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Queijadas da Madeira

Não são muitas as especialidades da doçaria madeirense. A par com os bolos de mel, as queijadas sempre mereceram particular referência na pastelaria. Ficaram célebres as queijadas da Confeitaria Felisberta, da Mimo ou da antiga Penha d’Águia.

Hoje é difícil encontrar uma boa queijada no mercado regional. A industrialização do produto e a sua adulteração retiraram-lhe o sabor e também a forma tradicional. Agora até são congeladas e descongeladas conforme a procura.

É claro que ainda há dois ou três lugares onde se pode adquirir uma boa queijada. Boa, mas não a verdadeira! Infelizmente, na generalidade não se recomendam. As das máquinas de venda automática são de péssima qualidade. E é pena, porque um destino turístico também vive de produtos tradicionais, genuinamente preparados.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Julho 2020

Em 2019, no certame as Sete Maravilhas Doces de Portugal, as queijadas da Madeira foram amplamente divulgadas e elogiadas, apresentando-se as melhores que se produziam na ilha, as da pastelaria Miminho, sendo esta especialidade escolhida como representante da Região Autónoma da Madeira.

Provavelmente, a queijada tem origem conventual, como, de resto, muitos outros doces. Nos registos de despesas do Convento de Nossa Senhora da Encarnação, do Funchal, encontramos referências à aquisição de ingredientes para a confecção de queijadas, no século XVIII. Contudo, não se conhece a receita das monjas clarissas.

O que distingue uma boa de uma má queijada é a farinha que se acrescenta ao requeijão, no recheio.

Num episódio do programa da RTP-Madeira Esquina dos Doces, em Setembro de 2019, vi, com estupefacção, um pasteleiro misturar excessivas quantidades de farinha e açúcar com requeijão, na produção em massa de queijadas. Evidentemente, que o resultado não pode ser bom, mas, quem não conhece, come e não reclama. Contenta-se com o docinho. Outros, mais esclarecidos, não voltarão a gastar dinheiro com queijadas daquele tipo.

Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Agosto 2020

Antigamente, não se adicionava farinha ao requeijão. Entre outros, o Tratado Completo de Cozinha e de Copa, de Carlos Bento da Maia (Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1904), apresenta uma receita de queijadas da Madeira, na qual os ingredientes do recheio são o requeijão, açúcar pilado, gemas e claras de ovos. Para a massa, farinha de trigo, manteiga e açúcar q. b. para adoçar levemente. Já confeccionei queijadas, seguindo esta receita, e o resultado é sempre muito bom. Não tem mesmo nada a ver com o que por aí se apresenta e vende.

Idêntica receita foi também publicada em Aprender: Cozinha Madeirense (1988) e no Almanaque PEF (2000). Com ironia, posso concluir que o segredo das verdadeiras queijadas da Madeira é não adicionar farinha ao requeijão. Os outros ditos segredos, que os pasteleiros gostam de insinuar com ar enigmático, são perfeitamente dispensáveis. Fazem parte da fantasia da cozinha. Dir-me-ão que, não acrescentar farinha, encarece o produto, reduz as vendas e baixa o lucro. Acredito que sim! A qualidade, porém, tem custos.

A queijada da Madeira, a que merece este título, tem de ser autêntica. Deveria ser certificada. São as coisas diferentes que marcam a diferença. Num mercado competitivo, a qualidade, a diferença e a inovação são vectores essenciais.

Funchal Notícias. 5 Agosto 2020

Queijadas da Madeira

 

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O Gorgulho

A Câmara Municipal do Funchal reconstruiu o solário do Gorgulho. Uma intervenção há muito esperada e, por diversas vezes, reclamada. Escrevemos aqui sobre a necessidade de recuperar esta zona balnear em 12 de Setembro de 2018. A obra concretizou-se na segunda quinzena de Junho e primeiros dias deste mês, tendo ficado acessível ao público no passado dia 7.

Um investimento de 40 mil euros permitiu a reposição do solário, limpeza da escarpa e ‘renaturalização’ de uma pequena área. Limpou-se a imagem de degradação. Devolveu-se aos cidadãos o direito de usufruto de um espaço à beira-mar, sobretudo para apanhar sol, pois a qualidade da água do mar não se recomenda.

Praia do Gorgulho. Foto: © NV, Julho 2020.

A situação, por agora, ficou remediada. É fácil prever que uma nova tempestade poderá causar estragos idênticos ou superiores aos de 2018. Talvez, por isso, não seja má ideia pensar pôr a descoberto o calhau, quando a esplanada de betão vier de novo a ser destruída pela forte ondulação. Será menos cómodo, até menos atractivo. Mas a Madeira não pode continuar a atirar dinheiro ao mar. Bastou o que foi engolido pela malfadada Marina do Lugar de Baixo. O mar, impiedosamente, voltará a fustigar o Gorgulho.

No meio da propaganda acerca do início e da conclusão desta obra, a Câmara Municipal do Funchal sempre a ela se referiu como o Solário da Praia dos Gavinas ou Solário do Gavinas.

De um momento para outro, parece ter a Câmara esquecido o verdadeiro nome desta pequena enseada: Gorgulho. Porque compete ao poder municipal zelar pela preservação e valorização da toponímia do concelho, convém lembrar que Gorgulho é topónimo antigo e documentado, pelo menos, desde os finais do século XVI.

Alterar sem razão a toponímia tradicional é, quase sempre, tornar ilegível o nome de um sítio. É matar o espírito do lugar!

Quando se denomina esta pequena praia de Gavinas, recorda-se a alcunha de quem ali instalou um bar e depois um restaurante, onde eram servidos bons pratos de peixe fresco e lapas grelhadas.

Como me explicou o Doutor Raimundo Quintal, a quem agradeço, no Calhau do Gorgulho «existiram dois bares /restaurantes especializados em peixe. Um foi criado pelo velho ‘Gavina’ na década de 60. Posteriormente passou para a posse do filho Agostinho, que vendeu ao Dr. Nélio [Mendonça] para ser explorado pelo filho Zé, que faliu. […]. O outro estabelecimento mais pequeno também nasceu na década de 60 e pertencia ao António, mais conhecido pelo ‘Belhuga’. […] ‘Gavina’ e ‘Belhuga’ eram as alcunhas dos dois homens que construíram os dois estabelecimentos a título precário, porque se localizavam numa área de domínio público marítimo.»

No início dos anos 80 do século passado, ainda ali funcionavam o ‘Gavina’s Restaurante’ e a ‘Toca do Polvo’.

Ao conferir importância à nova ou recentemente inventada denominação Solário do Gavinas, preterindo o topónimo antigo, a Câmara do Funchal está a apagar – admito que involuntariamente e por desconhecimento – toda a História deste pedaço do litoral da freguesia de São Martinho.

O topónimo Gorgulho, que genericamente designava a faixa costeira entre o Ilhéu da Forja e a Ponta Gorda, tem a ver com a pedra da praia. Gorgulho, neste contexto, significa pedra miúda. Trata-se de um geotopónimo.

Este nome surge na documentação oficial depois do ataque dos corsários franceses ao Funchal, em 1566. Como os corsários desembarcaram na Praia Formosa para atacar a cidade, as autoridades começaram a olhar com redobrada atenção a zona poente do Funchal.

Vulnerável quanto à defesa, esta área do litoral permitia desembarque fácil aos piratas e corsários. Em Maio de 1618, trabalhava-se, por conseguinte, na construção de muros e baluarte no Calhau do Gorgulho. Criou-se também a Companhia de Ordenanças do Gorgulho, sendo conhecidos alguns dos seus capitães no século XVII: Fernão Favila de Vasconcelos, Pedro da Silva Favila, Francisco de Noronha Henriques, Pedro da Silva Favila de Vasconcelos e António da Silva Favila.

No primeiro quartel do século XIX, já o Forte do Gorgulho se encontrava bastante arruinado. Paulo Dias de Almeida escreveu que dele «só existe o nome, porque apenas existem restos de paredes sem cal, sem casa de guarnição e com duas peças reprovadas no chão.»

Igualmente bastante destruída estava a muralha do Caminho da Trincheira, que ligava o Forte à Quinta do Calaça.

Uma réplica do Forte do Gorgulho, desenhada segundo uma planta setecentista, veio a ser construída nos anos 80 do século passado. Integrada no Complexo Balnear do Lido, foi inaugurada em 21 de Agosto de 1987.

Conservar e compreender a toponímia é um exercício de cidadania. Ilhéu do Gorgulho, Rua do Gorgulho (onde se situava o Hotel Gorgulho, depois denominado “Tiles” e actualmente “Allegro Madeira”) e Praia do Gorgulho são designações que perpetuam a memória deste lugar.

Com o nome “Gorgulho” navegaram também dois navios, com presença assídua nos mares da Madeira e Porto Santo: um propriedade da Parceria Geral de Pescarias, conhecido por, na Segunda Guerra Mundial, ter  recolhido 19 sobreviventes do navio britânico “Aurillac”, torpedeado pelo submarino italiano Enrico Tazzoli em 15 de Abril de 1941, a 350 milhas ao norte do Porto Santo; o outro, da Empresa Insulana de Navegação, um navio-fruteiro, mas também de passageiros, precursor na carreira Funchal-Porto Santo, foi construído na sequência do famoso Despacho 100, de 10 de Agosto de 1945, que reorganizou a marinha mercante portuguesa e possibilitou a renovação da frota da empresa liderada por Vasco Bensaúde. Mas isto é outra história.

 

Funchal Notícias. 22 Julho 2020

P. S.

Rectificação: Gavina não é alcunha dos primeiros proprietários do bar e restaurante do Gorgulho, João Pinto Gavina e seu filho, Agostinho Pinto Gavina. Trata-se, sim, de um sobrenome. Agradeço esta informação à Senhora D. Lurdes Barros.

O Gorgulho

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SISMOS NO ARQUIPÉLAGO DA MADEIRA

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Até agora, a obra maior dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira foi, em meu entender, Epílogo (Poesia Reunida), de José Agostinho Baptista. Contudo, não tem a chancela oficial dos Seiscentos Anos.

Só associo esta edição à data tradicional do centenário da efeméride, porque veio a lume em 2019. Por coincidência (ou talvez não!), ostenta o ano (ou talvez não!) do Sexto Centenário do início da ocupação portuguesa destas ilhas.

De acordo com diversas notícias publicadas na imprensa regional, este magnífico livro é um enjeitado da Comissão Executiva da Estrutura de Missão para as Comemorações dos Seiscentos Anos do Descobrimento da Madeira e Porto Santo. Enfim, contas tristes de um longo rosário…!

Apesar desse feio imbróglio, Epílogo ergue-se como monumento grandioso e perene destas ilhas atlânticas e da insularidade. Ninguém, como José Agostinho Baptista, cantou tão bem a Ilha. Ademais, a sua obra entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

Epílogo reúne os seguintes livros: Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O Último Romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Auto-retrato (1986); O Centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Agora e na Hora da Nossa Morte (1998); Anjos Caídos (2003); Esta Voz é Quase o Vento (2004); Quatro Luas (2006); Filho Pródigo (2008); Caminharei pelo Vale da Sombra (2011).

No entanto, não se apresenta como a obra completa do poeta. Aliás, o subtítulo é elucidativo: Poesia Reunida. Não foram incluídos: Debaixo do Azul sobre o Vulcão (1995); O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos (2009); Assim na Terra como no Céu (2014).

Para José Agostinho Baptista, estes três livros não habitavam «como todos os outros a geografia plena e coerente da [sua] poesia em verso, iniciada e continuada como um rio que traçou indelevelmente as suas margens e correu em consonância de tempo e inspiração para o seu destino final, para o seu epílogo decidido pelos obscuros desígnios do Cosmos ou de Deus.»

Poeta de vivências insulares e, em especial, de nostalgia por lugares e memórias, na distância sonhou e desenhou paisagens numa linguagem intimista e sublime: «Tudo acaba na sedução das cadeiras, / das páginas onde soletramos um sonho atlântico, / o ancoradouro que nos prende: / ainda que o digas não partirei – / conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da / infância e dos barcos.» (p. 300)

A visão da ilha a partir do exterior, mas fortemente acalentada no íntimo, originou um texto poético marcado pela «transfiguração do real» e pela «fuga para uma certa espiritualidade e para um mundo ideal em confronto com o mundo real», como um dia o poeta disse da sua poesia (Entrevista a Maria Augusta Silva).

Atente-se, como exemplo, o belo poema «Porto da Cruz», do livro Quatro Luas:

Foi aqui,

diz uma voz ao longe,

que, muito depois, ouviste a canção da tua vida,

a água que ainda corria numa levada sem a

morte das cidades que abandonaste.

Aqui viste,

quando as tardes se fechavam pouco a pouco

como um livro de palavras ternas,

o teu rosto que os anos atravessaram de rugas.

 

Aqui ouviste,

junto aos barcos parados,

a incessante música dos pássaros sem nome,

aqui bebeste

num balcão de faia e fogo lento,

as canas doces da tua loucura. (p. 892)

Em toda a poesia de José Agostinho Baptista avulta a terra-mãe, associada a desesperada lembrança ou incerto reencontro com o punhado de infância e de juventude, inatingível, alterado ou desaparecido. Com casas e lugares vazios ou transfigurados. Com sentidas ausências.

«Nunca fomos deste mundo, dir-lhe ei por fim, ao fechar / a última porta.» Eis o verso final, e com tamanha força agora no contexto da obra que o poeta acredita ser a última da sua lavra.

Epílogo revela-se como longo cântico à Ilha-Mãe, construído com rara sensibilidade e paixão durante mais de quarenta anos, cheio de raízes, esperança e desânimo, saudade e gratidão, permanência e despedida, inquietação e tranquilidade, angústia e fé. Povoado de pessoas e lugares de uma geografia de afectos delineada quase sem rodeios. Imagem de uma fonte que secou de tanto brotar, de uma casa agora vazia, de flores e frutos que perderam, entretanto, o sentido. Apogeu da entrega do poeta. A sua dádiva maior. Abrigo também da renúncia ou da pausa decretada pelo fado e o tempo, porque o tal rio com margens bem traçadas desembocou finalmente no mar. E nunca mais chega ânimo para voltar a partir para onde novo rio possa vir a nascer e correr.

BAPTISTA, José Agostinho – Epílogo (Poesia Reunida). Porto: Assírio & Alvim, 2019. ISBN 978-972-37-2056-3.

Funchal Notícias, 5 Fevereiro 2020

‘Epílogo’, de José Agostinho Baptista

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Sítio do cabo da freguesia, enroscado na montanha e sempre a vigiar o mar, era o melhor lugar do mundo para quem ali continuava a viver. Agora eram uns trinta. A idade pesava a quase todos, mas a sua alegria impressionava. Raramente saíam daquele lugar, ou como perguntava a Serafina «Para quê caminhar daqui?». Concordei, de imediato, lembrando que o caminho ficava distante, havia uma escadaria irregular e as forças já lhe iam faltando. Serafina não apreciou os meus argumentos e franziu a testa. «Ó Senhor, a gente tem quase tudo aqui no Cerrado do Castanheiro. Caminhar só para ir ao Doutor, de vez em quando à Igreja – à festa da Graça não se pode faltar – e para fazer umas comprinhas, lá de mês a mês». Com um «pois sim», condescendi.

Davam-se todos bem. Por ali, não havia desavenças. Viviam como bons vizinhos. De vez em quando, reuniam-se para uma «brincadeira». Assim chamavam a um convívio com comida e bebida.

Pois em Novembro, com a abundância de castanhas, acontecia sempre um magusto, num domingo aprazado.

Este ano, a Ti Maria, sempre com aquele ar divertido e gargalhada desprendida, teve a ideia de dar um nome à «brincadeira das castanhas». Haveria de ser dos 600 anos, pois, quase de repente, tinham deixado de falar deles, e no Cerrado ainda nada se fizera. Mas só o magusto era pouco. Deram-se a então a pensar em que mais podiam fazer nesse dia. «Então se por essa ilha fora se serviram de tudo e mais alguma coisa para os 600, cá a gente não vai ficar atrás» – dizia com entusiasmo a Ti Maria. De boca em boca, o programa começou a ficar composto.

Seiscentos anos era muito tempo, de modo que tinha de ser uma «brincadeira» a valer. Ficou combinado que, depois do almoço, fariam uma corrida de cachorros. Um bom osso era o prémio para o mais veloz. Adivinhava-se que seria para o «ratazana», o cão do João Fogueira, conhecido pela sua habilidade em tratar da rataria do sítio. Depois haveria uma briga de palheiros. Para quem não sabe, palheiro é um galináceo especial, mais pequeno do que um galo, muito estimado nos quintais e fazendas. São aves atrevidas, e um frente a frente de machos dá briga certa. A contenda seria interrompida quando um deles corresse o risco de ficar bastante ferido. De seguida, teria lugar o brinco das cabaças. Enchiam-nas com água, carregavam-nas na cabeça e, com equilíbrio, percorriam a levada até ao tornadouro do poio do José Vinagre. Ganhava quem, no final, mais água mantivesse na cabaça ou, como costumavam dizer, «mais água tivesse na cabeça». Por fim, realizariam o magusto, com castanhas apanhadas durante a semana. À noitinha, no terreiro da casa da Ti Maria beberiam o licor dos 600 anos.

Dito e feito. Os cachorros foram valentes, os palheiros honraram a sua fama, o jogo da cabaça fez sucesso, as castanhas não tinham bicho e o vinho seco rodou bem.

O melhor, segundo eles, estava para vir. O licor dos 600 anos era segredo bem trancado. Só se sabia que não levava pós nem essências. Aquilo era à base de ervas. Maria tinha percorrido sozinha a serra à procura do que precisava. Depois foram dias de infusão na aguardente. Há uma semana acrescentara-lhe calda de açúcar.

No terreiro, provava-se e gabava-se o famigerado licor. Ti Maria, sentada na sua cadeira de vimes, sentia-se honrada com a presença dos vizinhos. Do licor ela não tinha dúvidas que estava bom. Por precaução, não fosse a sua rica bebida se acabar no domingo, já o vinha provando, mesmo antes de apurado. E, nesse mesmo dia, voltou a degustá-lo várias vezes pela manhã, para se certificar da sua qualidade.

Beberam e voltaram a encher os copos, enquanto cantavam e riam. Quem mais cascalhava era a Ti Maria. As suas gargalhadas pegavam rapidamente, principalmente nas mulheres. Era uma galhofa. Ti Maria estava a ficar com a face mais rosada. De repente, sem qualquer discrição, levantou um pouco a volumosa nádega esquerda e deixou escapar um estrondoso pum. Fez-se algum silêncio, mas logo uma mulher lhe disse «Ti Maria, olhe que esse foi forte». E ela, de imediato reagiu:

– O que é que tu queres, Serafina? Olha foi o fogo dos 600 anos.

Muito riram com o pum da Ti Maria. Festa mais alegre e genuína dos 600 anos do que a do Cerrado do Castanheiro ainda não se tinha visto. Até dias depois, quando lhes vinha à cabeça aquela lembrança, era gargalhada certa. O traque da Ti Maria ficará para a posteridade.

Funchal Notícias. 27  Novembro 2019

Seiscentos anos no Cerrado do Castanheiro

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Logo que se conheceram os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, ficámos a saber que o PSD e o CDS estavam para casar, o que nos leva a supor que o namoro vinha de longe, embora de forma discreta.

O líder do CDS, que acabava de perder mais de 9200 votos e 4 mandatos, mostrou-se bem-disposto, a sorrir, faceta, na verdade, quase desconhecida do público. O outro noivo também cantou vitória, com um ar mefistofélico, depois de ter perdido 3 deputados e, por conseguinte, a maioria absoluta. E festejou na rua, apesar de ter obtido a percentagem mais baixa de sempre em votos no PSD, nas eleições legislativas regionais.

Preparam agora o casamento governamental, que deverá ser oficialmente anunciado depois das eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no próximo domingo. Provavelmente, esperam ainda idêntico matrimónio em Lisboa, o que não deverá acontecer.

O PS, que se mostrou demasiado confiante antes do tempo, obteve excelente votação, mas com o casamento à direita, resta-lhe uma oposição firme na Assembleia Legislativa Regional, um trabalho sem tréguas, pensando no bem comum e no futuro, que se constrói sem desânimos e com muita persistência. Neste resultado, há que distinguir o efeito da popularidade de Paulo Cafôfo na votação dos socialistas. Contudo, Cafôfo precipitou-se, quando, na noite eleitoral, lançou o repto de construção de uma alternativa governativa com diversas forças políticas, uma espécie de salada russa. Deveria ter gerido esse projecto de forma recatada, fora dos holofotes da comunicação social, e só apresentá-lo quando tivesse conquistado a noiva, inicialmente rendida aos encantos do PSD.

O JPP também perdeu 2 mandatos e 5284 votos, o que se pode justificar, entre outras razões, pela inegável bipolarização – PSD / PS, que afectou todos os partidos mais pequenos, e também, por agora, confrontar-se com um contexto bem diverso das eleições de 2015, tempo em que estava mais presente o sentimento de repúdio pelas fórmulas governativas do PSD e do Dr. Jardim.

A CDU perdeu 1 deputado e 4483 votos, enquanto o BE deixou de ter representação parlamentar.

Não fosse a ganância pelo Poder, a política madeirense centrar-se-ia doravante na Assembleia Legislativa, como deveria ser, e nunca aconteceu devido às maiorias absolutas.

Obrigar o PSD a negociar no parlamento, para governar, fortaleceria a nossa democracia. O casamento de conveniência dará ao CDS o prazer de degustar a governação da Região, mas, como em outros matrimónios interesseiros, a excitação da lua de mel cedo poderá transformar-se numa grande desilusão, com prejuízos avultados. O conúbio ficará ainda marcado indelevelmente pela violência e humilhações que uma parte sujeitou a outra durante quatro décadas. Contudo, o noivo deslumbrado com a cadeira, onde aspira vir a se sentar, parece esquecido desses tempos em que era insultado e ridicularizado.

Se o casamento vier a se consumar, mesmo contra a vontade de alguns notáveis da família CDS, que ainda têm memória e dignidade, resta aos deputados, que não se identificam com a governação PSD, a união de forças no sentido de a presidência da Assembleia Legislativa da Madeira ter uma cor diferente, para que assim a Região comece a trilhar o percurso de uma democracia adulta. Negociações discretas, estratégias bem delineadas e o voto secreto podem assegurar este desejável desfecho.

Se assim não acontecer, estão a abrir caminho para que, daqui a 4 anos, o PSD retome a maioria absoluta e o CDS caia do pináculo.

Funchal Notícias. 30 Setembro 2019

Política no pináculo

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Ser ‘autonomista’ é…

No tempo de campanha eleitoral na Região Autónoma da Madeira, vem sempre ao de cima a questão do ser autonomista. Uns dizem sê-lo e acusam os demais de não comungarem do mesmo ideal. Outros assumem, de forma diferente, a autonomia. Uns arrumaram a sua vida e a da sua família à custa da autonomia e proclamam-se de autênticos autonomistas. Alguns continuam a afirmar que lutam por uma verdadeira autonomia. Há ainda quem se ache dono da autonomia.

Mas, afinal, o que é ser autonomista, quando a autonomia está consagrada na Constituição e constitui um dos limites materiais de uma revisão constitucional? O que é ser autonomista, quando ainda há tanto para aprofundar, em benefício dos cidadãos, no actual regime autonómico?

Autonomista será o contínuo e, tantas vezes, inconsequente confronto com o Governo da República?

Autonomista será a recorrente recriação e alimentação do fantasma do inimigo externo?

Autonomista será a atribuição a outrem da incapacidade governativa, por inoperância, falta de massa crítica, meios e verbas ou ainda por desmesuradas expectativas numa região limitada em recursos e riquezas?

Haverá somente uma única via para o autonomista?

Ser autonomista é perseverar no mesmo caminho, que levou ao Plano de Ajustamento Económico e Financeiro da Região Autónoma da Madeira em 2012?

Autonomista é quem esbanjou milhões em obras inúteis, em detrimento, por exemplo, da área da Saúde?

Ser autonomista é contribuir para que esta Região seja sempre vista com desconfiança e, simultaneamente, motivo de chacota?

Ser autonomista é apoderar-se da propriedade privada de gente simples e sem dinheiro para contratar um advogado, através de expropriações a preços miseráveis, numa espécie de comunismo laranja?

Ser autonomista é discriminar os municípios da oposição?

Ser autonomista é parir um subsídio de mobilidade para, sub-repticiamente, injectar capital na TAP, com tarifas aéreas inflacionadas, pagas adiantadamente pelos ilhéus?

Ser autonomista é estabelecer uma apertada rede de poder, com numerosos tentáculos, onde tudo gira à volta dos interesses do clã?

Ser autonomista é impingir aos porto-santenses, como lembrança dos 600 anos do ‘descobrimento’ da sua ilha, uma estátua concebida para exaltar o colonialismo internacional nos anos 30 do século passado?

Na verdade, uma definição ou um conceito não se constrói pela enunciação do que não é ou não deve ser. Sirvam, porém, as questões acima expostas como motivação e reflexão.

Pegando na denominação infeliz – o cubano –, com raiz nos tempos do PREC [Processo Revolucionário em curso decorrente do 25 de Abril] e na definição matreira e cáustica, mais tarde veiculada, de que «cubano era aquele que não tinha a Madeira no coração», poderíamos também dizer que autonomista é quem tem a Madeira no coração, aquele que ama a Região, trabalha e luta pelo melhor para o arquipélago e o seu povo e reage quando estão em causa valores e direitos consagrados ou a consagrar. Do processo autonómico, pela sua dialéctica, não se pode excluir o contencioso.

Partindo destes ideais, de aceitação pacífica, segundo cremos, convém, no nosso tempo, observar o autonomista no seu território, e não, exclusivamente, no confronto entre a periferia e o poder central.

Esse posicionamento crítico obrigaria, por certo, posturas diversas, que conduziriam a um trabalho profícuo com resultados significativos para o progresso e afirmação positiva da Região.

Há temáticas que, com efeito, já nem deviam ser objecto de discussão, depois de 40 anos de autonomia, mas a Região real impõe essa necessidade. Colocando o autonomista como autor e actor no seu próprio espaço, urge a implantação e o desenvolvimento de comportamentos e medidas, nos seguintes domínios, entre outros:

Vivência democrática: um autonomista não ostraciza nem persegue o porto-santense ou madeirense que pensa de forma diferente e tem outro projecto de sociedade, porque a autonomia só pode existir em democracia. Foi a Revolução do 25 de Abril que possibilitou a democracia e a autonomia. São inseparáveis, apesar das resistências à democracia nesta Região.

Emprego e riqueza: O emprego e a distribuição de riqueza não devem apenas contemplar o grupo político dominante, afastando os conotados com a oposição ou condenando, ao silêncio e à demissão da cidadania activa, os menos fervorosos, em troca de trabalho, casa e pão.

Respeito pela Natureza: se o sentimento autonomista nasce do amor à terra natal, como pode o autonomista continuar a destruir a riqueza maior destas ilhas e, sem dúvida, a grande atracção turística? Depois do descarado assalto ao litoral e às ribeiras, prepara-se a invasão da floresta, altivamente (re)anunciada com um «quer queiram, quer não queiram».

Identidade Cultural: o autonomista valoriza a Cultura Regional e contribui para a sua promoção, não discriminando quem não partilha a mesma opção. Promover a Cultura não é subjugá-la ao padrão oficial e aos redutos insulares. O diálogo entre a identidade e a universalidade constitui o caminho da nossa afirmação como Região Autónoma.

Cultura de Clã: o autonomista, que trabalha em favor da sua Região, não pode constantemente promover a exclusão, o privilégio, o favoritismo, o clientelismo e, consequentemente, a corrupção.

Nada do que temos vindo a afirmar constitui novidade. Poderá até ser considerado utopia. Contudo, como cantou o poeta António Gedeão: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança.

Infelizmente, muitos exemplos do quotidiano podem ilustrar como alguns ditos autonomistas actuam, o que sugere mais vandalismo político do que verdadeira afeição à autonomia.

Uma coisa é ser autonomista da boca para Lisboa, outra é a práxis do autonomista no governo da sua própria terra e no dia-a-dia.

Funchal Notícias. 11 Setembro 2019

Ser “autonomista” é…

 

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Grande parte da obra poética de José Agostinho Baptista, reunida sob o título Epílogo, deveria ser editada em Outubro do ano passado, numa iniciativa da Comissão dos Seiscentos Anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira e a Porto Editora. Chegou a ser anunciada em dois jornais nacionais, mas não se efectivou.

A imprensa deu conta da insatisfação do Poeta pela não concretização do projecto na data aprazada. Guilherme Silva garantiu então que Epílogo viria a lume e, para tal, desenvolvia esforços no sentido de obter patrocínio da Assembleia da República. Afiançou mesmo que «em momento algum está em causa a edição» (DN-Madeira, 7-10-2018, pp. 36-37).

A verdade é que a XIII legislatura chegou ao fim, como também está a terminar o mandato deste Governo Regional, e nada mais veio a público sobre a prometida edição.

As comemorações dos seiscentos anos estão em curso, é certo. Todavia, não se conhece o seu programa editorial. De vez em quando surgem edições com o logótipo da Comissão, mas ninguém percebe bem quais os objectivos, temáticas seleccionadas e cronograma. Tudo vai acontecendo um tanto ao acaso ou conforme as oportunidades ou a agenda governamental. Vejamos: em 12 deste mês foi apresentado no Porto Santo, Das ilhas, a primeira, de Cláudia Faria e Graça Alves, uma edição de 2018 do Centro de Estudos de História do Atlântico, não comercializada, com uma tiragem de 300 exemplares; no dia 30 ocorreu o lançamento de Ondas de Glória: momentos históricos da Natação na Madeira, da Associação de Natação da Madeira e Arteleia, livro pago quase na totalidade pela Direcção Regional de Cultura e integrado nas celebrações do descobrimento, logo com o respectivo logótipo (DN-Madeira, 27-07-2019, p. 29). Entretanto, foi divulgado que, «no âmbito do ciclo de publicações dos 600 anos, está ainda previsto o lançamento de mais de 20 obras» (Ibidem, 13-07-2019, p. 42). Quais? Edição? Colecção? Quando? Não se sabe…!

Voz poética singular, José Agostinho Baptista nasceu no Funchal em 1948. A sua poesia, marcada pela originalidade, desenvolve-se em muitos títulos:

Deste lado onde (1976); Jeremias o Louco (1978); O último romântico (1981); Morrer no Sul (1983); Autoretrato (1986); O centro do Universo (1989); Paixão e Cinzas (1992); Canções da Terra Distante (1994); Afectos (2002); Anjos caídos (2003), Prémio PEN Clube Português; Esta voz é quase o vento (2004), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT; Quatro luas (2006); Filho pródigo (2008); O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos (2009); Caminharei pelo vale da sombra (2011); Assim na terra como no céu (2014).

Em todos, o Poeta rememora a terra natal, como confessou: «A Madeira no fundo era a poesia que eu andei a escrever, longe dela. Mas sempre com ela no pensamento e no coração.» (DN-Madeira, 7-10-2018, p. 37)

Desse apego à ilha mãe, realço, em particular, Canções da Terra Distante, livro autobiográfico, sem cariz realista, onde o Poeta evoca lugares da geografia dos seus afectos. Narrativa obsessiva de quem, fora da ilha, permanece nela através de paisagens e recordações, que indelevelmente povoam a sua mente.

A sua obra tem merecido vários estudos, sob a forma de dissertações académicas, ensaios, artigos e recensões críticas. Ana Margarida Falcão (1949-2016), na sua tese de doutoramento – Os novos shâmanes: um contributo para o estudo da narratividade na poesia portuguesa mais recente (2003), concluiu de modo lapidar:

«Nostálgica viagem da lembrança ou melancólica peregrinação pelos lugares da memória, a poesia de José Agostinho Baptista conta, em episódios vários e em diversa dimensão narrativa, o exílio de um sujeito em si mesmo, corpo e mente desdobrados em múltiplas variantes que sacralizam o sonho, o devaneio e os vestígios do passado, proporcionando a enunciação de representações essencialmente em função da ausência.» (p. 398)

A obra de José Agostinho Baptista entrou já no cânone literário de língua portuguesa.

O Poeta não publica há cinco anos. Diz também que deixou a escrita. Contudo, a obra que construiu, desde 1976, atesta da sua grandeza poética.

O Poeta tem dado muito à Madeira e à Literatura Portuguesa. Não constitui, por isso, favor algum a publicação de Epílogo, o que deveria ter acontecido há quase um ano. Razões ou circunstâncias mal-esclarecidas atrasaram a edição. Por falta de dinheiro não foi, de certeza! Convém, por isso, lembrar: Palavra dada deve ser palavra honrada. Por gratidão, com José Agostinho Baptista maior é o compromisso.

Funchal Notícias. 31 Julho 2019

Palavra dada é para ser honrada

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A freguesia do Arco da Calheta é agora mais conhecida, porque mais bem estudada. Da autoria de Paulo Ladeira, Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano, editado no mês passado, ultrapassa a dimensão de inventário, nem apresenta tal formato. Trata-se, sim, de uma monografia sobre o património de uma paróquia, fundada em data desconhecida, mas antes de 1518, focando, em particular, o património religioso.

Este é o primeiro volume da Colecção Património Religioso, editado pelo CEDECS – Centro de Estudos e Desenvolvimento, Educação, Cultura e Social, com uma tiragem de 1000 exemplares.

Segundo Eugénio Perregil, presidente do CEDECS, esta colecção constitui uma «homenagem àqueles que construíram a História do concelho, no plano físico e espiritual», pelo que se antevê que outros volumes estão planeados, a fim de contemplarem as demais freguesias do município da Calheta.

O livro conta com um preâmbulo do pároco do Arco da Calheta e Loreto e um prefácio do bispo do Funchal.

O padre João Carlos Homem de Gouveia afirma que «é preciso incentivar a reflexão e atuação da Igreja e das instituições eclesiásticas no domínio do património cultural, numa perspetiva não só de fé, mas também intrinsecamente estética e histórica, com respeito cada vez maior pela sua função pastoral e evangelizadora.»

Já D. Nuno Brás sublinha que o património religioso não pode ser reduzido «a um simples conjunto de igrejas, pinturas, estilos de arte, de música e de arquitetura». Deve, antes, ser entendido como a expressão de valores, expectativas e identidade de uma comunidade, «através de uma determinada atitude religiosa».

Para a elaboração desta monografia sobre o património do Arco da Calheta, Paulo Ladeira serviu-se de vasta bibliografia e fontes documentais, mas também partilhou testemunhos e vivências suas e de pessoas da localidade.

Ladeira, mestre em História e Cultura das Regiões pela Universidade da Madeira, com a dissertação O Rococó na Madeira: a talha e a pintura do último Barroco ao primeiro Neoclássico (2003), é autor de diversos estudos sobre História de Arte da Época Moderna. Em 2016, publicou Calheta & Património: uma abordagem, numa edição da Câmara Municipal da Calheta.

Apesar de a tónica ser o património religioso, o autor dedica mais de vinte páginas a aspectos históricos da freguesia, alguns dos quais são também património cultural, como, por exemplo, a toponímia, a habitação, os utensílios domésticos, o vestuário, os adereços e os ofícios. Nesta caracterização das vivências do quotidiano de outrora, caberia ainda o património imaterial. Para esta matéria, haveria que recorrer à tradição oral. Contudo, Paulo Ladeira privilegiou as fontes documentais escritas, quase sempre parcas neste domínio. Ainda assim, a imprensa poderia veicular alguma informação.

O quotidiano religioso merece também capítulo próprio, sendo dada particular atenção aos ritos dos sacramentos católicos.

A parte principal do livro diz respeito ao património religioso, imóvel e móvel, da freguesia. À matriz, Igreja de São Brás, pela importância do seu acervo, é dado maior relevo.

Importa aqui salientar o conjunto de seis pinturas maneiristas, de meados do século XVI, restauradas por ocasião do Quinto Centenário da Diocese do Funchal e provenientes, pelo menos algumas delas, da ermida de São Brás. Aliás, a capa do livro ostenta o óleo sobre madeira São Brás e os doadores (Brás Ferreira e Mecia Vaz), pintura atribuída ao Mestre de Abrantes, numa fotografia de Paulo Sardinha.

As capelas da freguesia, mesmo as mais recentes, foram objecto de análise, com descrições e imagens do seu património mais significativo.

A obra inclui no final uma memória de Manuel da Silva Leça sobre costumes religiosos e sociais da freguesia, nos anos de 1930 a 1950.

Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano mostra-se fundamental para o conhecimento do património da Região e constitui iniciativa que merece ser aplaudida, não só por dar a conhecer a história local, mas sobretudo porque esse saber está alicerçado nas fontes existentes nos arquivos. Por outro lado, é também de louvar a atitude da Igreja Católica. Neste caso, não fechou as portas à divulgação do seu património, mas revelou consciência de que o estudo, a fotografia e a divulgação dos bens culturais contribuem para a sua preservação e salvaguarda.

Como bem referiu José Eduardo Franco, no posfácio, o remédio para a ameaça do esquecimento das culturas locais «passa, em grande medida, pelo investimento na investigação e na produção de conhecimento esclarecido e bem fundamentado em torno da herança cultural». Propósito, quanto a nós, alcançado com esta edição, apoiada pela Câmara Municipal da Calheta. Esperamos que mereça leitura e atenção.

LADEIRA, Paulo – Arco da Calheta: património religioso e alguns aspetos do quotidiano. Calheta: CEDECS, 2019. ISBN 978-989-20-9589-9. 336 p.

Funchal Notícias. 24 Julho 2019

Património do Arco da Calheta

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A Câmara Municipal de Machico deliberou encomendar e instalar uma escultura alusiva ao desembarque dos navegadores portugueses na ilha da Madeira, nos finais da segunda década do século XV. Para o Funchal, está também prevista uma obra para assinalar os 600 anos do descobrimento, conforme contrato celebrado em 11 de Dezembro de 2018 entre a Secretaria Regional do Turismo e Cultura e o escultor Amândio de Sousa.

Em ambos os casos, optaram as entidades adjudicantes por ajustes directos em detrimento do concurso público, que permitiria selecção criteriosa do objecto artístico a adquirir.

É frequente associar esculturas públicas a celebrações de momentos históricos. Nestes casos, recomenda-se uma obra plástica original com interesse estético, cultural e social, que tenha em conta o lugar, onde será implantada, e o público.

A Câmara de Machico optou por contratar um escultor nascido no concelho, Luís Paixão, já com obras no espaço urbano, encomendadas pela edilidade. Uma delas, intitulada «Na rosa dos ventos: Machico à proa», cuja concepção custou ao município 18 670,00 €, conforme contrato por ajuste directo celebrado em 30 de Abril de 2015, representa um navegador a colocar um padrão na terra descoberta, o que, na verdade, não aconteceu, pois o assentamento de padrões em pedra, como forma de marcar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão na margem sul da foz do Zaire, em 1482.

O baixo-relevo, inaugurado no passado dia 2, representa o desembarque de Zarco, Tristão e os seus companheiros em Machico. O escultor optou por uma composição figurativa, aplicando elementos que, no seu entender, retratam o descobrimento: navegadores, barca, batel, astrolábio, rosa dos ventos, ave marinha (gaivota?) e a linha de costa.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Neste baixo-relevo realista, o astrolábio não tem justificação histórica. Mais correcto seria uma agulha de marear e uma carta-portulano. A navegação astronómica é posterior ao descobrimento do arquipélago da Madeira. E, de início, no cálculo da altura meridiana da Estrela Polar utilizava-se o quadrante e não o astrolábio. (Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1985, p. 80)

Como ensinou Damião Peres:

«Anteriormente ao começo das navegações atlânticas promovidas pelo Infante D. Henrique, e mesmo durante os primeiros tempos destas, o sistema de navegação usado em navios portugueses foi sem dúvida igual ao seguido pelos Italianos e outros povos: navegar recorrendo às cartas de marear, que mostravam repetidamente as direcções dos rumos, e seguindo, com o auxílio da agulha magnética e do cálculo da distância percorrida, o adequado rumo.» (História dos Descobrimentos Portugueses, 3.ª ed., Porto, 1983, p. 187)

Este baixo-relevo assemelha-se a um trabalho escolar no qual se dispõe, sobre papel ou cartolina, um conjunto de signos tradicionalmente conotados com os descobrimentos portugueses. Se, no momento de avaliação de uma unidade didáctica dedicada à expansão portuguesa, eu propusesse aos alunos a elaboração de um cartaz alusivo ao descobrimento da Madeira, certamente lá apareceriam os mesmos elementos que Luís Paixão se serviu. Numa turma do ensino básico isso até mereceria boa classificação. Já o mesmo não é admissível numa escultura pública para perpetuar tão importante efeméride.

O baixo-relevo, Machico 600 anos, caracteriza-se por uma linguagem estética do passado. Sem criatividade. Démodé. Passadista até na inscrição «1419», ano do descobrimento, segundo a historiografia do século XIX e a corrente tradicionalista. Além disso, com tónica naïf ou erro de perspectiva: na posição em que se encontra o batel, nunca os homens que o empurram poderiam ter pé.

Foto: © Nelson Veríssimo, Julho 2019

Esperava-se uma criação artística do século XXI, um legado dos 600 anos para as gerações vindouras. A Câmara de Machico gastou nesta obra 103 121,22 €. Contudo, no domínio da intervenção artística no espaço público, nada de novo e significativo acrescentou à cidade. Tão-pouco diversificou a linguagem estética da escultura pública no contexto urbano machiquense.

Para que não restem dúvidas, aqui fica a descrição da despesa, conforme o Portal Base (Contratos Públicos Online):

– Prestação de serviços para a idealização e concepção da obra escultórica Machico 600 anos, José Luís Alves Paixão, 13 500, 00 € (29-05-2019).

– Prestação de serviços para formação/execução da escultura Machico 600 anos, António Guedes Lopes, 17 700,00 € (21-06-2019).

– Fundição da escultura Machico 600 anos em bronze, Fundição de Bronze de Arte Lage, Ld.ª, 27 000,00 € (24-06-2019).

– Trabalhos acessórios para implementação de escultura em baixo-relevo, alusiva aos 600 anos – Machico, BC Construções, Unipessoal, 44 921,22 € (28-06-2019).

Discutível é também a localização do baixo-relevo. No meu entender, faria sentido na beira-mar. Escolheram um sítio próximo dos Paços do Concelho – com dignidade, é certo –, talvez para ficar sob o olhar vigilante dos autarcas.

Creio que Machico teria beneficiado com uma encomenda de uma escultura sujeita a concurso público e apreciação de propostas por um júri idóneo. Aliás, esta é a prática recomendável, pois o dinheiro dos contribuintes não deveria servir para custear gostos e padrões estéticos de autarcas ou governantes.

Funchal Notícias. 17 Julho 2019

O baixo-relevo alusivo ao desembarque em Machico

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