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Archive for Agosto, 2009

Memória futura


Florbela Espanca (1894-1930), no último ano de vida, escreveu no seu diário: «que importa o que está para além?». A Literatura Portuguesa conferiu-lhe, porém, imortalidade, reconhecendo o valor da sua criação poética.


Contudo, há quem, ingenuamente, corra para reservar lugar na História. Outros, em momentos de perturbação, receiam o juízo dos historiadores. Por irrefreável necessidade de afirmação, medo ou vaidade excessiva, sempre alguns se preocuparam em criar para a posteridade um retrato virtuoso, bem diferente da realidade.


Ao contrário do que vulgarmente se pensa, não cabe à História julgar, mas compreender (não no sentido passivo), como nos ensinou Marc Bloch (1886-1944), que também sublinhou as características peculiares desta ciência dos homens e o facto de o historiador não ser alheio às paixões.


A construção da imagem a transmitir para a História, ainda obsessivamente cultivada, poderá ser feita com generosidade ou requintes perversos.


A generosidade é hoje mais significativa no domínio da ajuda aos mais necessitados e já não está tão associada ao sufrágio da alma ou à busca da salvação, como no passado. De facto, os verdadeiramente generosos não se movimentam por qualquer recompensa.


A edificação de igrejas, capelas e conventos, a instituição de ordens religiosas, vínculos, obras de beneficência e fundações, a elaboração de crónicas, livros de linhagens, biografias ou memórias perpetuam as personalidades intervenientes.


Todavia, o registo escrito poderá proporcionar a manipulação da informação. Quem conta, constrói o discurso à sua maneira, quase sempre sem preocupações de objectividade. Quem escreve sob encomenda, raramente ousa desagradar o patrono. Por vezes, as memórias constituem pretexto para auto-elogio ou deplorável ajuste de contas.


Esquecem, porém, os protagonistas de que há sempre elementos que lhes escapam e que o historiador, um dia, poderá dispor de fontes diversas para a sua análise.


Na construção da imagem futura, ocorrem, por vezes, gestos premeditados com consequências bastante graves. A limpeza ou a destruição de um arquivo, por exemplo, prejudicarão, de forma irremediável, a investigação. Contudo, só excepcionalmente a impedirão por completo. Quase sempre, há informação subsidiária em outros lugares, que o aniquilamento projectado não logrou apagar.


Além das acções destrutivas que, pelo aparato, saltam à vista, outras há que, sub-repticiamente, têm efeitos semelhantes. A ocultação de determinados assuntos, de resoluções e a forma e os resultados das respectivas votações em actas ou a deliberada inexistência destas, o branqueamento em alguns relatórios, a eliminação de documentação comprometedora nos arquivos correntes ou o silenciar de vozes dissonantes poderão servir essa ânsia de forjar uma imagem imaculada para consumo futuro.


A liberdade permite, sem dúvida, confrontar todas essas atitudes manipuladoras com realidades distintas. A imprensa e a blogosfera têm papel determinante no esclarecimento da opinião pública, na manifestação do contraditório e na denúncia do desrespeito pela legalidade e pelos princípios democráticos.


As publicações periódicas impressas assumem ainda papel privilegiado como fontes da História Contemporânea, apesar de os blogues serem mais arrojados ou contundentes nas suas análises ou comentários, porque não estão sujeitos às redes clientelares.


Na Madeira, desde 1876, é impossível fazer história sem o Diário de Notícias. Se para o passado esta é verdade inquestionável, mesmo havendo várias publicações periódicas em circulação, na actualidade muito mais se impõe o Diário para a formação de uma opinião pública plural e como fonte indelével para a compreensão do quotidiano da Região e do devir histórico.



Diário de Notícias, Funchal, 2 de Agosto de 2009

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