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Archive for Julho, 2010

Tradição e bom senso

A tradição constitui pilar básico da Cultura. No entanto, se as sociedades evoluem e o relacionamento entre os seus membros também, a tradição não pode ser imutável. Aliás, é impossível preservá-la hermeticamente, para permanecer genuína durante longos anos. O tempo, a criatividade, a economia, as mutações sociais, a tendência natural para imitar, adaptar ou inovar vão transformando, inevitavelmente, os usos e costumes.

Por outro lado, não raras vezes, invoca-se a tradição para justificar eventos, organizações ou exibições que, pela sua frequência, não podem ainda ser reconhecidos como tradicionais. Em algumas ocasiões, confunde-se também tradição com animação.

O gosto pela cultura tradicional não impede a crítica a algumas das suas manifestações ou representações.

Não há festa de padroeiro ou domingo do Senhor sem foguetório. Quase não existe sábado de Verão sem girândola. Quanto mais fogo, mais rija é a festa! E esse dinheiro queimado em segundos ou escassos minutos produz o quê? Poder-se-á sempre contra-argumentar com a manutenção de postos de trabalho na indústria pirotécnica e nos serviços que lhe estão subjacentes. Mas quanto se gasta em fogo nesta Região, nas muitas festas, religiosas e profanas, ao longo do ano?

Numa Região pobre, com dificuldades acrescidas pela aluvião de Fevereiro passado e pela crise económica que nos persegue, sem perspectivas de ser ultrapassada a curto prazo, será legítimo queimar milhares de euros em minutos para festas de santos, do Senhor ou de outros senhores?

Bem sei que o povo gosta de festa. Mas que Igreja é esta que incentiva práticas dessa natureza ou lava as mãos perante a imolação de dinheiro, que poderia beneficiar os mais pobres? Por certo, não é a Igreja de Cristo.

É verdade que, para um pároco, mostra-se difícil alterar mentalidades e comportamentos, principalmente no que diz respeito à organização ou disciplina do lado profano das festas religiosas. Tocar nesses assuntos é comprar guerras, o que desmotiva muitos padres.

A população parece preferir fogo e música em vez da ajuda ao irmão desfavorecido. Contudo, a evangelização também passa pela transformação de hábitos que, se noutro tempo, serviam para anunciar momentos de diversão e de convívio social, hoje não têm justificação.

Meu avô ensinou-me que os foguetes eram importantes para dar a conhecer uma festa às outras freguesias. Actualmente, quase ninguém depende de uma girândola para saber de um arraial.

Mesmo que o dinheiro gasto em material pirotécnico resulte da recolha de fundos ou da contribuição de festeiros e mordomos, nada justifica, nos nossos dias, que seja assim abrasado para gáudio de gente pouco sensível aos problemas sociais, mesmo os mais próximos, e que se diverte com o estouro dos foguetes.

Mais condenável será ainda quando provém dos contribuintes e foi, para esse fim inútil, concedido pela Junta de Freguesia ou a Câmara Municipal. Os dinheiros públicos devem ser para o bem comum e não para foguetes.

Segundo um artigo da revista Sábado do passado dia 27 de Maio, sobre os gastos do Estado, as festas desde 2008, na sua maioria promovidas pelas autarquias, custaram mais de 4,32 milhões de euros. Este valor refere-se somente a ajustes directos, não estando abrangidas, portanto, contratações por concurso público.

Num país pobre, ou de mendigos, como lhe chama Medina Carreira, esbanjar milhões de euros em festas e outros gastos supérfluos, para depois cortar a eito nas prestações sociais, saúde, ciência, educação ou cultura é um escândalo. É isso que desacredita a política e desmotiva os portugueses na recuperação do País. De igual modo, o dinheiro queimado em foguetes nos arraiais desabona as festas do calendário católico.

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Julho de 2010

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