo (Haft sin), celebrado no dia da chegada da Primavera (equinócio de Março). A searinha de trigo, representando o renascimento, é um dos sete elementos tradicionais, cada um com o seu significado simbólico, do Haft sin, conjuntamente com a maçã (saúde e beleza), o vinagre (longevidade e paciência), pasta de trigo (nova vida), bagas (amor), moedas (prosperidade), alho (cura das doenças). Com frequência, o vinagre é substituído por uma especiaria (sumak), que simboliza a vitória do bem contra o mal.

‘Haft sin’, de Khatereh Hashemian. Foto: © Gentileza da Prof.ª Mahnaz Khadem.

O costume das sementes germinadas em épocas assinaladas remonta a tempos anteriores ao Cristianismo. No Egipto Ptolemaico (canteiros de Osíris) e na Grécia Antiga (festivais em honra de Adónis) podem estar as raízes do que hoje denominamos de searinhas. Em algumas localidades italianas, não faltam no dia de São José ou na Páscoa. Pode-se assim concluir que as searinhas da lapinha madeirense, introduzidas no arquipélago pelos povoadores portugueses, provêm de usos de civilizações antigas incorporados na tradição cristã, e que ainda hoje se manifestam em diferentes espaços geográficos e em diversas festividades cíclicas, com um simbolismo próprio.

Funchal Notícias. 25 Dezembro 2019

As “searinhas” da Festa

 

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