Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Dezembro, 2009

Ouça música!

H. Memling, Cristo rodeado de anjos músicos (1480-81)


Entregava a refeição e, com sorriso farto, recomendava: «ouça música!». Anos seguidos a preparar almoços, naquela cantina, faziam com que conhecesse até as quantidades desejadas por muitos dos clientes habituais, para além de, por vezes, adivinhar sentimentos que o Inverno não conseguia enregelar.

A alegria da cabo-verdiana enchia o balcão. Imparável, transbordava pela sala, nesse dia pouco frequentada.

«Ouça música!» Diante de um mínimo gesto de surpresa, descrença ou relutância, justificava o seu voto natalício: «Olha que faz bem, é o melhor. Não apanha nervos!»

Retribuí-lhe as boas festas no ano passado. «Ouça música!» A frase afundou-se em mim, perfurante.

Não ligar às muitas questões preocupantes do dia-a-dia poderá, para alguns, ser o caminho da felicidade. Há, por isso, quem se alheie dos problemas ou recuse falar de determinados assuntos na ânsia do seu esquecimento definitivo. Outros não se importam com injustiças ou dificuldades à sua volta, e, sem engulhos, de tudo tiram partido em proveito próprio.

Para essa alienação ou oportunismo, concorrerá, por certo, boa porção de falta de consciência, seja ela moral, cívica, religiosa ou social.

Recordar e esquecer são faculdades de grande importância para a nossa sobrevivência. A cada um caberá geri-las, desde que isso esteja ao seu alcance.

Neste tempo da Festa, tudo se conjuga para colocar de lado coisas menos boas e deixar-se arrastar pela folia natalícia. Prendas, convívios, ementas especiais ou troca de mensagens afectuosas ajudam a esquecer amarguras.

Na verdade, nós construímos o Natal. O da ilha ou de outro qualquer lugar procede da imaginação de homens e mulheres de boa vontade que, ao longo de várias gerações, quiseram inscrever no calendário um tempo diferente, de tréguas, concórdia, solidariedade, amizade, tolerância e generosidade, associado ao nascimento de Cristo.

O Cristianismo transformou a Humanidade. O nascimento do Deus Menino é, pois, acontecimento indelével, embora, historicamente, se saiba tão pouco sobre a efeméride hoje lembrada.

A Igreja institucionalizou a Boa Nova. Daí advieram grandes benefícios e numerosas desgraças para a Humanidade. Escolas, hospitais, alimentos, progresso… – ao serviço do Senhor. Guerras, perseguições, tortura, censura, apropriação de terras… – em nome do Redentor.

Com efeito, somente o bem, a justiça e a paz se harmonizam com as vozes de esperança do Natal, antecipadas pelo Magnificat, de Maria: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. / Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu-os com as mãos vazias.»

Contudo, a dialéctica do bem e do mal, das memórias gratas e dos dias horríveis, do recordar e do esquecer, divide-nos.

A música, recomendada pela ajudante de cozinha cabo-verdiana, não era, disso tenho a certeza, incentivo à alienação ou sinal de desprezo pelo infortúnio de muitos na época do Natal.

A música envolve. Conduz-nos a outra dimensão. Proporciona prazer infindo. Alivia a dor. Desaloja a tristeza. Na verdade, ilumina a vida.

O Natal é também tempo de música. No presépio, os anjos entoaram um hino de louvor. Aos pastores anunciaram uma grande alegria. A benevolência divina contemplava os pobres e os humildes.

Talvez, sem que disso tivesse plena consciência, a mulher que, com alegria esfuziante e grande naturalidade, distribuía pratos e música, também estava perto da manjedoira, entre pastores e anjos músicos, ajudando a sarar feridas que o Natal não deveria abrigar.

«Ouça música!»

 Diário de Notícias, Funchal, 25 de Dezembro de 2009

Anúncios

Read Full Post »

Natal de bronze


Por fim, o descobridor juntou-se aos demais. São Francisco, o Infante e o Semeador já esperavam.

A ideia partira do Santo. No jardim, onde antigamente tinham casa os seus irmãos, ouvia, inquieto, vozes e cânticos franciscanos. Sentia rumor de procissões todo o ano. Cheirava-lhe ainda a incenso. Lembrava-se da noite em que construiu um presépio espectacular no bosque de  Greccio.

Todos os dias vinha ao jardim um homem vestido de negro, bastante sujo. O seu cabelo parecia lã antes do mês das tosquias, em dias lamacentos. Debaixo do braço, transportava sempre um maço de papel. Sentava-se na relva e escrevia ou fingia escrever. Ninguém decifrava os seus manuscritos. Grafismos esquisitos e enormes gatafunhos enchiam folhas e folhas de papel enegrecido.

O Santo olhava-o e comovia-se. Parecia um leproso que por ali passava, tal a relutância com que muitos se desviavam dele, agastados com o incómodo. Tanto pensou e cismou o Santo, que levou o seu plano por diante.

Pela calada, um dia chamou o cabeludo. Quase atraído magneticamente, o homem foi-se aproximando da estátua. Vagarosamente e a custo, o Santo estendeu o braço e esticou a mão que abençoava. Pediu-lhe uma folha de papel e redigiu breve mensagem. Ao cabeludo, encarregou ser portador daquelas palavras. Que se reunissem os bronzes da cidade, pois haveria Natal.

O Semeador e o Infante partiram cedo, temendo o trânsito mais intenso ao fim da tarde. São Francisco arrastando as sandálias lá foi caminhando e chegou antes de Zarco se decidir. O navegador e descobridor, nascido do cinzel de Franco, apeou-se finalmente do pedestal.

O Santo conduzi-os pela cidade até ao alto de Santa Catarina, onde a capitoa D. Constança tinha mandado erguer, piedosamente, uma capela à mártir da fé cristã.

S. Francisco sentou o Infante à direita e pediu que Zarco se prostrasse à ilharga, tal como um pastor em longas noites de lua cheia para vigilância do gado.

Depois, ajudado pelo cabeludo, com algumas madeiras fez uma manjedoura.

Sem que ninguém desse por isso, apareceram ovelhas, uma vaca e um jumento. Zarco cuidava agora do rebanho.

Faltava a mãe. Então Santa Catarina de Alexandria, padroeira dos filósofos, desceu do altar e aproximou-se. Se tinha conseguido enfrentar o Imperador Maximino, que com ela queria casar, e manter-se firme diante da roda da tortura, bem poderia colocar-se ao lado do Infante, de quem se diz nunca ter conhecido mulher.

O luar recortava sombras no parque. A luz escoava entre ramos de árvores e descobria quem se encontrasse ao seu alcance. O Santo, afanosamente, procurava compor o quadro. Colombo não quis participar do cenário de Belém, mas indicou um menino que dormia à sombra de um arbusto, na sua vizinhança. Francisco levantou-o da noite e da moita e maternalmente estendeu-o sobre a manjedoura. Por baixo, arrumou a caixa de cartão que o garoto parecia querer sempre agarrar, ainda que a dormir.

De repente, acenderam-se velas no altar e despertaram os pássaros nas copas das árvores, como se fosse o amanhecer. Quem dormia no parque, também acordou. Todos se dirigiram à porta da velha ermida. Zarco, o Infante, São Francisco e o Semeador, Santa Catarina, a meio da noite, mas parecia manhã. Havia tanta luz, mas faltava o sol, ainda pequenino a romper o Garajau.

O cabeludo escrevia, mas a crónica do acontecimento não ficaria nas suas páginas. Enquanto o lápis continuava a deslizar estonteante nas folhas da sua história, ele ria cada vez mais alto. Até que o santo se levantou e cantou. O sino da capela começou depois a tocar. As badaladas sucediam-se com cadência.

Os do parque trouxeram flores. Pela escada, ruidosamente, subia o trabalhador. Encostara a picareta que há tantos anos segurava. Rompera montanhas, desenhara poios e levadas da sua desventura.

Dos olhos do Santo saía luz, como se pela primeira vez chegasse à ilha e repetisse o gesto dos padres que benzeram a terra. Zarco ainda se recordava desse ano e do primeiro Natal. Choviam lágrimas de lembranças.

O Semeador lançou sementes. A criança acordou e logo se lembrou da caixinha. E atirou moedas. Flores, sementes e dinheiro. Novas espigas cresceriam no chão fértil se o bronze não abafasse a seara tenra, disse o Santo. O cabeludo sorria e continuava a riscar vivamente, sem nunca parar. Traços de luz enchiam agora as quadrículas das páginas do seu desventrado bloco.

Diário de Notícias, Revista, Funchal, 17 de Dezembro de 1995

 

 

Read Full Post »

Escadinha, Sítio das Carreiras, Funchal. © Rui Camacho, 2006.


Suspenso de um prego espetado na viga do tecto, mesmo por cima das pipas, repousava, quase todo o ano, velho cesto de vimes com pequenos vasos de cerâmica e alguns recipientes de vidro.

Ninguém se atrevia a empoleirar-se num banco ou num cesto de vindima para deitar a mão àquelas cobiçadas quinquilharias, animado por uma brincadeira qualquer. Eram da lapinha. Para a Festa haveriam de ter o seu uso.

Pela Senhora da Conceição, meu avô partia o último bolo de mel, bem guardado na velha caixa de folha, que antes fora de bolachas. Reservado religiosamente para aquele dia, conservava ainda o sabor e a textura peculiares. Estava, enfim, aprovada a amassadura do ano anterior.

Para acompanhar o bolo, o licor de tangerina da Festa passada também era apreciado, pelos adultos, naturalmente. Os pequenos regalavam-se com a laranjada.

Nesse primeiro dia da Festa, uma mão-cheia de grãos de milho era atirada para uma taça de faiança Sacavém com água bem fresca. E o milho ficava de molho até grelar. Depois plantava-se nos cantarinhos.

Na primeira Missa do Parto era a vez do trigo, centeio, lentilha, alpista, grão-de-bico ou tremoços. O processo era o mesmo. Mal começava a germinar, ia para os vasos cheios de terra escolhida nas mantas de bananeiras. Só a lentilha tinha direito aos pequenos recipientes de vidro. «Dava-se bem ali!» – e não havia lugar a outras explicações.

Abrigadas, de início, em lugar de pouca luz e, só a meio crescimento, expostas ao sol, se o tempo assim permitisse, pela Festa a lapinha era sempre guarnecida com searas viçosas.

As searinhas do Natal ou de outras festividades cíclicas são resquícios de antigos rituais associados à terra, colheitas e fertilidade.

Ainda, nos nossos dias, há quem veja, nas searinhas verdejantes, augúrio de bons tempos. No passado, dizia-se que, nas searinhas da lapinha, o Menino Jesus abençoava as searas e, por conseguinte, a colheita de cereais seria abundante.

Apesar da beleza e do profundo significado deste costume natalício, nos últimos anos, sem que disso houvesse necessidade, começaram a surgir «searas artificiais» entre os enfeites da época. Ao que parece, estas imitações pirosas até se vendem bem, principalmente aos que renegam a tradição na ansiedade consumista ou na sorna comodista.

Mas pior é verificar que, infelizmente, em algumas escolas do 1.º ciclo do ensino básico a lapinha, armada para ou pelos alunos, ostenta foleiras «searas de plástico», perdendo-se, sem desculpa alguma, oportunidade rara para estudar e recriar a tradição e, em simultâneo, promover o conhecimento da germinação de gramíneas ou leguminosas, em actividades interdisciplinares do âmbito do Estudo do Meio.

Se, na sua própria casa, cada um coloca o que bem quiser, incluindo as tais «searas artificiais», a Escola deve, no entanto, assumir outra postura relativamente a um tempo dominado pela imagem da tradição e que dispensa artificialismos grosseiros.

Contudo, será sempre legítima a pergunta: se se tolera e até se incentiva, em termos ecológicos, a utilização de uma árvore de plástico, por que razão não se admite a «searinha artificial»?

Por mim, a explicação habita naquele cesto pendurado no telheiro da casa onde nasci. Imagem que percorre uma vida. Prática que deslumbrava e contagiou para sempre. Fascinante mistério da germinação, adensado na lapinha. O verde benzido. Iluminado pela lamparina de azeite, tremeluzente, a agigantar searas nas paredes da sala, num jogo de sombras agasalhado na memória.

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Dezembro de 2009

Read Full Post »