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Archive for Dezembro, 2008

Agosto

 

Agosto só motiva quem muda de terra. Voltar à ilha, ficar pelo Funchal com um trabalho da Faculdade para fazer, destinado a uma cadeira irremediavelmente remetida para a segunda época de exames, arrasava o mês de supostas férias, ora soalheiro ora sombrio. Os meus amigos estavam no Porto Santo ou nas Canárias. O bar do Teatro, para mim, estava mesmo vazio. Andava com aquele caderno de notas, aconselhado no curso, à procura da história que não aparecia.

 

Se a história recomendada fosse de livre escolha, estaria safo. Havia mulheres despertas para amores secretos que nem a pura ficção suplantaria. Mas o tema proposto não se compadecia com encontros estivais. O professor solicitara episódio insólito da emigração madeirense. Faltava-me paciência para procurar velhos emigrantes e descobrir aventuras singulares em arraiais de Verão, por essa ilha de festas em continuados fins-de-semana.

 

Havia uma jovem de cabelos negros que falava entusiasticamente das festas em São Vicente, numa dessas tardes de café. Não conseguia entender aquele seu arrebatamento, e ela desafiava-me a lá ir. Talvez por ser mais velho e estar pouco habituado a essas festas que agora atraíam a juventude para os velhos arraiais. Pormenorizadamente, ela descrevia-me, com particular afecto, a discoteca ao ar livre e as muitas barraquinhas. Vinha-me, porém, à memória imagem diversa. Era a banda de música no coreto, brincos e despiques esganiçados, a procissão, a espetada nos braseiros e muitas pessoas que, apinhadas, subiam e desciam ruas estreitas, umas alegres, outras a cumprir o ritual.

 

A moça de cabelos de azeviche não parava de falar da festa dos Lameiros e da animação que por lá costumava existir. Eu necessitava de uma história, uma boa história, relacionada com a emigração madeirense, e que me poderia render uma nota elevada na disciplina final da licenciatura em Jornalismo. O Funchal parecia esgotado. Pelo dia, contava o bronzear. As noites tinham pouco interesse. Uma monotonia. Nem a música conseguia arrancar das cadeiras imperturbáveis bebedores. Havia casais de turistas mais folgazões, umas moças estrangeiras interessantes e as habituais da terra nas esplanadas e bares. São Vicente pareceu-me hipótese interessante. Pelo menos, ficaria a saber o que tanto entusiasmava aquelas meninas, com casa arrendada para o fim-de-semana glorioso nos Lameiros.

 

Com automóvel emprestado, lá me decidi a conhecer o arraial predilecto da juventude. Nada de especial, em princípio, pude constatar. Boa música. Muita cerveja. Grande movimento. Diversão com muitos copos, e pouco mais. De modo que decidi espreitar as mercearias e bares das redondezas. Gente mais velha. Aqui poderia estar a chave. O segredo era ouvir. Descobrir os embarcados, acercar-me deles e desencantar a cobiçada história.

 

Havia conversas exaltadas sobre a Venezuela, sem qualquer proveito. Assaltos a supermercados e fazendas, sequestros e pouco mais. Sem pronúncia castelhana, um homem já idoso, de vez em quando, lembrava que, na África do Sul, tudo era diferente. E nada mais adiantava. Fixei-me nos seus gestos e palavras. Parecia esconder qualquer coisa. O chapéu de palhinha não lhe cobria só a cabeça. Por muito que lhe perguntassem as razões da diferença, ele agarrava-se ao copo e sorvia largo gole de cerveja, sem deixar escapar qualquer explicação. Eu também bebia cerveja no canto do balcão, indiferente às conversas do grupo que me rodeava. A jovem de cabelos negros bem se esforçava por me desviar daquele posto de observação, mas, dizia-lhe baixinho, que me parecia divisar ali a ponta de uma boa história, o que ainda mais a aborrecia.

 

Fora para Jornalismo por gosto, apesar de não receber apoio consensual de familiares e amigos mais próximos. A média do 12.º ano permitia-me escolher outro curso. Prevaleceu, todavia, a primeira opção e, já quase no final da licenciatura, podia afirmar que fora correcta. Não estava, porém, habituado a trabalhar em Agosto. Aquela malfadada disciplina a isso obrigava. Julgo que o objectivo era incutir nos futuros jornalistas a ideia de que em qualquer mês se poderia fazer uma reportagem, ou, melhor, de que haveria que inventar notícias para um mês de agenda política menor. O homem, que sempre lembrava as diferenças da África do Sul, apercebeu-se da minha insistente atenção às suas enigmáticas frases soltas. De repente, deixou o grupo e dirigiu-se para o larguinho em frente da mercearia.

 

Aproveitei o momento e acerquei-me. Desconfiado, perguntou-me se era da polícia. Expliquei-lhe que estava ali por causa das amigas que me acompanhavam. Elas tinham-me convencido a conhecer a festa dos Lameiros. Verdadeiramente, o que pretendia era uma boa história sobre emigrantes, por causa do curso que frequentava, e aproveitava o tempo para ver se conseguia ouvir alguma coisa interessante. Apesar destas explicações, o homem não parava de me fazer perguntas, sendo a última sobre a minha intenção ou não de publicar essa história em algum jornal. «Não. Ainda não sou jornalista. É só um trabalho para o curso e com nomes fictícios.» Voltou a entrar na mercearia e pediu mais uma cerveja, colocando-se no mesmo lugar. Defronte, imitei-o na bebida.

 

Passado algum tempo, saí convencido de que ali nada conseguiria obter. E deambulei pelo espaço da festa até às sete, hora em que habitualmente terminava. Numa das minhas fugas ao grupo, cansado com a estridência da música, encontrei o homem das diferenças, e perguntei-lhe se ia ou não explicar-me as suas razões. Confessou, então, que não era dali. Nascera e vivia também no Funchal. Só estava nos Lameiros pelos amigos e por uma mulher, já bem velha, que nos últimos anos habitava naquele sítio, na companhia de uma filha viúva. Naquela maior aproximação, convidei-o para um encontro tranquilo no Funchal. Ele concordou: na terça-feira seguinte no bar junto à porta principal do mercado, por volta das 10 h.

 

Esperei-o pontualmente no dia aprazado. Quando chegou, já eu tomava um café na esplanada. Sentou-se e pediu também um café com leite. Foi difícil o retomar da conversa. O ambiente também não ajudava. Pessoas que entravam e saíam do mercado. O trânsito nas ruas circundantes. Turistas que fotografavam a fachada. Depois de muitos rodeios, haveria de brotar a história que me fez passar na famosa disciplina e deixou-me o resto de Agosto livre para outros devaneios:

 

«Eu fui para o Cabo ainda nem tinha 15 anos, com uns primos meus mais velhos. A gente arranjou trabalho na pesca num navio duns rapazes duma freguesia da costa de baixo. Eu não sabia pescar, nem nadar. Mas tudo se aprende. O pior é que um dos pescadores da embarcação resolveu tomar conta de mim, sem eu pedir. De tudo o que eu ganhava tinha que lhe dar metade. Às vezes, escondia o que recebia a mais, mas ele ameaçava-me e batia-me. Cada um deles tomava conta de um novato, dizia-se, e a todos iam exigindo metade dos salários. Assim, eu não conseguia amealhar nem mandar nada para a Madeira, para a minha mãe se sustentar e depositar no banco. Falavam que noutros barcos também era igual. Passaram-se cinco anos e não conseguia levantar cabeça. Ele dizia que se eu não entregasse o dinheiro ia ser perseguido, e até podiam matar-me. Um meu primo, mais chegado, tinha vivido o mesmo, mas conseguiu livrar-se do seu protector depois de uma violenta rixa. Então, enchi-me de coragem e, quando a gente estava a pescar em mar alto, dei-lhe um empurrão, abiquei-o, e até hoje ninguém mais soube dele. Foi dado por desaparecido, em acidente de trabalho. Depois mudei de embarcação, e nunca mais me fizeram uma daquelas. Carrego com isto para a cova, mas olhe que só assim consegui fazer a minha vida. E à mãe desse malvado, nos últimos anos, mando sempre entregar algum dinheiro, quando vou à festa dos Lameiros, só porque sei que ela precisa.»

 

In 12 meses no Funchal, Funchal: Funchal 500 anos, 2008, pp. 50-53.

 

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A eleição dos representantes dos professores e investigadores e dos estudantes, para o Conselho Geral da Universidade da Madeira (UMa), decorreu com exemplar normalidade e elevadas expectativas, sendo de relevar a mobilização geral.

 

Os resultados das eleições foram, de imediato, proclamados. Na verdade, não há tempo a perder, até porque o acto eleitoral, do passado dia 4, foi marcado tardiamente, condicionando, em termos de tempo, a remodelação da estrutura orgânica da universidade. De facto, os novos Estatutos da UMa, publicados a 17 de Outubro, entraram em vigor cinco dias depois. E, no prazo de noventa dias, devem ser constituídos e entrar em funcionamento os órgãos obrigatórios estatutariamente previstos. 

 

Antevia-se a derrota da lista do actual Reitor. Contudo, não deixa de surpreender ter ainda obtido 49 votos. Qualquer interpretação deste resultado deverá, entre outras componentes, admitir certa atracção por quem detém o poder, processo comum em qualquer acto eleitoral, e alianças clientelares, também frequentes neste meio. Por isso mesmo, aquele resultado é tão insólito quanto expressivo do descontentamento reinante, devido, sobretudo, à imagem pública da instituição nos últimos tempos.

 

Ninguém pode, nos dias de hoje, governar uma instituição sem ter em conta a opinião pública. Há consciência generalizada de que muito do que, ultimamente, surgiu na comunicação social, poderia ter sido resolvido dentro de casa, através do diálogo franco e do livre, e legítimo, exercício da autoridade.

 

A lista vencedora, liderada pelo Prof. Castanheira da Costa, conseguiu transmitir esperança, confiança, serenidade e, principalmente, capacidade para reorganizar a Universidade em estreita colaboração com as seis personalidades externas que virão a integrar o Conselho Geral.

 

Não será descabido acentuar, uma vez mais, a presença, no Conselho Geral, de personalidades de reconhecido mérito. Poderão também participar nas reuniões deste órgão de governo da Universidade, ainda que sem direito a voto, personalidades convidadas para se pronunciarem sobre assuntos da sua especialidade.

 

Esta interligação com a sociedade vem modernizar a Universidade, conferindo ao Reitor novo papel, porquanto é eleito pelo Conselho Geral e a este órgão compete aprovar planos estratégicos e de acção, linhas de orientação, propostas de orçamento e contas, bem como emitir pareceres sobre os assuntos que lhe forem apresentados.

 

Trata-se de uma nova realidade nas universidades portuguesas que implicará outro sistema de governo com dialéctica diversa e diferentes modos de harmonização entre as partes.

 

A escolha das seis personalidades não pertencentes à instituição constituirá a primeira tarefa do Conselho Geral da UMa, que, por certo, reunirá ainda esta semana.

 

A eleição do novo Reitor somente deverá ocorrer em Janeiro. É, porém, certo que, pelos resultados do escrutínio do passado dia 4, pelo seu perfil idóneo e pela interpretação que, a devido tempo, assumiu do papel do Reitor, face à dinâmica que o Conselho Geral obrigatoriamente imprimirá, o Prof. Castanheira da Costa reúne todas as condições para se apresentar como candidato à vitória.

 

Apesar de o legislador ter consignado que “os membros do Conselho Geral não representam grupos nem interesses sectoriais e são independentes no exercício das suas funções”, verdade é que, na corrida eleitoral, são desenhados cenários para o futuro. Ninguém será tão ingénuo ao ponto de pensar que, numa Universidade, os conselheiros agirão sob a acção do Espírito Santo, como num conclave. Por isso, aqui defendi que votar, conscientemente, numa lista para o Conselho Geral, implicava conhecer o candidato a Reitor, que os respectivos membros defendiam.

 

Diário de Notícias, Funchal, 7 de Dezembro de 2008

 

 

 

 

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