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Archive for Junho, 2015

Governo e Oposição manifestaram já vontade em comemorar o 6.º Centenário do Descobrimento da Madeira. A efeméride aproxima-se e há que preparar um programa festivo.

Contudo, uma pergunta impõe-se: em que ano será celebrado tão importante acontecimento?

O programa comemorativo deverá prever atividades para antes e depois da data a assinalar, mas não poderá omiti-la. Contemplará também, por certo, obra que perdure, porque o efémero depressa se consome e cedo cai no esquecimento.

O 5.º Centenário foi celebrado em 1922. Era, então, diversa a conjuntura, nomeadamente pelos efeitos nefastos da Grande Guerra, a instabilidade governativa, a crise financeira e a conflitualidade social da Primeira República.

E o 6.º, quando será assinalado?

O problema é que não se sabe, com exatidão, a data da primeira viagem de João Gonçalves e Tristão ao arquipélago da Madeira. As crónicas registaram o acontecimento após o descerco de Ceuta, ocorrido em 1419.

O cronista madeirense Jerónimo Dias Leite, escrevendo por volta de 1579, afirmou que foi em junho de 1419 que os navegadores portugueses chegaram ao Porto Santo. No início do mês seguinte, dirigiram-se para a Madeira. Contudo, a sua cronologia não é rigorosa.

Por outro lado, as crónicas de Zurara, que escreveu muito mais próximo do início do povoamento destas ilhas e teve acesso privilegiado a informações do círculo do Infante D. Henrique e da Corte, levam-nos a supor que foi em 1420.

Fora de questão é o conhecimento do Arquipélago na segunda metade do século XIV, como prova a cartografia. Em algumas representações dessa época, as ilhas aparecem já com as denominações atuais, embora com grafias diversas. Mas todas estão legendadas em português numa carta de 1408.

Na verdade, o arquipélago madeirense era conhecido por alguns navegadores e cartógrafos da área do Mediterrâneo desde a segunda metade de Trezentos. Possivelmente, igual conhecimento circulava nos meios náuticos portugueses. Estas ilhas teriam sido avistadas nas viagens para as Canárias e até serviriam de escala para aguada. A abundância de madeira poderia também ter suscitado o interesse dos navegadores e mercadores portugueses.

Assim, o uso da palavra “descobrimento” só pode ser legitimado no sentido de ampla revelação de uma realidade geográfica até então circunscrita a um reduzido círculo de mareantes, como nos ensinou Armando Cortesão e Luís de Albuquerque.

Face à impossibilidade de determinar com precisão a data da famigerada viagem de Zarco e ao facto de o arquipélago madeirense ser já conhecido e visitado, importa, em nosso entender, valorizar mais o início do povoamento do que especular sobre o seu achamento.

Assim, tomamos por válida a informação de Gomes Eanes da Zurara, que escrevendo por volta de 1453, apontou o ano de 1420 para o início da “povoação” da ilha da Madeira, porque entendemos que as primeiras viagens de reconhecimento dos navegadores portugueses tinham em vista o povoamento imediato do arquipélago, antes que outros povos tomassem a iniciativa.

Diário de Notícias. Funchal. 139: 45 565 (5 jun. 2015) 25

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