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Archive for Abril, 2018

Os últimos dias foram pródigos na baixa política. Isto, num tempo, em que a abstenção atinge elevadas percentagens e, por conseguinte, importa concentrar esforços no sentido da credibilização da actividade política.

Há que entender que as redes sociais e o acesso fácil à informação possibilitam, quase a quente, reacções com implicações nos actos de cidadania, em particular, nas eleições. Muitos cidadãos já não precisam de comícios, reuniões ou panfletos para formarem a sua opinião. Vão lendo, aqui e acolá, e tirando as suas conclusões. É o livre-arbítrio a agir. Importa, por isso, seriedade e coerência no cenário político.

Vai o presidente da Câmara do Funchal à capital conversar com o Primeiro-Ministro, anunciando na imprensa que esse encontro será decisivo para a resolução dos problemas da Região. Que os dois conversem como amigos, nada temos a ver com isso. Agora que o edil funchalense se apresente como o porta-voz da RAM, alto lá e pare o baile. O tempo dos procuradores da Câmara do Funchal na Corte terminou há muito. Isso acontecia no Antigo Regime.

Contudo, o prometido soco na mesa, como se assim se resolvessem assuntos sérios, resultou em nada de novo.

Desde o trágico acidente do Monte, no passado Verão, o percurso do presidente da Câmara do Funchal tem sido marcado por intervenções menos felizes, provavelmente pela má influência dos que o aconselham na política. Precisa de ouvir gente mais ajuizada e com consciência autonómica. A continuar neste rumo, poderá desbaratar todo o crédito, que acalentou como alternativa ao poder instituído.

Para acentuar o descrédito, viemos a saber, através do Expresso, que alguns deputados insulares na Assembleia da República receberam reembolsos de viagens, que não foram custeadas com verbas do seu bolso. Logo, uma aberração moral e ética. Quatro deputados da Madeira admitiram a prática do reembolso. Uma deputada afirmou nunca ter recebido. A outra remeteu-se ao silêncio, pensando assim passar imaculada no meio do burburinho, esquecendo que o povo diz que «quem cala, consente». Faltou ainda saber se a deputada que, por determinado período, substituiu Carlos Pereira também tratou dos indevidos reembolsos numa qualquer estação dos CTT.

Perante tão grave denúncia, esperava-se que os deputados explicassem a sua conduta ou pedissem desculpa do seu comportamento imoral. Mas não! Remeteram-se ao silêncio, interrompido por um ou outro comentário de virgem ofendida, na cronologia de amigos e apaniguados no Facebook.

Urge credibilizar a política, para bem de todos nós.

Funchal Notícias. 15 Abril 2018

A credibilização da política e das instituições. Assim, não

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O grude

Meu avô era marceneiro. Um bom marceneiro, ouvi dizer. Não o encontrei. Morreu antes de eu ter nascido. Mas conheci móveis por ele construídos. Brinquei com ferramentas e objectos do seu ofício.

Havia um tacho com asa, creio que de cobre, onde, no fundo, persistia espessa camada de uma matéria glutinosa bem escura. Meu pai explicou-me que era o tacho do grude, a cola para as peças de madeira, que seu pai utilizava no dia-a-dia.

Mais tarde, aprendi com o Dicionário de Francisco Solano Constâncio que o grude se fazia com couro, ossos e bucho de quadrúpedes. Estranha fórmula. Contudo, bem resistente.

Hoje já não se usa essa cola feita com gelatina de matérias animais para unir peças de madeira em armários, mesas ou cadeiras.

No entanto, o grude não desapareceu. Metamorfoseou-se. Fez parceria com o mobbing.

Já não une pés ou braços ao assento ou ao espaldar da cadeira. O grude está agora nalgumas cadeiras. Fixa traseiros ao assento.

Em palavras simples: há pessoas em cargos políticos, sindicatos, clubes, associações, escolas e universidades que se agarram aos lugares e tudo fazem para neles permanecerem, criando uma espécie de barricada para firmarem o seu pretenso poder durante muitos anos.

Formam clientelas, arrogam-se de donos de vontades alheias, exigem, pela calada, temerosas fidelidades, argumentam com competências que fora da sua barricada ninguém lhes reconhece, avançam altivos a exigir que os subordinados não os apunhalem pelas costas, alimentam a bajulice e a bisbilhotice, exigem informações sobre os movimentos dos opositores, eu sei lá o que essa gente faz, por via do grude, no reino da carneirada.

O grude já não agarra somente o traseiro. Tornou-se uma espécie de alucinogénio. Tudo em nome do poder. E fazem-se carreiras assim. E destroem-se carreiras assim. E precipitam para o suicídio assim. Mas nada lhes acontece. Nem a consciência lhes pesa. Não a possuem.

A fornecer-lhes grude anda em azáfama um bando de serventes, de cima e de baixo. Para os de baixo, que Deus deles tenha compaixão, como dizia uma bondosa mulher, minha conhecida. Para os de cima, aprendi com velha vizinha que o diabo sempre ajuda os seus.

O grude não pode faltar. Quando a poção parece diminuir, mandam, apressadamente, vir de fora, em mão.

O grude derrama-se e aferra. O que estava na cadeira já não pode mais ali permanecer. Então pega no tacho do grude e desata a construir um pau-mandado, que fará o jogo da velha sombra, enquanto esta se mexer e dele precisar.

Nada disto me surpreende. É a perversão da democracia. O corporativismo salazarista que perdura nas instituições.

* Mobbing – qualquer comportamento abusivo (atitude, gesto, palavra) que atente, por acção ou omissão, contra a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego e prejudicando o clima de trabalho. (Infopédia: Dicionários Porto Editora)

Funchal Notícias. 11 Abril 2018

O grude

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1. Na semana passada, as escavações na Rua do Bom Jesus puseram a descoberto vestígios de antigas construções, o que não surpreende, por tratar-se de uma zona antiga da ocupação humana do Funchal. Verdadeiramente surpreendente é o facto de se continuar a intervir no casco urbano e, no caso concreto, na área de protecção de um edifício classificado sem acompanhamento arqueológico e em desrespeito da lei em vigor.

Rua do Bom Jesus, Funchal. Abril 2018. Foto: Funchal Notícias

Mas ainda mais surpreendente é a falta de atenção prestada ao estado do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, apesar de vários alertas na opinião pública (veja-se, por exemplo, o artigo de Rosário Martins no Funchal Notícias, em 13 de Março de 2017). Bem a propósito, escreveu José de Sainz-Trueva no passado dia 5, no Facebook: «Independentemente desta questão concreta, fundamental mesmo é procurar a recuperação do Recolhimento e Igreja do Bom Jesus. Este monumento encontra-se num lastimável estado de degradação e abandono. Uma vergonha para todos os madeirenses e para todas as entidades com responsabilidade na área da defesa do nosso Património Cultural. Aconselho a quem por ali passar, parar cinco minutos e observar a lamentável decadência do imóvel.»

Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, Funchal. Foto: Funchal Notícias.

A verdadeira questão é, sem dúvida, a necessária e urgente intervenção no Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, onde é bem patente a ameaça de ruína de algumas das suas estruturas.

Fundado em meados do século XVII por Simão Gonçalves Cidrão, arcediago da Sé do Funchal, o recolhimento destinava-se a mulheres e moças pobres, desamparadas e em risco. Tinha capacidade para 30 recolhidas. Regia-se pelo Instituto das Terceiras. Nossa Senhora do Monte do Carmo era a padroeira do Recolhimento. Funcionou como Recolhimento até ao século XX.

Conjuntamente com o projecto de restauro deste imóvel, revela-se pertinente o apuramento do direito de propriedade do mesmo, tarefa que os serviços competentes do Governo Regional deveriam levar a cabo.

2. Em artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias (Funchal, 4 de Abril de 2018, p. 26), o Senhor Presidente da Câmara do Funchal afirmou:

«O Funchal foi o primeiro município da RAM a criar uma ARU [Área de Reabilitação Urbana], associada a um programa de amplos apoios e incentivos fiscais, denominado “Cidade ComVida”, que, a caminho dos quatro anos de vigência, possibilitou que 100 edifícios beneficiassem destas medidas. Os edifícios recuperados são, hoje em dia, uma realidade que se comprova facilmente ao circular nas ruas mais antigas da cidade, fruto do extensivo trabalho da CMF, que criou as condições para que a Reabilitação Urbana prosperasse através do investimento privado.»

Passeando pelo Funchal, constato tanta ruína, pelo que, sem, por agora, querer pôr em causa o citado número de edifícios reabilitados, interrogo-me se não seria útil a Câmara mandar publicar a lista dos tais 100 imóveis, para os munícipes ficarem devidamente esclarecidos. Da minha parte, deixo aqui antecipados agradecimentos por esse serviço público.

3. Visitei a Igreja Paroquial da Fajã da Ovelha na semana passada. O edifício apresenta-se bastante degradado. As muitas infiltrações causaram avultados prejuízos no acervo artístico.

O restauro da capela-mor avança com os parcos recursos disponíveis. Os paroquianos, desde 2012, empenham-se na consecução da obra de restauro da Igreja de São João Baptista, promovendo a angariação de verbas.

Segundo o Censos de 2011, residiam 895 pessoas na freguesia, isto é menos de um terço dos habitantes de 1911, o melhor ano em termos demográficos.

A divisão da freguesia em duas paróquias, o despovoamento, o envelhecimento da população, os seus fracos recursos económicos e o diminuto número de fiéis exigem um apoio especial a esta importante obra.

Funchal Notícias. 8 Abril 2018

Três apontamentos sobre Património

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