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Archive for Setembro, 2020

Faleceu, no passado dia 17, o historiador e professor João José Abreu de Sousa.

Com excepção do Funchal Notícias, a sua morte foi praticamente ignorada pela comunicação social. Estava há anos impedido de participar do bulício do quotidiano – é certo. Mas deixou obra, e grande! Quem o leu? A mediocridade tem dificuldades em distinguir os verdadeiros valores. Mais depressa reconhece cores.

João José tinha plena consciência da efemeridade da vida e das coisas. Quando em Junho de 1995 lhe pedi um autógrafo no livro acabado de editar, História rural da Madeira: a colonia, escreveu em latim uma frase de Lucrécio: Iam fuerit, nec post, unquam revocare licebit (em breve, o nosso tempo não será e não o poderemos recordar).

João José Abreu de Sousa, 1937-2020. Foto: Arquivo de Família.

Era o decano dos historiadores madeirenses. Estudioso de várias matérias, a História foi a área disciplinar da sua formação e da sua predilecção.

Não cultivou o mediatismo. Era presença rara e discreta em conferências, apresentações de livros, exposições ou outros eventos culturais. Habitualmente não frequentava colóquios ou congressos. Contudo, em 1986 participou no I Colóquio Internacional de História da Madeira com a comunicação «O Senhorio das Ilhas Desertas». Reservava as conversas para os amigos. Com estes, muitas vezes falava mais do que ouvia, mas a sua voz era escutada com gosto.

O seu labor historiográfico manifesta-se em vários livros e artigos em publicações periódicas. Historiador que privilegiava as fontes documentais, à sua leitura e interpretação dedicou grande parte da sua vida. Abriu caminhos inovadores em campos nunca trabalhados na História da Madeira, como, por exemplo, o porto do Funchal e o hinterland ou a faceta empresarial, no domínio da agro-pecuária, do Convento de Santa Clara. Deixou-nos numerosas transcrições de fontes primárias nas monografias publicadas, para comprovar as suas conclusões e simultaneamente possibilitar outras e renovadas leituras.

Em muitos estudos, Abreu de Sousa preocupou-se em entender a apropriação do espaço, a relação do madeirense com a propriedade fundiária, a acumulação de riquezas e as relações sociais que o sistema económico suscitava, em especial a colonia, tema que, no seu entender, «mais do que ser julgado deve ser compreendido». Se é certo que na documentação histórica colhia os elementos mais consistentes para as suas análises, também é verdade que não menosprezava o trabalho de campo, anotando metodicamente o que ouvia e observava.

Na sua formação como historiador, denota-se a influência de Virgínia Rau (1907-1973), sua professora. Nutria particular admiração pela sua obra.

O seu contributo para a História da Madeira é amplamente reconhecido pelos historiadores. A Região deveria também estar-lhe grata por tantos anos de trabalho em prol do conhecimento do arquipélago e da construção e afirmação da identidade cultural insular.

Natural da freguesia de São Pedro do concelho do Funchal, nasceu em 6 de Abril de 1937, sendo filho de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de Abreu e Sousa. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1999, sendo já um reconhecido e probo investigador, defendeu a sua dissertação de mestrado em História na Universidade da Madeira, intitulada A Revolução Liberal na Madeira. Foi a primeira prova de mestrado da nossa Universidade.

Exerceu a docência no Continente e nesta Região Autónoma, chegando a ser professor metodólogo no então denominado ciclo preparatório. Nos últimos anos da sua actividade profissional, foi professor da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal.

A morte é inexorável, mas a obra perdura.

Bibliografia:

Documentos da História e Geografia de Portugal. Lisboa, 1975.

O movimento do porto do Funchal e a conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: alguns aspectos. Funchal, 1989.

O Convento de Santa Clara do Funchal. Funchal, 1991.

História rural da Madeira: a colonia. Funchal, 1994.

História da freguesia de São Pedro. Funchal, 1999.

A baba de mar: romance. Funchal, 2002. Escrito sob o pseudónimo: José Lino.

A essência do Poder: a ‘De Re publica’ de Cícero: ensaio. Funchal, 2006.

Os capitães do Porto Santo: uma árvore de costados dos Perestrelos portugueses. Funchal, 2007.

O bolo de mel: ex-libris da doçaria madeirense. Funchal, 2008.

Colaborou nas publicações periódicas Das Artes e da História da Madeira (1966-1967), Atlântico (1985-1989), Islenha (1987-2007), Girão (1989-1993) e no Diário de Notícias do Funchal, na década de 80 do século passado.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2020

Em memória do historiador João José Abreu de Sousa

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Ao passar pela Capela de São Paulo, não consigo ficar indiferente à ruína, ainda que a trepadeira infestante a vá ocultando e simultaneamente denunciando. De rajada, várias perguntas fustigam a minha mente:

O que pensará o Senhor Bispo, vizinho da Capela, vendo assim destroçada a casa do autor das epístolas que sustentam o Cristianismo? Templo inicialmente dedicado a São Pedro e primeira sede da freguesia funchalense com o nome deste apóstolo, está encerrado desde 2014.

Tratando-se de um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, por que razão o Governo ainda nada fez?

Por falta de dinheiro? Não! Isso não pode ser verdade. Então se há dinheiro para esventrar a Laurissilva com uma estrada de milhões de euros, e outras extravagâncias pandémicas, não possui o Governo Regional uns milhares para recuperar a capela mandada edificar por João Gonçalves Zarco e o edifício adossado do lado nascente, onde funcionou o primeiro hospital da Madeira, como memória dos 600 anos do povoamento do Porto Santo e da Madeira?

Trata-se de obra não prevista no programa do Governo Regional? Não! Isso não é verdade. A recuperação da Capela de São Paulo é projecto inscrito no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira (PIDDAR) de 2019 (p. 403) e no de 2020 (p. 253). Tem programação financeira plurianual, 2019-2021, sendo o financiamento comunitário no valor de 330 774,00 euros. Qual foi a execução de 2019? E até hoje, qual foi a execução de 2020, quando para este ano está prevista uma verba de 159 496,00 euros? Segundo o vice-presidente do Governo, «quem não executar os projectos financiados pelos fundos comunitários pode vir a perder as verbas.» (JM, Funchal, 22-09-2020, p. 3)

Será que as reduzidas verbas para a Cultura são rapadas para outros investimentos de vulto, as denominadas grandes obras que dizem não poder parar? Ou, como dizia um antigo presidente de um município vizinho do Funchal, há verbas feitiças? Ele queria dizer fictícias, mas o termo não fazia parte do seu vocabulário. Contudo, o seu arcaísmo, motivo de troça por parte de alguns, inclusive companheiros do seu partido, não estava errado. Feitiça, no caso em apreço, qualifica a verba orçamentada como artifício, fingida ou simulada.

Mas, então, mesmo antes de 2019, o PSD já não se tinha comprometido com a recuperação da Capela de São Paulo? Claro que sim, e por diversas vezes. Em Abril de 1996, não foi anunciada a recuperação deste bem cultural? Sim, mas, por decisão política, nunca se iniciou a obra. Não foi Miguel Albuquerque, então presidente da Câmara Municipal do Funchal, quem afirmou que as pedras do imóvel histórico, destruído pela cota 40, haviam sido numeradas, prometendo a sua reconstrução integral (Diário de Notícias, Funchal, 4-04-1996, p. 5)?

E o CDS, actual parceiro da coligação governamental, através dos seus deputados, não dirigiu, em 3 de Setembro de 2015, um ofício, à secretária regional da Cultura, Turismo e Transportes, sobre o estado da Capela de São Paulo, solicitando uma intervenção urgente? Ficou por aí o seu interesse por este imóvel histórico ou o casamento de conveniência obriga-o a esquecer o assunto em nome da felicidade e da paz no lar?

Desde 1996 até hoje, nada! Muitos alertas de vários quadrantes surgiram entretanto na opinião pública. Todavia quem tinha o dever político de intervir ignorou-os ou justificou-se com a crónica falta de dinheiro ou a contenção financeira. E a ruína acentuou-se. Até quando?

Porque repetem as autoridades com responsabilidade na salvaguarda do Património Cultural visitas a empreitadas que decorrem com normalidade, espalhando depois notícias cozinhadas pelos assessores governamentais, e nunca se dignam passar pela Capela de São Paulo? Ali não há peste, nem lepra. Coronavírus, não sei.

O projecto de concepção da Sala do Tesouro da Igreja da Ponta do Sol é importante, a remodelação da Sala do Tesouro da matriz da Ribeira Brava também, mas a Capela de São Paulo, que história carrega para dela não se falar nem lançar a obra inscrita no PIDDAR?

Recorde-se, a propósito, que, para a Ponta do Sol, quanto ao Património Cultural, está inscrito no PIDDAR de 2020 um projecto de recuperação de fontanários e lavadouros. Já foi concluído?

Depois de tantas e inquietantes interrogações, reparo na casa onde nasceu Herberto Helder, ali ao lado da capela arruinada, e lembro-me de uns versos do poeta:

– Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,

as casas encontram seu inocente jeito de durar contra

a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

A colher na boca, Lisboa, 1961, p. 11

À cabeça, vieram-me também as palavras de Paulo:

Se nas línguas dos humanos e dos anjos eu falar, mas amor não tenho, bronze ecoante ou címbalo ruidoso me tornei.

I Cor 13,1

Voltei a escrever sobre a Capela de São Paulo, porque dói assistir à morte lenta da memória de um dos locais mais antigos do Funchal.

Funchal Notícias. 23 Setembro 2020

Capela de São Paulo: até à ruína total?

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ROCHA, Luís – Dois docentes da UMa acusam Liliana Rodrigues de incluir dados falsos num currículo. Funchal Notícias. Funchal. (14 Set. 2020).

ROCHA, Luís – Reitor da UMa não comenta queixa em tribunal contra Liliana Rodrigues . Funchal Notícias. Funchal. (15 Set. 2020).

ROCHA, Luís – Caso Liliana Rodrigues: MP manda arquivar e diz que “a mentira, por si só, ainda não é criminalizada (…)”. Funchal Notícias. Funchal. (17 Out. 2020).

Dois docentes da UMa acusam Liliana Rodrigues de incluir dados falsos num currículo

Reitor da UMa não comenta queixa em tribunal contra Liliana Rodrigues

Caso Liliana Rodrigues: MP manda arquivar e diz que “a mentira, por si só, ainda não é criminalizada (…)”

DESPACHO DE ARQUIVAMENTO NO INQUÉRITO PROMOVIDO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO NA SEQUÊNCIA DE DENÚNCIA DE APRESENTAÇÃO DE FALSAS DECLARAÇÕES EM CONCURSO PARA PROFESSOR ASSOCIADO, 13-10-2020 

SILVA, Agostinho – Mal-estar na Universidade com “cheiro” a eleição interna. JM. Funchal. III: 1873 (21 Out. 2020) 6.

NUNES, Pedro – Quem mente a UMa leva. JM. Funchal. III: 1877 (25 Out. 2020) 15.

https://www.jm-madeira.pt/opinioes/ver/4348/Quem_mente_a_UMa_leva

ABREU, Paula – Há uma providência cautelar contra concursos de professores na UMa. JM. Funchal. III: 1880 (28 Out. 2020) 3.

JORNALISMO COM CHEIRO A PÓLVORA

O JM quer ver guerra onde ela não existe. Não houve “ataques públicos”. Quem, alegadamente, pôs a sua «idoneidade» em causa, foi quem fez declarações falsas. A própria! Não os que denunciaram a situação. Avaliar o período final de um mandato de um Reitor pelo desempenho dos júris de concursos também é demasiado injusto. Sei que estou a dar publicidade ao JM, mas não se pode deixar passar em branco tudo o que vem na imprensa.

Foto: JM. Funchal. III: 1883 (31-10-2020) 3.

NUNES, Rita Rato – Ex-eurodeputada do PS acusada de mentir no currículo. Revista Visão. Lisboa. 1444 (5 Nov. 2020) 82-83.

AMARO, Miguel – O que está a acontecer com a Liliana é uma “vergonha”. Jesus Maria Sousa, candidata da lista A à reitoria da UMa, apontou o dedo ao candidato Sílvio Fernandes a propósito do polémico caso do concurso para professor associado, que Liliana Rodrigues venceu por larga margem. JM. Funchal. III: 1902 (19-11-2020) 9.

JM, Funchal, 08-02-2021

Em 3 de Fevereiro de 2021, o júri reuniu para deliberar sobre as pronúncias apresentadas por Alice Mendonça [AM] e Nelson Veríssimo [NV] , com base nas alegações de Liliana Rodrigues [LR] e de um documento elaborado pelos serviços da Universidade da Madeira. Dois elementos do júri declararam reconhecer imprecisões ou falhas no Currículo de LR, mas não as consideraram relevantes. Por unanimidade, o júri deliberou não excluir LR do concurso e tornar a lista provisória das classificações em lista definitiva. Assim, LR que havia ficado em 1.º lugar por voto de três elementos do júri, continuou na mesma posição. Dois outros jurados não tinham posicionado LR em primeiro lugar.

O que estava em causa era a apresentação de declarações falsas no currículo de LR e a declaração que esta, como os demais candidatos, havia apresentado na candidatura, na qual se comprometia, sob compromisso de honra, que tinha pleno conhecimento de que a prestação de falsas declarações implicaria a exclusão do presente concurso.

Ora, o júri não se pronunciou sobre o que, em audiência prévia, alegaram AM e NV sobre falsidades. Não as rebateu. Aceitou, simplesmente, as alegações de LR e o que os Serviços da UMa escreveram em documento, que não foi do conhecimento dos candidatos, logo sem contraditório. Sobre outras matérias esquivou-se.

A notícia do JM de 8-02 tem duas incorrecções: a) LR não foi aprovada por unanimidade, mas sim por maioria (3 votos); b) O processo de denúncia ao Ministério Público [MP] não foi arquivado, por não terem sido provadas as irregularidades denunciadas, mas, sim, porque, para o MP, as mentiras num currículo não são consideradas crime. Na verdade, o MP nem chegou a analisar a matéria (ver acima o despacho de arquivamento).

08-02-2021

PARA A HISTÓRIA: UM DOUTORAMENTO QUE GEROU POLÉMICA PÚBLICA

Tese de doutoramento de Liliana Rodrigues:

A integração escolar dos alunos do ensino técnico-profissional nível III nas escolas públicas da RAM / Liliana Maria Gonçalves Rodrigues de Góis ; orient. Jesus Maria Sousa. Funchal : Liliana Maria Gonçalves Rodrigues Góis, 2008.

Notícias na imprensa:

ORNELAS, Sílvia – 71% sem ensino secundário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 056 (14 Jul. 2008) 8.

CAIRES, Marta – Contra-ataque da SREC diz que estudo é “infantil”: “Crianças do pré-escolar” fariam melhor análise aos números do Secundário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 057 (15 Jul. 2008) 2.

ORNELAS, Sílvia – Docente da UMa lamenta ligeireza da SREC: autora do estudo sobre o ensino secundário responde ao secretário. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 058 (16 Jul. 2008) 2.

SOUSA, Jorge Freitas – PS e Bloco querem ouvir secretário e reitor. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 058 (16 Jul. 2008) 2.

CAIRES, Marta – Doutoramento não é para todos. Diário de Notícias. Funchal. 132: 43 059 (17 Jul. 2008) 8.

Para saber mais:

http://www02.madeira-edu.pt/Main/Pesquisar/tabid/84/ctl/ReadInformcao/mid/432/InformacaoId/186/UnidadeOrganicaId/1/Default.aspx?fbclid=IwAR1G7XVkRGeodcx5kSrrkh6r-KFt53Y2hzXC76RYEGb1ZGfNlZeCx3IgCBc

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