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Archive for Outubro, 2007

Só há-de valorizar o património cultural quem dele possuir o devido conhecimento e por ele nutrir verdadeiro e esclarecido afecto.

 

Quando uma comunidade assiste, com indiferença, à destruição de um imóvel de interesse cultural, ainda que se trate de modesto exemplar, denota-se falta de reconhecimento público do valor do bem em causa ou ausência de consciência crítica, e ambas desabonam a democracia instituída.

 

Quando, premeditadamente, alguém destrói ou conspurca o que, com investimento privado ou público, tem sido conservado em nome da salvaguarda da memória colectiva, alguma coisa falhou ao nível da educação.

 

Quando, perante a apatia da maioria dos cidadãos, os poderes públicos autorizam demolições, alterações substanciais da traça ou se demitem das suas competências na área do Património Cultural, em nome de ilusórias noções de progresso e de promessas enganadoras, a sociedade divorciou-se de determinados valores.

 

Quando, irremediavelmente, se perde a memória de tradições e rituais, músicas e danças, usos e saberes, técnicas e costumes sem registo para vindouros, ficou mais pobre uma comunidade.

 

A Educação Patrimonial que, com alguma perseverança, se tem vindo a afirmar desde finais dos anos oitenta do século passado, e que mereceu inclusão no plano curricular de alguns cursos médios e superiores, como, por exemplo, a licenciatura em Ciências da Educação da Universidade da Madeira, procura, num processo interdisciplinar, promover sentimentos de identidade e atitudes de cidadania através do conhecimento do Património Cultural.

 

Estudo, preservação e animação são componentes fundamentais da Educação Patrimonial, que também não busca, somente, o enriquecimento individual, mas, antes, o despertar de uma comunidade para a sua cultura, memória e traços de identidade, através do desenvolvimento da consciência para a preservação da herança colectiva.

 

A inevitável globalização vai propagando a homogeneização dos valores culturais, assim como o aniquilamento das culturas tradicionais. Cerrar, lunaticamente, fileiras contra a globalização é uma causa perdida. Contudo, assumir a singularidade cultural e promovê-la, com os poderosos meios que actualmente dispomos, mostra-se de importância vital. Só assim será preservada a diversidade cultural que constitui timbre da nossa civilização.

 

A Educação Patrimonial, neste contexto, deve também ajudar a promover o uso sustentável dos recursos do Património, tendo em vista o desenvolvimento económico e social das comunidades locais.

 

Assim, a Educação Patrimonial não se poderá limitar à Escola, enquanto lugar privilegiado da aprendizagem. Há, igualmente, que promover projectos educacionais desta índole com as comunidades. Só, deste modo, as populações se apropriarão e fruirão, de forma consciente, do seu património, principalmente do móvel e imóvel.

 

A Educação Patrimonial fomentará também a preservação e o registo do património imaterial, a sua compreensão e divulgação em contextos dignos do seu real valor e dimensão, não se compadecendo com recriações infelizes para consumo de turistas propensos ao deslumbramento diante do exotismo camponês, exibido, desajeitadamente, no espaço urbano.

 

Projecto educacional desenvolvido a partir do Património Cultural, a Educação Patrimonial promove a identidade e visa a revitalização da herança cultural, através do conhecimento, da preservação, da animação e da consciência crítica e responsável que nos torna cidadãos mais activos e também mais próximos das nossas raízes, numa interacção proveitosa com o meio onde nascemos ou vivemos. 

 

Diário de Notícias, Funchal, 7 de Outubro de 2007

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