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Archive for Maio, 2019

Numa época em que se comemoram os 600 anos do Porto Santo e da Madeira, há uma tendência para se falar mais, e também escrever, nos media sobre a História destas ilhas. Surgem ainda indivíduos ou organizações, que se socorrem da História para a realização de projectos artísticos e espectáculos. Tudo isto deveria, em princípio, ser pedagogicamente vantajoso para a cidadania, em especial, para a promoção da identidade cultural e da educação com base na consciência do passado histórico.

Infelizmente, por falta de conhecimentos ou de uma assessoria científica, algumas boas ideias degeneram em falsificações da História.

É certo que, em muitos assuntos, a História não apresenta certezas. Contudo, há matérias onde a especulação não tem lugar ou, pelo menos, está limitada. A historiografia vai, nalguns campos, cimentando conclusões, consensualmente tidas como certas.

O grande equívoco é muitos se armarem em historiadores sem a necessária formação ou sem nunca se terem dedicado ao estudo e à investigação da História. Ainda no passado mês de Fevereiro, ouvi uma senhora deputada afirmar, na RTP-Madeira, que fulano tal era, sem dúvida, uma «individualidade de reconhecido mérito nacional e internacional, no âmbito histórico ou cultural» por ter sido vice-presidente de um determinado órgão de soberania. Como se a carreira política conferisse a alguém tais competências e méritos! Assim sendo, estamos conversados. Adiante.

A História não se assemelha a um terreno baldio, onde alguns se dão ao desplante de entrar e defecar. Entre amigos e conhecidos, é mais ou menos aceitável todos opinarem sobre tudo. Já publicamente, a postura deveria ser diferente: que cada um fale do que sabe.

Seria fastidioso enumerar aqui os muitos lapsos destas comemorações dos 600 anos, mas, para memória futura e para que não se diga que falo sem fundamento, ficam aqui alguns.

«Na rosa dos ventos: Machico à proa». Escultura de Luís Paixão. 2015. Machico – Madeira. Foto: © Nelson Veríssimo.

No dia 2 de Julho de 2015, foi inaugurada uma escultura da autoria de Luís Paixão, promovida pela Câmara Municipal e executada com o apoio de uma cadeia de supermercados, como forma de assinalar o desembarque dos portugueses na baía de Machico. A escultura pretende representar um navegador a colocar um padrão na terra descoberta e intitula-se «Na rosa dos ventos: Machico à proa».

O escultor optou por uma representação realista, com nítida influência da gravura do «Padrão erguido pelos portugueses na foz do rio Zaire», publicada in Quadros da História de Portugal, obra coordenada por Chagas Franco e João Soares, com ilustrações de Roque Gameiro e Alberto de Sousa (Lisboa, 1917).

Não cabe aqui analisar a incrível posição anatómica do navegador, nem sequer as suas estranhas feições ou tão-pouco o traço das mãos. Atente-se, porém, no padrão. Teria sido firmado um padrão em Machico por Tristão ou algum dos seus companheiros de viagem? Elegendo um modelo realista, teria o escultor procurado informação sobre esse pormenor, com elevado relevo na sua obra? O texto, que acompanha a ilustração de Roque Gameiro – fonte provável da sua inspiração –, poderia fornecer-lhe imprescindível esclarecimento.

Na verdade, o assentamento de padrões em pedra, como forma de assinalar a prioridade dos descobrimentos portugueses, iniciou-se com Diogo Cão, na margem sul da foz do Zaire (Padrão de São Jorge), em 1482, por ordem do rei D. João II.

Só na imaginação de Luís Paixão há lugar para um padrão em Machico. Para a História, é uma fantasia do escultor que, no contexto da obra em apreço, constitui um anacronismo. Quando Zarco e Tristão ali desembarcaram, não transportavam padrões.

O Governo Regional criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo» (Resolução n.º 243/2017, JORAM, n.º 71, I Série, de 18 de Abril de 2017).

Esta deliberação governamental é uma malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira.

No dia de Todos os Santos do ano passado, houve um arraial temporão no Porto Santo à conta do sexto centenário do descobrimento da ilha. Para a festa de Todos os Santos de 2018, a Comissão Executiva das Comemorações tomou como verdadeira uma afirmação absolutamente errada de Cadamosto. Este navegador veneziano escreveu, em 1455, que o dito descobrimento ocorreu no dia 1 de Novembro de 1428 e que, por ser dia de Todos os Santos, chamaram a esta ilha Porto Santo. Ora o topónimo Porto Santo existe, pelo menos, desde os anos 70 do século XIV, isto é cerca de 50 anos antes da chegada dos portugueses. Por outro lado, em 1420 já Bartolomeu Perestrelo tinha iniciado o povoamento da ilha. Ademais, se a dita Comissão valoriza tanto as afirmações de Cadamosto, então deveria celebrar os 600 anos no 1.º de Novembro de 2028 e não em 2018. Incongruências de quem não tem respeito pela História! Para cúmulo desta falta de bom senso, impuseram a  esta ilha uma velha estátua do Infante sobre uma palete, a poluir a alameda com bafos saudosistas de representações artísticas colonialistas.

Espero que, no corrente ano, os porto-santenses celebrem, tranquilamente, o dia de Todos os Santos ou do Pão por Deus e, para sempre, nesta data, se esqueçam do descobrimento, em nome da sua História e, em especial, da sua dignidade. Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico – bem se aplica neste caso o conhecido adágio, que radica num sermão de Santo Agostinho.

Em comemorações de acontecimentos ou factos importantes surgem sempre recriações de História ao vivo. A dramatização de um acontecimento histórico deve ser uma encenação com a proximidade possível da realidade passada. Impõe-se, por conseguinte, trabalho de investigação e precisão histórica. No entanto, dois projectos desta natureza, realizados no âmbito dos 600 anos, revelaram falta de rigor científico sobre os acontecimentos representados.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

No Festival Colombo do Porto Santo do ano passado, uma recriação histórica, executada pela Viv’Arte – Laboratório Nacional de Recriação Histórica e adjudicada pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura por 68 000 euros, inventou o casamento de Cristóvão Colombo e Filipa Moniz na praia, celebrado por um bispo, e fez desfilar freiras pelas ruas da cidade. Duas, entre outras, cenas anacrónicas e ridículas. No século XV, a Igreja não permitia casamentos fora de igrejas, capelas ou oratórios. Quando Colombo casou, ainda não tinha sido criada a diocese do Funchal. As freiras viviam em clausura. No Porto Santo não havia conventos! Por fim, mais provável é Colombo ter casado em Lisboa.

Festival Colombo. Porto Santo, 2018.

Recentemente, na Festa da Flor surgiu a baía dos bomboteiros. A ideia foi interessante e o cenário bem conseguido, no contexto do evento. Contudo, a representação dramática destoava. O guião não se adequava à realidade representada. Um bomboteiro não falava como um «vilão». Os rapazes da mergulhança nada tinham a ver com aqueles «actores». Faltou rigor. Bastava ler alguns estudos sobre esta actividade e o texto seria outro. Para começar, aconselharia a leitura de Elisabeth Pestana, Subsídios para o estudo da linguagem dos bamboteiros (Funchal).

«Baía dos bomboteiros». Funchal, Maio 2019. Foto: Joana Sousa, JM, 05-05-2019.

Fico-me por aqui, não por se terem esgotado os exemplos, mas porque o texto vai já longo.

Resta-me a convicção de que estas e outras trapalhadas retiram crédito às comemorações, que deveriam ser encaradas com seriedade e respeito pela História. Também, neste âmbito, se pode aplicar aquele provérbio romano com mais de 2000 anos: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.

 

Funchal Notícias. 22 Maio 2019

 

Nota:

A Câmara Municipal de Machico pagou 18 670,00 € pela concepção da escultura «Na rosa dos ventos: Machico à proa», conforme contrato, por ajuste directo, celebrado em 30 de Abril de 2015.

https://www.racius.com/concecao-da-escultura-na-rosa-dos-ventos-machico-a-proa/

 

Respeitar a História

 

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O historiador madeirense e nosso colaborador Nelson Veríssimo é um dos oradores convidados para uma sessão cultural alusiva aos 600 anos do descobrimento do arquipélago da Madeira, integrada no âmbito das comemorações do 50.º aniversário da Academia de Marinha (1969-2019).

A sessão acontece no próximo sábado, dia 11, pelas 15 horas, no auditório da Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, na Ericeira, com organização da Academia de Marinha e do ICEA – Instituto de Cultura Europeia e Atlântica. Além de Nelson Veríssimo, docente da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da Madeira, foram convidados, como oradores, José Manuel Garcia, António Costa Canas e João Abel da Fonseca.

Após a abertura dos trabalhos pelo presidente do ICEA, José Viegas Freitas, o académico José Manuel Garcia proferirá uma intervenção intitulada “A Madeira e os seiscentos anos do início dos Descobrimentos Portugueses”. Segue-se “Madeira, novo modelo de Expansão”, a alocução do comandante António Costa Canas.

João Abel da Fonseca falará posteriormente, com a palestra “Revisitar o ‘Livro Segundo das Saudades da Terra: em que se trata do descobrimento da ilha da Madeira e suas adjacentes e da vida e progénie dos ilustres capitães delas’, de Gaspar Frutuoso – um autor do século XVI”.

Nelson Veríssimo fará a sua intervenção, intitulada “Descobrimento e povoamento do arquipélago da Madeira”, pelas 17h10, antes do debate.

Após o mesmo, o presidente da Academia de Marinha, almirante Francisco Vidal Abreu, proferirá umas palavras de encerramento.

ROCHA, Luís – Nelson Veríssimo orador convidado pela Academia de Marinha e pelo Instituto de Cultura Europeia e Atlântica. Funchal Notícias. (7 Maio 2019).

Nelson Veríssimo orador convidado pela Academia de Marinha e pelo Instituto de Cultura Europeia e Atlântica

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No primeiro de Maio, o Funchal honra o seu padroeiro, escolhido em 8 de Junho de 1521, quando a peste e a fome assolavam a cidade. Os primeiros casos foram assinalados em 17 de Março desse ano. Todos os que adoeciam, morriam. Diariamente, havia 25 a 30 mortes. O receio do contágio obrigava a rigorosas quarentenas e ao refúgio em lugares não afectados pela epidemia. Tinham já falecido mais de 1600 pessoas.

Sentindo-se impotente, a Câmara deliberou recorrer ao socorro divino. Trataram, pois, os oficiais camarários e os mesteres da eleição de um patrono, a partir de um rol com os nomes de Jesus, Maria, João Baptista e os 12 apóstolos. No sorteio, saiu São Tiago, o Menor, como «protector e rogador a Nosso Senhor por o povo da cidade». Esta notícia foi saudada com o repique dos sinos da Sé e dos mosteiros de São Francisco e de Santa Clara.

Logo a Câmara prometeu edificar uma igreja em honra do apóstolo padroeiro. As obras iniciaram-se em 21 de Julho. Contudo, a falta de dinheiro atrasou a sua conclusão.

Nesse mesmo dia, fez-se uma procissão solene, indo a cidade e o cabido descalços. O mestre-escola carregou o retábulo com a imagem do apóstolo São Tiago. Aconteceu, pois, em 21 de Julho de 1521, a primeira procissão do padroeiro, que saiu da Sé e dirigiu-se ao local onde se haveria de construir o templo prometido.

Por não haver na cidade imagem do apóstolo eleito, a tradição aponta que, na sua devoção, os funchalenses se serviram, com o pragmatismo das dolorosas circunstâncias, de um quadro representando São Tiago Maior, da Igreja de Santa Maria do Calhau, e que hoje se encontra no Museu de Arte Sacra do Funchal.

São Tiago. Segunda metade do séc. XV. Foto: © Museu de Arte Sacra do Funchal

Como algum tempo depois volvesse peste, o capitão do Funchal, oficiais da Câmara, mesteres, cidadãos, povo, deão e o cabido com toda a clerezia reuniram-se, no coro da Sé, em 24 de Janeiro de 1523, e decidiram acabar a obra da «casa» do protector e defensor da cidade. Prometeram ainda, «de para sempre em cada um ano deste mundo», venerarem e festejarem o glorioso Santo no primeiro dia de Maio com procissão solene que sairia da Catedral e dirigir-se-ia à Igreja de São Tiago.

A Câmara Municipal do Funchal, ao longo de quase 500 anos, promoveu regularmente a solenidade de São Tiago Menor, integrando-se os vereadores e demais autoridades civis e militares no cortejo processional.

Horácio Bento de Gouveia, em 1954, descrevia assim a procissão do voto, organizada pela edilidade funchalense: «Lá vão, ao longo das ruas, a cruz das confrarias, os irmãos de opas vermelhas, o Prelado e os sacerdotes, figuras gradas da urbe com suas varas, e um funcionário do Município com a chave da Cidade que será depositada no altar do Santo.» (Diário de Notícias, Funchal, 1 de Maio de 1954, p. 1). De acordo com a tradição, também os vereadores depunham as suas varas no altar de São Tiago Menor.

Procissão do voto. Funchal. Inícios dos anos 70 do séc. XX.

A Revolução do 5 de Outubro interrompeu este costume, sendo retomado já no Estado Novo. Idêntica suspensão ocorreu após o 25 de Abril. Em 1976, por exemplo, resumiu-se a uma missa, mandada celebrar pela Câmara, na Igreja do Padroeiro. Houve anos em que a procissão saiu da Igreja de São Tiago, vulgarmente conhecida como Igreja de Nossa Senhora do Socorro ou de Santa Maria Maior, após a missa das 10:00, e regressou ao mesmo templo. Assim aconteceu em 1990.

No entanto, em 1991, o cortejo processional teve novo itinerário, estabelecido pela Câmara do Funchal e, por certo, com a concordância do bispo da diocese. Deixou de partir da Catedral, como fora prometido «pera sempre em cada um ano deste mundo». Passou então a sair da Capela do Corpo Santo, incorporando o andor com a escultura de São Tiago.

Tenho vindo, desde 1999, a chamar a atenção para o incumprimento parcial do secular compromisso funchalense. Este ano, a procissão sairá da Sé, alegadamente por se comemorarem os 600 anos do Porto Santo e da Madeira, quando, na verdade, a razão deveria ser a plena observância do voto da cidade do Funchal, feito, com grande aflição, há cerca de cinco séculos.

No Estado Novo, o 1.º de Maio era o feriado municipal do Funchal, sendo dedicado a passeios no campo e a confraternizações familiares ao ar livre. A Quinta do Palheiro Ferreiro abriu, durante vários anos, os seus portões aos funchalenses, sendo um espaço recreativo com grande afluência de visitantes nesse dia. Contudo, a procissão do voto da cidade ao padroeiro merecia também larga assistência no seu longo percurso.

Hoje São Tiago, o Menor, não é chamado para o tratamento de epidemias. Já não se fala de peste, palavra que antigamente causava pânico nos cronistas e escrivães, que, logo depois da sua escrita, colocavam entre vírgulas, a expressão «de que Deus nos livre».

As pestes dos nossos dias são outras: corrupção, clientelismo, nepotismo, bajulação, prepotência, discriminação, desrespeito pelo Património Cultural e Natural, deficiente administração da Justiça, precariedade laboral, desemprego, pobreza, violência, toxicodependência … populismo.

Que São Tiago nos livre das novas pestes e dos pestes.

Funchal Notícias. 1 Maio 2019

São Tiago, livrai-nos de pestes

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