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Archive for the ‘Recensões’ Category

Os registos de vida ou memórias constituem importantes fontes para a História, apesar da subjectividade implícita. Contudo, a perspectiva de quem participou nos acontecimentos, e dos mesmos construiu a sua narrativa, revela, quase sempre, curiosas peripécias e pormenores insólitos, dificilmente representados em relatos de outra natureza.

Caminhando pela vida, de Conceição Pereira, é uma narrativa na primeira pessoa de uma mulher animada pelos princípios democráticos da igualdade e da justiça social, fruto das suas vivências e de uma sedenta e constante vontade em aprender mais.

Em algumas circunstâncias adversas, foi autodidacta. Noutras, buscou a Escola. Pretendia evoluir, para desfrutar de uma vida melhor. Progredir, e não somente para proveito próprio. O espírito de luta nasceu consigo e vamos vê-la constantemente envolvida na ajuda aos outros e, sobretudo, no combate às injustiças e desigualdades sociais, dando atenção primordial à situação das mulheres trabalhadoras.

Neste livro, começa por recordar as vivências de infância e juventude na sua freguesia natal. Regista, de memória, usos e costumes do Seixal, alguns, por certo, já desaparecidos. Daí o interesse etnográfico destes apontamentos do quotidiano rural. No entanto, esse retorno às raízes, permite também compreender como as limitações do meio e a força de vontade podem suscitar o inconformismo e a procura de um futuro melhor que, naturalmente, conduziriam a protagonista à cidade, depois de uma experiência profissional como regente escolar.

No Funchal, abrem-se-lhe possibilidades de emprego e novas aprendizagens, nomeadamente no âmbito da consciência cívica, ainda que fossem muito limitadas as acções dessa natureza, na ditadura do “Estado Novo”. Nesse ambiente de repressão e obscurantismo, Conceição Pereira dá os primeiros passos na actividade política e sindical e na luta pelos direitos das mulheres, associada à Acção Católica, Oposição Democrática e Sindicato de Empregados de Escritório e Caixeiros.

Como muitos portugueses descontentes e perseguidos da década de 60 e inícios da de 70, emigrou para França. Em Paris, confrontou-se com a vida difícil das empregadas domésticas, destino comum das mulheres emigrantes. Porém, não se resignou. Animou-a indómita motivação pela aprendizagem e o firme empenho na construção de uma sociedade mais justa, com respeito pelos direitos das mulheres trabalhadoras.

A Revolução do 25 de Abril entusiasmou Conceição Pereira, e o regresso à ilha consumou-se. Logo continuou a sua senda: actividade político-partidária, sindical e em defesa da mulher, bem como a prossecução de estudos, tendo em vista a habilitação profissional para a docência no ensino público.

Em momentos marcantes da História da Madeira do último quartel do século XX e inícios da centúria seguinte, sempre encontramos Conceição Pereira em manifestações, comícios, debates e acções cívicas, a distribuir propaganda ou a colaborar na imprensa.

Combateu o separatismo e o jardinismo, lutou pelos caseiros, mulheres e trabalhadores, participou activamente no Sindicato dos Professores da Madeira, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta e Departamento de Mulheres da USAM – União dos Sindicatos da Madeira. Militou na UDP – União Democrática Popular e agora no Bloco de Esquerda. Foi deputada à Assembleia Legislativa da Madeira e, por diversas vezes, candidata a vários órgãos electivos.

Conceição Pereira nunca parou de lutar, mesmo depois da aposentação, por uma sociedade democrática, onde os princípios da igualdade e da fraternidade viessem a ser concretizados.

Em tom coloquial, deixou, nestas páginas, capítulos da sua vida, não se cingindo objectivamente ao passado, mas muitas vezes interrompendo a sua narrativa com apartes jocosos ou contundentes, como se a vivência em causa permanecesse no presente e a sua voz ousada tivesse a necessidade de se fazer ouvir novamente, para reafirmar uma posição ou justificar uma atitude. As marcas da oralidade são, aliás, frequentes, parecendo ao leitor ouvir a autora falar.

Neste livro, fica parte da vida de Conceição Pereira, aquilo que decidiu contar e documentar. Um relato de vida nunca tem edição completa. Por certo, a sua autora deu-nos a conhecer o que considerou de mais relevante numa caminhada persistente na defesa de diversas causas, mas também de afirmação de princípios e de coerência, que geraram sentimentos de respeito e admiração, para além das afinidades políticas.

PEREIRA, Maria Conceição – Caminhando pela vida. Nelson Veríssimo, pref. Câmara de Lobos – Madeira: O Liberal, 2017. ISBN 978-989-20-7334-7.

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Funchal (d)escrito

MONIZ, Ana Isabel; FALCÃO, Ana Margarida; COELHO, Leonor Martins; SANTOS, Thierry Proença dos Funchal (d)escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade. Vila Nova de Gaia: 7 Dias 6 Noites, 2011. ISBN 978-989-686-108-7.

MONIZ, Ana Isabel; FALCÃO, Ana Margarida; COELHO, Leonor Martins; SANTOS, Thierry Proença dos
Funchal (d)escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade. Vila Nova de Gaia: 7 Dias 6 Noites, 2011.
ISBN 978-989-686-108-7.

Desde o séc. XV, o Funchal tem sido captado pela escrita, ainda que nem sempre fosse a motivação literária a desencadear o registo. Intenção primeira poderia ser descrever simplesmente o que a mente percepcionava, passar ao papel impressões veiculadas pelos sentidos, na certeza antecipada da debilidade da memória.

Não são somente de forasteiros esses registos. Apesar da literatura de viagens assumir posição de relevo, neste domínio, porque quem vem de fora sempre tem mais tempo ou predisposição para observar e anotar, nem que seja em termos comparativos, verdade é que, na ilha, o registo também se foi fazendo.

Jerónimo Dias Leite, o primeiro cronista madeirense, por exemplo, escrevendo por volta de 1579, a pedido de Marcos Lopes, deixou-nos importantes referências sobre o povoamento do arquipélago e os feitos dos primeiros capitães no processo de formação da sociedade madeirense. Todavia, a sua obra só foi conhecida por meados do século XX, embora Gaspar Frutuoso a reproduzisse quase integralmente no Livro Segundo das Saudades da Terra. Na época não era plágio! Mas, diga-se em abono da verdade, o vigário da Ribeira Grande – Gaspar Frutuoso – reconheceu, por mais de uma vez, a colaboração de Dias Leite nas preciosas notícias sobre as ilhas da Madeira e Porto Santo

Dias Leite considerou a sua tarefa como carga digna dos ombros de Atlante, mas dela se desembaraçou com esmero e alguma prudência, como quando traçou o retrato do Conde Simão Gonçalves da Câmara, sendo este ainda vivo. Escreveu então Dias Leite:

«Pudera neste caso e capítulo, mais espraiar o estilo em seus louvores, mas como a perfeita glória dos homens se não pode dar remate, senão depois que lhe faltam as ocasiões de bem e mal fazer, que é quando tem acabado o curso dos trabalhos deste mundo, remeto o mais deste negócio ao que depois do seu falecimento o quiser louvar e fazer.» (Descobrimento da Ilha da Madeira e Discurso da vida e feitos dos capitães da dita ilha, p. 99)

Eis a sensatez do cónego da nossa Sé, o primeiro cronista madeirense a falar da cidade, quando era «mui rica de açúcares e vinhos e os moradores prósperos com muitas alfaias e ricos enxovais».

Por outro lado, nas câmaras, nas paróquias, em algumas instituições civis e militares, nos arquivos de família, há um Funchal na memória escrita quase sempre associado a momentos excepcionais do quotidiano, que importa resgatar, e que, conjuntamente com os ensaios sobre representações literárias, agora editados, ajudar-nos-ão, por certo, a melhor conhecer a evolução histórica do lugar elevado a cidade, em 1508, para acolher a primeira diocese do Portugal de Além-Mar em 1514.

Ajudar-nos-ão, por certo, a melhor conhecer a nossa identidade, sobejamente proclamada, mas quase sempre pouco fundamentada por falta de preparação e rigor de análise, mesmo quando estão disponíveis estudos esclarecedores.

Funchal d’escrito reúne um conjunto de ensaios sobre representações literárias da cidade. O corpus de textos em análise decorre naturalmente da especialidade dos seus autores. Trataram de diferentes registos textuais – narrativa, crónica, relato de viagem, poesia. E a análise assentou na História, mas também na problemática da actualidade: «… à luz de problemáticas socioculturais da actualidade», sublinham os autores.

David Pinto Correia, na portada do livro, defende que os escritores e os artistas surpreendem mais profundamente «o todo-aura do espaço físico e social».

Provavelmente, assim será. A liberdade criativa conseguirá, sem dúvida, penetrar em domínios que os preceitos da ciência impedem ou inibem.

Mas, com certeza, esse «todo-aura», da cidade ou de outro qualquer espaço, será ainda mais profundamente surpreendido quando vários olhares se cruzarem, na interdisciplinaridade desejável e raras vezes alcançada.

Grande parte deste livro nasceu desse desejo, da necessidade de olhar o Funchal de diferentes perspectivas. Fazer uma História do Funchal com especialistas de várias áreas do saber. Tratava-se de um projecto para 2008, para as comemorações do Quinto Centenário. Infelizmente, esta iniciativa não se concretizou, mas textos então produzidos começam agora a vir a lume. Os seus autores dão conta disso em nota de pé de página, na Introdução. Fazemos votos de que outras colaborações, preparadas para o mesmo projecto, saiam dos ficheiros dos computadores e sejam editadas em breve.

Funchal d’escrito: ensaios sobre representações literárias da cidade dá particular relevo ao Funchal na narrativa literária, na crónica, na poesia e na literatura de viajantes franceses, italianos e de um castelhano. Acrescem ainda dois ensaios, de natureza mais especializada ou temática mais concentrada, da autoria de Leonor Martins Coelho e dedicados a obras de Irene Lucília Andrade, Ricardo França Jardim e José Viale Moutinho. Constituem os dois capítulos finais e que, ao contrário dos restantes, não se destinavam à História do Funchal.

Apesar de contemplarem três autores madeirenses, estes ensaios não destoam dos demais. De resto, Leonor Martins Coelho parte exactamente do mesmo princípio: o Funchal como «espaço complexo, lugar privilegiado para a deambulação, a divagação, os encontros e as desventuras.» Enfim, a cidade «como lugar de memória, de percursos e de errâncias, objecto de reflexão…»

Estes ensaios procuram responder a questões enunciadas pelos seus autores e que são partilhadas pelos que do Funchal têm ampla visão cultural:

  • Como se tem construído ou reconstruído o Funchal na obra dos escritores? Visão realista ou estereótipo?
  • Que perspectivas transmitem quanto ao espaço, à história e aos habitantes?
  • Qual o papel do Funchal no texto literário?
  • Que coordenadas norteiam a poética de representação?
  • Como se concilia a cristalização da memória da cidade com a construção de um imaginário funchalense?
  • Em que medida o testemunho do viajante denota uma relação com a cidade e a ilha? Será fiável a imagem transmitida? Idealizada ou objectiva? Em que medida os juízos de valor emitidos traduzem preconceitos de várias espécies, desde o grupo social do viajante até à sua nacionalidade?

A estas e outras questões, subjacentes aos ensaios publicados, procuram os seus autores responder através da inventariação e análise de dezenas de textos de autores madeirenses, na ilha residentes ou por aqui de passagem, pretendendo – e cito da Introdução – «dar conta do singular poder que o Funchal exerce sobre a visão, os sentidos, o estado de espírito, a memória e as experiências particulares dos autores e dos seus possíveis leitores, percorrendo os diferentes géneros literários convocados e as múltiplas cartografias virtuais desta Cidade atlântica vista e (d)escrita mas, todavia, sempre por completar e, assim, por reinventar.» (p. 9)

Para além da representação literária da cidade – objectivo primeiro do livro e, na verdade, quanto a mim, amplamente conseguido –, os ensaios de Funchal (d)escrito despertam-nos para múltiplas incursões em sítios e lugares da urbe, a partir da ficção narrativa, da poesia, dos testemunhos dos viajantes e da crónica, não somente para invocar ou lembrar o que já foi sentido e literariamente registado, mas também para nos animar e seduzir  por novos encantos e afectos ou antigas memórias, numa reinvenção permanente de universos e vivências através da escrita.

(Palavras proferidas na apresentação deste livro, Universidade da Madeira, 14-06-2011)

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Henrique, o Infante

infante
Com a chancela de A Esfera dos Livros, veio a lume, no mês passado, Henrique, o Infante, de João Paulo Oliveira e Costa, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e director do Centro de História de Além-Mar.

O infante D. Henrique (1394-1460) é uma das personalidades mais conhecidas da História de Portugal e com fama além-fronteiras, sobretudo pela acção desenvolvida na fase inicial dos Descobrimentos.

Sobre a vida do Infante e o seu tempo, muito já se escreveu, nem sempre com o rigor histórico desejável e, tantas vezes, apenas em função da Expansão Portuguesa. Fazia, pois, falta uma biografia de D. Henrique, assente na documentação, principalmente a Monumenta Henricina, e delineada com a preocupação de conhecer e compreender «o homem que espoletou as Descobertas, mas cuja vida não se resumiu ao perscrutar do oceano.» (p. 34). Como sublinha ainda Oliveira e Costa, este é um livro «sobre a totalidade da sua personalidade», destinado ao grande público.

Pela sua natureza, a obra, em apreço, não privilegiou, logicamente, o debate sobre as diferentes teses historiográficas a respeito do Infante e da conjuntura quatrocentista. Contudo, as opiniões, que veicula, demonstram a preocupação do autor em apresentar linhas interpretativas, em sintonia com a investigação histórica mais recente, e em destituir lugares-comuns e mitos que envolvem o Infante, em particular, e o início dos Descobrimentos, em geral.

Com um plano meticulosamente traçado, esta biografia proporciona-nos a compreensão, à luz da época, da ascensão económica, social e política do quarto filho varão legítimo do rei D. João I, em especial, a vontade de engrandecimento e a firmeza em alcançar objectivos sonhados pela sua geração.

Para João Paulo Oliveira e Costa, o Infante ultrapassou a condição de nascimento, construiu fortuna e o seu próprio destino, alterou o rumo do País e, por conseguinte, tornou-se herói nacional e figura da História da Humanidade, e isto já no século XVI.

O infante D. Henrique foi duque de Viseu, Senhor da Covilhã, governador e administrador da Ordem de Cristo, Senhor dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, Senhor de Lagos e de Alvor… Animou-o o espírito de cruzado. Combateu em Ceuta, Tânger e Alcácer-Ceguer. Interessou-se pelo mar desconhecido e desencadeou uma Revolução Geográfica. Por sua iniciativa, abriu-se a passagem do Bojador e, ainda em sua vida, as caravelas chegaram ao arquipélago de Cabo Verde e à Serra Leoa. Participou activamente da vida política portuguesa, assumindo, com frequência, papel conciliador, norteado pelos mais altos interesses do Reino.

A leitura de Henrique, o Infante constitui um prazer, não somente pela linguagem cuidada e o estilo elegante, mas também porque a história da personalidade e da sua época é-nos revelada com precisão e clareza, por vezes num tom coloquial, diria até com certa preocupação didáctica, a fim de o leitor reter os dados essenciais e, com naturalidade, comungar o entusiasmo do autor em desvendar e compreender a personalidade biografada, sem que a frieza da História contamine, por completo, o discurso.

Registe-se, a propósito, que Oliveira e Costa considera D. Henrique «uma personagem histórica fascinante», logo declarando que não tem por ele nem simpatia nem antipatia. Compreende-se tal preocupação, anunciada de início, no contexto da objectividade almejada pelo historiador. Todavia, o seu convívio intenso com o Infante durante a pesquisa e escrita do livro, bem como o facto de este corresponder a um «sonho da juventude», como confessa, adicionaram, por certo, a esse fascínio boa pitada de simpatia, sem que, na verdade, a obra disso se ressinta.

Biografia bem estruturada e solidamente construída, Henrique, o Infante é, sem dúvida, obra de referência na bibliografia da Expansão Portuguesa.

Diário de Notícias, Funchal, 8 de Novembro de 2009

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1. Estes três tópicos sempre andaram juntos. A cama como via para o poder. A morte, implacável circunstância de renovação do poder ou de afirmação da liberdade.


Não constituem temas exclusivos do passado. A cama e o poder continuam bem apegados, ainda que em conúbio pós-modernista e sob protecção do incontestável direito à reserva da intimidade e da vida privada.


Basta uma leitura rápida dos blogues mais conhecidos para verificar a pertinência do tema no microcosmos insular. Ainda recentemente, a propósito do «caso S. Vicente», Bernardino da Purificação, no Terreiro da Luta, escreveu que, «na Madeira, há uma política de travesseiro que se sobrepõe à política institucional».


O conteúdo de alguns blogues poderá ser fruto da má-língua. Todavia, não devemos ignorar o papel crescente da blogosfera na opinião pública. Igualmente, não é de desprezar esta informação como fonte para a História, daí a importância de arquivá-la ou editá-la em suporte diverso.


2. A cama, o poder e a morte: rainhas e princesas da Europa do Renascimento ao Iluminismo é a mais recente publicação de Bartolomé Bennassar, reputado historiador e hispanista francês (Nîmes, 1929).


Na primeira década do século XXI, recrudesceu o interesse pelas biografias de rainhas e princesas, que tem originado diversos livros e filmes.


No entanto, a obra de Bennassar não se enquadra nessa linha de reconstituição de percursos de vida de altas figuras da aristocracia europeia. Procura, antes, analisar o papel desempenhado por algumas rainhas e princesas nas relações políticas da Europa Ocidental, pelo seu protagonismo ou, principalmente, pela sua importância nas negociações matrimoniais e subsequentes alianças políticas.


O livro tem como objectivo principal um capítulo da condição feminina na sociedade do Antigo Regime, que não se resume à vida faustosa na Corte, mas que explora atentamente os bastidores do poder. Salienta, ainda, o contributo de mais de cem mulheres de sangue real na construção da Europa, se bem que, quase sempre, se assemelhassem a «peões deslocados ao sabor de sucessivas combinações no tabuleiro da grande política» (p. 39).


Em idade núbil, jovens de sangue real ou descendentes da alta nobreza, com uma educação esmerada, entravam, não por sua vontade, no jogo diplomático e político da Europa, através de intrincadas negociações de casamentos que visavam garantir a sucessão das casas reinantes, a segurança entre as nações intervenientes, as uniões dinásticas ou a hegemonia de algumas Coroas. Não tinham o direito de recusar o pretendente útil, mesmo sob a justificação de aspirarem ingressar num convento, porque a razão de Estado tinha precedência sobre a vida consagrada a Deus.


Depois de casadas, quase sempre com menos de vinte anos, o destino imposto exigia-lhes muitos filhos para a sucessão ou para o estabelecimento de alianças estratégicas. Muitas morreram cedo, devido a sucessivas gravidezes e complicações periparto. Outras, porém, alcançaram considerável longevidade, apesar do assédio procriador.


Algumas, pelo seu temperamento, lograram desempenhar papel importante, político ou cultural, inclusive como mecenas. Outras só obtiveram a liberdade ou o poder com a morte dos maridos.


Neste particular, avulta a figura da rainha viúva, mãe do rei, muitas vezes chamada a exercer a regência na menoridade do herdeiro ao trono e demonstrando excelentes capacidades de governação.


Bartolomé Bennassar serve-se de uma linguagem muito expressiva e recorre, por vezes, a pormenores e episódios singulares do quotidiano palaciano, pouco utilizados na historiografia das Casas Reais. Dá-nos, assim, um retrato muito vivo de rainhas, princesas e arquiduquesas, entre a cama, o poder e a morte, chegando a lamentar o infortúnio de algumas: «Pouco se exageraria afirmando que, entre as mulheres dos séculos passados, rainhas e princesas se contam muitas vezes entre as vítimas mais dignas de dó.» (p. 39); «As pastoras decididamente tinham mais sorte.» (p. 251)

 

Diário de Notícias, Funchal, 5 de Julho de 2009

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Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009

Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009


Martina Emonts acaba de publicar, na Alemanha, a sua dissertação de doutoramento. Com a chancela da prestigiada Königshausen & Neumann, editora especializada em Ciências da Cultura, de Würzburg, Mechtilde Lichnowsky – Sprachlust und Sprachkritik (Mechtilde Lichnowsky – o prazer e a crítica da linguagem) constitui mais um importante contributo para a internacionalização da Universidade da Madeira. Trata-se de investigação desenvolvida na UMa, agora disponível no mercado livreiro.

É o primeiro estudo de grande fôlego sobre Mechtilde Lichnowsky (1879-1958), escritora que, em vida, publicou dezoito livros. Para além da escrita (poesia, romance, novela, ensaio, reflexão filosófica – é difícil enquadrar a sua produção literária na nomenclatura tradicional), dedicou-se à música, fotografia, desenho, escultura e caricatura. Era uma mulher de grande sensibilidade e lucidez, que prezou o amor e o humor. A linguagem, o género e a arte são temas recorrentes na sua obra. Assumiu também atitudes pedagógicas a respeito do comportamento e da linguagem, norteada por princípios de bom gosto, de coerência e de recusa de qualquer forma de opressão.

Apesar da vasta obra editada, da admiração que granjeou em vida, em particular de Karl Kraus, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Theodor W. Adorno, dos seus ideais democráticos e dos círculos que frequentou, Mechtilde Lichnowsky, nos dias de hoje, é uma escritora pouco conhecida, insuficientemente estudada e fora do cânone de expressão alemã.

Foi, exactamente, esta constatação que motivou a investigação de Martina Emonts. Sobre a escritora havia encontrado breve referência, uma única linha numa História da Literatura, e que se resumia ao seguinte: «Mechtilde Lichnowsky tem uma maneira invulgar de descrever figuras femininas».

É conhecido o interesse de Martina Emonts sobre as questões do género. Recorde-se que a sua dissertação de mestrado – Onde há galo não canta galinha: discursos femininos, feministas e transgressivos nos anos vinte em Portugal. O caso do suplemento literário e ilustrado de A Batalha (1923-1927) – foi galardoada com o prémio Mulher Investigação – Carolina Michaëlis de Vasconcelos, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, em 2001.

Martina Emonts desenvolveu a sua investigação em arquivos e bibliotecas alemães, checos, americanos, austríacos e suíços, tendo a felicidade de descobrir e identificar documentos inéditos ou que se julgavam desaparecidos. Em resultado destas pesquisas, novos elementos nos são revelados sobre a obra de Mechtilde Lichnowsky e outra perspectiva nos é apresentada sobre a Europa do seu tempo, que não somente influenciou a escritora, mas também beneficiou dos seus contributos.

Mechtilde Lichnowsky dedicou grande atenção à linguagem, imprescindível na observação de uma pessoa ou uma sociedade. Daí a sua atenção à análise do discurso. Exemplo disso é o seu estudo, por razões óbvias não publicado, sobre o Mein Kampf (A minha luta), de Adolf Hitler. Mechtilde concluiu, pela linguagem, que H. (a escritora recusou sempre escrever ou pronunciar o seu nome, e a ele se referia apenas por esta inicial) era um homem perturbado.

Outro aspecto interessante diz respeito ao que Mechtilde Lichnowsky pensava sobre os especialistas e que ficou bem expresso em Der Kampf mit dem Fachmann (A luta com o especialista), de 1924, livro muito apreciado por T. W. Adorno. A escritora, através de múltiplos exemplos, ilustrou o quanto pretensos especialistas proferiam tretas, simplesmente, por não reflectirem sobre o uso da sua própria linguagem.

Mechtilde Lichnowsky tinha uma avó portuguesa – D. Matilde Lobo da Silveira, condessa de Oriola (1827-1889) –, a quem atribuía a sua veia literária e dedicava profunda admiração. Contudo, as obras da escritora alemã nunca foram editadas em Portugal. E durante a sua vida, compreende-se bem porquê – a autora fora vítima do bibliocausto nazi.

O livro de Martina Emonts contribuirá para a reabilitação da memória de Mechtilde Lichnowsky na História da Literatura e Cultura de expressão alemã e para a sua integração no cânone estabelecido.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Maio de 2009

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Por meados de Janeiro, veio a lume Os náufragos do Mar da Palha, o novo romance de João Medina, editado por Livros Horizonte. 

Não sendo este o espaço ideal para uma recensão crítica, afigura-se-me, todavia, que o discurso de Tito, a personagem central deste romance e, por vezes, uma espécie de alter ego do autor, interessa à formação da opinião pública, sobretudo pela visão sarcástica e arrasadora que manifesta a respeito de Portugal e da sua História.

O cenário resume-se ao café-restaurante “Mar da Palha”, situado na esquina do Beco dos Contrabandistas com a Praça da Armada, no Bairro de Alcântara, em Lisboa, no qual se reúne, todos os sábados de manhã, um grupo de amigos e ex-alunos de Tito, antigo professor de Filosofia no Liceu Pedro Nunes, para uma cavaqueira, inevitavelmente rematada com uma almoçarada. 

Anarconiilista, natural de Moçambique, crítico implacável da “portugalidade degenerada e balofa”, “iconocolasta irreverente”, Tito, o “náufrago central” do romance, pontificava naquela tertúlia, ou melhor, naquele grupo, pois era ele quem fazia longos sermões, limitando-se os demais a ouvi-lo e, de vez em quando, a interpelá-lo com uma outra pergunta sem qualquer intenção de confronto.

O autor-narrador afirma reproduzir “páginas copiadas do real, a transcrição fiel dos sermões, invectivas, anexins, cóleras e paradoxos” daqueles encontros sabáticos no “Mar da Palha”. E, assim, o romance vive sobretudo dos longos e cáusticos monólogos de Tito, embora outras personagens e diferentes episódios venham a compor o enredo, inclusive as vivências amorosas e sexuais da personagem central, descritas com fino erotismo.

Tito, nas suas extensas dissertações, não se cinge a um determinado tema. As suas palavras jorram em catadupa irónica, espalhando-se de pronto em diversas direcções ao ritmo das guinadas imprevisíveis de arrebatada oratória, quer fale jocosamente do passado histórico, quer descreva com pessimismo mordaz a situação presente de Portugal, não poupando mesmo alguns políticos ainda vivos e no exercício dos seus mandatos, como o “patusco Ubu madeirense” que costuma chamar “rectângulo” ao Continente Português. Pelo meio, abundam variadas referências históricas, literárias, filosóficas, artísticas e musicais a atestar a vasta erudição desta personagem. E o autor-narrador, inúmeras vezes, antecipa ou corrobora as ferroadas corrosivas daquele “estrangeirado” no país de náufragos, agora em “Naufrágio Definitivo”.

No seu último sermão, antes de o “Mar da Palha” encerrar, Tito compara Portugal a “uma espécie de triângulo das Bermudas onde tudo desaparece e se dissolve, onde todos naufragam, nesta longa história trágico-marítima que é a crónica dos feitos lusitanos, desde o Afonso Henriques aos nossos dias” (p. 309). E após enunciar numerosas “imagens de marca” de Portugal, tema que João Medina em obra recente também tratou – Portuguesismo(s), Lisboa, 2006 –, ergue a interrogação vital, demoradamente construída com massa retórica: Portugal acabou?

Esta é de facto a tese do romance, requintadamente servida na baixela do naufrágio. E tal como já prenunciara no quarto capítulo, ao apelar para que os portugueses viajassem verticalmente para dentro de si próprios, “numa faina inédita de introspecção” (p. 48), Tito retoma, no final, esse desígnio, quanto a si, necessário e urgente, de vontade de novas aventuras, “feitas na vertical, para dentro de nós mesmos, e não mais para o largo, para além deste finisterra onde o sonho acaba e o naufrágio começa” (pp. 310-311).

Romance de tese – Os náufragos do Mar da Palha –, constitui insólito contributo para a compreensão da nossa identidade cultural e uma reflexão impiedosa e irreverente sobre a História de Portugal e o destino do nosso país, quando se constata “a horrível, persistente e esterilizadora ausência de verdadeiras e competentes elites políticas, culturais, profissionais, técnicas e científicas” e a “nulidade dos dirigentes que nos mais diversos domínios produzimos” (p. 19).

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Fevereiro de 2007

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