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Archive for Setembro, 2007

Biscoito do Porto Santo

No Porto Santo, o tradicional biscoito ainda se vende sem os normativos comunitários. Para identificar os ingredientes, só perguntando ou provando. Quanto à data de fabrico e ao prazo de validade, é confiar.

 

Rijo, mas aprazível, com gosto a pão amanteigado, o biscoito porto-santense poderá ser adquirido nas barraquinhas improvisadas ao longo da marginal, no centro da cidade. Acabado um, logo apetece outro e, em grupo, depressa se consome um saquinho de meio quilo, que actualmente custa 4 euros.

 

Saborear um destes biscoitos poderá também constituir ocasião para uma longa viagem cultural. A História dá-nos esta possibilidade de ver para além do objecto presente.

 

A palavra biscoito, de origem latina, significa “cozido duas vezes”. E o do Porto Santo, depois de cozido vai a torrar no forno.

 

Nas viagens marítimas, o pão de biscoito, em geral designado simplesmente por biscoito, era uma das provisões indispensáveis. No século XVI, Gaspar Correia registou, nas Lendas da Índia, a expedição de uma caravela carregada de trigo, biscoito e farinha.

 

As duas cozeduras garantiam uma conservação prolongada das qualidades nutritivas desta espécie de pão de trigo, tornando-o alimento indispensável nas grandes viagens por mar como também em tempos de crise, motivados principalmente por guerras ou saques de piratas e corsários.

 

Em Julho de 1617, por exemplo, tendo o governador e capitão-general da Madeira conhecimento da saída de Argel de uma armada de corsários que rumava para este arquipélago, logo tratou de abastecer a Fortaleza de São Lourenço com farinha e biscoito, adquirindo fiado, aos mercadores do Funchal, 50 moios de trigo.

 

O mesmo governador avisou as autoridades porto-santenses do perigo iminente, ordenando que se abastecessem com água, biscoitos e carne, a fim de poderem resistir, no Pico do Castelo, a um provável ataque.

 

No entanto, os porto-santenses acabaram por vender, no Funchal, os alimentos aprovisionados, após terem recebido falsa notícia sobre a aniquilação da armada argelina. E certo é que, a 18 de Agosto de 1617, os corsários irromperam nos mares do Porto Santo. Deste ataque resultou cerca de 900 cativos, isto é, quase a totalidade da população da ilha. A resistência dos porto-santenses durou poucos dias. A falta de mantimentos foi, por certo, um dos factores determinantes da inevitável rendição.

 

A ameaça dos “mouros d’Argel” permaneceu, todavia, para além do terrível saque à ilha do Porto Santo. Ainda se mantinha no ano seguinte. Com efeito, em Maio de 1618, o governador da ilha da Madeira requereu à Câmara do Funchal que adquirisse 40 moios de trigo para fabrico de farinha e biscoito, a fim de serem abastecidas as fortalezas do Pico, de S. Tiago e da Praça do Pelourinho. Não se tendo concretizado o temido ataque, o biscoito arrecadado veio a ser vendido, mas a Câmara só conseguiu obter metade da importância que havia despendido com este aprovisionamento.

 

É claro que o actual biscoito porto-santense pouco tem a ver com o dos tempos das longas viagens marítimas e das provisões alimentares para resistir a investidas de piratas e corsários.

 

Contudo, em férias, alinhavar este artigo com um biscoito e páginas de História a desfilar na memória ajuda a passar o tempo, enquanto o sol teima em não surgir neste Porto Santo, que venceu já o esquecimento e o subdesenvolvimento, mas, devido às características da orografia e do clima, dificilmente se afirmará como um destino turístico de praia ensolarada. Outros atractivos, devidamente trabalhados e publicitados, ajudarão, por certo, a colmatar o que a Natureza não possibilita.

 

Diário de Notícias, Funchal, 2 de Setembro de 2007

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