Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2008


No próximo dia 6, comemorar-se-á o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira (1608-1697). Ler a sua obra constitui a melhor homenagem ao insigne pregador da Companhia de Jesus que, com admirável coragem, tratou de causas incómodas para o poder político e a Igreja Católica, como, por exemplo, a liberdade dos indígenas do Brasil, a condição dos escravos africanos, os abusos dos colonizadores, a perseguição dos cristãos-novos e os excessos do Tribunal do Santo Ofício.

 

Nas vésperas de tão importante efeméride, pareceu-me oportuno recordar o único sermão que Vieira pregou em Coimbra, quando se encontrava a contas com a Inquisição.

 

Foi a 25 de Novembro de 1663, na Universidade. Não escolheu tema especial para tão ilustre assembleia. Acomodou-se à celebridade do dia e falou de Santa Catarina de Alexandria.

 

Lembrou Vieira o papel invulgar da mulher que desafiou o imperador Maximino e, com fé, inteligência, sabedoria e notável capacidade de argumentação, convenceu e converteu os cinquenta filósofos, chamados ao Paço, para uma discussão acerca da verdadeira existência de um ou de vários deuses.

 

Proclama a tradição que Catarina se apresentou, perante os filósofos, com um porte majestoso, mas com tão suave modéstia e compostura, tendo rebatido todos os argumentos com fundamentos concludentes e claros. Vieira, no seu sermão, exaltou o “peso das suas razões”, a “subtileza do seu engenho” e a “eloquência mais que humana”.

 

Apesar dos artifícios da oratória barroca, em todo este sermão transparece a admiração do pregador pela sabedoria e eloquência de Catarina. Não admira, pois, discreto reparo a S. Paulo, porquanto o apóstolo não consentia que a mulher ensinasse e preconizava que ela permanecesse em silêncio.

 

Na última parte do sermão, Vieira exortou os doutores de Coimbra a imitarem os filósofos vencidos, que demonstraram docilidade e constância. Docilidade é a aptidão para aprender. Os sábios imperiais renderam-se à doutrina brilhantemente exposta pela jovem Catarina e, até à morte, perfilharam-na, não temendo a prometida vingança do imperador.

 

Para Vieira, docilidade é sinónimo de ciência. Exorta, por isso, mestres e doutores a imitarem aqueles filósofos que confessaram publicamente a sua ignorância, deixaram de sustentar os dogmas das suas escolas e acolheram a revelação cristã.

 

Na Universidade, observou o pregador várias cadeiras, Teologia, Leis, Cânones, “mas todas são de Medicina, porque todas se ordenam à saúde pública”, concluiu, para logo se interrogar sobre o que “seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste”, através da ambição, da lisonja, do temor e do servilismo ao poder político.

 

Para o Padre António Vieira, pela “perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos”.

 

Grande lição deu à Universidade de Coimbra o Padre António Vieira, num momento particularmente difícil da sua vida. Perseguido pela Inquisição e sem o apoio do rei, pregava, amargurado pela injustiça, e com mais ênfase a denunciava, lembrando como o imperador Juliano, vangloriando-se de douto, “só estimava e premiava os letrados que não conheciam outra lei mais que a da sua vontade”.

 

Acrescentava ainda que outra injustiça maior residia no facto de os “hereges das leis” serem os “aplaudidos de letrados e os reputados por doutos; e pelo contrário os que defendem a razão e pugnam pela verdade, ficam tidos por idiotas e ignorantes”. Recomendava, por conseguinte, ao letrado cristão: “não pretendas parecer sábio diante do rei” (Ecli 7, 5). Sentença que considerava ser digna de gravar com letras de bronze em todas as universidades do Mundo.

 

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Fevereiro de 2008

 

 

Read Full Post »