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Archive for Janeiro, 2008

Contrariamente ao que se pensava há alguns anos, a tradição de cantar os Reis não morreu. Na verdade, mantém-se bem viva e, em alguns lugares, com mais vigor do que nos anos sessenta e setenta do século passado.

 

Horácio Bento de Gouveia, por exemplo, em 1966 apresentava, neste Diário, uma visão pouco animada da continuidade desta tradição. O escritor, sempre saudoso da memória nortenha da sua infância e juventude, achava que as modas urbanas haveriam de afogar as velhas usanças conservadas no meio rural, que então já remavam “contra a maré absorvente da telefonia e do televisor”. Mas acreditava ainda que as manifestações da tradição, tal como as fontes, sempre se revelavam na época própria.

 

Por esses anos, e da minha infância, lembro-me de apenas uma só vez terem sido cantados os Reis em minha casa. Uma tia demerarista e duas suas velhas amigas, à noitinha, irromperam pelo quintal, com mantos reluzentes e turbantes exóticos, cantando quadras ao “dono da casa”. Fiquei surpreendido por não haver autorização para abrir a porta à tia, visita habitual da casa. Demoraram-se a cantar, até que o meu avô ordenou que entrassem, acendendo as luzes.

 

A tia demerarista não era de brincadeiras. Por vezes corria connosco da sala, rabujando que garrafas grandes se arrumavam com grandes, e as pequenas, com pequenas. Outras ocasiões, revelava-se encantadora. Trazia um caderno com adivinhas que lia com entusiasmo à pequenada e exigia anotação, quando ouvia novidade.

 

Naquele dia, mascarada de rei mago, apresentava-se muito bem disposta, e já no interior da casa entoava novas quadras, na companhia das suas amigas, e todos levantavam os copos com licor de tangerina num brinde onde não entravam os mais pequenos. Por fim, chegou o bolo-rei da Confeitaria Camacho, e iniciou-se a curiosa disputa da posse da fava.

 

Tenho a convicção de que, actualmente, os Reis são mais cantados do que na minha infância. Sempre vivi no Funchal, de modo que esse é o meu quadro de referência. Mas este retomar da tradição, estou em crer, deve-se à cultura da identidade, que a autonomia fomentou e possibilitou, através das entidades governamentais, Escola, autarquias, associações musicais, grupos folclóricos, casas do povo e outras agremiações culturais.

 

No entanto, se é certo que a tradição não se pode guardar em frasco bem vedado, e que, se as relações sociais se alteram, também se modificam os usos e costumes, por outro lado há, igualmente, que reconhecer que o encenar da tradição a vai acanhando ou estropiando. Quando os cânticos tradicionais ou outras manifestações da cultura popular sobem ao palco ou são exibidos em meio artificial, a tradição degenera-se.

 

Nesta semana, fiquei a saber, através de um noticiário radiofónico, que um grupo madeirense de música tradicional pretendia recriar no meio urbano, por ocasião da Festa da Flor, os cantares do Espírito Santo, tal como faz nos Reis. Orgulhava-se o entrevistado, dessa estação de rádio, da recolha que a sua associação fizera nos últimos tempos, revelando que apresentara já proposta tão descabida à Secretaria Regional do Turismo e Transportes.

 

Só quem não entendeu absolutamente nada do que é a festividade do Espírito Santo, apesar da dita recolha, é que pode propor tal ignomínia. Não basta fazer o trabalho de campo de gravação das cantigas. É também necessário estudar as origens e o significado religioso e simbólico desta festa, que remonta aos primórdios do povoamento do arquipélago madeirense. Revela-se, sobretudo, indispensável não misturar o Espírito Santo com a profana Festa da Flor, que tem já a sua animação própria e escusa postiços fabricados sem nexo.

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Janeiro de 2008

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