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Archive for Abril, 2007

A 18 de Abril de 2007, dia internacional dos monumentos e sítios, a RTP/Madeira exibiu, no noticiário das 21:00 h, uma reportagem sobre o Cemitério dos Judeus, da cidade do Funchal, incluindo uma intervenção minha no programa «Bom dia, Madeira» da mesma data.

As imagens documentaram o estado de degradação deste monumento classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira.

Na aludida reportagem, foi entrevistado o Senhor Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Dr. Miguel de Albuquerque, que afirmou estar a edilidade funchalense a tratar da trasladação dos túmulos e restos mortais para um talhão do Cemitério de Nossa Senhora das Angústias, em São Martinho, especialmente destinado para guardar a memória dos judeus falecidos na ilha da Madeira e sepultados no velho cemitério israelita.

Adiantou ainda ter já a Câmara Municipal do Funchal estabelecido, para esse fim, contactos com a Comunidade Judaica. E sustentou que o Cemitério dos Judeus não poderia continuar naquele local, pela insegurança da escarpa. À projectada trasladação devemos, contudo, associar os planos camarários para aquela zona urbana.

N. V.

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Apesar de classificado, desde 1993, como bem do nosso Património Cultural, o Cemitério dos Judeus, na Rua do Lazareto, da cidade do Funchal, está votado ao abandono. Viçoso matagal encobre as sepulturas. De vez em quando, converte-se em “sala de chuto”. Muitas lápides apresentam-se danificadas ou irrecuperáveis. A degradação ressalta à vista.

 

O descuido e o vandalismo ameaçam aniquilar a memória deste “lugar sagrado”, onde, conforme a velha tradição judaica, repousam os mortos até à hora do juízo final, como se de um dormitório se tratasse. Fala-se, por isso, no “sono da eternidade”.

 

Segundo o Elucidário Madeirense, na entrada deste cemitério existia sugestiva inscrição em hebraico que, em português, queria dizer “habitação da vida”.

 

O culto dos antepassados, os sentimentos religiosos acerca da sepultura ou a santidade da morte têm suscitado no Homem elevada consideração pelo lugar da “dormição” ou descanso, porque, no fundo, é este o significado do étimo grego da palavra cemitério.

 

Se é certo que, por altura da sua fundação, em meados do século XIX, o Cemitério dos Judeus afigurava-se como “monumento ao grande progresso da tolerância”, como escreveu Isabella de França, a verdade é que hoje bem poderíamos afirmar constituir infeliz exemplo da falta de civismo.

 

Desrespeitou-se a memória dos que estão aqui sepultados. Desconsiderou-se a importância histórica do lugar. Ofendeu-se o sentimento religioso que emana deste chão. Atentou-se contra um bem classificado como Património Cultural da Região Autónoma da Madeira.

 

Com efeito, a instituição deste cemitério, por iniciativa de personalidades de relevo da comunidade judaica do Funchal, denota o progresso da sociedade portuguesa no que diz respeito à tolerância religiosa, fruto, essencialmente, da política do Marquês de Pombal e, mais tarde, dos liberais vintistas que extinguiram o  infame Tribunal do Santo Ofício, responsável pela perseguição, tortura e morte de muitos judeus, ao longo de mais de dois séculos.

 

Na verga da porta deste cemitério, pode ler-se a data de 1851. O primeiro enterramento deverá ter acontecido no início da década de cinquenta de Oitocentos, provavelmente, a mãe de José de Abudarham, em finais de Fevereiro de 1854.

 

As suas primeiras referências documentais encontram-se no Jornal de uma visita à Madeira e a Portugal: 1853-1854, de Isabella de França. O último enterramento ocorreu  em 1976 com D. Joana Abudarham da Câmara. Rui Santos, num bem documentado estudo sobre este cemitério, publicado, em 1992, na revista Islenha, n.º 10, identificou 38 sepulturas entre 1854 e 1976.

 

Nascido da iniciativa particular, sempre a administração do cemitério esteve  a cargo de elementos da comunidade judaica do Funchal, principalmente da família Abudarham. D. Lisbeth Brendle, D. Vera Abudarham da Câmara e D. Isabel Vieira de Castro Câmara foram das últimas pessoas que possuíram a chave e zelaram  pelo cemitério.  Quem terá, nos dias de hoje, tal responsabilidade?

 

Já há alguns anos que o Cemitério dos Judeus se encontra, praticamente, abandonado e vandalizado, apresentando cada vez maior degradação. Mas esta é bem diferente dos danos causados pelo sismo de Maio de 1975, aliás nunca reparados.

 

A continuar este estado lamentável, perder-se-ão, por completo, testemunhos ímpares da memória de muitos homens notáveis que, por circunstâncias diversas, se fixaram e morreram na ilha da Madeira. Aqui pode documentar-se a procura do Funchal como estância terapêutica ou como refúgio à perseguição nazi e à Segunda Guerra Mundial.

 

Nestes escassos 294 metros quadrados, está parte da História do Funchal dos séculos XIX e XX. Urge, pois, a recuperação deste espaço, a exemplo do que, por diversos países da Europa, se tem feito relativamente a cemitérios das comunidades judaicas.

 

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 28 de Março de 2004

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Ultimamente, surgiram notícias preocupantes sobre agressões violentas a docentes, por parte de alunos ou dos seus pais, questionando-se, com frequência, a autoridade das escolas e dos professores na sociedade actual. De imediato, veio a lume a necessária revisão do Estatuto do Aluno bem como da moldura penal para os agressores.

 

Este problema não deve, porém, ser analisado somente no contexto escolar. Verifica-se, hoje, que o respeito devido a determinadas profissões, cargos ou instituições, habitualmente prestigiados, alterou-se ou diminuiu consideravelmente. A democratização da sociedade, em particular, a liberdade de expressão e a rápida mobilidade social, os movimentos migratórios e o declínio generalizado de valores, que constituíram indispensável referência para várias gerações, originaram comportamentos diferentes que, por vezes, ateados por indesculpável má-criação e falta de civismo, acabam por ofender a dignidade de muitos profissionais, desmotivando-os e, mais gravemente, provocando-lhes dolorosos ou irremediáveis danos psicológicos.

 

Todavia, no que diz respeito à Escola, há que distinguir a indisciplina e a incivilidade da violência, a fim de se delinearem estratégias mais eficazes para o seu combate, tanto no espaço do estabelecimento de ensino como nos seus arredores.

 

Há quem, em meu entender de forma errada, pense que tudo se resolveria com o restabelecimento da autoridade de tempos passados, sem, infelizmente, ter clara consciência dos seus custos.

 

Ao contrário dessa via saudosista, mostra-se fundamental investir na educação para a democracia, promovendo a educação e a cultura em prol da cidadania, não como mero produto de consumo imediato, descartável, mas como actividade pedagógica de enriquecimento pessoal e social. Importa também criar condições para o eficaz desempenho da actividade docente, tanto ao nível das instalações e equipamentos como na formação profissional. Simultaneamente, há que desenvolver todo um trabalho de maior aproximação entre a Escola e a comunidade, numa política de responsável envolvimento dos pais e encarregados de educação no sucesso educativo, cada parte cumprindo as suas obrigações e usufruindo dos seus direitos, sem atropelamentos, nem usurpações ou desvios.

 

Reflectindo sobre este assunto, Philippe Meirieu, reputado especialista francês em questões educativas, afirmou: «Aquilo que está verdadeiramente em jogo não é restaurar a autoridade, mas torná-la legítima aos olhos daqueles que estão sujeitos a ela, não só a fim de que a aceitem, mas também de que a respeitem.» (2006: 28).

 

Como é óbvio, a legitimação da autoridade do professor não se faz por mero acto administrativo ou legislativo. Nem por práticas coercivas, ainda que sob roupagens mais modernas e leves de um qualquer código disciplinar ou regulamento do estabelecimento educativo.

 

Igualmente, há que não temer a palavra autoridade, na escola, porque ela encerra um poder legítimo, moral. Por certo, sempre contestado, e cada vez mais. Afinal, todo o acto educativo inclui uma componente conflitual, cabendo ao educador ou ao professor geri-la com perspicácia e, sobretudo, sem arbitrariedades. A Escola não pode ser posta em causa por comportamentos pontuais de indisciplina ou de violência.

 

Provavelmente, seria mais fácil instituir a autoridade de submissão, ainda que sem real garantia de êxito. Contudo, com Meirieu, sustento a preferência pela autoridade de adesão, reconhecendo que tal implica profundas transformações na política educativa e na convivência social ou profissional, bem como requer a introdução de novos métodos de trabalho na Escola, que não subestimem o esforço nem a disciplina, mas viabilizem o sucesso de um projecto colectivo, que se venha a afirmar pela qualidade e não somente pelo número de alunos que envolve.

 

Em matéria de autoridade do professor, aplica-se também, por analogia e com as devidas ressalvas, aquela clássica definição de poder: “a faculdade de mandar e a capacidade de se fazer obedecer”. As duas componentes são indispensáveis, porque uma não existe sem a outra. E a segunda é, sem dúvida, mais difícil, por isso exige formação elevada, grande dedicação, respeito pela diferença e maior talento.

 

Diário de Notícias, Funchal, 1 de Abril de 2007

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