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Archive for Fevereiro, 2010

Sem dúvida, aprende-se brincando. O lúdico na Escola constitui recurso didáctico largamente utilizado e, há mais de vinte séculos, recomendado por muitos pedagogos. Também não se põe em causa a necessidade de a criança jogar, brincar, inventar, criar… para se desenvolver, socializar e conhecer.

A valorização da actividade lúdica na aprendizagem não invalida, porém, a promoção de hábitos de trabalho e de comportamento social. Antes, pelo contrário.

Verificamos, no entanto, que muitos dos nossos alunos não adquiriram esses hábitos nem atitudes.

Não se pode continuar a pensar que a Escola deve facilitar ao máximo os alunos, aprovando quem não sabe ou não demonstra competências essenciais. Mas, infelizmente, é o que se constata e, por razões diversas, até o defende quem não devia.

Muitos encarregados de educação querem, simplesmente, que os seus educandos passem de ano, não se interessando em acompanhar os seus estudos e em responsabilizá-los pelos resultados escolares.

Os alunos, na sua maioria, mostram-se desinteressados. A nota mínima contenta grande número.

Os decisores políticos pretendem que os professores reprovem o menor número de alunos, para as estatísticas não revelarem o insucesso do sistema educativo. Até já aconteceu, por determinação superior, a alteração de cotações, depois das provas feitas e praticamente corrigidas, para que as médias subissem!

A situação tenderá ainda a piorar, se os alunos forem chamados a se pronunciar no processo de avaliação de desempenho dos seus professores. Poderão, então, muitos docentes facilitar a avaliação, a fim de não arranjarem problemas com a sua própria.

O facilitismo, a desmotivação, a falta de hábitos de trabalho e de competências essenciais estão a arrasar várias gerações e a contribuir para o aumento da iletracia, considerada já um drama social no nosso país.

Perante este cenário lastimoso, cada vez mais se exige do professor em relatórios, burocracias, investimento na carreira…, faltando, tantas vezes, o tempo e a disponibilidade mental para a missão maior: promover a aprendizagem!

Geralmente, a literacia aparece definida como «a capacidade de compreender e de aplicar conhecimento apresentado em forma impressa». Por outras palavras: entender o que se lê.

Na verdade, também a maioria dos alunos não sabe ler. Passa-se-lhes um texto para as mãos e pede-se a interpretação do que está escrito. Aí começam as dificuldades para muitos. Ora, um aluno que não é capaz de compreender aquilo que lê, como poderá estudar de forma autónoma?

Acresce, porém, outro grande obstáculo: entender a mensagem do professor. Nem é que se utilize vocabulário difícil, mas tão-somente linguagem cuidada, e muitos não compreendem o que se lhes diz. Depois, há quem pergunte o significado de palavras de uso corrente com aquele deselegante o quê?, como se o professor fosse um dicionário ambulante ao serviço das massas.

Para além da comunicação, que é um problema muito grave na Escola, verifica-se, com raras excepções, grande desconhecimento do que foi ensinado nos anos anteriores. Nada vem à memória. Tudo parece ser novidade. Isto porque, erradamente, se considerou inútil memorizar conhecimentos e a Escola deixou de ser lugar de trabalho.

Com o actual estado do ensino, o desenvolvimento económico e o progresso social estão comprometidos. O estudo A dimensão económica da literacia em Portugal, apresentado em Dezembro do ano passado, demonstra que «a exigência em conhecimentos e em competências do mercado de trabalho português é baixa», recomendando-se, por conseguinte, rápido aumento do nível de literacia.

Importa, todavia, que o investimento, nesta área, seja para, efectivamente, melhorar o nível de literacia dos portugueses e não apenas para os governantes distribuírem diplomas, com cobertura jornalística, e exibirem estatísticas mais favoráveis.

Diário de Notícias, Funchal, 7 de Fevereiro de 2010

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Confeitaria Felisberta, Funchal, 2-1-2010

Deram-me, pelo Natal, Doce Lisboa: guia e receita das melhores pastelarias, de Clara Azevedo e Luís Chimeno Garrido. Graficamente cuidado, com textos curtos e bonitas fotografias, este livro mostra a doçaria de qualidade que Lisboa oferece no dia-a-dia.

As pastelarias seleccionadas apresentam-se com uma breve nota histórica e exibem duas especialidades, sendo publicadas as respectivas receitas.

Trata-se de uma espécie de inventário das mais famosas pastelarias lisboetas, como a Antiga Confeitaria de Belém (1837), a Confeitaria Nacional (1829), a Benard (1868), a Versailles (1922), a Mexicana (1946) ou a Suíca (1922). Constitui também um roteiro da mais bem conceituada doçaria da cidade. Avulta ainda como registo de memórias e vivências urbanas.

Por certo, este livro despertará a gula. Mas também faz pensar. Imagine-se a elaboração de um álbum idêntico para o Funchal. Quais as pastelarias a seleccionar? Haverá, com certeza, algumas para escolher, pela qualidade dos seus produtos. E pela sua história, por aquilo que representam para a cidade ou para a ilha, quantas figurariam no projectado álbum? Onde estão esses conceituados e antigos estabelecimentos urbanos, que constituem tão importantes pólos de atracção noutras cidades? Como chegaram até aos dias de hoje os que ainda sobrevivem? Mantiveram as características peculiares?

Imediatamente, surge na memória a velha Confeitaria Felisberta, da Rua das Pretas, fundada em 1837, por Felisberta Rosa. Encerrada nos anos oitenta do século passado, esta afamada casa jaz ao abandono.

Pela qualidade dos seus produtos, em especial bolos de mel, queijadas, fartes, morgados e compotas, foi, durante mais de um século, estabelecimento de referência do Funchal, frequentado pelos madeirenses e por muitos estrangeiros. Sobre esta confeitaria, há também diversas menções nas publicações periódicas, livros de viajantes e romances.

A imprensa registou a visita da Imperatriz Isabel, da Áustria, mais conhecida por Sissi, à confeitaria da D. Felisberta Rodrigues, em 23 de Dezembro de 1893, a fim de se «fornecer do magnífico doce que nesta casa se prepara».

Pela sua história, a Confeitaria Felisberta carece da devida atenção por parte das autoridades. Bem sei que há problemas de arrendamento, herdeiros e outras questões legais. Contudo, o interesse público deveria prevalecer, quando a iniciativa privada se revela incapaz de conceber solução adequada.

A cidade não pode ficar indiferente à ruína progressiva do seu estabelecimento comercial mais antigo. Para bem do turismo e da cultura, urge reabrir a velha e reputada pastelaria.

No estado actual, a Felisberta é o espelho do desinteresse pelas memórias da cidade. Reabilitada, a antiga confeitaria tornar-se-ia um estabelecimento procurado, não somente pelas suas especialidades, mas também pela sua história.

Há quem se dirija ao Monte para ver o túmulo do infeliz Carlos, imperador da Áustria e rei da Hungria. Com certeza, que também haverá quem se desloque à Felisberta para comer os doces que Sissi saboreou.

Inventam-se coisas estranhas para atrair turistas, mas, incrivelmente, por vezes, não se dá atenção ao que já existe e poderia ser rentabilizado.

Já em Dezembro de 1993 escrevi sobre o estado da Confeitaria Felisberta, alertando para a importância da sua reabertura. Em finais de 1989 e inícios do ano seguinte, Rui Santos publicou o historial desta pastelaria no Jornal da Madeira. Por essa altura, afirmava-se estar em estudo o futuro da confeitaria. Vinte anos depois, constata-se que nada foi feito.

Todas as vezes que passo na Rua das Pretas observo a ruína da histórica confeitaria. Depois vêm-me doces lembranças das suas deliciosas queijadas, mas por pouco tempo, tal é o amargo sentido pelo desprezo a que foi votado este lugar de memórias da cidade do Funchal.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Janeiro de 2010

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