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«Contencioso da autonomia» foi um conceito gerado no tempo dos governos do Dr. Jardim, e provavelmente da sua autoria, que pretendia traduzir a dialéctica ou as tensões decorrentes de aspirações e reivindicações da Região Autónoma, não aceites nem satisfeitas, pelo menos no imediato, pelo Estado Português. Algumas vezes, o conceito atingiu a conotação máxima – contencioso do aprofundamento da autonomia –, como, por exemplo, em 2014, quando se reivindicava um novo modelo do sistema autonómico (Diário de Notícias, Funchal, 20-09-2014, p. 13).

Nem sempre a Região beneficiou desse clima de permanente confronto, chegando-se mesmo a situações bizarras, mas a verdade é que muito do que se conseguiu, no âmbito da autonomia ou no domínio financeiro, se deve à capacidade de reivindicar com firmeza e de apresentar projectos credíveis.

Neste contexto de afirmação da identidade regional, elevou-se o nível de auto-estima dos porto-santenses e madeirenses, sobretudo pelo melhoramento das suas condições de vida e o reconhecimento nacional e internacional de muitos projectos e eventos regionais.

Continuam hoje muitas questões pendentes entre os Governos Regional e da República, que o «murro na mesa» de Paulo Cafôfo (JM, 12-04-2018) ou a última visita do Primeiro-Ministro ao Funchal (21-05-2018) não conseguiram resolver, com prejuízo dos madeirenses e porto-santenses, porque, na realidade, António Costa, como líder do PS, tem objectivos definidos para as eleições na RAM e um calendário adequado aos seus propósitos.

Depois de uma ardilosa substituição da liderança socialista na RAM, abriu-se uma passadeira rosa para o presidente da Câmara do Funchal, como candidato a presidente do Governo Regional nas próximas eleições legislativas, que, assim, deu o dito por não dito quanto ao cumprimento do mandato autárquico, defraudando a maioria dos funchalenses.

Na qualidade de candidato, falou no último Congresso Nacional do Partido Socialista (26-05-2018), realizado na Batalha, o que tem tanto de curioso como de significativo.

Curioso, porque, na reunião magna de uma organização partidária, abriu-se a tribuna a um não filiado, que se apresenta como candidato do mesmo partido às eleições de uma Região Autónoma, cabendo papel menor ao presidente do PS-Madeira, situação previsível e com natural propensão para acentuar-se.

Dessa intervenção nenhuma ideia interessante para a governação regional ressumou, tendo apenas sobressaído a vontade de inscrever António Costa na História, como o Secretário-Geral do PS que venceu eleições nas duas Regiões Autónomas.

Revela-se também significativo, porque o percurso foi feito ao contrário do habitual. Em vez de ser um líder de uma força partidária da RAM que, pela sua militância e programa, se afirma no Congresso do seu partido, trata-se, sim, de um candidato, dito independente, com popularidade no Funchal e que venceu duas eleições autárquicas liderando coligações, que o Secretário-Geral do PS astutamente catapultou para a disputa das regionais. Compreende-se, assim, a vontade de Paulo Cafôfo em retribuir tal gesto com a inscrição de António Costa na História.

Todavia entre o querer e o ser há um longo caminho, onde a passadeira rosa e a dialéctica periferia/centro terão de se confrontar.

Não acredito em projectos de poder para a periferia, arquitectados no centro, embora preveja que a máquina da propaganda, abrigada na Casa do Concelho, será reforçada com artilharia pesada para convencer ou domar o eleitorado, agitando, até à exaustão, o enganador voto útil.

A nós, madeirenses e porto-santenses, caberá distinguir entre a força da propaganda, aliada aos grupos económicos que emigraram da Rua dos Netos para o Largo do Colégio ou que jogam nos dois tabuleiros, e os verdadeiros interesses desta Região. Convém não alinhar com o artificial. Por vezes, o pechisbeque faz-se passar por metal precioso. Prudente é mesmo não contribuir para maiorias soberbas, de má memória na história.

À própria dinâmica da autonomia está, intrinsecamente, associado o contencioso. Muito do que temos hoje veio a ferros. Sempre foi assim! Não parece, por isso, estar enterrada tal dialéctica, ainda que a passadeira rosa se venha a apresentar com mil e uma promessas de mágica solução de todos os nossos problemas, numa programada colonização, seiscentos anos depois do povoamento deste arquipélago.

Extinguiu-se aquela imagem estereotipada do caseiro de cabeça vergada na porta dos fundos da casa do seu senhorio. Mas diferentes mesuras ou agachamentos foram entretanto sendo cultivados e novos procuram agora implantar, com uma sofisticação nunca antes vista e até uma porçãozinha de filosofia de trazer por casa.

Na verdade, já vão cansando os jogos de poder que penalizam as sociedades insulares, fazendo sempre depender a resolução de determinados assuntos regionais das estratégias e dos calendários partidários definidos em Lisboa.

Funchal Notícias. 5 Junho 2018

O contencioso da autonomia e a passadeira rosa

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O subsídio social de mobilidade, em vigor desde Setembro de 2015, tem suscitado várias críticas e abundantes promessas de revisão, com negociações que parecem intermináveis.

Justificado pelo princípio constitucional da continuidade territorial e, em grande parte, decorrente da liberalização dos preços das tarifas aéreas, o actual sistema é criticado, principalmente, por:

  1. exigir o pagamento integral no acto de compra (“adiantamento” por parte do passageiro) e impor o reembolso posterior (60 ou 90 dias);
  2. determinar um tecto máximo (custo elegível igual ou inferior a 400 euros);
  3. estabelecer uma única entidade prestadora do serviço de pagamento do subsídio social de mobilidade (CTT), com demasiada burocracia e, pela natureza da instituição, demora no atendimento.
  4. desencadear a inflação dos preços dos bilhetes (entre 2014 e 2016, cresceu o preço médio por bilhete de 148 para 262 euros, tendo também aumentado o número de passageiros de 120 mil para 148 mil) com pesados encargos para o Estado (33 milhões de euros em 2017 para a RAM, contra 24,8 milhões no ano anterior).

De acordo com António Costa, «esta modalidade implicou um aumento superior a 400% naquilo que o Estado paga, quando só há um aumento de 40% das deslocações por parte dos residentes na Madeira.» Para o Primeiro-Ministro, «este resultado, absolutamente desproporcionado, não beneficia os residentes na Madeira e é altamente prejudicial para todos os contribuintes nacionais.» (Telejornal RTP-Madeira, 21-05-2018). Pode-se, assim, deduzir que o modelo vigente de subsídio social de mobilidade é incomportável e muito favorece as companhias aéreas, que se estão financiando à custa da insularidade e do dinheiro público.

Enquanto se aguarda a alteração do Decreto-Lei n.º 134/2015, de 24 de Julho, que, aliás, já mereceu uma proposta da Assembleia Legislativa da Madeira (Resolução n.º 13/2017/M), vejamos o que os nossos vizinhos das Canárias conseguiram alcançar neste domínio, pelo acordo assinado no passado dia 19 de Maio, entre o presidente do Governo, Mariano Rajoy, e Román Rodriguez, líder da Nueva Canaria, para o apoio nacionalista aos ‘Presupuestos Generales del Estado’.

Depois da aprovação final dos ‘Presupuestos Generales’, que deverá ocorrer no próximo mês de Junho, a subvenção, destinada aos residentes canários para as viagens aéreas ou marítimas, das ilhas ao território nacional, passa de 50% para 75%. A título de exemplo, atente-se: com os preços actuais, uma viagem para Madrid (só ida) custaria, em Julho, 65,40 euros para um residente nas ilhas Canárias. Com o novo acordo, passará a custar metade, 32,70 euros. Mas, para além dos 75% nas tarifas, há ainda descontos para as famílias numerosas, o que incentiva também o gosto de viajar, com extraordinário proveito para o turismo.

Perante esta nova realidade, viajar de avião de Tenerife para Madrid será muito mais barato do que ir de táxi de Santa Cruz de Tenerife ao aeroporto Reina Sofia.

O Governo Central compromete-se igualmente a pagar a totalidade do custo de transporte de mercadorias entre as diversas ilhas daquele arquipélago e com a Península, tornando os produtos canários mais competitivos, porque entram no mercado em igualdade de circunstâncias com os demais do território nacional.

Em suma: a negociação política para a aprovação dos ‘Presupuestos Generales’ possibilitou novos direitos para as Canárias no domínio da mobilidade. Comparativamente, a Região Autónoma da Madeira está, neste âmbito, muito distante da realidade do arquipélago vizinho.

Uma visão estratégica em termos de Macaronésia contribuiria, por certo, para diferente panorama, principalmente no diálogo com as instâncias europeias acerca desta matéria.

Provavelmente, quando o voto dos nossos deputados se revelar determinante na aprovação do Programa de Governo ou no Orçamento do Estado, as negociações com a Região irão trazer importantes benefícios para os madeirenses e porto-santenses.

Entretanto, andamos ao sabor dos humores do Terreiro do Paço, visceralmente afectado pelo centralismo e sempre desconfiado das Regiões Autónomas, com a agravante do Governo Regional, ainda traumatizado com o modelo disforme que ajudou a parir – «trapalhada política», segundo Miguel de Sousa (DN, 31-03-2018) – e durante muito tempo o defendeu com unhas e dentes, nada parecer conseguir na revisão deste modelo, numa acanhada e, porventura, inábil negociação, apesar de muitas vezes ter sido afirmada, por ambas as partes, a necessidade de encontrar uma solução conjunta.

 

Bibliografia:

BERENGUER, Márcio – Apoio do Estado para viagens entre continente e ilhas triplicou no último ano. Público. Lisboa. (30 Maio 2017). Consultado em 22-05-2018: https://www.publico.pt/2017/05/30/economia/noticia/apoio-do-estado-para-viagens-entre-continente-e-ilhas-triplicou-no-ultimo-ano-1773034

CARDOSO, Francisco José – O estado quer dar 15 milhões à Madeira para a mobilidade. Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 593 (31 Março 2018) 4-5.

EUROPA PRESS – El presidente del Gobierno y Román Rodríguez, líder de Nueva Canarias, rubrican en la capital grancanaria el acuerdo para el apoyo nacionalista a las cuestas para 2018. Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 713 (20 mayo 2018) 6-7.

FRESNO, María; GRILLO, Moisés – Transporte: Acuerdo Historico para Canarias: Nueva Canarias consigue un “logro historico” para el Archipiélago al incluir en el REF la bonificación al transporte aéreo y marítimo del 75%, que comienza en verano. Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 709 (16 mayo 2018) 3.

GRILLO, Moisés; FRESNO, María – Transporte: Acuerdo Historico para Canarias: El acuerdo incluye una demanda historica de los sectores de la industria y la agricultura… Diario de Avisos. Santa Cruz de Tenerife. Siglo III, n.º 44 709 (16 mayo 2018) 4-5.

SOUSA, Miguel de – Subsídio de mobilidade… quo vadis? Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 593 (31 Março 2018) 29.

Funchal Notícias. 23 Maio 2018

Mobilidade: o exemplo das Canárias

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Diário de Notícias. Funchal. 142: 46 587 (25 Março 2018) 9. [Secção “Observatório”, assinada pelo jornalista Roberto Ferreira]

  1. Qual a pertinência desta iniciativa para o desenvolvimento da Região?

A comemoração de uma efeméride histórica pode, sem dúvida, promover o desenvolvimento da Região, principalmente nos domínios cultural e turístico. Mas para tal é necessário um programa inovador, arrojado, e uma promoção adequada. Incluir, no programa, como tem vindo a público, eventos, que há muito já se realizam, como, por exemplo, o espectáculo pirotécnico do fim do ano, o Carnaval ou o festival Colombo, nada acrescenta. Ir debitando ideias à medida do interesse político-partidário, para satisfação de eventuais clientelas, em nada resultará. Precisam-se ideias novas e gente nova para que a efeméride possa acrescentar algo de novo. É importante privilegiar o concurso público com júris idóneos e não continuar com a prática das tradicionais encomendas pelos habituais encomendadores.

  1. Que reflexão deve ser feita nestes três anos?

 

A primeira reflexão deveria ser, à luz da historiografia, sobre o objecto da celebração, a fim de se evitar a repetição de erros grosseiros sobre o “descobrimento” do arquipélago. Infelizmente, a maioria dos decisores tem como leitura básica o velho ‘Elucidário Madeirense’, elaborado nos anos 20 do século passado e ligeiramente revisto na década de 40 do mesmo século. E assim continuam com a fastienta cantilena de 1418 para o Porto Santo e 1419 para a Madeira. Assinalar uma efeméride histórica implica conhecimentos de História. Uma segunda reflexão deveria passar pela associação da comemoração à promoção e valorização da identidade regional, com todas as implicações daí decorrentes, em especial no âmbito da educação cívica dos madeirenses e porto-santenses e no debate autonómico. Finalmente, pensar que a celebração exige obra que perdure no tempo e que o efémero facilmente se apaga.

  1. Do que se conhece do programa ele é suficientemente aglutinador?

Começou mal. Apresentar publicamente o programa comemorativo dos 600 anos do “descobrimento” do arquipélago da Madeira, sem nunca ter reunido o conselho consultivo da respectiva estrutura de missão, onde estão os representantes da assembleia regional e dos municípios da Região, não me parece ser prática democrática, por desrespeitar os poderes legislativo e municipal. O que se conhece do programa é muito pouco e trivial. É preciso concretizar o que aponta a Resolução n.º 243/2017 e não reproduzir princípios. A envolvência pretendida passa por ouvir pessoas de diferentes áreas e sensibilidades, pedir o seu contributo a nível de ideias, e depois, então sim, elaborar um programa. Dá-me a ideia de que o trabalho de casa ficou por fazer. No início dos preparativos das comemorações do Quinto Centenário da cidade do Funchal, Virgílio Pereira procurou ouvir muitas pessoas. Com diversos contributos, o programa foi nascendo e, na verdade, revelou-se bem-sucedido. Um exemplo a seguir, no meu entender.

 

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O contributo do Padre Pita Ferreira para a histotiografia madeirense

Conferência integrada no ciclo de conferências temáticas sobre a obra do Padre Pita Ferreira

Museu de Arte Sacra do Funchal: 22-02-2018, 15:30 h.

RESUMO

Nos anos cinquenta do século passado e inícios da década seguinte, o padre Pita Ferreira (1912-1963) publicou diversos estudos sobre a História da Madeira, em especial sobre o património cultural e a problemática do descobrimento e povoamento do arquipélago madeirense.

Procurou sempre fundamentar as suas hipóteses e conclusões em fontes documentais impressas e manuscritas credíveis, profusamente transcritas. Algumas das suas opiniões vieram, porém, a ser fortemente contestadas, nomeadamente pelo visconde do Porto da Cruz (1890-1962) e pelo padre Eduardo Clemente Nunes Pereira (1887-1976), que chegaram a utilizar argumentos políticos para denegrir o seu labor historiográfico.

Contudo, Pita Ferreira contra-argumentou vigorosamente, valorizando a sua investigação e o rigor documental que o animava. Na convicção de que muito havia a rever na historiografia madeirense à luz dos documentos, sugeria aos seus detratores que seguissem outro rumo, pois, no seu entender, a crítica moderna «exige que se consultem e citem as fontes, que se tomem precauções contra aqueles que escreveram sem indicar os documentos de que deitaram a mão, que se transcrevam, muitas vezes na íntegra, os documentos citados, que as hipóteses sejam fundadas em factos verdadeiros, que as conclusões sejam lógicas […]» (Ferreira, 1959, p. XIV).

Nelson Veríssimo

Referências na imprensa:

FIGUEIREDO, Susana de – Museu de Arte Sacra encheu para ouvir Nelson Veríssimo. JM. Funchal. II: 904 (23 Fev. 2018) 30.

HENRIQUES, Paula – Padre Pita Ferreira e a historiografia contra-corrente. Diário de Notícias. 142: 46 556 (22 Fev. 2018) 33.

PESTANA, João Filipe – Museu de Arte Sacra acolhe conferência de Nelson Veríssimo. Diário de Notícias. 142: 46 551 (17 Fev. 2018) 33.

ROCHA, Luís – Nelson Veríssimo encheu sala no Museu de Arte Sacra com conferência sobre o Padre Pita Ferreira. Funchal Notícias. 22-02-2018.

Nelson Veríssimo encheu sala no Museu de Arte Sacra com conferência sobre o Pe. Pita Ferreira

 

 

 

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DESCOBRIMENTO E POVOAMENTO DO ARQUIPELAGO DA MADEIRA

VERÍSSIMO, Nelson – Descobrimento e povoamento do arquipélago da Madeira. In FRANCO, José Eduardo, dir. – Grande Dicionário Enciclopédico da Madeira. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, [2016]. ISSN 1647-8088. vol. antezero, p. 18-22.

 

 

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A Assembleia Municipal de Machico iniciou, no passado dia 2, um debate público acerca do «dia do concelho», procurando ouvir a população sobre a continuidade ou a alteração da respectiva data.

Presentemente, esta comemoração ocorre no dia 9 de Outubro, coincidindo com a Festa do Senhor dos Milagres. Não foi feliz opção, creio que feita em 1977, e enquadra-se dentro do espírito do Decreto 38 596, de 4 de Janeiro de 1952, que preconizava o feriado municipal no dia de uma festa tradicional e característica do concelho.

A ideia de alteração da efeméride, escolhida para assinalar o «dia do concelho», vem sendo acalentada por vários edis e deputados municipais, pelo menos desde os finais dos anos oitenta do século passado.

A memória da fatídica aluvião de 1803, através da veneração da escultura do Cristo, arrastada pela torrente para o mar e, anos depois, das águas retornada à sua capela, pela determinação da Misericórdia de Machico, quando na Sé lhe queriam dar guarida, pela sua própria natureza – «festa de tristeza e de sentimento», diz o povo –, impede a Câmara de assinalar o «dia do concelho» (ou a «semana do concelho») com um amplo programa festivo, como é comum noutros municípios.

Fachos. Procissão do Senhor dos Milagres, Machico. Foto: http://www.jornaldamadeira.com/2017/10/08/machico-celebra-festa-do-senhor-dos-milagres/

Nove de Outubro é, popularmente, o «dia do Senhor dos Milagres». A tradição e a devoção, o luto e a esperança renovam-se, em cada ano, na procissão da véspera e no pagamento das promessas. Machico converte-se em lugar de peregrinação com madeirenses de toda a ilha e também emigrantes, que, por fé ou outro qualquer motivo, que não importa indagar, se deslocam para a Festa do Senhor dos Milagres.

No dia 9 de Outubro, só as autoridades municipais e os representantes do poder regional ou central celebram o dia do concelho de Machico. A sessão é solene, mas outra solenidade amortalha o «dia do concelho».

Compreende-se que o «Dia do Senhor dos Milagres» continue a ser feriado municipal. Mas mostra-se pertinente arranjar outra data para assinalar o «dia do concelho». Não seria situação inédita. Em Santa Cruz, por exemplo, o feriado municipal não coincide com o «dia do concelho».

Não somente por razões laicas, o «dia do concelho» deve ser alterado. Há também motivos de ordem cultural, económica e turística. O «dia do concelho» noutra data permitiria a organização de uma semana festiva e cultural, que se poderia tornar um evento com repercussões económicas semelhantes à Semana Gastronómica.

Qualquer mexida em dias consagrados aos municípios gera controvérsia. Logo o boato invade o território. Já se diz que «querem tirar o Senhor dos Milagres» e outros disparates sub-repticiamente alimentados.

A pretendida mudança não constitui, por certo, prioridade municipal. Mas, sem dúvida, é pertinente e boa para o concelho.

Duas datas significativas parecem merecer algum consenso na almejada alteração: o 8 de Maio, alusivo à carta de doação da capitania de Machico a Tristão, e o 2 de Julho, dia provável do desembarque dos povoadores portugueses, que, sob a autoridade de Zarco e a mando do rei D. João I, ocuparam o arquipélago madeirense.

O 2 de Julho tem vindo a ser comemorado pela Junta de Freguesia desde 1976, nalguns anos com a oposição das forças de direita, e é hoje o «dia da freguesia» de Machico. Associar o «dia do concelho» a esta efeméride poderia ser vantajoso no âmbito das comemorações dos 600 anos do «descobrimento» e povoamento do arquipélago da Madeira.

O 8 de Maio representa a implementação jurídica de uma instituição, que marcou a Expansão Portuguesa e, em Machico, teve a sua primeira formalização oficial. O 8 de Maio de 1440 está, temporalmente, mais próximo da fundação do concelho de Machico, cuja data desconhecemos. Todavia, a capitania simboliza o poder senhorial e não o poder municipal.

A alteração do «dia do concelho» é uma decisão política. Deve, no entanto, referir-se a uma efeméride com particular significado na História local ou ser um dia tradicionalmente assinalado no quotidiano do concelho e reconhecido em todo o seu território. Caberá a Machico decidir.

 

Funchal Notícias. 7 Fevereiro 2018

Machico: o ‘dia do concelho’ em discussão

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Analisar, sobre a hora, os resultados das eleições autárquicas na RAM é um risco, mas também um desafio interessante. Eventuais falhas poderão vir a ser corrigidas, caso se justifique.

Foram eleições muito disputadas, com muitas candidaturas partidárias, algumas de grupos de cidadãos, encabeçadas, na Ribeira Brava e Santana, por dissidentes do PSD, e muitos candidatos. Esta dinâmica gerou maior afluência às urnas do que no sufrágio de 2013.

Verifica-se que as recandidaturas foram bem-sucedidas, o que vem confirmar aquele princípio de que, raramente, perde quem detém o poder e apresenta trabalho positivo, reconhecido pela população. Foi o caso da Calheta e Câmara de Lobos (PSD), Funchal (“Confiança”), Ribeira Brava (“Ribeira Brava Primeiro”), Santa Cruz (JPP), Santana (CDS), São Vicente (“Movimento Unidos por São Vicente”), Machico e Porto Moniz (PS).

No caso do Porto Santo, a recandidatura socialista não teve êxito, mas isso deve-se, por certo, ao mandato atribulado de Filipe Menezes e, em especial, aos frequentes conflitos com a Assembleia Municipal. A experiência autárquica, a afabilidade e a serenidade de Idalino Vasconcelos contribuíram para a sua vitória, embora sem maioria absoluta.

As opções do PSD, quanto à recuperação do poder autárquico e da presidência da Associação de Municípios da RAM, falharam quase na totalidade. Assim aconteceu no Funchal, Machico, Ponta do Sol, Porto Moniz, Ribeira Brava, Santa Cruz e Santana. Esta situação deverá levar o PSD a retirar as devidas ilações quanto à escolha dos cabeças de listas e demais candidatos, pois não basta apresentar caras novas ou figuras com notoriedade, mas, sobretudo, exige-se trabalho reconhecido e ligações profundas com o meio, não desprezando também quem anteriormente desempenhou funções autárquicas com satisfação dos munícipes. O concelho da Ribeira Brava é, neste âmbito, um caso paradigmático.

Por outro lado, mesmo sendo estas eleições autárquicas, o PSD deverá reflectir sobre a sua acção enquanto poder regional e, em particular, acerca do seu relacionamento com os madeirenses e porto-santenses, pois a sociedade actual está mais informada, dispõe das redes sociais e dificilmente voltará a aceitar o caciquismo, ameaças ou deixar-se seduzir por velhos argumentos, como aquele, por demais ridículo, de que, no seu seio, estão os “competentes” e, do outro lado, os “incompetentes”.

O PS perdeu a Câmara Municipal do Porto Santo e ganhou, sem maioria absoluta, a da Ponta do Sol. Neste município, ocorreu um caso inédito da história da nossa democracia, porquanto Célia Pessegueiro é a primeira mulher madeirense a ser eleita para a presidência de uma câmara da Região. Apesar desta vitória singular e da manutenção de três câmaras socialistas e de uma ganha por uma coligação, que inclui o PS, os objectivos, delineados pelo líder do PS para estas eleições autárquicas, não vieram a ser plenamente alcançados, como, por exemplo, prova o fraco resultado em Santa Cruz.

Já o CDS alcançou melhores resultados do que em 2013, não em número de votos, mas aumentando o seu número de autarcas e passando a governar novas juntas de freguesia.

Para a CDU, o resultado é mau, perdendo o seu vereador na Câmara do Funchal, o que era previsível.

O município do Funchal, com quase metade dos eleitores da RAM requer atenção especial. A Coligação “Confiança” ganhou cinco freguesias (Imaculado Coração de Maria, Santa Maria Maior, São Gonçalo, São Martinho e São Pedro) e o PSD as restantes (Monte, Santa Luzia, Santo António, São Roque e Sé).

O triunfo da “Confiança” deve-se, sobretudo, à popularidade de Paulo Cafôfo e, na minha opinião, não constitui uma vitória do PS, como afirmou, de forma oportunista, o líder do PS no balanço dos resultados eleitorais. Resta saber se a “Confiança” obteve maioria absoluta.

Funchal Notícias, 1 Outubro 2017

Derrota do PSD

 

P. S.

Relativamente ao CDS-PP, há que rectificar a informação acima. De facto, realizado o apuramento total, verifica-se que este partido alcançou, na Regiâo Autónoma da Madeira, menor número de votos e mandatos do que em 2013.

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