Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2019

Andam alguns madeirenses indignados com as comemorações oficiais do «Dia de Portugal» de 2019, em Portalegre e Cabo Verde. Consideram atitude de menosprezo para com a Região, porquanto, no seu entender, este é o ano do Sexto Centenário do Descobrimento da ilha e, por tal, deveriam acontecer na Madeira.

Tendo chegado a Belém esses clamores, apressou-se o Senhor Presidente da República a comunicar, no passado dia 7, que as cerimónias do «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» se realizarão em 2020 na Região Autónoma da Madeira. Justificou não ter sido no presente ano, pois decidira «manter a orientação, anterior ao seu mandato, de não realizar tais comemorações numa Região Autónoma em ano de eleições regionais.»

O anúncio prematuro e a justificação da Presidência da República calaram os ânimos mais exaltados. Mas antes desta notícia, já eu admitia compreender que, neste ano, o Senhor Presidente da República não escolhesse a Madeira para a celebração da Portugalidade, pelas opções e circunstâncias regionais.

No ano passado, convidaram o Senhor Presidente da República para participar nas comemorações do Sexto Centenário do Descobrimento do Porto Santo, em 1 de Novembro. O Presidente aceitou de boa fé, mas foi enganado quanto à cronologia, pois, como já demonstrei, a data não tem fundamento histórico nem estatuto de tradição. Ora, dando-se conta do logro, achavam que o Senhor Presidente da República estaria disponível para, no ano seguinte, celebrar, na mesma linha, a efeméride do descobrimento da Madeira?

A falsa efeméride festejada no Porto Santo foi um fracasso como comemoração de um acontecimento histórico, mas a cobertura dos media possibilitou inegável propaganda governamental. A perpetuar a despropositada celebração, deixaram uma réplica da estátua do «Senhor da Ilha», concebida, nos anos 30 do século passado, para exaltar o colonialismo, uma espécie de prenda artística aos porto-santenses, mas fora de moda, que não se usa mais, a lembrar velhos tempos, quando para lá se levava o que já não se utilizava na Madeira. Então crêem que o Senhor Presidente gostou desta comemoração infeliz e teria gosto em repeti-la no ano seguinte?

Neste ano, tudo está envolvido pela febre partidária. As comemorações dos 600 anos estiveram, desde o início, na mira eleitoral e não se têm desviado do alvo. Não fosse 2019 ano de importantes eleições e, provavelmente, os mentores da celebração teriam adoptado a perspectiva da historiografia actual e não a do século XIX, como fizeram, ao teimarem no pretenso descobrimento do Porto Santo em 1418 e o da Madeira no ano seguinte, tudo para que os 600 anos coincidissem com o XII Governo Regional. Julgam que seria correcto o Senhor Presidente da República apadrinhar festejos com marcas de uma força partidária nas vésperas de actos eleitorais?

Por tudo isto, compreendemos muito bem a posição do Senhor Presidente da República. Esta ajuizada decisão constitui oportunidade única para a Região, em 2020, celebrar, condignamente, os 600 anos do povoamento do arquipélago da Madeira (1420-2020).

Funchal Notícias. 13 Fevereiro 2019

https://funchalnoticias.net/2019/02/13/pois-eu-ate-compreendo/

 

Read Full Post »

Faz hoje 4 anos que a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um projecto de resolução, apresentado pelo Partido Ecológico «Os Verdes», que recomendava a candidatura das levadas da ilha da Madeira a Património da Humanidade (Resolução n.º 18/2015, DR, I, n.º 35, 19-02-2015, p. 959).

No próximo dia 17 de Março, fará 25 anos que o Governo Regional da Madeira deliberou elaborar uma proposta a fim de obter igual classificação.

O XII Governo, presidido por Miguel Albuquerque, reafirmou esta pretensão no ano de 2015. Todavia em Outubro de 2017, adicionou à candidatura das Levadas da Madeira a Património Mundial da UNESCO, a da ilha do Porto Santo como Reserva da Biosfera. Para o efeito, pelo Despacho n.º 464/2017, nomeou Susana Fontinha, para prestar assessoria nestas candidaturas, a cargo da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (JORAM, II, n.º 194, 14-11-2017, p. 5).

Pouca informação sobre o processo está disponível, o que é lamentável, porque uma candidatura desta natureza deve implicar a participação da comunidade.

Continua-se com a velha ideia do secretismo dos gabinetes, quando este assunto merecia, sem dúvida, ampla divulgação, debate na opinião pública e acarinhado envolvimento dos madeirenses. Que se tenha em atenção o trabalho desenvolvido noutras candidaturas a Património da Humanidade, junto da UNESCO, em especial as actividades de interacção com os cidadãos e os programas de difusão nos media.

Apesar de as levadas serem muito faladas, percorridas e promovidas, é dos assuntos da História da Madeira deficientemente estudados. Ainda hoje, a monografia do Padre Fernando Augusto da Silva (1863-1949), As Levadas da Madeira, de 1944, revela-se como o melhor trabalho historiográfico nesta matéria. No entanto, tem-se consciência das suas lacunas, ditadas pelas circunstâncias e limitações da época em que foi elaborado.

Uma investigação histórica sobre as levadas exige conhecimento profundo da História da Madeira e das fontes documentais, tempo, muita dedicação, gosto e experiência na leitura de documentação antiga. Preferencialmente, deverá ser desenvolvida por um grupo de trabalho.

Não se verificou nem se verifica investimento institucional nesta área do saber. Há anos elegeram o deve e o haver como prioridade, e ao resultado aplica-se célebre fábula atribuída a Esopo:

A montanha dava à luz, no meio de gemidos medonhos,

imensa era nos povos a expectativa.

Mas ela pariu um rato.

Isto foi escrito para ti,

Que, embora projectes grandes coisas,

Nada acertas.

É verdade que, neste século, surgiram diversas dissertações de mestrado e uma tese de doutoramento sobre levadas, mas, ao que sei, nenhuma da área específica da História. De salientar também duas edições de 2017: Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, e Levadas, de Marco Livramento, ambas em português e inglês. Sempre úteis são: Veredas e levadas da Madeira, de Raimundo Quintal (1994) e Levadas: os caminhos da água na Madeira, de Alberto Vieira (2015). No entanto, esta temática precisa de investigação histórica bem alicerçada.

Estando o mandato deste Governo Regional quase no fim e passado já muito tempo sobre a idealização do importante projecto de candidatura das levadas, os madeirens (mais…)

Read Full Post »