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Archive for Dezembro, 2019

Vicejam searinhas nas lapinhas. No verde tenro, gotinhas de água a tremuluzir. Quem as contempla, diz que se cumpriu a tradição ou que procurou fazer o mesmo que os seus pais e avós. E os gestos repetem-se por quem não aprecia arremedos pirosos de searas em plástico.

Searinhas de milho. Foto: © Nelson Veríssimo, 2019.

No dia de Nossa Senhora da Conceição, põe-se o milho a hidratar. Na primeira Missa do Parto, o trigo, a lentilha, o tremoço, a alpista ou o chícharo. Quando começam a germinar, plantam-se as gramíneas ou as leguminosas em pequenos vasos de barro com terra, que são regados amiúde. Pela Festa, as searinhas já crescidas são colocadas na lapinha.

Searinhas de trigo. Foto: © Rui Marote, 2019.

Searinhas verdejantes e densas são bom augúrio. Bom é que pormeneçam – diz-se na ilha. Dá sorte… Para o ano, todos cá estaremos…

O verbo pormenecer, sinónimo de crescer, foi registado por Eduardo Antonino Pestana em Linguagem Popular da Madeira (1970) e continua a ser usado.

Na literatura madeirense, abundam referências sobre as searinhas da Festa. Albino de Meneses faz alusão ao «trigo verde» (1925). Cabral do Nascimento escreveu que «sobre a mesa, rodeando a toalha de linho, corre uma fila de searas dentro de xícaras – trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal modo que formam como que um bloco duro e redondo.» (1950). Horácio Bento de Gouveia observou «tigelas com trigo espigante» (1949). Para João Carlos Abreu, as searas anunciam o Natal: «É Natal, mãe! / As searas cresceram. Os sinos estão / a tocar. / É Natal na cidade…» (1977). António Fournier serviu-se de uma metáfora bem expressiva: «uma cortina espessa de searas viçosas» (2007).

Há, por vezes, a tentação ingénua de considerar este costume natalício como tradição genuína ou tipicamente madeirense. Na realidade, tal não corresponde à verdade.

As searinhas fazem-se em muitas terras e até em diversas ocasiões do calendário de festividades. São reminiscências de antigos ritos agrários e cultos de fecundidade. Dádivas na esperança de boas e fartas colheitas.

Maria Vitória Afonso, em Contos e vivências do Sudoeste Alentejano, deixou testemunho sobre searinhas de trigo, cevada e cizirão na sua freguesia natal, Colos, no concelho de Odemira. Depois do Natal, eram lançadas nas sementeiras para que o Menino Jesus as abençoasse e proporcionasse boa colheita. Noutras terras alentejanas, ocorre este costume, como, por exemplo, em Elvas.

Idêntica prática também se verifica no Algarve, onde a escadinha do Menino Jesus é ornamentada com laranjas e searas de trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico.

A escritora e professora Teresa Rita Lopes, natural de Faro, em «O meu Natal de antigamente», poema publicado em Afectos (2000), recordou: «Quando eu era menina / não havia Pai Natal nem Árvore de Natal. / Armava-se o presépio com chão de musgo / rochas de cortiça virgem ervas a valer / pedrinhas de verdade / e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias / no dia 8 de Dezembro / e eram o pequeno milagre o primeiro / a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.»

Nos Açores, encontramos também searas nos altarinhos do Menino Jesus ou nos presépios: «Entre o dia de Santa Bárbara e o da Imaculada Conceição, ou então no dia de Santa Luzia, coloca-se a grelar em tigelas e pratinhos, ervilhaca, trigo, milho, tremoço e alpista para, juntamente com laranjas e tangerinas, enfeitar o presépio ou o altar do Menino Jesus.» (Açoriano Oriental, 23-12-2012)

José Miguel Alzola, na obra La Navidad en Gran Canaria (1982), afirmou que no dia de Santa Luzia, 13 de Dezembro, era habitual semear trigo, alpista e lentilhas em recipientes de reduzido tamanho e pouca altura. Este costume – la siembra – teria vindo da ilha da Madeira e constituía a primeira tarefa na preparação dos nacimientos.

Em França, na Provença, há a tradição de le blé de la creche ou le blé de la Sainte Barbe, por ser o trigo plantado em três tacinhas no dia dedicado a esta Santa, ou seja, 4 de Dezembro. Associada a esta prática estava a antiga crença de que trigo bem germinado era sinal de ano próspero (Quand le blé va bien, tout va bien !). As três searinhas (alusão à Santíssima Trindade) ornamentam a mesa da consoada e do dia de Natal e são colocadas no presépio somente no dia 26, aí permanecendo até ao dia de Reis.

Falando destas usanças com a minha colega Mahnaz Khadem, professora e investigadora da Faculdade de Ciências da Vida, da Universidade da Madeira, fiquei a saber que no Irão também se fazem as searinhas para ornamentar a mesa do Ano Novo (Haft sin), celebrado no dia da chegada da Primavera (equinócio de Março). A searinha de trigo, representando o renascimento, é um dos sete elementos tradicionais, cada um com o seu significado simbólico, do Haft sin, conjuntamente com a maçã (saúde e beleza), o vinagre (longevidade e paciência), pasta de trigo (nova vida), bagas (amor), moedas (prosperidade), alho (cura das doenças). Com frequência, o vinagre é substituído por uma especiaria (sumak), que simboliza a vitória do bem contra o mal.

‘Haft sin’, de Khatereh Hashemian. Foto: © Gentileza da Prof.ª Mahnaz Khadem.

O costume das sementes germinadas em épocas assinaladas remonta a tempos anteriores ao Cristianismo. No Egipto Ptolemaico (canteiros de Osíris) e na Grécia Antiga (festivais em honra de Adónis) podem estar as raízes do que hoje denominamos de searinhas. Em algumas localidades italianas, não faltam no dia de São José ou na Páscoa. Pode-se assim concluir que as searinhas da lapinha madeirense, introduzidas no arquipélago pelos povoadores portugueses, provêm de usos de civilizações antigas incorporados na tradição cristã, e que ainda hoje se manifestam em diferentes espaços geográficos e em diversas festividades cíclicas, com um simbolismo próprio.

Funchal Notícias. 25 Dezembro 2019

As “searinhas” da Festa

 

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