Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Janeiro, 2009


Mudar-se para uma ilha desabitada, atear fogo para desbravar cerrado arvoredo e matagal, tratar, de imediato, da subsistência e, quiçá, da riqueza, escondida nos solos férteis, partilhar o espaço com vizinhos desconhecidos e avistar no mar ignotos navios, despertou temores, mas gerou também, entre os mais afoitos, vontade intrépida de vencer.

 

Maria acreditara na viagem, e, logo nos primeiros dias, entregou-se à nova terra. Ajudou na construção da casa, dispôs os seus haveres e armou um oratório com o Santo António, que sempre alumiava quando o medo lhe prendia a fala e os movimentos.

 

O trigo germinou. As vinhas deram bons frutos. Os canaviais trouxeram a almejada prosperidade. O povoamento obteve reconhecido sucesso. A riqueza e alguns feitos heróicos nos mares e no Norte de África iam afidalgando a gente principal.

 

A cidade nasceu por vontade do Senhor da Ilha. Foi, porém, na qualidade de rei que D. Manuel lhe passou a respectiva carta. Elegeram depois S. Tiago Menor como protector, quando o mal da peste enlutava o burgo.

 

Os corsários, em 1566, saquearam o Funchal e carregaram riquezas que os navios da sua armada não puderam transportar. Ironicamente, venderam o excesso à população espoliada.

 

Maria e os filhos esconderam-se nos montes e, durante dias, repartiram frugalmente pães e frutos.

 

Conforme testemunhou o cronista Jerónimo Dias Leite, em 1579, nesses dezasseis dias de devastação, os da ilha ficaram «pobres e desbaratados que ainda hoje em dia não podem levantar cabeça deste aleijão».

 

O ouro branco entrou em declínio por meados de Quinhentos. O comércio decaiu com a União Ibérica. Na primeira metade do século XVII, os tempos de riqueza eram meros registos da História passada.

 

Outro produto da terra haveria para aproveitar e exportar. Os vinhedos alastraram e, durante quase dois séculos, possibilitaram comércio próspero, atraindo muitos mercadores britânicos, hábeis na sua arte e engenhosos na astúcia.

 

A reconversão da cultura sacarina trouxe também o abandono da exploração directa da terra pelos seus proprietários, a proliferação de novos contratos agrícolas e o famigerado sistema de colonia.

 

O caseiro temia o senhorio ou o seu feitor, alguns deles bem conhecidos por muitas arbitrariedades e violências.

 

Maria vivia angustiada por, em qualquer momento, poder o senhorio denunciar o contrato e expulsá-la da pequena parcela agrícola, sem certeza de pagamento das benfeitorias.

 

Se não chovia ou o navio carregado de pão tardava, a Senhora do Monte e o S. Tiago eram convocados à Sé. Pela clemência divina ou circunstâncias naturais, dissipava-se o medo, até outra ocasião. Contudo, era tempo de remorso espicaçado por pregadores coléricos que congeminavam uma cidade de pecados.

 

Maria chorava devagarinho os pecados que não sabia ter cometido, a fome que lhe subia à cabeça e a teimosia embarcadiça do Manuel que também a agitava interiormente.

 

A vontade de ultrapassar a miséria e a fome ou a amarga incerteza do futuro ditaram muitas partidas para terras ditas de promissão.

 

Houve, entretanto, muitos que chegaram pela fama dos bons ares da terra. Deambulavam pelo Funchal com ar pálido e tosse abundante. Na cidade, receava-se a tísica, mas aos forasteiros não se recusava excepcional hospitalidade e idolatrado reconhecimento pelo ganha-pão.

 

Maria servia na quinta pelo dia e à noite bordava à luz do candeeiro de petróleo para o enxoval. Depressa ficou doente como os senhores que tinham arrendado a quinta do Conde.

 

Quando as chuvas copiosas se abriam, receavam-se aluviões. Numerosas vidas e habitações eram destruídas. Guardava-se isso na memória e recordava-se em tardes de invernia. As ribeiras caudalosas, embora se fizessem anunciar, avançavam impiedosamente pela cidade, quando ainda não tinham muros disciplinadores.

 

Pacificados os mares por a pirataria ou a guerra de corso ter sido abandonada ou condenada pela diplomacia internacional, outros ataques surgiram. A cidade foi bombardeada, por duas vezes, na Grande Guerra.

 

Na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, temeu-se a fome, enfrentou-se o racionamento, suspeitou-se de vultos estranhos no horizonte. Havia papéis colados nas vidraças funchalenses, no tempo de Hitler, para impedir eventuais estilhaços.

 

Maria corria as mercearias. Apesar do seu encanto e de umas moedas no bolso, a maioria das vezes, não conseguia suprir as faltas da sua casa, principalmente, açúcar, arroz e milho.

 

Com a Inquisição e a Ditadura, desconfiava-se do vizinho ou do companheiro, do denunciante fervoroso ou do abjecto bufo pidesco, temor ainda reinante, mas com novos ingredientes e delicados contornos, sobretudo nos cafés, locais de trabalho e prestigiadas instituições do Funchal.

 

Cuidadosamente, Maria olha sempre em redor e para cima e para baixo, quando conversa com as amigas. De certeza, sabe não haver ninguém à volta, que o muro é alto, e nem o gato passeia por lá, porque há muitos anos alguém mandou calcetar o topo com cacos de vidros verdes de garrafas partidas. Por vezes, Maria baixa a voz, esconde o seu pensamento entre meias-palavras, num discurso quase indecifrável. Recusa falar ao telefone e não possui telemóvel, apesar de o filho lhe ter oferecido um pelo aniversário, temendo que a mãe se sinta mal ou se perca pelas ruas novas da cidade, onde já não se orienta tão bem.

 

Teimosamente, ela continua a percorrer ruas estreitas e a visitar velhas amigas, falando, com cautela, sobre medos antigos, mesquinhices e invejidades da cidade, mas não de bichos ou almas errantes que confessa não lhe meterem medo…

 

Raramente se cruza com a outra Maria, mais nova e mais elegante, sua vizinha noutros tempos, não muito distantes, embora convenientemente esquecidos por uma ascensão profissional meteórica de quem deixou o prédio, após dias difíceis. Detestam-se mutuamente. A mais velha fala de medos, invejidades, a já cinquentona incentiva a denúncia, cultiva finamente o poder, promove o medo e, num ápice, quebra o verniz, mordendo os lábios grossos, quando a inveja se solta dos olhos, transfigurando-se-lhe o rosto, como se nele se estampassem traços atávicos de estranhas partes, de presunçosas gentes que outros medos trouxeram ao Funchal.  

 

Revista Margem 2, n.º 25, Funchal,

 Dezembro 2008, pp. 77-79

Read Full Post »

 

 

Um livro constitui sempre boa prenda, embora a sua escolha seja, por vezes, difícil. No passado Natal, coloquei, no meu sapatinho, Cartas a Lucílio, de Séneca, obra que há muito procurava obter.

 

Séneca nasceu em Córdova, no início da nossa era. Em Abril do ano 65, suicidou-se, por ordem do imperador Nero.

 

Para este pensador latino, a filosofia é para ser vivida e corresponde a uma necessidade de libertação do espírito, face às problemáticas da vida.

 

As Cartas a Lucílio constituem a obra mais importante do filósofo estóico e iniciam um novo género até então desconhecido na Literatura Latina, ou seja, a correspondência pedagógica.

 

Entre muitos assuntos e vivências do quotidiano, Séneca, nas cartas ao seu amigo Lucílio, reflectiu também sobre a Educação que, em seu entender, deveria privilegiar a formação da vontade assente no desprendimento das coisas supérfluas. Só o estudo, que tivesse por objectivo a virtude, tornaria o homem livre. A prática da virtude conduziria à felicidade, entendida como bem moral.

 

Para além das concepções sobre Educação, que, particularmente, me interessam, a leitura de Cartas a Lucílio possibilita uma visão da natureza humana e dos valores morais com inegável actualidade. Verifica-se, pois, manifesta intemporalidade de muitos dos problemas tratados nesta obra.

 

Esta constatação leva-nos a um importante debate no domínio dos currículos escolares. Nos últimos tempos, grandes autores têm sido banidos da Escola, em benefício de narrativas marginais, alegando-se resposta mais adequada à diversidade cultural das sociedades contemporâneas.

 

O carácter universal da cultura clássica e o legado cultural da Humanidade têm sido postos em causa pela pedagogia crítica pós-moderna, de influência marxista, que rejeita o estatuto de cultura superior a determinadas obras literárias e valoriza as narrativas particulares e específicas dos subordinados pela raça, género ou classe, ou seja as narrativas marginais que, de acordo com Giroux, «representam o irrepresentável».

 

A educação científica e tecnológica tem vindo também a sobrepor-se à educação humanística, com resultados negativos na formação integral da juventude.

 

Já muitas vozes se têm levantado contra este rumo da Educação, sublinhando, em particular, os prejuízos, que advêm para os estudantes, pela falta de leitura dos autores de referência, num momento crucial da sua formação.

 

Mortimer Adler (1902-2001), com a teoria pedagógica da Paideia e a utilização da maiêutica socrática, procurou introduzir, na Escola, o estudo de Grandes Obras, através de um currículo liberal e humanista. Contudo, pouca atenção mereceu o pensamento pedagógico deste autor.

 

Em Portugal, vários professores de Português têm publicamente criticado os currículos da sua disciplina, sobretudo pela forma como é tratada a nossa literatura. Saliente-se, em particular, as oportunas intervenções de Maria do Carmo Vieira na imprensa e em vários colóquios, sobre o «amaldiçoamento dos autores clássicos».

 

Verdade é que esta situação já não se restringe ao ensino básico ou secundário. Por razões diversas, também na Universidade se verifica a falta de leitura dos autores fundamentais em determinadas áreas do saber, proliferando, com incrível complacência, as citações indirectas, tantas vezes descontextualizadas.

 

Contudo, nunca, como hoje, estiveram tão acessíveis os grandes autores ou as obras-primas, quer através das edições tradicionais, quer das promoções dos periódicos, quer ainda das bibliotecas digitais.

 

Se há tantas Grandes Obras disponíveis, por que razão não abundam os leitores, sobretudo os mais jovens?

 

Esta matéria deveria interessar os responsáveis pela Educação deste país, em especial os autores dos currículos escolares, pessoas que, normalmente, trabalham por encomenda, não assinam o produto final e nunca são responsabilizados pelo insucesso nas disciplinas cujos programas delinearam.

 

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Janeiro de 2009

Read Full Post »