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Archive for Abril, 2010

 

 
 
 

   

 

  

 
 
 
 

 
 
 
 
Quatro poemas
de Joaquim Pestana (Câmara de Lobos, 1840 – Funchal, 1909)

   

  

   

   

   

   

   

   

♦ MINHA MÃE
(Numa doença)  

Quisera a vida mais longa
se mais longa Deus ma dera,
porque é linda a Primavera,
porque é doce este arrebol.
Casimiro de Abreu  

Minha mãe: eu sinto a vida
a fugir-me como um ai,
que esta fronte enlanguescida
sobre o peito me descai!  

Minha mãe: eu sinto o pranto
a correr na face minha!…
Oh! deixai que o doce canto
vá dizer-te a dor que tinha!…  

Minha mãe: o mundo esconde
negro luto, a ingratidão!…
Onde achar carinho, aonde,
que me alente o coração?  

Minha mãe: só tu me dizes:
– «Filho, ai! filho, o seio teu
«tem a dor dos infelizes,
«diz que alguém te perdeu!»  

Minha mãe: o doce brilho
que minha alma fascinou…
fez-me errar o mago trilho
deu-me a dor que me finou!  

Minha mãe: deixa que penda
minha fronte ao seio teu;
dá-me a luz na triste senda,
dá-me alento ao peito meu!  

♦ A MULHER DO PESCADOR
(Canção)  

Em céus e mares escuros
luz sempre a estrela da fé.
T. Ribeiro – Indiana  

Dorme, filho sossegado,
que teu pai não tarda, vem;
vejo o mar encapelado,
a bramir na praia, além!  

Dorme, dorme! que sorriso
tu m’imprimes no dormir!
aí bem pode o paraíso
te mostrar um só fruir.  

Quem me dera, inocentinho,
ver do céu a tua luz,
embalado aqui, sozinho,
sem gozar do mundo a cruz!  

Sem sentir, meu Deus, a vida
que, tão triste, me foi dada;
ver-me quase sem guarida,
sem amor, sem luz, sem nada!
……………………………
……………………………
Dorme, filho, sossegado,
que teu pai não tarda, vem;
vejo o mar encapelado,
a bramir na praia, além!  

♦ DESALENTO
(Num álbum)  

Vem, senhora, medir nos sons de luto
minhas vozes de amor e sofrimento:
– «Vou da morte pagar o meu tributo,
porque é fundo e cruel o meu tormento!…  

Tu, formosa, cresceste, és sempre bela,
tens sorrisos de amor de quem te afaga;
vai seguindo esse bem na doce estrela…
eu, da vida no mar, de vaga em vaga!…  

Vê que fundo pesar! Num raio d’ouro
vem-te o mago sorrir de amor, esp’rança;
eu só vejo perdido o meu tesouro
num destino cruel sem ter bonança!…  

Vai seguindo esse bem, gentil senhora,
que o porvir é de luz e f’licidade!…
Só minha alma fenece e treme e chora,
porque vê que lhe foge a mocidade!»  

♦ SAUDADES
(Numa doença)  

Silêncio! deixa
Ao coração do triste o seu segredo.
Garrett – Camões  

Quem me dera sonhar meus sonhos ledos,
de gratas impressões;
sentir a doce voz dos meus segredos…
das magas ilusões!…  

Era bela a visão da mocidade,
das graças juvenis!…
Oh! sol, que vais subindo à imensidade,
dizei porque subis?  

É que foge comigo a doce vida
nos ais de ingente dor;
é que sinto na fronte enlanguescida
da morte o frio horror!  

Bem cedo vi fugir da minha aurora
a paz dessa harmonia!…
Ninguém me disse: – «vai pensando, chora,
que é certo o novo dia!…»  

Depois… eu vi morrer meus sonhos d’ouro
ao sol da juventude!…
Perdi a doce luz do meu tesouro
no bem dessa virtude!…  

In Joaquim Pestana, Poesias, Câmara de Lobos, Câmara Municipal de Câmara de Lobos, 2010,  (compilação, prefácio e organização de Nelson Veríssimo). ISBN 978-989-96733-0-4. 

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Ressurreição. Painel do retábulo da capela-mor da Sé de Viseu. Escola Flamenga, inícios do século XVI

Ressurreição. Painel do retábulo da capela-mor da Sé de Viseu. Escola Flamenga, inícios do século XVI

À morte na cruz seguiu-se a Ressurreição. Para os cristãos, Páscoa é o tempo da Redenção: a Nova Aliança.

Cada vez menos se celebra a Páscoa cristã. Não me refiro às cerimónias tradicionais da época, mas ao interiorizar da paixão, morte e ressurreição e à correspondente vivência religiosa, no seu pleno sentido.

A abundante informação e a vasta oferta cultural ou de entretenimento proporcionam motivações diversas e ditam escolhas, mais ou menos reflectidas.

Muitas pessoas deixaram de frequentar a Igreja. Seria proveitoso interrogar-se por que razão se afastaram, em vez de censurar os que lá não vão.

No passado, a Igreja detinha mecanismos repressivos que manietavam crentes e não crentes. Com a progressiva implantação da democracia, perdeu o poder autocrático. Já não pode regular o quotidiano com ameaças e penas. Homens e mulheres, na sua maioria, já não vivem obcecados com a vingança divina e o pecado.

Parte da Igreja compreendeu as mutações políticas e sociais e assumiu os mais genuínos princípios da Boa Nova. Contudo, outra facção, talvez a mais poderosa, persiste nas malhas da tradição e na continuidade de práticas institucionais bem distantes dos valores do seu fundador e da realidade, como se tivesse o poder de parar o tempo e de recriar os privilégios do passado autoritário.

Dois casos neste tempo pascal merecem reflexão.

Face à divulgação nos media de práticas pedófilas em seminários, escolas e paróquias, esperava-se da hierarquia e dos pastores da Igreja Católica o repúdio desse crime, a colaboração com a Justiça nas averiguações e nos julgamentos e uma grande solidariedade com as vítimas e os seus familiares.

Verifica-se, no entanto, por parte de alguns clérigos, a tentativa de correr uma cortina de fumo sobre os acontecimentos, não os reputando como crimes, ou, então, insinuando serem campanhas contra a Igreja, orquestradas por grupos organizados. Outros preferem não falar no assunto, como se o problema não existisse ou não lhes dissesse respeito. Infelizmente, não percebem que esse silêncio é aterrador. Anda mais rápido do que o som. Inquieta e revolta. Na verdade, abala os cristãos.

Estas práticas, no seio da Igreja, não são de agora. Nos arquivos do Tribunal do Santo Ofício, abundam processos a sacerdotes católicos acusados de sodomia com «moços». Nessa altura, a preocupação dos inquisidores resumia-se ao desperdício do sémen, ordenado, pela Natureza, para a reprodução, consoante a doutrina da Igreja. Também, naquela época, não se foi ao fundo da questão.

O outro caso diz respeito à Paróquia da Ribeira Seca, em Machico. Ainda não é dada como certa a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima à igreja do Padre Martins.

Tal como o Ângelo Paulos (Carta do Leitor, 01-04-2010), também deploro o obscurantismo que envolve certo culto mariano, mas anima-me a mensagem do Magnificat.

A questão poderá ser embrulhada com todas as normas possíveis do Direito Canónico, tidas até, ingenuamente, como «remédio», nomenclatura herdada da «Santa Inquisição». Quanto a mim, na Igreja de Cristo a lei deveria ser outra – a do Mestre. Se apregoa o perdão, então tem de saber perdoar.

Ostracizar uma comunidade cristã e o seu pastor é uma aberração.

Estes e outros maus exemplos perturbam os crentes, porque, hoje, a maioria dos fiéis sabe ler, escrever e pensar. Dispõe de muita informação. Já não depende somente da palavra dominical do padre.

A Páscoa tem também de chegar à Igreja e não somente ser, por ela, proclamada.

 

Diário de Notícias, Funchal, 4 de Abril de 2010

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