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Archive for Agosto, 2015

A escolha do cabeça-de-lista do Partido Socialista, para o círculo da Madeira, suscitou, como foi amplamente noticiado, alguma polémica. O líder nacional dos socialistas designou para esse lugar Bernardo Trindade. Logo o presidente do PS-Madeira manifestou forte discordância, por ainda não haver decisão dos órgãos competentes, sobre a matéria em causa. Bernardo Trindade acabou por, airosamente, não aceitar o lugar que António Costa lhe ofereceu, abrindo, assim, caminho para que os socialistas madeirenses formassem a sua lista de candidatos, com aprovação regional e nacional. Mas António Costa não se saiu bem neste processo. Contra ele, pesa a visão centralista, ainda que o caso seja de índole partidária.

No meio desta embrulhada, foi publicamente lembrado um caso que remonta às eleições de 1976 para a Assembleia da República, quando Jorge Campinos encabeçou a lista pela Madeira. Duarte Caldeira veio então à liça para defender que não se tratou de uma imposição da direção nacional ao PS-Madeira. No congresso dos socialistas madeirenses, em junho passado, Caldeira negou qualquer pressão de Mário Soares para colocar Campinos na lista da Madeira às nacionais de 1976, garantindo ter havido intervenção da sua parte no convite ao cabeça de lista: «É falso, eu próprio é que fui a Lisboa convidar o Campinos», afirmou o militante socialista, do grupo dos fundadores do PS-Madeira («Não se trata de repisar, mas … mais uma do PS que é… e não é!», in Fénix do Atlântico, 16-7-2015).

A opinião de se tratar de um convite do PS-Madeira e não de uma imposição dos órgãos nacionais do Partido foi logo contrariada por Ângelo Paulus. Este militante socialista, igualmente dos primeiros tempos da organização do partido na Madeira, afiançou a Luís Calisto: «É mentira, o Duarte Caldeira não convidou Campinos nenhum.» Acrescentou ainda: «O Soares é que impôs esse nome e nós aqui tivemos de o meter na lista. O Duarte está errado. E diga mesmo que fui eu a dizer.» (Fénix do Atlântico, 16-7-2015). Mais tarde, quando por mim confrontado com esta questão, Ângelo Paulus reafirmou o que já havia dito.

Para compreender esta situação, e de certa forma verificar como as direções nacionais de alguns partidos atuam em relação às periferias, impondo cabeças-de-lista não naturais dos círculos eleitorais e, por vezes, até ilustres desconhecidos, consultei a imprensa madeirense nos meses anteriores às legislativas de 1976.

A 6 de março, chegaram ao Funchal, em campanha eleitoral, três membros do VI Governo Provisório (Walter Rosa, ministro da Indústria e Tecnologia, Manuel Ferreira de Lima, secretário de Estado da Administração Regional e Local, e Firmino Monteiro Rocha, subsecretário de Estado dos Seguros). Conjuntamente, vinham Miranda Calha, candidato a deputado por Portalegre, e Arnaldo Silva, membro da Comissão Técnica Eleitoral do PS.

No aeroporto do Funchal, realizou-se, nesse dia, uma conferência de imprensa para apresentação dos propósitos eleitorais dos socialistas e justificação da escolha do cabeça-de-lista pela Madeira, Jorge Campinos, ministro do Comércio Externo.

Interrogado pelo Diário de Notícias sobre a escolha de um cabeça-de-lista não natural da Madeira nem tão-pouco com residência nesta Região, Arnaldo Silva esclareceu «que foi intenção do PS colocar figuras nacionais em locais, onde possam, por afinidade dos cargos que desempenham, ser úteis à resolução dos problemas específicos de cada região.»

Na oportunidade, Duarte Caldeira, apoiante da candidatura de Jorge Campinos, justificou também ao DN a opção socialista nos seguintes termos:

Nós perguntamos muitas vezes quem é preferível estar na cabeça de lista: um madeirense que não tenha possibilidades de fazer nada pela sua terra ou uma pessoa de projeção nacional, como no caso concreto de Jorge Campinos que é ministro e pode fazer muita coisa pela Madeira?

O que será preferível para a nossa terra? Ultrapassar os interesses do nome aos interesses da região? Talvez seja preferível o desenvolvimento da própria região do que pôr um madeirense que não tenha possibilidades de nada fazer pela Madeira. E a verdade é que talvez dentro de breves dias se veja essa possibilidade demonstrada pelo próprio ministro, não só no aspeto do Turismo, como no Comércio Externo.» (Diário de Notícias, Funchal, 7-3-1976)

Nas eleições legislativas de 1976, a escolha de Jorge Campinos para cabeça-de-lista pela Madeira foi, portanto, uma estratégia do PS, como assumiu Arnaldo Silva no Funchal. Preteriu-se um madeirense ou porto-santense em favor de um ministro que tutelava o Turismo. Mas, para o comum dos eleitores da Região Autónoma da Madeira, Campinos era um desconhecido. Depois de eleito deputado, integrou o governo de Mário Soares como ministro sem pasta. Desconheço se fez alguma coisa em benefício do círculo que o elegeu, como esperava o PS-M.

Esta prática de candidaturas de não naturais ou sem residência no círculo eleitoral vem já do constitucionalismo monárquico. Nesse tempo, e ainda nos regimes seguintes, os distritos apanhavam com os candidatos que as direções nacionais, por razões diversas, pensavam ser os melhores para determinados círculos. Por vezes, tinha-se apenas em consideração que o círculo oferecia garantia segura para a eleição. O candidato era desconhecido e mais ou menos ilustre. Contudo, os caciques mostravam-se fiéis aos chefes dos partidos e tratavam de mover influências em favor da almejada, quanto concertada, eleição.

Embora ainda se verifique no Continente a indicação de candidatos não naturais nem residentes para encabeçar listas nalguns círculos, valendo apenas o seu currículo, verdade é que, nas Regiões Autónomas, constitui, nos dias de hoje, conduta inaceitável. Como inadmissível, foi também querer impor um candidato independentemente da vontade da estrutura regional do partido.

O relacionamento entre o centro e a periferia atlântica ainda apresenta alguma conflitualidade, com implicações indeléveis no sistema autonómico.

 Funchal Notícias, 10 de Agosto de 2015

 http://funchalnoticias.net/2015/08/10/imposicao-ou-convite-no-ps-madeira-contributo-para-a-historia/

 

 

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