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Archive for Abril, 2008

O ministro dos Assuntos Parlamentares e o secretário de Estado da Educação foram vaiados em Chaves, a 7 de Março, por mais de uma centena de professores, à entrada de um plenário de militantes socialistas.

 

Visivelmente irritado, o ministro afirmou: “Estes insultos e gritos atrás de mim são insultos à democracia”. Acusou ainda os manifestantes de “nem sequer saberem distinguir entre Salazar e os democratas” e de nem terem “lutado contra o fascismo”. E acrescentou: “A liberdade é algo que o País deve a Mário Soares, a Salgado Zenha, a Manuel Alegre… Não deve a Álvaro Cunhal nem a Mário Nogueira”.

 

Foram, em devido tempo, amplamente comentadas estas palavras. Mas há um pormenor do agastamento de Augusto Santos Silva que passou à margem. Servirá, pois, de prelúdio ao tema de hoje.

 

Muitas vezes, interpreta-se um acontecimento histórico numa única perspectiva, ou, pior, com frequência, falta a perspectiva para o entender.

 

Para Santos Silva, vingou a liberdade, depois da Revolução de Abril, devido aos socialistas. Ninguém nega que Soares, Zenha ou Alegre pugnaram pela instauração de um regime democrático. Todavia, a democracia não triunfou somente devido à sua acção. Há um contexto mais amplo a ter em consideração. Entre outros domínios, importa compreender o papel da Igreja Católica e dos seus movimentos mais esclarecidos, analisar os sentimentos da população, valorizar a actuação de muitos democratas não socialistas, com relevo para distintos social-democratas e alguns militares, reconhecer o contributo de rua dos destemidos militantes do MRPP e de outros grupos de extrema-esquerda que combatiam ferozmente o PCP revisionista, entender as movimentações de instituições internacionais, quer no campo político quer no económico, conhecer os meandros diplomáticos.

 

Convém, em suma, não reduzir a explicação de um acontecimento ao protagonismo de duas ou três personagens e, sobretudo, não se contentar com uma visão simplista e sectária. Para explicar um facto histórico, há quase sempre necessidade de recorrer a vários factores.

 

Na História de Portugal, abundam exemplos de interpretações facciosas. Explicar a expansão portuguesa, exclusivamente, pela dilatação da fé cristã ou por razões económicas já não é aceitável. Até o cronista Gomes Eanes de Zurara, na sua Crónica de Guiné, por meados do século XV, não enveredou por esse caminho.

 

Chegado a Calecut em 1498, Vasco da Gama desembarcou um degredado para indagar da receptividade que os portugueses poderiam ali ter. Segundo Álvaro Velho, esse degredado encontrou dois mouros de Tunes, conhecedores da língua castelhana, que logo lhe perguntaram sobre o que vinham buscar os navegadores portugueses naquela terra tão distante. “Vimos buscar cristãos e especiarias” – respondeu, de imediato, o degredado. Esta frase exprime, de forma simples, os objectivos dos portugueses, e não reduz a célebre expedição a um só fim.

 

Quando Alvin Toffler, em A Terceira Vaga, fazendo uma leitura muito superficial da História, reduz a promoção generalizada da instrução pública no século XIX a uma “educação em massa” estruturada segundo o modelo da fábrica, para concluir que “as escolas da Segunda Vaga transformaram geração após geração de jovens numa força de trabalho dúctil e arregimentada do tipo exigido pela tecnologia electromecânica e pela linha de montagem» (1984: 33-34), é claro que, no seu jeito de guru, se serviu abusivamente da História para propagar uma ideia preconcebida, mas sem fundamentação credível.

 

Uma análise criteriosa das transformações que se vinham operando na educação, principalmente, com os contributos do luteranismo, do empirismo renascentista, de José de Calasanz, de Jean-Baptiste de La Salle, de Comenius, dos iluministas e dos utilitaristas Jeremy Bentham e James Mill, mostra-nos outra realidade da “escola de massas” que, ao contrário do que afirmou Toffler, não cuidava somente da “preparação de jovens para desempenharem papéis na sociedade industrial”.

 

A História não se faz de lugares-comuns nem de ideias preconcebidas. É necessário investigar, recolher documentação e, principalmente, saber interrogá-la. Esse é o ofício do historiador. Ademais, convém nunca esquecer as palavras lúcidas de Lucien Febvre, quando acentuou, em Combates pela História, que o objecto da nossa disciplina “não é um fragmento do real, um dos aspectos isolados da actividade humana – mas o próprio homem, entendido no seio dos grupos de que faz parte” (1977, I: 41).

 

Diário de Notícias, Funchal, 6 de Abril de 2008

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