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Archive for Maio, 2009

 


O Cemitério dos Judeus, da cidade do Funchal, continua num deplorável estado de conservação, apesar de ser um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira. A esta situação nos referimos em 2004 e 2007. Contudo, até hoje, nada se fez para recuperar o «chão sagrado» dos judeus que foram sepultados na ilha da Madeira, nos séculos XIX e XX.


Qualquer investimento nesta zona deveria respeitar a memória do lugar.


A comprovar o abandono a que foi votado o velho cemitério judaico e as implicações deste bem cultural no investimento imobiliário projectado para o Toco, transcrevemos aqui, com a devida vénia, o artigo publicado no Diário de Notícias, Funchal, 27 de Maio de 2009, p. 19, da autoria do jornalista Francisco José Cardoso:

 

Lei judaica proíbe mudar o local dos cemitérios


Embaixador de Israel está cá e é recebido hoje por Jardim. Processo encalha ‘Toco’


O embaixador do Estado de Israel em Lisboa defende a construção de um muro de suporte para o cemitério judaico existente na zona do Lazareto, em Santa Maria Maior. A posição de Ehud Gol, no cargo há quase cinco meses e de visita pela primeira vez à Madeira, é aliás, parecida com a do seu antecessor quando se colocou, em 2003, a hipótese de trasladação dos corpos para o cemitério de São Martinho.


Este deverá ser um dos pontos de destaque das reuniões que o diplomata tem realizado desde segunda-feira com entidades e autoridades regionais, a culminar hoje com uma recepção de Alberto João Jardim na Quinta Vigia. Em declarações exclusivas ao DIÁRIO, Ehud Gol lembrou que a religião que professa impede a mudança de local dos cemitérios e, por consequência, é muito complicado fazer trasladações dos corpos como pretende a Câmara do Funchal, com apoio do Governo Regional.


Para tomar melhor conhecimento do estado deste cemitério, datado do século XIX e em completo abandono, o diplomata israelita deslocou-se ontem ao local. Acompanhado por um cidadão do seu país a viver na Madeira, Ehud Gol pôde constatar que a degradação da infra-estrutura requer uma solução que tarda.


“Estou ciente do problema, com algumas das sepulturas à beira da falésia e o seu estado é muito mau”, começou por referir. Sabe, na nossa religião não se podem remover cemitérios, uma situação que podia ser resolvida mais facilmente com a construção de um muro de suporte que proteja as sepulturas que estão em perigo de cair ao mar”, afirmou.


Ehud Gol lembrou ainda o anterior embaixador em Lisboa, Shmuel Tevet, que esteve também na Madeira (em 2003), altura em que se levantou a possibilidade de vir de Israel uma delegação que viesse encontrar uma solução em conjunto com as autoridades regionais.


“Vamos tentar encontrar uma solução melhor que a mudança do cemitério”, afirma. “É claro que gostaríamos de ter uma solução que mantivesse o espaço com a dignidade e de acordo com a lei judaica e local”, reafirma, garantindo sempre que as autoridades madeirenses devem ter sempre papel crucial nesta matéria.


Em tom diplomático, Ehud Gol lembra que há outros temas que podem trazer bons frutos para a Madeira e que pretende apresentar às autoridades e entidades públicas e privadas com quem tem mantido reuniões. “O Turismo é o assunto principal”, exemplificou. “A Madeira tem grandes paisagens, uma ilha fantástica e até tem um Casino, que pode ser atractivo”, concluiu.


O certo é que, caso se mantenha esta ideia de manter o cemitério no Lazareto, este é mais um impedimento que o projecto privado calculado em 390 milhões de euros vá para o terreno.


Tradição a respeitar


O caso já se prolonga há alguns anos e ficou ainda mais conhecido quando foi anunciado um projecto de ‘frente-mar’ para toda a zona leste do Funchal, e que implicaria uma mudança de local do cemitério judaico. Já se falou em transformar o local em atracção turística, dada a sua localização e interesse histórico, mas o mais importante em todo este processo será o respeito por uma cultura que, em séculos passados, teve o seu papel no desenvolvimento socioeconómico da Madeira.

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Colóquio Internacional

 

A História da Imprensa e a Imprensa na História: o contributo dos Açores

 

Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 28 a 30 de Maio de 2009

 

 

«A educação da mulher segundo a imprensa madeirense: de meados de Oitocentos ao início do século XX»

 Nelson Veríssimo

(Universidade da Madeira)

 

RESUMO

 

Em Portugal, a Constituição de 1822 determinou o estabelecimento de escolas para ambos os sexos em todos os lugares do Reino onde conviesse, para que se ensinasse a mocidade portuguesa a ler, escrever, contar e o catecismo das obrigações religiosas e civis.

Contudo, só na década de 1840 se verificou a propagação da instrução primária para o sexo feminino no nosso país.

O acesso generalizado das meninas à escola pública foi dificultado pela falta de estabelecimentos de ensino e pela oposição dos pais, que invocavam necessidades da economia doméstica ou resistiam aos «perigos» da educação das suas filhas, temendo virem a ser menos submissas e, por conseguinte, pouco reputadas para o casamento.

A imprensa teve papel relevante na promoção da educação da mulher, difundindo novas ideias e sensibilizando a opinião pública para a necessidade da frequência da escola, por ser esta pouco significativa face ao número de crianças recenseadas. Colaborou também com as autoridades na difusão da informação oficial e deu voz aos anseios das populações na instituição de novos estabelecimentos de ensino.

Por vezes, crítica em relação ao rumo da educação para o sexo feminino, outras bem mais avançada do que as práticas vigentes, a imprensa revela-se, indiscutivelmente, uma fonte fundamental para o estudo deste interessante capítulo da História da Educação.

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Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009

Emonts, Anne Martina: Mechtilde Lichnowsky : Sprachlust und Sprachkritik ; Annäherung an ein Kulturphänomen / Anne Martina Emonts. - Würzburg : Königshausen & Neumann, 2009


Martina Emonts acaba de publicar, na Alemanha, a sua dissertação de doutoramento. Com a chancela da prestigiada Königshausen & Neumann, editora especializada em Ciências da Cultura, de Würzburg, Mechtilde Lichnowsky – Sprachlust und Sprachkritik (Mechtilde Lichnowsky – o prazer e a crítica da linguagem) constitui mais um importante contributo para a internacionalização da Universidade da Madeira. Trata-se de investigação desenvolvida na UMa, agora disponível no mercado livreiro.

É o primeiro estudo de grande fôlego sobre Mechtilde Lichnowsky (1879-1958), escritora que, em vida, publicou dezoito livros. Para além da escrita (poesia, romance, novela, ensaio, reflexão filosófica – é difícil enquadrar a sua produção literária na nomenclatura tradicional), dedicou-se à música, fotografia, desenho, escultura e caricatura. Era uma mulher de grande sensibilidade e lucidez, que prezou o amor e o humor. A linguagem, o género e a arte são temas recorrentes na sua obra. Assumiu também atitudes pedagógicas a respeito do comportamento e da linguagem, norteada por princípios de bom gosto, de coerência e de recusa de qualquer forma de opressão.

Apesar da vasta obra editada, da admiração que granjeou em vida, em particular de Karl Kraus, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Theodor W. Adorno, dos seus ideais democráticos e dos círculos que frequentou, Mechtilde Lichnowsky, nos dias de hoje, é uma escritora pouco conhecida, insuficientemente estudada e fora do cânone de expressão alemã.

Foi, exactamente, esta constatação que motivou a investigação de Martina Emonts. Sobre a escritora havia encontrado breve referência, uma única linha numa História da Literatura, e que se resumia ao seguinte: «Mechtilde Lichnowsky tem uma maneira invulgar de descrever figuras femininas».

É conhecido o interesse de Martina Emonts sobre as questões do género. Recorde-se que a sua dissertação de mestrado – Onde há galo não canta galinha: discursos femininos, feministas e transgressivos nos anos vinte em Portugal. O caso do suplemento literário e ilustrado de A Batalha (1923-1927) – foi galardoada com o prémio Mulher Investigação – Carolina Michaëlis de Vasconcelos, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, em 2001.

Martina Emonts desenvolveu a sua investigação em arquivos e bibliotecas alemães, checos, americanos, austríacos e suíços, tendo a felicidade de descobrir e identificar documentos inéditos ou que se julgavam desaparecidos. Em resultado destas pesquisas, novos elementos nos são revelados sobre a obra de Mechtilde Lichnowsky e outra perspectiva nos é apresentada sobre a Europa do seu tempo, que não somente influenciou a escritora, mas também beneficiou dos seus contributos.

Mechtilde Lichnowsky dedicou grande atenção à linguagem, imprescindível na observação de uma pessoa ou uma sociedade. Daí a sua atenção à análise do discurso. Exemplo disso é o seu estudo, por razões óbvias não publicado, sobre o Mein Kampf (A minha luta), de Adolf Hitler. Mechtilde concluiu, pela linguagem, que H. (a escritora recusou sempre escrever ou pronunciar o seu nome, e a ele se referia apenas por esta inicial) era um homem perturbado.

Outro aspecto interessante diz respeito ao que Mechtilde Lichnowsky pensava sobre os especialistas e que ficou bem expresso em Der Kampf mit dem Fachmann (A luta com o especialista), de 1924, livro muito apreciado por T. W. Adorno. A escritora, através de múltiplos exemplos, ilustrou o quanto pretensos especialistas proferiam tretas, simplesmente, por não reflectirem sobre o uso da sua própria linguagem.

Mechtilde Lichnowsky tinha uma avó portuguesa – D. Matilde Lobo da Silveira, condessa de Oriola (1827-1889) –, a quem atribuía a sua veia literária e dedicava profunda admiração. Contudo, as obras da escritora alemã nunca foram editadas em Portugal. E durante a sua vida, compreende-se bem porquê – a autora fora vítima do bibliocausto nazi.

O livro de Martina Emonts contribuirá para a reabilitação da memória de Mechtilde Lichnowsky na História da Literatura e Cultura de expressão alemã e para a sua integração no cânone estabelecido.

Diário de Notícias, Funchal, 3 de Maio de 2009

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