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Archive for Agosto, 2007

 


«Gávea de pedra», assim Miguel Torga denominou o afamado Cabo Girão que, imponente, se eleva uns 580 m sobre o nível do mar e, nas tardes compridas, oculta-me, teimosamente, um bocadinho do poente.

 

Antes de Torga, ninguém com tamanha propriedade qualificou este cabo. «Gávea de pedra». Mar e terra. Altura e horizonte. Navio e ilha. O poeta alcandorado a interrogar o oceano. Imagem tão sugestiva quanto ampla.

 

Mas o nome deste abrupto vigoroso deve-se ao facto de Zarco e os seus companheiros terem feito ali a última paragem na primeira viagem de reconhecimento da costa oeste da ilha da Madeira, invertendo depois o rumo para regressarem à baía do Funchal, onde pernoitaram nos navios, abrigados junto aos ilhéus.

 

Escreveu o cronista funchalense, Jerónimo Dias Leite, que lhe deram o nome de Cabo do Girão «por ser a derradeira parte e cabo do giro de seu caminho e descobrimento». Como em tantos outros topónimos, a tendência linguística para simplificar fez cair a preposição, e hoje apenas é designado por Cabo Girão.

 

A este lugar da costa sul, está também associado o nome de Henrique Alemão, sesmeiro da Madalena do Mar, o cavaleiro de Santa Catarina, suposto príncipe ou o rei Ladislau III da Polónia e da Hungria, derrotado pelos turcos em Varna no ano de 1444. Segundo a tradição, este cavaleiro misterioso teria sido atingido mortalmente por um deslizamento de rochas do Cabo Girão.

 

Nas vésperas do 1.º centenário do nascimento de Miguel Torga (S. Martinho de Anta, Vila Real, 12-08-1907-Coimbra, 17-01-1995), reler as páginas do volume XIII do seu Diário, onde registou impressões de uma visita à Madeira nos finais de Agosto de 1980, constitui antecipação particular das comemorações da efeméride, especialmente preparadas.

 

Sugestivamente, Torga autoclassificou-se como «homem de trocas com a Natureza». Nas páginas dedicadas à Madeira, perpassa também arreigada predilecção telúrica, associada a singular afecto pela nossa identidade, que, em «sete dias de sortilégio», o escritor pôde manifestar.

 

Na ilha, intitulou-se «guardião lírico da identidade nacional», e, por mais de uma vez, mostrou-se incomodado com a tendência de tudo se dispor no sentido de servir o estrangeiro que nos visita.

 

A propósito, sejam consentidos alguns exemplos. A 25 de Agosto de 1980, o poeta escreveu que, nas estâncias turísticas portuguesas, «o alheio sobrepõe-se de tal modo ao caseiro que o configura», o que, em sua opinião, constituía «um mimetismo trágico». Ao se despedir da ilha, afirmou estar «quase esquecido dos tapetes persas» que pisou com «pés de caçador», dos «criados portugueses que só queriam entender inglês, da futilidade dos casinos e do folclorismo turístico».

 

Em contrapartida, registou profunda admiração pelos «abismos povoados», pelas levadas e pelas «grandes ravinas amanhadas», confessando particular reconhecimento aos homens afoitos que transformaram e continuam a transformar «uma ilha de lava convulsionada num presépio de vida florido de esperança». «Humanizar a rude paisagem natural sem a desfigurar» constituía nota digna de averbamento no Diário de Torga.

 

Na «gávea de pedra» alcandorado, a navegar parado, perguntou o poeta ao mar e aos pontos cardeais «se seremos gigantes encantados em homens naturais».

 

Desfrutando da paisagem inigualável do Pico do Areeiro, Torga considerou que aquela era a Madeira que verdadeiramente amava, por se não ter deixado corromper pelo turismo e por se manter «ciclópica, abissal, rebeldemente estéril e inacessível». Neste pico, sentiu «uma espécie de alucinação da natureza», que não podia guardar com os olhos nem tão-pouco descrever com palavras.

 

Foi, sem dúvida, a grandeza natural da ilha o que mais impressionou Miguel Torga nesta sua visita à Madeira em Agosto de 1980, como atestam páginas memoráveis do seu Diário, e, particularmente, o poema «Atlantes» incluído no mesmo volume.

Diário de Notícias, Funchal, 5 de Agosto de 2007

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