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Archive for Setembro, 2018

O abate das árvores da Rua do Bom Jesus tornou mais visível o estado de profunda degradação do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira. Este imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, reconhecido pelo Governo Regional, nos anos 90 do século passado, como instituição da Diocese do Funchal, não tem merecido a atenção devida, nem do seu proprietário nem da entidade que tutela o património regional.

Depois de realizado o levantamento arquitectónico, artístico e do mobiliário pela DRAC, o Governo Regional manifestou, publicamente, em 1992, a intenção de apoiar a sua recuperação. Mas, desde então, apenas se realizaram, em 1995, obras de restauro na igreja, que ainda hoje se mantém aberta para cerimónias religiosas e concertos nos Festivais de Órgão, apesar de a torre ameaçar ruir.

Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, Funchal. Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Setembro 2018.

O edifício longitudinal, que serviu de residência das recolhidas, e que se desenvolve, em vários corpos, ao longo da Rua do Bom Jesus, encontra-se devoluto e, progressivamente, vai caminhando para a ruína, pela degradação das suas coberturas e estruturas, muitas infiltrações de águas pluviais e falta de arejamento.

Instituído nos meados do século XVII pelo arcediago da Sé do Funchal, Simão Gonçalves Cidrão, o Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira já estava em actividade em 1666, com 25 recolhidas. Tendo por padroeira Nossa Senhora do Carmo, como lembra o registo de azulejos do século XVIII, da fachada nascente, esta casa abrigava «fêmeas arriscadas a enganos do mundo e moças pobres arriscadas», segundo documento daquele ano.

Não se tratava de um convento, mas de um recolhimento, com fins filantrópicos, dirigido por uma regente, eleita cada triénio. Pelos respectivos Estatutos, as recolhidas tinham, diariamente, diversas obrigações religiosas, que cumpriam no coro da capela. Todavia, estas mulheres devotas e recolhidas não estavam afastadas da vida secular.

Com a implantação da República, alterou-se o governo do Recolhimento, passando a depender de uma comissão administrativa nomeada pelo governador civil. Manteve-se, no entanto, a figura da regente, sendo agora nomeada pela comissão. Creio que um dos últimos presidentes desta comissão administrativa foi Luciano Sales Correia, também comandante dos Bombeiros Municipais.

Nos finais do século XX, ainda funcionava como Recolhimento. Lília Bernardes (1956-2016) publicou na revista do Diário de Notícias (31-03-1991) uma reportagem intitulada «Uma casa chamada solidão», que constitui emocionante retrato de uma instituição agonizante: «Trinta e quatro mulheres entre os trinta e os oitenta e muitos anos vivem repartidas por quartos sem o mínimo de condições. Num imóvel nu. Que cai aos bocados. Que range. Que transpira solidão. Medo. Abandono. Fim. O perigo iminente de um incêndio assusta-as. Dorme-se com botijas de gás à cabeceira. O frio gela. Arrepia.»

Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, Funchal. Foto: © Rui Marote, Funchal Notícias, Setembro 2018.

O Recolhimento sobreviveu por mais de três séculos. Já há alguns anos que não vivem ali mulheres marginalizadas pela família ou pela sociedade. Extinguiu-se a instituição de solidariedade social. Contudo, ainda figura no capítulo Obras de Acção Sociocaritativa, na secção Outras, do Anuário da Diocese do Funchal: 2018.

É agora um edifício abandonado. Testemunho de um tempo em que a protecção da mulher desamparada ou fragilizada passava por instituições desta natureza.

Exemplar singelo da arquitectura barroca no centro histórico, em avançado processo de degradação, constitui zona de risco do Funchal, susceptível de ser afectada por um incêndio, com elevadas possibilidades de propagação urbana.

Parte importante do acervo artístico do Recolhimento está hoje à guarda do Museu de Arte Sacra e da Diocese do Funchal, tendo já figurado em exposições como, por exemplo, A Madeira na rota do Oriente (Naveta de prata, séc. XVII; Dormição de São Francisco Xavier, em madeira estofada, policromada e dourada, séc. XVII; Virgem com o Menino, em marfim, de inícios do séc. XVI) e As ilhas do ouro branco: encomenda artística na Madeira: séculos XV-XVI (Anunciação, pintura atribuída a Joos van Cleve, c. 1512-1520). No entanto, ainda se conservam peças com inegável significado artístico na Igreja do Recolhimento.

Virgem Maria com o Menino. Marfim, início do séc. XVI. Igreja do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira. In: ‘A Madeira na rota do Oriente’, Funchal, 2000, p. 85.

A propósito da construção, com uma verba do orçamento regional, de uma réplica da Capela das Babosas, no Monte, destruída pela aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, o bispo do Funchal considerou ser tal a «vontade e um grande desejo de todo o Povo de Deus» (26-08-2018). Ora a Diocese do Funchal possui diversos edifícios arruinados, como por exemplo, no Funchal, a Capela de São Paulo, o Recolhimento do Bom Jesus e o Seminário da Encarnação. Não merecerão também estes imóveis amor e projectos de recuperação da parte do Povo de Deus?

Acredito que a Igreja não dispõe de orçamento para recuperar todos os edifícios que detém. Mas talvez o problema maior seja a inércia. Candidaturas a fundos da União Europeia e a outros patrocínios, parcerias, alienações, concessões de exploração a prazo podem constituir estratégias para gerir património que ameaça converter-se em ruínas.

Funchal Notícias. 26 Setembro 2018.

https://funchalnoticias.net/2018/09/26/recolhimento-do-bom-jesus-ate-a-ruina-total/

 

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Fazer ouvidos de mercador é dito antigo, que significa fazer-se desentendido, fingir que não percebe ou não ouve o que se diz. Nos dias de hoje, pode aplicar-se, com propriedade, aos políticos que se mostram indiferentes ou surdos perante observações e reclamações pertinentes dos cidadãos.

Julga-se que este aforismo pretendia caracterizar o comportamento dos mercadores de outrora, que simulavam surdez, quando os seus clientes apresentavam propostas de preços mais convenientes, no tradicional regateio das práticas comerciais.

Transposta para o plano da política, a expressão fazer ouvidos de mercador é aqui lembrada face à atitude da Frente MarFunchal, E. M., e da Câmara Municipal do Funchal, quando escrevi no Facebook (27 e 31-08; 2 e 13-09) e neste projecto jornalístico digital (Funchal Notícias, 12-09-2018), sobre o estado da Promenade da Orla Marítima: Lido – Clube Naval, em especial da falta de iluminação na zona do Pestana Promenade.

Dessas «orelhas moucas» exceptua-se o presidente da Junta de Freguesia de São Martinho, que, no dia 27 de Agosto, me informou ter dado conhecimento da situação à CMF, a fim de ser reposta, rapidamente, a iluminação.

Promenade à noite, defronte do Pestana Promenade (18-09-2018).

Na verdade, neste interessante percurso da cidade do Funchal há, actualmente, 24 candeeiros sem luz e um intermitente. Contudo, a situação mais impressionante é defronte daqueles «quartinhos do fundo» do Pestana Promenade, com balcão para o Passeio do Lido, onde a luz eléctrica do exterior parece incomodar os hóspedes.

Promenade à noite, defronte do Pestana Promenade (18-09-2018).

O eventual transtorno poderia, certamente, ser resolvido com as cortinas do tipo blackout cerradas. Garantiriam assim o escurecimento do quarto e poupariam os caminhantes do Passeio do Lido de avistarem hóspedes seminus na cama, enrolados ou a descansar, quando a janela do balcão está aberta e a luz do quarto acesa, num involuntário voyeurismo, tudo num destino turístico que se diz de qualidade, mas que, por vezes, se aproxima do que de pior se pratica por esse mundo fora.

Não quero acreditar nem pretendo insinuar que este fazer ouvidos de mercador se associa a qualquer panelinha. Mas é muito estranho que se teime em manter aquela zona às escuras, depois de já, pessoalmente, ter falado com o administrador da Frente MarFunchal e outro membro desta empresa municipal, no passado dia 31 de Agosto à noite, e de diversos alertas públicos. E após também de, recentemente, terem sido ali recolocados os respectivos candeeiros, agora com focos de luz em vez de globos, como os demais. No entanto, curiosamente um, junto aos «quartinhos do fundo» do Pestana Promenade, nunca está ligado. É, de certeza, do tipo para inglês ver.

O contacto com os cidadãos, percorrendo o território e publicando fotografias sugestivas, bucólicas, cómicas ou ridículas na imprensa ou nas redes sociais, não esgota a tão badalada política de proximidade ou necessidade de auscultação dos eleitores. Cada vez mais, o protesto, a reivindicação, o parecer ou a opinião percorrem os modernos suportes de difusão da informação. Há, pois, que lhes conceder importância e o devido tratamento.

Com ouvidos de mercador não se constroem caminhos de confiança. Para o cidadão, aquilo que verdadeiramente interessa é a resolução dos problemas pela autarquia ou a empresa municipal, inclusive as pequenas coisas, como a iluminação do Passeio do Lido.

Funchal Notícias. 19 Setembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/09/19/fazer-ouvidos-de-mercador/

 

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Passeio do Lido

O Passeio do Lido, também denominado de Promenade da Orla Marítima: Lido – Clube Naval, é um lugar de eleição da freguesia de São Martinho do concelho do Funchal. Desde 1999, madeirenses e forasteiros usufruem de um aprazível espaço público para caminhar ou passear. Numerosas pessoas passam por ali todos os dias, contemplando o mar e praticando salutar exercício físico.

Promenade da Orla Marítima: Lido – Clube Naval.

Este Passeio deveria ser a «menina dos olhos» do município funchalense, no que diz respeito à promoção do lazer, da prática regular de caminhadas para manutenção da saúde e da atracção turística. Contudo, apesar da localização privilegiada, dos bons ares e da bonita paisagem, nem sempre tem merecido a devida atenção. E, ultimamente, o descuido é notório.

Os jardins estão mal cuidados. Ervas daninhas e folhas secas abundam por ali. Faltam plantas floridas. A poda é pouco frequente e irregular. A remoção da folhagem seca acontece só de tempos a tempos. Alguns canteiros beneficiam somente de água quando chove, outros, devido a avarias do sistema de irrigação por aspersão ou outras anomalias, transformam-se, nalgumas partes, em ambiente ideal para plantas aquáticas e mosquitos.

A praia do Gorgulho, danificada pelos temporais, foi votada ao abandono. Apesar de estar interditada por razões de segurança, ainda é frequentada por alguns banhistas. Poderá a Câmara alegar falta de verbas para investir na reconstrução desta infraestrutura, mas as importâncias despendidas em publicidade inútil na imprensa e outros eventos festivos, por certo poderiam aqui ser aplicadas. Urge limpar a imagem de degradação do Gorgulho.

Praia do Gorgulho.

Nota positiva para o projeto de recuperação do antigo Cais do Carvão, embora devesse ali ser exibida informação sobre o mesmo. Um esquisso ou fotografia de um desenho ou maqueta seriam úteis. Quem, diariamente, observa o decurso da obra, interroga-se sobre o que ali nascerá.

Promenade à noite, defronte do ‘Pestana Promenade’ (11-09-2018, 22:11).

Problema, para quem caminha neste Passeio à noite, é o estado da iluminação. Há 13 candeeiros apagados e um com luz intermitente. Faltavam, até à semana passada, dois candeeiros defronte do «Pestana Promenade» (alçado sul). Situação que durou longos meses, com a instalação eléctrica a descoberto. Foram já colocados, depois do nosso alerta no final de Agosto. Mas engana-se quem concluir que, com isso, este troço da «Promenade» ficou iluminado.

Candeeiro recentemente colocado junto ao ‘Pestana Promenade’ com foco de luz.

Pormenor do candeeiro recentemente colocado junto ao ‘Pestana Promenade’, mas que não funciona.

Os dois candeeiros, recém-montados, são inadequados para a iluminação de zonas pedonais. Destoam dos demais, com globos que permitem maior difusão da luz. Bem diferentes dos restantes daquela zona, apresentam focos direccionados para o muro ou o solo, presos, improvisadamente, com fios ou cabos eléctricos. Um ilumina os anúncios publicitários de uma loja que ali vende percursos turísticos na ilha, terrestres e marítimos. O outro é decorativo. Simplesmente não acende à noite. Talvez para não dar claridade para aqueles «quartinhos do fundo», do «Pestana Promenade», com balcão para o Passeio do Lido, onde, por vezes, também os hóspedes estendem toalhas de banho do dito hotel, numa inspiração ecológica ou do tipo bairro social.

Não basta dizer que os dois candeeiros foram repostos. Quem, de direito, deve, à noite, passar por lá ou enviar um fiscal, para verificar se aquilo está bem. E não continuar naquela política de atirar areia para os olhos do cidadão interveniente e activo.

Candeeiro do Passeio Público do Lido.

A falta de iluminação poderá pôr em risco a segurança dos que caminham ou passeiam naquela zona. Os assaltos aqui não constituem facto inédito.

Por vezes, encontramos turistas, sobretudo idosos, com as lanternas dos seus telemóveis ligadas, não vá uma irregularidade do piso provocar indesejada queda em tempo de férias. Mas sempre se mostram divertidos com aquela experiência na ilha, no Passeio mais belo desta cidade, que pela noite se cobre parcialmente de breu, episódio que, provavelmente, recordarão e contarão com escancarados sorrisos à família, amigos e conhecidos.

Outro obstáculo, em algumas partes do Passeio do Lido, é o alargamento das esplanadas, quando a clientela é grande. Há sempre lugar para mais mesas e cadeiras, atempadamente aprovisionadas e resguardadas num canto, mas sempre prontas para ampliar o negócio. E quem deseja passear ou fazer a sua habitual caminhada que mude de rumo, «porque ali é do restaurante», grita o assalariado a contento do patrão, mas não inocentemente, pois a sua lógica é a de mais mesas mais gorjetas.

Cadeiras e mesas disponíveis para alargar a área da esplanada.

No Passeio do Lido, há também uma gataria, para gáudio de nacionais e estrangeiros, que, avaliando o grau civilizacional do ilhéu que ali abandonou os seus bichanos, deles se compadecem com mimos e comida. Já foram mais. Hoje, em todo o percurso, são talvez uns quinze. Mas sempre ajudam a afugentar os ratos. Pena é não terem o mesmo efeito sobre as baratas.

Contudo, pior que as pragas urbanas (ratazanas e baratas) são as pragas humanas. Refiro-me a uns vândalos (não germânicos) empenhados na destruição de papeleiras e outro mobiliário urbano, o que acarreta novas despesas. Faz falta o policiamento da zona.

Este Passeio, pelas suas características e potencialidades, deveria merecer da Frente MarFunchal, E. M., Câmara Municipal do Funchal e Junta de Freguesia de São Martinho atenções redobradas, para evitar a sua degradação, por falta de manutenção ou zelo ou, ainda, pela subserviência a interesses particulares.

Funchal Notícias. 12 Setembro 2018

https://funchalnoticias.net/2018/09/12/passeio-do-lido/

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