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Archive for the ‘Recensões’ Category

Na última Feira do Livro, foi apresentada a História do Povo da Madeira no 25 de Abril, de Raquel Varela e Luísa Barbosa Pereira, obra apoiada pela Câmara Municipal do Funchal.

Esta monografia vem na sequência de A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, de Raquel Varela (Lisboa: Bertrand, 2014), e idêntico projecto está em curso nos concelhos de Loulé, Maia e Sines.

Quando se fala de povo, há que esclarecer qual a realidade social em análise. Na «Nota Prévia», as autoras precisam de que se trata «do povo revolucionário, rebelde e resistente», concretizando:

«Daqueles que desafiaram a ordem estabelecida, questionaram o regime de colonia, fundaram movimentos, partidos e sindicatos. Ocuparam estabelecimentos para fazer creches e escolas ou lutaram por um preço justo pelo peso da cana. Organizaram periódicos. Manifestaram-se contra o desemprego, pelo salário mínimo na Madeira, realizaram eleições populares e cantaram o sonho e o quotidiano daqueles que vivem do trabalho.» (p. 13)

Na esteira de Howard Zinn (1922-2010) e o seu People’s History of the United States (1980), Chris Harman (1942-2009) (A people’s history of the world, 1999) e Eric Hobsbawm (1917-2012) e os seus estudos sobre as classes operárias, Raquel Varela, já em trabalhos anteriores, havia dedicado particular atenção aos que, habitualmente, contam com pouca ou nula representatividade na historiografia, apesar de serem protagonistas de movimentos e iniciativas populares com repercussões significativas.

Partindo deste campo conceptual de raiz marxista, as autoras de História do Povo da Madeira no 25 de Abril não têm a veleidade de uma História do 25 de Abril na Madeira, a qual, sem dúvida, implicaria outra abrangência.

Servindo-se de entrevistas, da imprensa (a pesquisa denota não ter sido exaustiva nos periódicos mencionados) e da bibliografia disponível (embora com algumas falhas notórias, como, por exemplo, a dissertação de mestrado de Lino Bernardo Calaça Martins, O Centro de Informação Popular de Machico: um pólo dinamizador da Revolução do 25 de Abril…, de 2016) vão dar especial relevo aos conflitos sociais, que ocorreram na Madeira desde Maio de 1974 a Novembro do ano seguinte.

Não deixam, porém, de dedicar atenção à situação económica e social da Madeira no período anterior ao «25 de Abril» e à adesão à Revolução. De referir ainda dois capítulos de enquadramento histórico, um sobre o «Estado Novo» e outro relativo à «Revolução dos Cravos», na mesma perspectiva ideológica.

O capítulo «Situação económico-social da Madeira pré-25 de Abril», fundamental para explicar a conflitualidade no tempo da Revolução, mostra-se, todavia, pouco esclarecedor, servindo-se frequentemente de situações que eram comuns no resto do país, anacronismos e vulgaridades, como, por exemplo, relativamente à Revolta do Leite, emigração ou à colonia. No que diz respeito a este sistema de exploração da terra, julgo que as autoras não o entenderam verdadeiramente ou então trata-se de problemas ao nível da linguagem, o que também ocorre várias vezes neste livro. Veja-se, a título de exemplo, esta afirmação, que procura explicitar ou definir o regime de colonia: «Neste modelo, os detentores de terras incultas ou necessitadas de reconversões agrícolas (senhorio) angariavam-nas a outros, não detentores de terras (colonos).» (p. 37). Ou esta: «A colonia é um sistema de exploração de terra dotada de preponderância social sem fácil paralelismo.» (Idem)

Por outro lado, a dedução infundada de que a emigração se apoiava «numa rede de traficantes que atuavam para garantir a emissão de papéis necessários à entrada legal dos madeirenses nos países de destino» (p. 36) é, para não dizer outra coisa, uma generalização inconsciente. No Arquivo Regional da Madeira, há abundante documentação sobre este assunto, para quem o quiser estudar a partir das fontes.

Os conflitos em torno da água de rega e das levadas justificaram a abertura de um subcapítulo no âmbito da situação económica e social madeirense anterior à Revolução. No entanto, a sua leitura nada acrescenta ao artigo de Gabriela Relva sobre a «Revolta das águas na Lombada da Ponta do Sol» (2012) nem a um depoimento inserto em Ecos de memórias: histórias de vida de mulheres (2013), coordenado por Guida Vieira.

Não há espaço para mais exemplos, mas a situação do povo da Madeira antes de 1974 merecia análise mais bem cuidada.

Capítulo de maior fôlego, e principal no contexto da monografia, é o quarto, dedicado ao período revolucionário, o qual se apresenta subdividido em seis subcapítulos. São aqui apresentados numerosos exemplos da conflitualidade colectiva do «25 de Abril»: comícios, manifestações, ocupações e greves. Há erros quanto a datas (por exemplo, na p. 116), mas a descrição é abundante e significativa. Faltou, porém, a análise.

Já na «Introdução» haviam sido enumerados vários acontecimentos dessa natureza, de forma deselegante, numa sequência de parágrafos sempre iniciados pela preposição «em», parecendo uma torrente de dados, na verdade, inadmissível num texto historiográfico: «Em 13 de maio, … »; «Em agosto de 1974, … »; «Em 13 de setembro, … » (p. 22); «Em dezembro, … »; «Em março, … » (p. 23); «Em abril, … »; «Em junho, … »; «Em julho, … »; «Em agosto de 1975, … » (p. 24); «Em setembro, … » (p. 25)

Estranha ou insólita é a conclusão deste livro. Tratando-se da História do Povo da Madeira no 25 de Abril, natural seria que as historiadoras concluíssem sobre o objecto da sua investigação. Mas não! Nem uma referência conclusiva ao tema que se propuseram abordar. Nada sobre a Madeira!

Intitularam, pomposamente, a conclusão de «Revolução e democracia: que democracia?». Contudo, não foi elaborada para esta edição. Trata-se de um texto de Raquel Varela, publicado em 2014, em A História do Povo na Revolução Portuguesa: 1974-75, pp. 473-486, reproduzido sem a devida adaptação (veja-se a nota da p. 172) e sem referência à obra onde surgiu anteriormente.

Em suma, apesar de tudo, o livro vale pela compilação realizada, mas está longe daquele objectivo definido na «Nota prévia»:

«Não pretendemos aqui ocultar as causas explicativas do processo histórico, mas partir de uma teoria para a verificação de se ela na verdade se confirma ou não, procurando explicar essa realidade hierarquizando, numa história em construção, os fatores que contribuíram para um dado acontecimento; neste caso, a Revolução Portuguesa entre abril de 1974 e novembro de 1975 no arquipélago da Madeira.» (p. 14)

VARELA, Raquel; PEREIRA, Luísa Barbosa – História do povo da Madeira no 25 de Abril. Lisboa: Parsifal, 2017. ISBN 978-989-8760-39-5.

Funchal Notícias. 7 Junho 2017

 

História do povo da Madeira no 25 de Abril

 

P. S. Em 24 de Maio de 2016, a Câmara Municipal do Funchal celebrou com Raquel Varela um contrato de aquisição de serviços, por ajuste directo, para a elaboração desta monografia, no valor de 9000 euros. Ver:

http://www.base.gov.pt/Base/pt/Pesquisa/Contrato?a=2235626

 

 

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No passado dia 11, veio a lume Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, com fotografias de Francisco Correia e publicada pela Imprensa Académica. Segundo o editor, Luís Eduardo Nicolau, constitui objectivo deste livro «dar a conhecer aos leitores uma relação pouco explorada entre o texto literário e essa obra única da nossa natureza, construída e moldada ao longo dos séculos e cuja marca, na vida dos madeirenses e de todos os que nos visitam, é indelével.»

Thierry Proença dos Santos, professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira, tem, nos últimos anos, dedicado a sua investigação à produção literária madeirense e contribuído de forma notável para a sua divulgação no contexto académico nacional e internacional, através de muitos artigos e ensaios em revistas e actas de colóquios, e ainda de alguns livros, dos quais salientamos Comeres e beberes madeirenses em Horácio Bento de Gouveia (2005) e a edição crítica de Canga, (2008). Foi também co-organizador de Crónica madeirense: 1900-2006 (2007) e Cadernos de Santiago 1: colectânea de poesia (2016).

Em Levadas da Madeira: uma antologia literária, Thierry Proença dos Santos reuniu contos, crónicas e poemas, excertos de diários, cartas, romances e reportagens sobre as levadas da nossa ilha.

Surgem assim autores de diferentes épocas e correntes literárias e estéticas. O primeiro texto apresentado é de Gaspar Frutuoso, extraído do Livro Segundo das Saudades da Terra, obra escrita por volta de 1584. Isabella de França, João de Nóbrega Soares, Luzia, Alberto Artur Sarmento, António Ferreira, Assis Esperança, Maria Lamas, Ferreira de Castro, António Marques da Silva, Horácio Bento de Gouveia, João França, Carlos Martins, Alberto Figueira Gomes, Maria do Carmo Rodrigues, Jorge Sumares, António Ribeiro Marques da Silva, Clemente Tavares, Irene Lucília Andrade, Dalila Teles Veras, Fátima Pitta Dionísio, José António Gonçalves, Nelson Veríssimo, Lília Mata, Fernando Bessa são os autores seleccionados. Apenas um viajante estrangeiro foi antologiado. Trata-se do francês Léon Manchon, cujo relato de uma caminhada ao Rabaçal foi traduzido para português, pela primeira vez.

Os discursos sobre as levadas figuram dispostos sob nove temáticas que dão origem a igual número de capítulos. Assim: Os construtores de levadas; Águas passadas, Disputa de água; O silêncio das levadas; O prazer da água (de rega); Ao sabor da levada; A levada que corre dentro de mim; A fonte de lendas, Tornadoiro de poemas. No final, são apresentadas notas bibliográficas dos autores escolhidos, seguindo-se um glossário e um breve posfácio com o enquadramento histórico das levadas madeirenses.

As fotografias de Francisco Correia, que acompanham os textos, não assumem o papel de mera ilustração, sem menosprezo dessa importante função da representação do real. Neste livro, as bonitas imagens captadas são uma espécie de texto visual que anuncia, rodeia ou prolonga o texto literário, envolvendo o leitor no amplo processo de fruição da levada, enquanto obra insular e produto da Natureza. Trata-se, portanto, de uma antologia literária e fotográfica, mas um objecto com unidade, criado com palavras e registos da paisagem.

No processo em curso sobre a candidatura das levadas da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO, esta edição constitui mais uma importante achega para valorização de um legado cultural, que remonta aos tempos do povoamento da ilha.

Nesta antologia, narrativas, poemas e fotografias fixam imagens bem diversas das levadas e da sua paisagem, da rega e dos levadeiros, do quotidiano agrícola, de superstições e crendices, quando na noite não existia luz elétrica para iluminar as encostas, dos recorrentes e indómitos conflitos em torno da água de rega, de relatos de caminhadas e de visões inspiradas.

Com a chancela da Imprensa Académica, da Associação Académica da Universidade da Madeira, disponibiliza-se um novo e diferente instrumento para a compreensão das levadas como obra da cultura madeirense.

Santos, Thierry Proença dos, org. – Levadas da Madeira: uma antologia literária. Francisco Correia, fot. Nelson Veríssimo, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2017. ISBN 978-989-99638-5-6.

Funchal Notícias. 17 Maio 2017

Levadas da Madeira: uma visão literária

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No passado sábado, foi apresentado, na Câmara Municipal de Machico, o livro O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75, de Lino Bernardo Calaça Martins. A edição, em apreço, resultou da dissertação de Mestrado em Estudos Regionais e Locais, defendida pelo autor em Fevereiro de 2016, na Universidade da Madeira.

Com este estudo, resgata-se a memória de uma organização, que foi um pólo dinamizador do 25 de Abril em Machico, e, em particular, a de muitos homens e mulheres, que participaram activamente na Revolução, mas que, até agora, permaneciam no anonimato da História.

O Centro de Informação Popular de Machico (CIPM), fundado dias depois da Revolução, reuniu muitos machiquenses em torno dos ideais de Abril e desenvolveu numerosas iniciativas para satisfação de reivindicações populares, nomeadamente sobre a democratização do poder municipal, a extinção da colonia, a instituição de cooperativas, a alteração de condições laborais e salariais e o alojamento dos refugiados das ex-colónias portuguesas. Desempenhou ainda um papel importante no esclarecimento e politização da população e na promoção de actividades culturais e recreativas. Esta associação revolucionária enfrentou a oposição de autoridades civis, militares e religiosas, bem como de forças políticas moderadas ou conservadoras, num tempo de grandes tensões sociais e conturbadas relações de poder.

As vivências da Revolução de Abril marcaram profundamente os machiquenses e, por certo, influenciaram decisivamente o devir político do município.

Quatro razões fundamentais ditaram a escolha do objecto desta investigação. Em primeiro lugar, o facto de Bernardo Martins pretender trabalhar um tema da sua terra natal, demonstrando, uma vez mais, o afecto ao concelho de Machico, ao qual, anteriormente e por diversas vezes, já havia dedicado largos anos da sua vida nas funções de presidente da Junta de Freguesia, presidente da Câmara Municipal e deputado na Assembleia Legislativa da Madeira.

Seguidamente pesou a experiência de juventude no CIPM, cabendo-lhe assim a responsabilidade de descrever e analisar acontecimentos vividos e que a memória guardava, tarefa facilitada pelo conhecimento privilegiado, mas com responsabilidade acrescida, pois a História procura a objectividade e exige um natural distanciamento dos factos.

A terceira razão associa-se ao corpus documental, sobre o qual assentou a investigação. O autor detém abundante documentação produzida pelo CIPM ou relacionada com esta associação. Conhecia ainda materiais diversos, na posse de particulares, sobre a mesma temática e tinha acesso aos mesmos. Era, pois, chegada a altura de organizar o acervo, em causa, e estudá-lo, valorizando-o, de forma especial, como património arquivístico.

Finalmente, a necessidade de estudar os movimentos populares que eclodiram após a Revolução do 25 de Abril, por todo o país. Na Região Autónoma da Madeira, o CIPM congregou as aspirações populares dos machiquenses, em particular, mas não exclusivamente. Contribuiu de forma decisiva para a difusão dos ideais da Revolução e para a construção da cidadania democrática no concelho de Machico, com repercussões para além da sua existência, como associação popular, e com efeitos na alternância política ao nível autárquico.

Animado com estes propósitos, Bernardo Martins desenvolveu uma aturada investigação, procurando situar e analisar os principais acontecimentos no contexto da Revolução de Abril, sempre tendo em conta as várias forças políticas em confronto. O rigor e a objectividade implicaram o confronto da documentação do CIPM com outras fontes, para que o princípio do contraditório permitisse justificada interpretação dos factos históricos.

A história do 25 de Abril na Madeira ainda está por fazer. É investigação que se impõe aos historiadores. Sem o crivo da História, o que se tem editado sobre o assunto, sempre a ter em devida conta, reduz-se ao género reportagem ou memórias e, por vezes, com manifesta parcialidade ou descarado branqueamento.

Fica agora, em livro, relevante contributo para a compreensão da Revolução dos Cravos na Madeira, sobretudo no domínio dos movimentos populares, com foco no concelho de Machico, em boa hora, editado pela respectiva Câmara Municipal, tendo design gráfico de Ricardo Caldeira e fotografias de Manuel Nicolau e da imprensa da época.

Martins, Lino Bernardo Calaça – O 25 de Abril em Machico: Centro de Informação Popular: 1974-75. Machico: Câmara Municipal, 2017. ISBN 978-989-97206-1-9.

 

Funchal Notícias. 3 Maio 2017

O 25 de Abril em Machico

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Os registos de vida ou memórias constituem importantes fontes para a História, apesar da subjectividade implícita. Contudo, a perspectiva de quem participou nos acontecimentos, e dos mesmos construiu a sua narrativa, revela, quase sempre, curiosas peripécias e pormenores insólitos, dificilmente representados em relatos de outra natureza.

Caminhando pela vida, de Conceição Pereira, é uma narrativa na primeira pessoa de uma mulher animada pelos princípios democráticos da igualdade e da justiça social, fruto das suas vivências e de uma sedenta e constante vontade em aprender mais.

Em algumas circunstâncias adversas, foi autodidacta. Noutras, buscou a Escola. Pretendia evoluir, para desfrutar de uma vida melhor. Progredir, e não somente para proveito próprio. O espírito de luta nasceu consigo e vamos vê-la constantemente envolvida na ajuda aos outros e, sobretudo, no combate às injustiças e desigualdades sociais, dando atenção primordial à situação das mulheres trabalhadoras.

Neste livro, começa por recordar as vivências de infância e juventude na sua freguesia natal. Regista, de memória, usos e costumes do Seixal, alguns, por certo, já desaparecidos. Daí o interesse etnográfico destes apontamentos do quotidiano rural. No entanto, esse retorno às raízes, permite também compreender como as limitações do meio e a força de vontade podem suscitar o inconformismo e a procura de um futuro melhor que, naturalmente, conduziriam a protagonista à cidade, depois de uma experiência profissional como regente escolar.

No Funchal, abrem-se-lhe possibilidades de emprego e novas aprendizagens, nomeadamente no âmbito da consciência cívica, ainda que fossem muito limitadas as acções dessa natureza, na ditadura do “Estado Novo”. Nesse ambiente de repressão e obscurantismo, Conceição Pereira dá os primeiros passos na actividade política e sindical e na luta pelos direitos das mulheres, associada à Acção Católica, Oposição Democrática e Sindicato de Empregados de Escritório e Caixeiros.

Como muitos portugueses descontentes e perseguidos da década de 60 e inícios da de 70, emigrou para França. Em Paris, confrontou-se com a vida difícil das empregadas domésticas, destino comum das mulheres emigrantes. Porém, não se resignou. Animou-a indómita motivação pela aprendizagem e o firme empenho na construção de uma sociedade mais justa, com respeito pelos direitos das mulheres trabalhadoras.

A Revolução do 25 de Abril entusiasmou Conceição Pereira, e o regresso à ilha consumou-se. Logo continuou a sua senda: actividade político-partidária, sindical e em defesa da mulher, bem como a prossecução de estudos, tendo em vista a habilitação profissional para a docência no ensino público.

Em momentos marcantes da História da Madeira do último quartel do século XX e inícios da centúria seguinte, sempre encontramos Conceição Pereira em manifestações, comícios, debates e acções cívicas, a distribuir propaganda ou a colaborar na imprensa.

Combateu o separatismo e o jardinismo, lutou pelos caseiros, mulheres e trabalhadores, participou activamente no Sindicato dos Professores da Madeira, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta e Departamento de Mulheres da USAM – União dos Sindicatos da Madeira. Militou na UDP – União Democrática Popular e agora no Bloco de Esquerda. Foi deputada à Assembleia Legislativa da Madeira e, por diversas vezes, candidata a vários órgãos electivos.

Conceição Pereira nunca parou de lutar, mesmo depois da aposentação, por uma sociedade democrática, onde os princípios da igualdade e da fraternidade viessem a ser concretizados.

Em tom coloquial, deixou, nestas páginas, capítulos da sua vida, não se cingindo objectivamente ao passado, mas muitas vezes interrompendo a sua narrativa com apartes jocosos ou contundentes, como se a vivência em causa permanecesse no presente e a sua voz ousada tivesse a necessidade de se fazer ouvir novamente, para reafirmar uma posição ou justificar uma atitude. As marcas da oralidade são, aliás, frequentes, parecendo ao leitor ouvir a autora falar.

Neste livro, fica parte da vida de Conceição Pereira, aquilo que decidiu contar e documentar. Um relato de vida nunca tem edição completa. Por certo, a sua autora deu-nos a conhecer o que considerou de mais relevante numa caminhada persistente na defesa de diversas causas, mas também de afirmação de princípios e de coerência, que geraram sentimentos de respeito e admiração, para além das afinidades políticas.

PEREIRA, Maria Conceição – Caminhando pela vida. Nelson Veríssimo, pref. Câmara de Lobos – Madeira: O Liberal, 2017. ISBN 978-989-20-7334-7.

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Funchal (d)escrito

MONIZ, Ana Isabel; FALCÃO, Ana Margarida; COELHO, Leonor Martins; SANTOS, Thierry Proença dos Funchal (d)escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade. Vila Nova de Gaia: 7 Dias 6 Noites, 2011. ISBN 978-989-686-108-7.

MONIZ, Ana Isabel; FALCÃO, Ana Margarida; COELHO, Leonor Martins; SANTOS, Thierry Proença dos
Funchal (d)escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade. Vila Nova de Gaia: 7 Dias 6 Noites, 2011.
ISBN 978-989-686-108-7.

Desde o séc. XV, o Funchal tem sido captado pela escrita, ainda que nem sempre fosse a motivação literária a desencadear o registo. Intenção primeira poderia ser descrever simplesmente o que a mente percepcionava, passar ao papel impressões veiculadas pelos sentidos, na certeza antecipada da debilidade da memória.

Não são somente de forasteiros esses registos. Apesar da literatura de viagens assumir posição de relevo, neste domínio, porque quem vem de fora sempre tem mais tempo ou predisposição para observar e anotar, nem que seja em termos comparativos, verdade é que, na ilha, o registo também se foi fazendo.

Jerónimo Dias Leite, o primeiro cronista madeirense, por exemplo, escrevendo por volta de 1579, a pedido de Marcos Lopes, deixou-nos importantes referências sobre o povoamento do arquipélago e os feitos dos primeiros capitães no processo de formação da sociedade madeirense. Todavia, a sua obra só foi conhecida por meados do século XX, embora Gaspar Frutuoso a reproduzisse quase integralmente no Livro Segundo das Saudades da Terra. Na época não era plágio! Mas, diga-se em abono da verdade, o vigário da Ribeira Grande – Gaspar Frutuoso – reconheceu, por mais de uma vez, a colaboração de Dias Leite nas preciosas notícias sobre as ilhas da Madeira e Porto Santo

Dias Leite considerou a sua tarefa como carga digna dos ombros de Atlante, mas dela se desembaraçou com esmero e alguma prudência, como quando traçou o retrato do Conde Simão Gonçalves da Câmara, sendo este ainda vivo. Escreveu então Dias Leite:

«Pudera neste caso e capítulo, mais espraiar o estilo em seus louvores, mas como a perfeita glória dos homens se não pode dar remate, senão depois que lhe faltam as ocasiões de bem e mal fazer, que é quando tem acabado o curso dos trabalhos deste mundo, remeto o mais deste negócio ao que depois do seu falecimento o quiser louvar e fazer.» (Descobrimento da Ilha da Madeira e Discurso da vida e feitos dos capitães da dita ilha, p. 99)

Eis a sensatez do cónego da nossa Sé, o primeiro cronista madeirense a falar da cidade, quando era «mui rica de açúcares e vinhos e os moradores prósperos com muitas alfaias e ricos enxovais».

Por outro lado, nas câmaras, nas paróquias, em algumas instituições civis e militares, nos arquivos de família, há um Funchal na memória escrita quase sempre associado a momentos excepcionais do quotidiano, que importa resgatar, e que, conjuntamente com os ensaios sobre representações literárias, agora editados, ajudar-nos-ão, por certo, a melhor conhecer a evolução histórica do lugar elevado a cidade, em 1508, para acolher a primeira diocese do Portugal de Além-Mar em 1514.

Ajudar-nos-ão, por certo, a melhor conhecer a nossa identidade, sobejamente proclamada, mas quase sempre pouco fundamentada por falta de preparação e rigor de análise, mesmo quando estão disponíveis estudos esclarecedores.

Funchal d’escrito reúne um conjunto de ensaios sobre representações literárias da cidade. O corpus de textos em análise decorre naturalmente da especialidade dos seus autores. Trataram de diferentes registos textuais – narrativa, crónica, relato de viagem, poesia. E a análise assentou na História, mas também na problemática da actualidade: «… à luz de problemáticas socioculturais da actualidade», sublinham os autores.

David Pinto Correia, na portada do livro, defende que os escritores e os artistas surpreendem mais profundamente «o todo-aura do espaço físico e social».

Provavelmente, assim será. A liberdade criativa conseguirá, sem dúvida, penetrar em domínios que os preceitos da ciência impedem ou inibem.

Mas, com certeza, esse «todo-aura», da cidade ou de outro qualquer espaço, será ainda mais profundamente surpreendido quando vários olhares se cruzarem, na interdisciplinaridade desejável e raras vezes alcançada.

Grande parte deste livro nasceu desse desejo, da necessidade de olhar o Funchal de diferentes perspectivas. Fazer uma História do Funchal com especialistas de várias áreas do saber. Tratava-se de um projecto para 2008, para as comemorações do Quinto Centenário. Infelizmente, esta iniciativa não se concretizou, mas textos então produzidos começam agora a vir a lume. Os seus autores dão conta disso em nota de pé de página, na Introdução. Fazemos votos de que outras colaborações, preparadas para o mesmo projecto, saiam dos ficheiros dos computadores e sejam editadas em breve.

Funchal d’escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade dá particular relevo ao Funchal na narrativa literária, na crónica, na poesia e na literatura de viajantes franceses, italianos e de um castelhano. Acrescem ainda dois ensaios, de natureza mais especializada ou temática mais concentrada, da autoria de Leonor Martins Coelho e dedicados a obras de Irene Lucília Andrade, Ricardo França Jardim e José Viale Moutinho. Constituem os dois capítulos finais e que, ao contrário dos restantes, não se destinavam à História do Funchal.

Apesar de contemplarem três autores madeirenses, estes ensaios não destoam dos demais. De resto, Leonor Martins Coelho parte exactamente do mesmo princípio: o Funchal como «espaço complexo, lugar privilegiado para a deambulação, a divagação, os encontros e as desventuras.» Enfim, a cidade «como lugar de memória, de percursos e de errâncias, objecto de reflexão…»

Estes ensaios procuram responder a questões enunciadas pelos seus autores e que são partilhadas pelos que do Funchal têm ampla visão cultural:

  • Como se tem construído ou reconstruído o Funchal na obra dos escritores? Visão realista ou estereótipo?
  • Que perspectivas transmitem quanto ao espaço, à história e aos habitantes?
  • Qual o papel do Funchal no texto literário?
  • Que coordenadas norteiam a poética de representação?
  • Como se concilia a cristalização da memória da cidade com a construção de um imaginário funchalense?
  • Em que medida o testemunho do viajante denota uma relação com a cidade e a ilha? Será fiável a imagem transmitida? Idealizada ou objectiva? Em que medida os juízos de valor emitidos traduzem preconceitos de várias espécies, desde o grupo social do viajante até à sua nacionalidade?

A estas e outras questões, subjacentes aos ensaios publicados, procuram os seus autores responder através da inventariação e análise de dezenas de textos de autores madeirenses, na ilha residentes ou por aqui de passagem, pretendendo – e cito da Introdução – «dar conta do singular poder que o Funchal exerce sobre a visão, os sentidos, o estado de espírito, a memória e as experiências particulares dos autores e dos seus possíveis leitores, percorrendo os diferentes géneros literários convocados e as múltiplas cartografias virtuais desta Cidade atlântica vista e (d)escrita mas, todavia, sempre por completar e, assim, por reinventar.» (p. 9)

Para além da representação literária da cidade – objectivo primeiro do livro e, na verdade, quanto a mim, amplamente conseguido –, os ensaios de Funchal (d)escrito despertam-nos para múltiplas incursões em sítios e lugares da urbe, a partir da ficção narrativa, da poesia, dos testemunhos dos viajantes e da crónica, não somente para invocar ou lembrar o que já foi sentido e literariamente registado, mas também para nos animar e seduzir  por novos encantos e afectos ou antigas memórias, numa reinvenção permanente de universos e vivências através da escrita.

(Palavras proferidas na apresentação deste livro, Universidade da Madeira, 14-06-2011)

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Henrique, o Infante

infante
Com a chancela de A Esfera dos Livros, veio a lume, no mês passado, Henrique, o Infante, de João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e director do Centro de História de Além-Mar.

O infante D. Henrique (1394-1460) é uma das personalidades mais conhecidas da História de Portugal e com fama além-fronteiras, sobretudo pela acção desenvolvida na fase inicial dos Descobrimentos.

Sobre a vida do Infante e o seu tempo, muito já se escreveu, nem sempre com o rigor histórico desejável e, tantas vezes, apenas em função da Expansão Portuguesa. Fazia, pois, falta uma biografia de D. Henrique, assente na documentação, principalmente a Monumenta Henricina, e delineada com a preocupação de conhecer e compreender «o homem que espoletou as Descobertas, mas cuja vida não se resumiu ao perscrutar do oceano.» (p. 34). Como sublinha ainda Oliveira e Costa, este é um livro «sobre a totalidade da sua personalidade», destinado ao grande público.

Pela sua natureza, a obra, em apreço, não privilegiou, logicamente, o debate sobre as diferentes teses historiográficas a respeito do Infante e da conjuntura quatrocentista. Contudo, as opiniões, que veicula, demonstram a preocupação do autor em apresentar linhas interpretativas, em sintonia com a investigação histórica mais recente, e em destituir lugares-comuns e mitos que envolvem o Infante, em particular, e o início dos Descobrimentos, em geral.

Com um plano meticulosamente traçado, esta biografia proporciona-nos a compreensão, à luz da época, da ascensão económica, social e política do quarto filho varão legítimo do rei D. João I, em especial, a vontade de engrandecimento e a firmeza em alcançar objectivos sonhados pela sua geração.

Para João Paulo Oliveira e Costa, o Infante ultrapassou a condição de nascimento, construiu fortuna e o seu próprio destino, alterou o rumo do País e, por conseguinte, tornou-se herói nacional e figura da História da Humanidade, e isto já no século XVI.

O infante D. Henrique foi duque de Viseu, Senhor da Covilhã, governador e administrador da Ordem de Cristo, Senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, Senhor de Lagos e de Alvor… Animou-o o espírito de cruzado. Combateu em Ceuta, Tânger e Alcácer-Ceguer. Interessou-se pelo mar desconhecido e desencadeou uma Revolução Geográfica. Por sua iniciativa, abriu-se a passagem do Bojador e, ainda em sua vida, as caravelas chegaram ao arquipélago de Cabo Verde e à Serra Leoa. Participou activamente da vida política portuguesa, assumindo, com frequência, papel conciliador, norteado pelos mais altos interesses do Reino.

A leitura de Henrique, o Infante constitui um prazer, não somente pela linguagem cuidada e o estilo elegante, mas também porque a história da personalidade e da sua época é-nos revelada com precisão e clareza, por vezes num tom coloquial, diria até com certa preocupação didáctica, a fim de o leitor reter os dados essenciais e, com naturalidade, comungar o entusiasmo do autor em desvendar e compreender a personalidade biografada, sem que a frieza da História contamine, por completo, o discurso.

Registe-se, a propósito, que Oliveira e Costa considera D. Henrique «uma personagem histórica fascinante», logo declarando que não tem por ele nem simpatia nem antipatia. Compreende-se tal preocupação, anunciada de início, no contexto da objectividade almejada pelo historiador. Todavia, o seu convívio intenso com o Infante durante a pesquisa e escrita do livro, bem como o facto de este corresponder a um «sonho da juventude», como confessa, adicionaram, por certo, a esse fascínio boa pitada de simpatia, sem que, na verdade, a obra disso se ressinta.

Biografia bem estruturada e solidamente construída, Henrique, o Infante é, sem dúvida, obra de referência na bibliografia da Expansão Portuguesa.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Novembro de 2009

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1. Estes três tópicos sempre andaram juntos. A cama como via para o poder. A morte, implacável circunstância de renovação do poder ou de afirmação da liberdade.


Não constituem temas exclusivos do passado. A cama e o poder continuam bem apegados, ainda que em conúbio pós-modernista e sob protecção do incontestável direito à reserva da intimidade e da vida privada.


Basta uma leitura rápida dos blogues mais conhecidos para verificar a pertinência do tema no microcosmos insular. Ainda recentemente, a propósito do «caso S. Vicente», Bernardino da Purificação, no Terreiro da Luta, escreveu que, «na Madeira, há uma política de travesseiro que se sobrepõe à política institucional».


O conteúdo de alguns blogues poderá ser fruto da má-língua. Todavia, não devemos ignorar o papel crescente da blogosfera na opinião pública. Igualmente, não é de desprezar esta informação como fonte para a História, daí a importância de arquivá-la ou editá-la em suporte diverso.


2. A cama, o poder e a morte: rainhas e princesas da Europa do Renascimento ao Iluminismo é a mais recente publicação de Bartolomé Bennassar, reputado historiador e hispanista francês (Nîmes, 1929).


Na primeira década do século XXI, recrudesceu o interesse pelas biografias de rainhas e princesas, que tem originado diversos livros e filmes.


No entanto, a obra de Bennassar não se enquadra nessa linha de reconstituição de percursos de vida de altas figuras da aristocracia europeia. Procura, antes, analisar o papel desempenhado por algumas rainhas e princesas nas relações políticas da Europa Ocidental, pelo seu protagonismo ou, principalmente, pela sua importância nas negociações matrimoniais e subsequentes alianças políticas.


O livro tem como objectivo principal um capítulo da condição feminina na sociedade do Antigo Regime, que não se resume à vida faustosa na Corte, mas que explora atentamente os bastidores do poder. Salienta, ainda, o contributo de mais de cem mulheres de sangue real na construção da Europa, se bem que, quase sempre, se assemelhassem a «peões deslocados ao sabor de sucessivas combinações no tabuleiro da grande política» (p. 39).


Em idade núbil, jovens de sangue real ou descendentes da alta nobreza, com uma educação esmerada, entravam, não por sua vontade, no jogo diplomático e político da Europa, através de intrincadas negociações de casamentos que visavam garantir a sucessão das casas reinantes, a segurança entre as nações intervenientes, as uniões dinásticas ou a hegemonia de algumas Coroas. Não tinham o direito de recusar o pretendente útil, mesmo sob a justificação de aspirarem ingressar num convento, porque a razão de Estado tinha precedência sobre a vida consagrada a Deus.


Depois de casadas, quase sempre com menos de vinte anos, o destino imposto exigia-lhes muitos filhos para a sucessão ou para o estabelecimento de alianças estratégicas. Muitas morreram cedo, devido a sucessivas gravidezes e complicações periparto. Outras, porém, alcançaram considerável longevidade, apesar do assédio procriador.


Algumas, pelo seu temperamento, lograram desempenhar papel importante, político ou cultural, inclusive como mecenas. Outras só obtiveram a liberdade ou o poder com a morte dos maridos.


Neste particular, avulta a figura da rainha viúva, mãe do rei, muitas vezes chamada a exercer a regência na menoridade do herdeiro ao trono e demonstrando excelentes capacidades de governação.


Bartolomé Bennassar serve-se de uma linguagem muito expressiva e recorre, por vezes, a pormenores e episódios singulares do quotidiano palaciano, pouco utilizados na historiografia das Casas Reais. Dá-nos, assim, um retrato muito vivo de rainhas, princesas e arquiduquesas, entre a cama, o poder e a morte, chegando a lamentar o infortúnio de algumas: «Pouco se exageraria afirmando que, entre as mulheres dos séculos passados, rainhas e princesas se contam muitas vezes entre as vítimas mais dignas de dó.» (p. 39); «As pastoras decididamente tinham mais sorte.» (p. 251)

 

Diário de Notícias, Funchal, 5 de Julho de 2009

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