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Archive for Março, 2018

Quinta-feira de Endoenças – assim era antigamente denominada a quinta-feira da Semana Santa ou da Paixão, também conhecida por Quinta-feira Maior, primeiro dia do Tríduo Pascal e celebração assinalada do calendário católico em memória da Última Ceia. A palavra endoenças, de raiz latina, pretende, neste contexto, significar um dia de bondade, moderação ou complacência. Nos séculos XVII e XVIII, a Misericórdia do Funchal organizou, nesta cidade, a famosa Procissão das Endoenças. Pelo compromisso da Irmandade funchalense, aprovado por Filipe IV em 22 de Março de 1631, ficamos a conhecer os seus objectivos, composição e organização.

Pretendia-se, em primeiro lugar, a realização de um acto de penitência e de visita a algumas igrejas e sepulcros, onde se procedia à adoração do Santíssimo Sacramento. Constituía obrigação estatutária dos irmãos a presença nesta procissão, que saía da Capela da Misericórdia pelas quatro horas da tarde da Quinta-feira de Endoenças e prolongava-se até à noite. Afirmava-se ainda que esta procissão poderia contribuir para a conversão dos estrangeiros não católicos que se encontravam no Funchal.

A procissão abria com a bandeira da Irmandade, rodeada de seis tocheiros e quatro lanternas, um homem vestido de azul tocando a tabuleta e dois clérigos cantando a ladainha. Seguiam-se as onze bandeiras das insígnias, ladeadas por tocheiros. Atrás da última bandeira, ia a imagem de Cristo em tamanho natural, debaixo de um pálio de oito varas e de veludo negro, acompanhada de vinte e quatro tochas, igual número de lanternas e a mesma quantidade de tocheiros, capelães e demais padres. Logo depois figurava o provedor da Misericórdia, homem nobre e de prestígio no concelho. Entre a primeira e a última bandeira, em filas laterais, colocavam-se todos quantos pretendiam integrar o cortejo, fornecendo-lhes a Irmandade a respectiva cera. Os irmãos sem tarefas especiais na procissão, deviam também participar com as suas vestes e círios, mas sem se misturarem com os demais.

A Misericórdia providenciava ainda alguns mantimentos e vinho para os penitentes, distribuídos durante a procissão. Pela cidade, fazia também acender alguns fogaréus a fim de iluminar o longo trajecto do cortejo processional, que constituía momento grande dos rituais da Paixão, no Funchal.

Na Quinta-feira de Endoenças, levantavam-se, em quase todas as igrejas,  armações ou tabernáculos nos altares secundários ou capelas laterais, para deposição do Santíssimo Sacramento e, por vezes, recriação do cenário da Última Ceia. Improvisavam-se igualmente sepulcros. Para a Sé do Funchal foi construído, nos meados do século XVII, por iniciativa da Confraria do Santíssimo Sacramento, um artístico camarim com uma Ceia do Senhor da autoria do imaginário Manuel Pereira, hoje no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Judas Iscariotes e outro apóstolo. Esculturas da Última Ceia do antigo Camarim da Sé do Funchal. Oficina de Manuel Pereira. Século XVII. Museu de Arte Sacra do Funchal.

Na visitação de 1638 à freguesia de Ponta Delgada, o cónego Francisco de Aguiar recomendou que a adoração do Santíssimo se fizesse sem conversas nem outras perturbações, e que os fiéis não dormissem «debaixo do sepulcro». De facto, já na quinta-feira se armava o «santo sepulcro», onde, no dia seguinte, depois da adoração da Cruz, seria depositado o crucifixo ou o corpo retirado da cruz, envolto num lençol branco. Estas encenações, bem como as respeitantes à Ressurreição, constituíam os denominados «Mistérios» da Páscoa.

De registar, por fim, as flagelações com açoites que ocorriam no interior de algumas igrejas madeirenses, durante as cerimónias litúrgicas da Quinta-feira de Endoenças.

Na freguesia de Ponta Delgada, o visitador proibiu, em finais de Julho de 1631, que os disciplinantes se açoitassem na zona do templo reservada às mulheres, pois o sangue atingia-as. Poderiam, no entanto, fazê-lo «abaixo delas», desde que não virassem as costas ao altar.

Sem o aparato e a solenidade de outrora, as procissões da Quinta e Sexta-feira da Paixão, os camarins e a tradição da adoração continuam nos nossos dias. Contudo, o rito dos açoitamentos, muito comum no século XVII, (felizmente) desapareceu por completo na nossa ilha, apesar de se verificar ainda nalguns países fora do continente europeu, em especial nas Filipinas.

Veríssimo, Nelson – «A Quinta-Feira de Endoenças no século XVII». Diário de Notícias. Funchal. (28 Março 1999).

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Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 587 (25 Março 2018) 9. [Secção “Observatório”, assinada pelo jornalista Roberto Ferreira]

  1. Qual a pertinência desta iniciativa para o desenvolvimento da Região?

A comemoração de uma efeméride histórica pode, sem dúvida, promover o desenvolvimento da Região, principalmente nos domínios cultural e turístico. Mas para tal é necessário um programa inovador, arrojado, e uma promoção adequada. Incluir, no programa, como tem vindo a público, eventos, que há muito já se realizam, como, por exemplo, o espectáculo pirotécnico do fim do ano, o Carnaval ou o festival Colombo, nada acrescenta. Ir debitando ideias à medida do interesse político-partidário, para satisfação de eventuais clientelas, em nada resultará. Precisam-se ideias novas e gente nova para que a efeméride possa acrescentar algo de novo. É importante privilegiar o concurso público com júris idóneos e não continuar com a prática das tradicionais encomendas pelos habituais encomendadores.

  1. Que reflexão deve ser feita nestes três anos?

 

A primeira reflexão deveria ser, à luz da historiografia, sobre o objecto da celebração, a fim de se evitar a repetição de erros grosseiros sobre o “descobrimento” do arquipélago. Infelizmente, a maioria dos decisores tem como leitura básica o velho ‘Elucidário Madeirense’, elaborado nos anos 20 do século passado e ligeiramente revisto na década de 40 do mesmo século. E assim continuam com a fastienta cantilena de 1418 para o Porto Santo e 1419 para a Madeira. Assinalar uma efeméride histórica implica conhecimentos de História. Uma segunda reflexão deveria passar pela associação da comemoração à promoção e valorização da identidade regional, com todas as implicações daí decorrentes, em especial no âmbito da educação cívica dos madeirenses e porto-santenses e no debate autonómico. Finalmente, pensar que a celebração exige obra que perdure no tempo e que o efémero facilmente se apaga.

  1. Do que se conhece do programa ele é suficientemente aglutinador?

Começou mal. Apresentar publicamente o programa comemorativo dos 600 anos do “descobrimento” do arquipélago da Madeira, sem nunca ter reunido o conselho consultivo da respectiva estrutura de missão, onde estão os representantes da assembleia regional e dos municípios da Região, não me parece ser prática democrática, por desrespeitar os poderes legislativo e municipal. O que se conhece do programa é muito pouco e trivial. É preciso concretizar o que aponta a Resolução n.º 243/2017 e não reproduzir princípios. A envolvência pretendida passa por ouvir pessoas de diferentes áreas e sensibilidades, pedir o seu contributo a nível de ideias, e depois, então sim, elaborar um programa. Dá-me a ideia de que o trabalho de casa ficou por fazer. No início dos preparativos das comemorações do Quinto Centenário da cidade do Funchal, Virgílio Pereira procurou ouvir muitas pessoas. Com diversos contributos, o programa foi nascendo e, na verdade, revelou-se bem-sucedido. Um exemplo a seguir, no meu entender.

 

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